Segundo Raid Lucena-Pipa

O litoral do Nordeste é cheio de atrativos e uma das formas mais interessantes de conhecer tais atrações é fazendo turismo de aventura com motocicleta. Ir de moto a lugares que de outra forma ficariam mais difíceis de chegar.

O Raid Lucena-Pipa é isso. Uma aventura partindo da cidade de Lucena, do outro lado do rio no Pontal de Cabedelo, e seguindo até a praia de Pipa no Rio Grande do Norte.

O grupo dos Tatus Manguetown já tinha feito esse passeio com cerca de 10 motos entre membros e convidados. Todos eram experientes pilotos de off-road e depois de uma noite de farra na casa de Homero em Cabedelo saímos de manhã e chegamos as 15hs em Pipa. Isso foi em setembro de 2016.

Agora em fevereiro de 2018 a missão é levar alguns Amigos Coxinhas.

Convites feitos e entre aceites e desculpas amareladas para não ir o grupo formado ficou com Eu e Lara (F800gs), Eloy e Gabriela(F800gs), Demetrius (Ténéré 250), Laplace(F800gsADV), Rodolfo (F800gs) e Luciano de João Pessoa (F800gs, irmã gêmea da Mítica Black Mamba).

O clima estava  bem chuvoso. Nos últimos dias tinha chovido bastante e a previsão para o fim de semana era de mais chuva. A ideia era partir de Lucena na manhã do Sábado e seguir para Pipa e chegar lá pelas 16hs. O ponto de encontro é a balsa de Cabedelo-Lucena. Luciano que mora em João Pessoa e eu (que vim para Jampa na noite anterior) nos encontraríamos com o resto do grupo que veio de Recife logo cedo.

Apesar da chuva as perspectivas para a trilha eram boas. O percurso é praticamente todo plano e o solo dessa região é muito arenoso. Devemos pegar algumas poças de água mas não vai rolar muita lama pois simplesmente não tem. O solo dessa região é normalmente areia e de vez em quando um barrinho misturado. Areia de praia molhada é até melhor.

Pegamos a balsa as 9hs e começamos a aventura.

Desembarcamos da balsa e Demetrius seguiu liderando a trupe. Fomos em seguida para a Igreja da Guia para tirar as tradicionais fotos. O chão estava bem molhado e sem maiores dificuldades.

 

Abbey Road style. Não percebi mas essa marcha seguia em direção ao cemitério 🙂

Confissões feitas, promessas de se comportar e seguimos em direção as Ruínas de Bonsucesso.

Nessa foto dá para perceber que o tempo estava muito nublado e com chuva intermitente. A trilha promete aventuras.

Ruínas de Bonsucesso ficam numa trilha muito bonita por entre uma floresta em terreno de areia. Muitas poças dágua mas nada de lama ainda.

Nesse trecho já deu para perceber que alguns colegas estabeleceriam alguns latifúndios a partir de compra de terreno. Ou seja, quedas e tombos em profusão. Nada sério mesmo porque a velocidade era muito baixa. Começa o desgaste de energia para levantar as motos F800gs adv repetidas vezes.

Depois das Ruínas, temos que ir a Falésia que dá uma vista magnífica da foz do Rio Miriri, lá embaixo.

Pegamos a trilha novamente agora em direção a Rio Tinto. O rio Mamanguape tem em sua foz uma área de preservação reservada para berçários de bebês de peixe-boi marinho. Não tem ponte sobre o rio a não ser bem no interior próximo a Rio Tinto. Barcos a motor não podem navegar na barra do rio portanto não tem balsa nem jeito seguro de cruzar o rio no litoral para a próxima praia que é Baía da Traição. O jeito é desviar a trilha para o interior, ir a Rio Tinto e pegar um trecho de asfalto (ECA!) até a praia e retomar a trilha então.

Fizemos isso debaixo de chuva fina e constante. Pegamos a trilha novamente ao norte da cidadezinha de Baía de Traição. Essa trilha, a rigor, é a PB-008 que ao norte de Cabedelo existe apenas como uma estradinha de terra que em alguns lugares não passa de uma trilha mesmo.

Chegamos então em Barra de Camaratuba para a segunda travessia de balsa do percurso. O mar estava muito seco porém já estava enchendo. A balsa não estava no local de partida e tivemos que avançar sobre o areial do leito do rio até bem próximo da barra.

Duas motos atolaram, a de Eloy e a de Laplace. Voltei a pé para ajudar e acabei trazendo a moto de Laplace para a balsa. Sem capacete! Que coisa feia!!!

A trilha até então estava tranquila e só com pequenos sustos (escorregadas) e tombos com as motos paradas. Nada demais.

Na minha inocência, o trecho mais fácil viria a seguir. A praia plana com maré baixa entre Barra de Camaratuba e Barra de Guaju. O trecho tem cerca de 12 km de areia de praia só que a maré estava enchendo … aí a areia molhada vira areia movediça.

trecho camaratuba guagu

Eu estava com garupa e apesar da areia estar meio fofa, percebi que o melhor a fazer é acelerar para não pegar o trecho entre Guaju e Sagi (o pior de todo o raid) com a maré muito alta. Acelerei com Lara na garupa imaginando que os amigos não teriam mais dificuldades pois a praia plana, areia dura … me enganei.

Cheguei a balsa de Guaju sem dificuldades e esperei pelos amigos. Nada.

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Começaram a demorar mais do que seria razoável. Alguém levou alguma queda ou atolou e eu simplesmente não conseguia conceber como. Praia lisa ? Como pode ter dado problema. Mal sabia. Na balsa uma Titan 150 de um nativo seguia em sentido contrário. Pedi para ele avisar aos amigos que estava tudo bem comigo e que eu os aguardava do outro lado do rio. Saberia depois que o emissário alcançou Eloy e deu o recado.

Atravessei o rio e me dirigi a praia com Lara na Garupa. A maré já estava enchendo muito. A areia estava realmente muito fofa e na primeira tentativa a moto saiu derrapando de um lado para outro e a cerca de 30km/h deu uma enterrada total. A frente da moto ficou completamente coberta de areia. Sem condições de fazer o trecho até Sagi com garupa.  A maré já estava enchendo para valer e a janela de tempo ficou muito estreita. A praia ficaria alagada com a maré alta. O jeito é seguir em frente pois não há saída de Barra de Guaju a não ser pela praia e por uma estrada de areia aos pés das dunas.

Enquanto desatolava a minha moto vi que Luciano havia chegado a balsa. Pedi a Lara ir lá falar com ele para saber o que aconteceu. Luciano assegurou que estava tudo bem e  sob controle.  Desenterrei a moto e consegui levantá-la. Lara voltou bem na hora em que eu dei partida. Ela foi de buggy até Sagi. Mandei ver na areia fofa. Depois que a moto atinge uns 30km/h ela não atola mais porém fica sambando na areia. Tem que acelerar até uns 40km/h no mínimo para estabilizar. O trecho entre Barra de Guaju e a vila de Sagi tem uns 2,5km de muita areia. Cheguei em Sagi e em direção ao calçamento, a 10cm da rua de paralelepípedo .. levei uma queda. Sem maiores consequencias mas deu uma raiva enorme. Levantei a moto e estacionei-a próxima a calçada. De repente meu celular dá um alerta de mensagem. Era uma mensagem de Laplace -> “HELP!”.

Caramba, a mensagem havia sido enviada quase uma hora atras, antes de Luciano nos encontrar. Lara chega alguns minutos depois no buggy. Vamos esperar um pouco .. que vira mais tempo .. mais tempo e nada dos companheiros chegarem. Deu alguma zica.

Dois guris estavam queimando gasolina em dois UTV’s da Polaris, passando pra lá e pra cá sem muita coisa a fazer. Cheguei para eles e pedi ajuda. Tenho alguns amigos que devem estar precisando de ajuda entre Camaratuba e Sagi. Eles toparam ajudar, subi no Polaris e voltei em direção a Barra de Guaju para ajudar os amigos.

No meio do caminho encontrei Rodolfo, Eloy,  Luciano e Laplace. Cadê Demetrius ? Aí comecei a receber a conta-gotas os relatos do que acontecera aos companheiros.

Demetrius havia levado um tombo espetacular quando voltou para salvar Laplace. A moto entrou na água do mar, a viseira, o capacete e a go pro se soltaram e cairam na água. O relato impressiona:

Esse vídeo foi gravado um pouco antes de eu reencontrar os amigos. Eles estão na barraquinha de Barra de Guaju. Nesse momento eu já estava com Lara em Sagi, 2,5km adiante.  O interruptor do motor de arranque da moto de Demetrius ficou acionado o tempo todo com o motor de arranque ligado. Demetrius muito safo já resolveu depois de recolocar a moto em ordem de marcha (guidao empenado, paralama travado, gopro resgatada).

Decidi mandar Gabriela, a garupa de Eloy, e Laplace nos Polaris. Peguei a moto de Laplace e a trouxe pela estradinha nos pés das Dunas. A praia já estava alagada pela maré. Cheguei em Sagi sem incidentes. Minutos depois chegaram os Polaris e seus passageiros e pouco depois o restante do grupo.

resgate polaris

Fomos para uma oficina de motos em Sagi onde pneus foram recalibrados e o guidão da moto de Demetrius foi parcialmente desempenado. Chovia firme e constante uma chuva honesta. Lavamos as motos e tiramos umas 10 toneladas de areia das motos e dos pilotos.

Com a chuva intensa e o adiantado da hora, já eram quase 17hs, não ia dar para continuar na trilha até Pipa. O jeito era voltar para a BR-101. Eu, Lara, Eloy e Gabriela iríamos para Pipa. Laplace, Luciano, Demetrius e Rodolfo voltariam para João Pessoa e Recife.

Aí começou a chover. Muuuuuito. Chuva diluvial de proporções bíblicas. O céu escureceu definitivamente pouco depois das 16:30. A estrada entre Sagi e a BR-101 é de barro batido e cheia de pequenos buracos. Super molhada e escorregadia. Eu e Eloy encaramos só que eu mantive um ritmo mais forte porque não queria ter que rodar nessa estrada em péssimas condições e ainda por cima a noite com o farol alto queimado. Sim, descobri isso na noite anterior e fiquei tranquilo pois não imaginava que teria que rodar a noite considerando que partimos de Lucena as 9hs da manhã.

Rodar numa estrada de terra que você não conhece, com garupa, sob chuva torrencial e com a noite se aproximando não é uma experiência legal. Felizmente chegamos a BR 101 sem incidentes as 16:54 mas. Aí … a chuva que eu pensava que já tava no máximo começou a virar uma tempestade. Encharcado até os ossos, encaramos a BR-101 que é um tapete até Goianinha onde parei para abastecer. Eloy estava num ritmo mais lento e isso me preocupava. Já era noite fechada, a chuva não aliviava e a estrada de Goianinha para Pipa é muito sinuosa, cheia de lombadas e alguns buracos. Não estava afim de encarar essa estrada por muito tempo a noite escura. Como é uma estrada muito movimentada e cheia de vilas, mesmo que furasse um pneu não é difícil de obter ajuda. Decidi acelerar e seguir direto para Pipa chegando na Pousada Aconhego da Pipa as 17:47. Minutos depois, Eloy me avisa que tinham chegado sãos e salvos na Pousada Alemã.

Demetrius, Laplace, Rodolfo e Luciano vão um pouco atras, e pegam a BR-101 enfrentando muita chuva. Algumas horas depois, Luciano avisa que já estava são e salvo em casa em João Pessoa. Laplace, Dema e Rodolfo continuaram para Recife a noite e na chuva torrencial.

O raid não foi completo pois não fizemos o trecho entre Sagi e Baía Formosa, quando voltaríamos a praia e seguiríamos até Barra de Cunhaú, depois Sibaúma e a estradinha que vai dali até o “Chapadão” de Pipa. Não havia condições. Muito escuro, muita chuva e a maré alta iria impedir o passeio na praia entre Baía Formosa e Barra de Cunháu, onde pegaríamos outra balsa.

No fim, o passeio que deveria ter sido super tranquilo virou uma aventura com ares dramáticos e que para alguns era quase um pesadelo. Mesmo assim valeu a pena. Amizades se consolidaram e o valor da solidariedade em momentos de angústia foi devidamente apreciado pelos aventureiros.

Apesar do saldo positivo, existiram alguns erros. O maior foi ter subestimado a maré em Barra de Camaratuba.

Primeiro eu li a hora da maré erradamente.  A maré estava completamente seca as 11:23 pois o horário do site que eu vi era de Brasília, que no sábado ainda estava no horário de verão e dizia 12:23 … Ora, quando entramos na praia em Barra de Camaratuba já eram 13:26, portanto, a maré já estava enchendo há 2 horas. Esse ponto tem que ser atingido com a  maré ainda secando por pelo menos mais 2 horas que é para dar tempo de chegar a Sagi sem maiores complicações e ainda com sobra de tempo para pegar a praia entre Baia Formosa e Barra de Cunhaú, sem estresse. Em suma, estávamos 4 horas atrasados. Desse atraso, uma hora foi por erro de horário de verão. As outras 3 horas foram erro meu de não ter dimensionado bem o tempo entre Lucena e Camaratuba.

Entre Camaratuba e Guaju, eu e Lara fizemos de moto em 17 minutos. Isso porque no meio do caminho eu notei que os amigos haviam se atrasado e cheguei a voltar para ver o que estava acontecendo. Depois que vi que todos estavam na praia e rodando (a distancia), retomei o rumo em direção a Guaju e acelerei. Segundo o meu tracklog, foram 4 minutos de turn-around. Ou seja, o trecho entre Camaratuba e Guaju pode ser feito em 13 minutos, com garupa.

O ponto chave desse roteiro é a Barra de Camaratuba. Se a maré não estiver secando quando chegar e esse ponto, é melhor desviar para a trilha por dentro dos canaviais (que eu não conheço).

Entre Guaju e Sagi fica o trecho mais dificil. A praia é estreita e tem pedras encravadas na beira da praia. Tem que ter muito cuidado. A areia é muito grossa e fofa e a alternativa é a estradinha no sopé das dunas. Eu não conheço essa estradinha. Ela é muito usada por 4×4 que visitam essa região. Com a chuva, a estradinha estava razoavelmente fácil. Só que eu não sabia. O jeito foi ir pela praia mesmo. Porém, para os amigos seria tarde demais. A maré alagaria a praia toda. O ponto que quero demonstrar é que Guaju para Sagi talvez seja melhor pela estradinha, afinal de contas.

Eu e Lara ficamos na pousada esperando a chuva passar para irmos jantar com Eloy e Gabriela. Só que a chuva que já estava alagando a vila de Pipa engrossou ainda mais. Comemos um jantar por ali mesmo apesar dos convites insistentes de Eloy para jantarmos juntos. Só que estávamos relativamente longe para ir a pé na chuva. Mesmo assim, deu uma estiada e corremos para a Sorveteria Preciosa. Eloy/Gabriela ainda estavam jantando e decidimos nos encontrar na hora do almoço do domingo, faça chuva ou sol. Sim, a previsão de tempo era que ia chover para caramba no domingo.

Felizmente amanheceu um belo dia ensolarado. Formos para a praia, tomamos uma água de coco com Eloy/Gabriela e voltamos para a Pousada Aconchego da Pipa, empacotamos as coisas e pegamos a estrada de volta para Recife. Pequena pausa para calibrar os pneus em Goianinha, onde Lara fez um lanchinho e eu comi uma coxinha (canibalismo) e tomei um café para ficar esperto. Eram 13:15 da tarde quando pegamos a BR-101 pra valer sentido sul para irmos para Recife. Dia ensolarado, viagem sem maiores incidentes. Paramos no Rei das Coxinhas 2 horas depois. Mais canibalismo e 3 coxinhas de camarão com catupiry para nossas filhas que nos aguardavam em Recife. O tempo já não estava mais tão ensolarado e lá longe dava para ver que as nuvens carregadas ameaçam dar outro banho na gente. Passei com cuidado na curva depois da fronteira PB/PE um pouco antes de Goiana onde eu imaginava que tinha sido a queda de Laplace. Eu só viria a saber com certeza o local da queda na segunda-feira de manhã. Realmente o local é perigoso, uma curva numa descida com algumas ondulações na pista, piche e resto de cana-de-açucar esmagada. Deve ficar um sabão. Isso a noite então é um acidente esperando acontecer.

Chegamos em casa as 16:20 felizes por mais uma aventura.

Minha esposa Lara foi magnífica. Com espírito de aventura, não reclamou uma vez sequer do frio, calor, umidade, areia, sal, lama, buraqueira, fome, sede, medo de cair ou qualquer coisa que fosse. Sempre encarou na boa e com excelente humor. Ficou um bocado preocupada com os amigos que se atrasaram e no fim ficou aliviada porque não houve nada sério, apenas os perrengues típicos de uma aventura de trilha light do Bokomoko.

Segue o tracklog do passeio

https://www.wikiloc.com/wikiloc/spatialArtifacts.do?event=view&id=22752779&measures=off&title=off&near=off&images=off&maptype=SPowered by Wikiloc

 

 

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Tatus na Chapada – Dia 9

Este seria o segundo e último dia de turismo na Chapada Diamantina. Uma pena porque passamos pouco tempo e vimos apenas uma fração do que poderia ser visto. A Chapada pede mais do turista. Pede mais tempo. Pede mais voltas. Eu voltarei.

Hoje a ideia de Tio Saulo é fazer nada radical, coisa light, para que acumulemos forças para encarar a volta de mais de 1000km amanhã. Portanto, o planejamento caprichado de Tio Saulo propõe uma visita a Lapa Doce (caverna), a Pratinha (rio com flutuação e relax na água) e a Subida do Pai Inácio (visão panorâmica e belas fotos).

Antes de pegarmos a estrada eu faço um tour novamente pelos locais onde perdi a Bandeira Azul. Tudo em vão. Nada da Bandeira. Espalho a notícia de que há uma recompensa para quem deixar a bandeira no posto de gasolina.

Pegamos a estrada em direção a Lapa Doce, seguindo oeste pela BR-242 e depois ao norte pela BA-122. Tio Saulo como sempre vai guiando. Dia de sol, poucas nuvens, ritmo rápido.

Na beira da estrada a esquerda um painel informa sobre as cavernas de Torrinha e Tio Saulo pergunta se num vale darmos uma olhada, afinal, estamos por aqui e nossos outros destinos (Lapa Doce, Pratinha e Pai Inácio) são próximos. Para mim é jogo e fazemos o desvio que iria mudar completamente os planos.

Chegamos a entrada da atração que se trata de nada mais nada menos que uma das maiores cavernas visitáveis do Brasil e da américa latina. O Eduardo, administrador do lugar, nos oferece um tour especial só para nós dois que incluiria um trecho da caverna que não é visitado normalmente. Ainda dá um desconto no ingresso e nós topamos. Vai começar uma das maiores aventuras da viagem. Tatus espeleólogos em ação. Tio Saulo tira a fantasia de motociclista, veste uma camiseta, bermuda e calça tênis. Como eu não trouxe tênis decido encarar a trilha com a bota Forma Terra Adventure. Ficaria ridículo eu de botas e sunga com dryfit, portanto vou com a calça de off-road mesmo. Decisão acertadíssima. A bota FTA é excelente como bota de aventura, confortável e resistente oferece a segurança e o grip de uma bota de cano baixo dessas de hikers. Com a vantagem de proteger bem a canela, coisa que seria muito útil lá dentro da caverna.

A caverna tem um clima surpreendentemente ameno, com temperatura de 24 graus constantes enquanto lá fora o calor já aparece e ultrapassa os 33 graus. Faríamos uma caminhada de cerca de 10km (contando ida e volta) em cerca de 2 horas. Mesmo com o ar condicionado, o exercício me faria suar bastante. Levamos meio litro de água cada um. Levar mais seria bom mas tem o risco de dar vontade de fazer xixi e lá dentro não pode de jeito nenhum.

Entramos por um salão enorme que já impressionava os pesquisadores até que em 1992 uma espeleóloga francesa achou uma passagem para outra parte da caverna que se descobriu então ser muito maior. Essa passagem original seria utilizada por nós na saída. Entramos por outra passagem artificial escavada para facilitar o acesso. Quer dizer, em termos.

O guia experiente, Toninho, nos explicava os vários espeleotemas. Essa caverna é considerada uma das mais interessantes não pelo tamanho em si mas sim pela variedade e quantidade de espeleotemas. As rosas de Aragonita são muito frequentes e algumas das maiores estão aqui. Formações como estalactites, estalagmites, vulcões de pedra, painéis nos tetos, cristais de gipsita, em tudo quanto é cor, tamanho e sabor.

A caminhada não é fácil. Entre tetos baixos que nos forçam a andar agachados até escaladas de pedras dentro dos salões, descidas e subidas íngremes. As lanternas fornecidas para nós são pequenas e fracas. Senti falta de um farolzão para iluminar tudo e ter uma visão mais panorâmica. As imagens com flash revelam mais coisas do que pudemos ver com as lanterninhas, que de tão fraquinhas coitadinhas, a gente tem que ligar outra lanterna ao lado para ver se estão acesas.

Algumas formações são muito interessantes e são translúcidas.

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Uma delas parece o castelo de Minas Tirth, da saga do Senhor dos Anéis.

Um trecho da exploração é particularmente difícil pois temos que nos arrastar sob um teto muito baixo, de uns 70cm de altura por uns 10 metros. Isso me deixa exausto.

Alcançamos os dois salões principais e o extra e tiramos dezenas de fotos impressionantes. No ponto mais remoto, o guia propõe que desliguemos as lanternas e façamos silêncio para ter uma experiência de privação sensorial. Sempre quis fazer uma dessas e foi legal. Mas a privação não era total. Ainda estava sentindo o peso do corpo sentado no chão. Mais tarde faria uma privação sensorial mais completa.

Hora de voltar, agora a caminhada volta pelo mesmo caminho que viemos, sem pausas para fotografia e com passo acelerado. Toninho e Tio Saulo vão abrindo vantagem e eu estou genuinamente cansado. Ainda tenho que encarar a passagem baixa lá na frente. Fico calado e falo nada durante o percurso. Próximo a saída decidimos usar a passagem que a pesquisadora francesa descobriu e a escalada para fora da caverna fica deveras interessante.

Ao sair da caverna o choque térmico é enorme. Dos amenos 24 graus partimos para 34 graus numa lufada de vento só. Tomamos água, usamos o banheiro. Tio Saulo quer ir para a Lapa Doce e eu veto. Pode ir. Eu não vou. Mais do mesmo não é uma boa ideia. Melhor fazermos algo diferente como a Pratinha e até mesmo o Pai Inácio e se sobrar tempo vamos a Lapa Doce. Tio Saulo então decide ir para a Pratinha e lá vamos nós.

Chegamos a Pratinha para visitar o rio, fazer a flutuação dentro da caverna e conhecer a Gruta Azul. Nesta última não poderemos mergulhar, só observar. A Gruta Azul se conecta ao Rio Pratinha através de uma caverna subterrânea com cerca de 80 metros de comprimento a 13 metros de profundidade. Essa caverna alagada não pode ser mergulhada por visitantes, apenas exploradores experientes.

A má notícia é que a entrada para a Gruta Azul fica a 200 metros da recepção e tem que subir e descer um morro bem íngreme. A foto dá uma noção do esforço. Eu estava esgotado e vou bem devagar. A gruta é interessante e tem que ser visitada logo pois daqui a pouco o sol estará tão baixo que os raios de sol não incidirão sobre a água da gruta causando o efeito “azul” que dá nome a atração. Tudo é muito bonito mas um tanto boring. Volto para a Pratinha. O que eu quero é a flutuação.

Descemos para a beira do rio e entrada da caverna, tiro a fantasia de motociclista e visto o equipamento de mergulho em apneia. Um guia nos leva para dentro da caverna e é como se tivéssemos voltado a um dos salões da Gruta da Torrinha, só que agora flutuando sobre o piso da caverna. Experiência muito legal.

Na parte iluminada da caverna a fauna e a flora é bem exuberante. Plantas aquáticas, algas, peixes de vários formatos e tamanhos. Até uma pequena tartaruga. A água é límpida e cristalina como nas piscinas naturais mais claras do litoral de Pernambuco, onde mergulhei milhares de vezes. A medida que nos afastamos da entrada da caverna a paisagem fica árida e estéril e só o chão e formações geológicas grandes. Nada de estalactite ou estalagmite ou coisa parecida. A água não permite tais formações.

A temperatura fria da água e o movimento lento são muito relaxantes e eu vou-me recuperando rapidamente. Quando chegamos a parte mais funda da caverna a água chega a 13 metros de profundidade, segundo o guia. Pergunto se posso dar uma mergulhadinha sem o colete e ele diz que não é permitido. Em compensação ele diz que dá para fazer a experiência de privação sensorial, pede para nós 3 apagarmos as luzes das lanternas e passarmos um tempo imóveis na piscina dentro da caverna. Escuridão total, silêncio total, ausência de peso. Agora sim. A sensação é muuuito legal. Pena que nós éramos o último grupo e o guia estava com pressa para ir embora. Ficamos pouco tempo e não deu para ter os efeitos alucinógenos que a privação sensorial completa proporciona. Mas a ideia é boa e vou tentar em algum outro lugar depois.

Voltamos para saída da caverna, damos mais uma relaxadinha e tiramos umas fotos.

Já é quase 17hs e o próximo programa é tomar banho na prainha do Rio Pratinha. Basta escalar o morro até a recepção, contornar o restaurante (que já estava fechado) e descer o morro pelo outro lado da caverna. Tudo isso levando na mão as botas, a câmera fotográfica, a calça off-road. Felizmente deixei o casaco e o capacete na moto. Uma mocinha no quiosque que vende os ingressos para a flutuação ofece-se para guardar a tralha e eu aceito.

Na prainha, pedimos o nosso “almoço” e Tio Saulo toma umas duas cervejas enquanto eu encaro um delicioso suco de mangaba. O por do sol se anuncia e a paisagem fica ainda mais bonita. A água claríssima é uma beleza.

Voltamos para Lençóis sem incidentes e o turismo acabou. Não tem mais passeio, não tem mais aventura, não tem mais nada. Agora é voltar para Recife pois Saulo tem um compromisso na quinta-feira. Depois do “dia relaxante” de hoje, amanhã vai ser só deslocamento por estrada de asfalto, sem brincadeira.

Só falta definirmos o roteiro.

 

O medo e o coxinha

Medo é bom e faz bem a saúde. Principalmente dos dentes, já dizia o meu avô quando eu fazia alguma trela na sua oficina. Eu era criança e aprendi a ter medo. Muito da minha sobrevivência até a idade atual é devido ao medo que senti em um ou outro momento.

Mesmo assim, o medo é visto com preconceito e de um modo geral as pessoas “sem medo” são muito prestigiadas. As vezes são tidas como corajosas. Ledo engano. Coragem não é ausência de medo. Ausência de medo é ignorância dos riscos e frequentemente isso pode ser fatal. Coragem é sentir o medo e enfrentá-lo. Ajustar o seu comportamento diante de riscos conhecidos no sentido de minimizá-los. Por isso que medo é bom. Porque muda o nosso comportamento diante de uma situação potencialmente perigosa.

Mas e o excesso de medo ? Como já dizia outro avô, “Tudo demais é muito”. Medo demais pode paralisar. Quando suprimimos desejos por causa de medos estamos abrindo mão de muitas chances de fazer coisas que nos deixam felizes. Os coxinhas definitivamente tem um fator medo muito preponderante no seu comportamento. É o medo de danificar a moto, medo de ter um prejuízo com um acessório quebrado, o medo de se perder, o medo de se molhar, o medo de passar frio, o medo de sentir calor, o medo de se atrasar, o medo ser assaltado, o medo do que os outros vão pensar e até mesmo o medo de cair e se machucar.

O medo é algo que nossa mente constrói. O perigo é real, mas o medo é inventado por nós. Como no filme péssimo do Will Smith e seu filho Jaden demonstrou. Prova de que até num filme horrível ainda é possível tirar alguma coisa boa.

Quando um motociclista paralisa sua utilização da moto por causa do seu medo talvez seja hora de vender a moto ou talvez mudar de categoria. Não é incomum ver pilotos que deixam suas motos na garagem diante da mera possibilidade de chuva ou que se recusam terminantemente a colocar suas bigtrails em estradas de terra. Isso é o que me dói mais.

Quando deixamos de fazer coisas por causa do medo trocamos um risco (medido e calculado e portanto contornável) por uma certeza: estamos deixando de viver. Estamos fazendo errado ! Estamos deixando de lado uma oportunidade para enfrentar o medo e desse enfrentamento alavancarmos um comportamento mais preciso, melhor. O medo é um instrumento fabuloso para o auto-conhecimento e por isso mesmo o auto-melhoramento. O medo nos aponta nossas deficiências e principalmente nossa ignorância. Se sentimos medo de alguma coisa, existe uma grande chance de sermos em alguma medida ignorantes a respeito dessa coisa. Ora, contra a ignorância a melhor coisa é a informação que traz conhecimento. Se temos medo de alguma falta de habilidade a solução não é se render a esse medo e permanecer inábil. A solução é buscar conhecimento em como se faz a coisa bem feito e praticar para melhorar. Se temos medo de pilotar a moto em alguma circunstância temos que nos informar sobre como pilotar melhor e praticar e praticar e praticar até que o medo seja reduzido da forma paralisante para a forma da cautela saudável que nos mostra nossos limites.

Lembro certa vez que Ayrton Senna declarou que ao participar de uma prova de kart levou um couro danado quando a pista ficou encharcada devido a chuva. Imagino se Ayrton Senna chegou a ter medo de pilotar kart na chuva, nem que por um segundo. Isso é pura especulação minha mas o fato é que depois desse dia de derrota (medo?) Ayrton procurava pilotar sempre que chovia, mesmo sem ter competição alguma. Ele aproveitava todas as chances que tinha para pilotar na pista molhada e acabou transformando sua imperícia (medo?) de andar na chuva numa das suas maiores habilidades e diferenciais competitivos.

Nos fóruns sobre motociclismo encontro frequentemente as postagens de iniciantes expressando seus medos diante de exames de habilitação de moto nos DETRANs da vida. Pessoas que afirmam que “sabem fazer tudo direitinho” mas que ficam “nervosas” diante da perspectiva de falharem no teste. O medo de ser reprovado acaba se transformando numa profecia auto-cumprida. A pessoa tem  a habilidade mas o medo a faz por tudo a perder. Qual a solução para o medo diante do fracasso no teste ? A resposta mais fácil é ligar o “Fuck it!” e desencanar. De fato funciona mas acaba dando margem para a preparação inadequada. Não se importar com as coisas as vezes é útil mas se usado sem moderação pode levar a um estado de letargia tão paralisante quando o medo excessivo. Isso equivale a não ter o medo. O melhor ainda é usar o medo como impulsionador para praticar mais a pilotagem, exercitar as manobras em que tem mais dificuldade e tornar-se craque nelas. Praticar, praticar, praticar e quando estiver exausto de tanto praticar…. Ir lá e praticar mais um pouquinho. Praticar até o ponto em que faria as manobras de olhos fechados, ou com um pé nas costas, ou com as mãos amarradas .. .ou tudo isso junto (aí é cabra bom mesmo!).

Com frequência, quando vou fazer passeios off-road com amigos coxinhas, vejo alguns jovens ficarem absolutamente exaustos no meio do mato. Considerando que eu já não sou um menino (do alto dos meus 49 anos mas num corpinho de apenas 48), ficava sempre intrigado ao ver amigos em plena forma física, capazes de correr meias maratonas, as vezes maratonas inteiras, andar de bike, fazer academia 3 vezes por semana mas que no meio da trilha ficavam mortos. E eu inteiro. Como explicar isso se eu não pratico atividade aeróbica ou musculação alguma de forma frequente ? Porque eles estavam tão cansados e eu não ? Resposta: Tensão. A tensão sobre o guidão causada pelo medo paralisante exaure as energias de qualquer um. A maior prova de quão intensa intelectualmente é a atividade de pilotagem de motocicletas é a desenvoltura com que pilotos mais experientes, mesmo mais velhos, se saem de situações extenuantes mesmo sem terem o preparo físico mais top da turma. Não que preparo físico seja dispensável. Pelo contrário. Forma física é fundamental. Mas de nada adianta ser o rato de academia de ginástica se não tiver uma atitude mental superior diante do medo e a tensão impostas pela pilotagem.

Os amigos que pilotam comigo já conhecem o passeio até a Ilha do Coqueirinho Solitário ao sul de Tamandaré, Pernambuco. Durante muito tempo propus que esse passeio fosse considerado um ritual de iniciação ao grupo de bigtrail off-roaders. Lembro da primeira vez que eu fui a essa praia com a F800 GS. Ainda muito grosso e sem tanta habilidade e com a moto novinha, sozinho, fiz a loucura de ir até a Ilhota passando pelo areial divisor entre homens e pratos de papa. Depois de muitos sustos cheguei a parte de areia dura da praia completamente exausto. Esgotado mesmo. Parei a moto numa rocha, descansei, tirei fotos e imediatamente passei a pensar em como fazer para encarar de volta. O medo era paralisante. E se eu cair ? Quem vai me ajudar ? Sozinho numa praia deserta a coisa tinha um potencial enorme de virar uma grande merda. Não tive muita alternativa além de encarar o medo e fazer o percurso de volta. Quando cheguei de volta a Tamandaré eu estava ainda mais exausto, como não sabia possível.

Fiquei um tempo super bolado com o resultado desse episódio. Ora ? Se para percorrer um pequeno trecho de uns 1000 metros de areião eu fazia um esforço semelhante a parir trigêmeos … de que valia eu ter uma bigtrail ? Qual o sentido ? Alguma coisa tinha que ser feita. Passei a usar os medos de cair, de ficar sozinho, de ter gasto uma grana numa moto que não iria usar plenamente, de dar vexame, de ter um prejuízo numa queda, como drivers para me fazerem melhorar. Emagreci, melhorei meu condicionamento físico, me informei sobre como pilotar na areia, assisti vídeos, pedi dicas a pilotos experientes, pratiquei areia em pequenos trechos, juntei tudo isso e adicionei uma pitada de “foda-se” e um mês depois encarei EXATAMENTE o mesmo trecho, ainda sozinho. Tirei de letra ! Foi um passeio ! Cheguei lá dando risada e muito feliz com a conquista. Foi uma experiência libertadora que há muito eu não sentia. Uma coisa assim meio que de infância quando tinha feito uma trela na oficina do meu avô e ele não tinha me pego 🙂

A sensação foi muito boa e como sempre acontece eu queria dividir isso com o mundo. Queria proporcionar isso para todas as pessoas com as quais eu encontrasse. Queria fazer as pessoas enfrentarem os seus medos porém sem aboli-los. Queria ensinar as pessoas a usarem seu medo para as fazerem mais felizes ! Por paradoxal que seja.

Comecei a levar alguns amigos ao passeio do Coqueirinho Solitário, como ficou mundialmente conhecido(?), e obtive resultados muito gratificantes. Vi homens crescidos sentirem medo e enfrentá-lo com coragem (as vezes uma pitada de irresponsabilidade) e conseguirem chegar a praia do coqueirinho com uma expressão de realização misturada com alívio. Vi lágrimas de alegria. Vi também alguns jurarem que jamais voltariam a fazer um passeio comigo 🙂 Well .. não se pode acertar todas.

Desde então o tema me fascina e de vez em quando encontro novos amigos pilotos que dão a chance de ajudá-los a superar seus próprios limites, quando pelo menos não os conhecerem mais nitidamente. A todos eu deixo 10 mil dos meus melhores obrigados pois é muito gratificante. Espero continuar fazendo isso por muito tempo.

Enquanto isso, lembro aqui a Litania Contra o Medo do Frank Herbert

“I must not fear.

Fear is the mind-killer.

Fear is the little-death that brings total obliteration.

I will face my fear.

I will permit it to pass over me and through me.

And when it has gone past I will turn the inner eye to see its path.

Where the fear has gone there will be nothing….

only I will remain”

E para quem achar essa litania muito complicada, deixo o link para o brilhante poema do Chico Buarque de Holanda, que é mais didático e não menos forte.

Jura que faz trilha !

Copa do mundo no Brasil e chuva praticamente todos os dias da semana em Manguetown. Chove e faz sol no mesmo dia e essa é a característica do inverno que está apenas começando aqui em Pernambuco. A chuva pode passar de um inconveniente a um impedidor total de fazer trilha. Mas existe algo com poder maior para impedir uma boa trilha: falta de companheiros que topem ir com você. Não se faz trilha sozinho.

A situação desse fim de semana estava crítica nesse aspecto. São João na terça-feira conjugado com jogo do Brasil na segunda e feriado de Corpus Christi na quinta-feira anterior significa que para algumas pessoas seria um feriadão de quase 7 dias. Bastava imprensar a sexta-feira. Muita gente viaja para o interior para aproveitar as festas juninas e todos os meus companheiros tinham algum impedimento para a tradicional trilha do sábado. Bem no meio do imenso feriadão.

Mas eis que um novo integrante do Portal Big Trails me manda uma mensagem privada perguntando quando é que vai ser a próxima. No sábado, eu respondo, e aí o quórum mínimo foi alcançado: Dois. O Jurandilson Ferreira, também conhecido como Jura, procurava um parceiro para um passeio. Não conhecia muito a região, apesar de ser natural de Manguetown.

Convidei vários outros amigos mas nenhum topou ir conosco. O Diego amanheceu gripado e cancelou a ida. Agora só falta a presença do Sol para trilha ficar boa.

Manhã de sábado com sol após uma madrugada de chuva. O plano original era fazer a trilha da Usina Bom Jesus mas o Gian já havia dito que se estivesse molhada essa trilha ficava muito difícil. Depois do trauma da trilha do Picadinho eu não estava muito disposto a radicalizar. Sendo assim, a alternativa é fazer trilha em areia de Praia. Vamos visitar nosso amigo Coqueiro Solitário na praia do Porto. Trilha plana, praticamente 100% na areia que mesmo molhada não traz dificuldade adicional. O único porém é que a maré será grande (lua minguante quase cheia) e não sei se dá para ir até a ilhota com a maré cheia que aconteceria mais ou menos na hora que chegaríamos por lá.

Na sexta-feira eu havia colocado o bar raiser na XT66 tornando-a ainda mais radical. Pneus Karoo 3 já haviam mostrado que são excelentes na breve e interrompida trilha da semana passada com Omar e Eduardo. Com o bar raiser o guidão fica numa posição bem mais confortável para pilotar em pé na XT66, quase tão confortável quanto na BMW F800 GS. Queria experimentar isso numa boa trilha e o sábado trouxe a chance.

Nos encontramos no tradicional posto Shell da Abdias de Carvalho as 7 horas. Várias outras motos street estavam por lá. Logo vi a Ténéré do Jura estacionada na frente da loja de conveniência. Abasteci a XT66 com 4 litros de gasolina que completaram o tanque depois da trilha da semana passada. Andei pouco mesmo. Mas hoje vamos andar mais.

Jura muito simpático me fala que tem a Ténéré já há alguns anos, fez algumas viagens de longa distância e anda muito com o pessoal do Ténéré Club. Fez curso de pilotagem na Honda onde teve a chance de pilotar as CRF 230 em off-road e gostou muito. Jovem esperto e inteligente, topava qualquer proposta. Expliquei para ele as nossas alternativas de trilha e ele disse que o que eu decidir fica bom para ele. Simpático e solícito, Jura deixa uma excelente primeira impressão. Se pilotar tão bem quanto é simpático será o companheiro perfeito para fazer trilha. Veremos logo mais adiante.

Tomei um café expresso, conversamos até as 7:40 e pegamos a BR-101 sul em direção a Serrambi, via Rota do Atlântico, a rodovia pedagiada que liga o Cabo a Porto de Galinhas, passando por dentro do Complexo de Suape. Próximo ao entroncamento da estrada que liga Porto de Galinhas a estrada de Camela->Serrambi, saímos para a subida do Outeiro. Malvadeza minha, confesso. Estávamos frios ainda, andamos uns 100 metros de terra e encaramos logo uma subida íngreme com areia e erosão. Agora a trilha começa de verdade e nessa hora as diferenças entre a XT66 e a BMW F800GS apareceram. Havia subido essa ladeira com Homero há 15 dias com a BMW F800gs e levei um tombo quase parado porque o pneu de asfalto não deu tração na subida. A roda traseira desliza, tenta ultrapassar a roda dianteira pela esquerda, derrapando. Tombo. Agora com a XT66 equipada com Karoo 3 vai ser diferente!!! De fato, vai ser diferente. Tração não falta porém …. a curva de torque da XTzona é diferente do torque da BMW F800GS. A F800gs é muuuuuuuito mais potente e a força aparece em baixíssimas rotações. O cuidado na F800 é para não acelerar muito pois sobra potência. A XT66 tem lá a sua força em baixa mas não é a mesma coisa. Tem que acelerar mais. Eu estava desacostumado, não acelerei o necessário e de repente a moto morre em plena subida. Tombo de novo. Ora bolas ! Será que eu nunca vou conseguir subir essa danada dessa ladeira ? A segunda diferença entre a XT66 e a BMW F800GS apareceu, torque menor e num giro mais alto. A primeira é a aderência superior da XT66 com Karoo3. Moto no chão sem maiores consequências (afinal eu estava praticamente parado). Aparece então a terceira diferença: Como a XT66 é leve !!! Leve ???!!!! Sim, leve em relação a BMW F800GS !! Ahhhh bom. Levantei a moto sozinho e vi que o Jura tinha tombado lá embaixo. Perguntei se tinha se machucado, tudo em ordem por lá. Acelera que ela sobe !!! Encontrei com ele lá em cima e paramos para tirar umas fotos.

 

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Bela vista que o Jura não conhecia. E ele curtindo muito! Que beleza. O pequeno tombo na subida não significa nada. O mais importante é que ele encarou o tombo na boa, não deu o menor sinal de abatimento. Hmmm, interessante. Essa característica de resiliência é muito importante para fazer trilha. O garoto tem potencial. Até agora tudo bem. Muitos marmanjos desanimam se levam um tombinho de nada nos 5 primeiros minutos de trilha. Para Jura tava tudo OK, ele tava curtindo e achando o máximo o visual lá de cima. Vamos em frente !.

Descemos pelo mesmo lugar que subimos. Ainda não queria descer pela alternativa pois tava muito molhado e com erosão. Descemos sem incidentes e pegamos a trilha do manguezal, com areia branca por meio da mata de pau-de-mangue. Errei o caminho e voltamos precocemente para o asfalto. Backtracking, vamos pela mata fechada, uma beleza, e caímos no areal que não consegui atravessar com Homero há 15 dias. Mas dessa vez decidi encarar. Achamos uma passagem estreita por meio do alagado e passamos sem problema. Tive chance de ver o Jura mandando bem na areia da trilha apertada. Sempre que olhava para o meu retrovisor o Jura estava lá. Não precisei parar para esperar. Hmmmm, bom sinal. Só consigo andar assim com Homero. Será que Jura consegue acompanhar ? Até agora ele está indo muito bem. Dessa vez eu liguei o wikiloc para mapear a trilha por dentro do manguezal. Dá para ver que o sinal de GPS foi perdido justamente na parte mais interessante da curta trilha. Observem o início dela e verão

Pegamos a estrada asfaltada (eca) para Serrambi e fomos arriscar uma visita a meus amigos Ricardo Carvalho e Fabíola em Enseadinha. Sorte que eles estavam lá, verdade que os acordamos (quer dizer, o Ricardo pois Fabíola já estava em plena atividade). Eram umas 9hs da manhã, tomamos um café com eles, batemos um papo, trocamos uns abraços(sempre muito bem recebidos na casa de FabíoImagemla e Ricardo e fomos visitar o outro Carvalho, primo de Ricardo, Dr Tárcio no outro lado de Serrambi. Fomos carinhosamente recebidos pelo Tárcio e pela Camilla. Tive chance de dar um abraço de aniversário em Tárcio que não pude dar no passeio anterior com Homero. Por pouco não o havíamos encontrado no pontal de Serrambi. Mais bate papo, tiramos umas fotos e pegamos a estrada asfaltada, dessa vez até Tamandaré, passando por Carneiros.

Agora começa a segunda parte da trilha. A estradinha que liga Tamandaré a Praia do Porto passando por traz de Mamucabinhas. Essa é uma estradinha de uma enorme plantação de côco com chão de areia. Na primeira vez que passei por essa estada, com a BMW F800 GS cheguei ao fim dela absolutamente exausto. Era só a tensão da pilotagem no chão de areia. Na segunda vez, fui com os amigos do Falcão Sobre Rodas e frequentemente tinha que parar para que o grupo me alcançasse. Achei que teria que fazer vários mamão-check para o Jura me alcançar mas que nada ! Sempre que olhava para o retrovisor, lá estava o Jura me acompanhando. E eu não aliviei não ! Afinal, estava com a XT66 com Karoo 3 !! Uma delícia na trilha de areia. Acelerei mesmo e o Jura sempre no mesmo passo. Caramba, o garoto é bom mesmo. A Ténéré estava equipada com pneus normais de uso misto, com baú e tudo e mesmo assim andava de igual para igual com a XT66 semi-radicalizada (falta o escape por cima e o protetor de mão). Chegamos a praia e no areial enorme onde eu tive uma interação gravitacional não controlada com um coqueiro derrubado durante o passeio com os Falcões. Mas agora é diferente. Gás aberto, a XT66 flutuava sobre a areia e danei-me em direção a praia, com o mar cheio. Para minha surpresa, mesmo com a maré alta, ainda tinha uma faixa de areia ligando o continente a Ilhota do coqueirinho. Parei a moto e tirei uma foto da valente XT66.

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Jura estava lutando com a areia e acelerava bastante a Té 250 e tive chance de tirar umas belas fotos do companheiro em ação.

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A tensão da pilotagem na areia fofa cansa qualquer um e decidimos descansar um pouco, tirar umas fotos. Encontramos uma dupla de aventureiros que vinham de moto desde Maceió e estavam na ilhota também tirando umas fotos e eles fizeram o obséquio.

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E agora ? Para onde vamos ? Tínhamos 3 alternativas: Voltar por onde viemos (boring), passar pelo “restaurante” que estressou conosco ou seguir pela Big Rock sul e voltar por Barreiros. Quando fizemos a trilha com os Falcões em fevereiro o Omar não recomendou subirmos a Big Rock. Mas agora é diferente, éramos apenas 2 e o Jura tava mandando muito bem. Além disso a vista lá de cima é maravilhosa e eu ainda não tinha ido lá de moto. A única dificuldade era encarar muuuuuuita areia fofa na beira da praia. E com o mar batendo, não haveria margem para erro. Acelerar, dar gás e não deixar a moto atolar. Reforcei a dica para o Jura, que vi rapidamente “baixando o trem de pouso” na primeira perna do areial. Mostrei para ele, pés na pedaleira, dar gás e olhar para onde quer ir. Dito isso e já fui-me embora para o nonolito sul da Praia do Porto. Tinha uns caras jogando bola na praia e atrapalhamos o jogo deles passando rapidinho pelo campo estreito (e inclinado) na faixa de areia. Foco na pedra, foco na pedra e o areião fica muito fofo. Mais gás ! Mais gás porque se atolar aqui vai dar trabalho. A XT66 urrava ia devagarzinho levantando o véu de areia no pneu traseiro mas não parou. Fim da praia, hora de subir para o mato e passar por uma pequena porteira que leva ao mato. Acerto de primeira, subo para a parte mais dura e olho para traz para ver como o Jura tava indo. Subiu na areia seca e deu umas patinadas mas passou direto. Cabra bom !! Vamos embora descer a parte de traz do monolito para subir para a Big Rock e aí eu dou bobeira e levou um tombo na areia. Jura assistiu de camarote. Caí de lado e a pancada foi tão forte que o meu rim esquerdo subiu até a garganta. Tive que engolir forte para fazer ele voltar ao lugar certo. Pausa para recuperar o fôlego. Nenhum dano além do orgulho. Como Jura ainda não está acostumado com as minhas quedas ele ficou um pouco preocupado. Relaxa, faz parte do show e sempre tenho que dar uma lambança dessas senão a trilha não tem graça. Meus companheiros já estão acostumados e mal podem esperar acontecer para darem umas boas risadas ! Em tempo o Jura também …

Pegamos a estradinha de barro que leva a subida até Big Rock e aí o lance é acelerar. Muita erosão, escolha a linha de subida e dá-lhe gás senão é chão na certa. Agora separaremos os homens dos pratos de papa ! De novo Jura-que-faz-trilha subiu direto e curtiu muito. Lá em cima tiramos umas fotos belíssimas. Tenho que voltar com os companheiros e transformar essa trilha no ritual definitivo de iniciação no grupo de trilheiros.

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Pegamos a trilha de volta a PE-060 seguindo pelas estradinhas de canavial para o entroncamento perto da ponte que fica antes da entrada de Barreiros.

 

Essa trilha tem umas variantes interessantes a esquerda que levam para a Varzea do Una o que abre uma possibilidade interessante para fazer um super passeio que envolva a Praia do Gravatá.

Chegamos a PE-060 por volta de meio dia e a fome bateu. Decidimos voltar direto para Recife e encerrar o passeio, dando tempo para lavarmos motos e coisas tais. O sol estava forte durante toda a manhã e deve ter secado as trilhas, e aí pensei passar pelo Picadinho e superar o meu trauma, agora com Karoo 3 e o chão mais seco. Pegamos asfalto direto até a entrada para a PE-028, a estrada que leva a Gaibú. Logo depois da linha do trem, pegamos a entrada a esquerda que leva para  a agora estrada de serviço da Rota do Atlântico. Seco. hmmm , legal. Estrada reta de barro úmido, sem lama. As motos andando bem e seguimos paralelos a Rota do Atlântico e cruzamos com duas motos de trilha. Pegamos a saída a direita por baixo do viaduto e estávamos na Trilha do Picadinho (antiga Estrada Velha de Barreiros). Seco também. Agora é só achar a saída a esquerda para a ponte de pedestres ao lado da ponte do trem sobre o Rio Pirapema (ou Pirapama). Algumas poças dágua com lama, nada demais. Lembrei-me de quando fazia trilhas com a DT 180 aqui há 30 anos e a impressão é muito parecida. A trilha é chata, a verdade é essa. Não tem curva, só buraco, muita trepidação causada pelas pedras. Boring. Mas tá valendo assim mesmo. Na variante para a Praia do Paiva, que agora está a nossa esquerda, um grande grupo de motos de trilha estavam paradas, batendo papo. Saudamos com uma buzinada e seguimos em frente.

Na saída a esquerda, subimos para o trilho do trem. Muita lama cinza, algumas escorregadas bizarras mas nada demais. Pegamos o lado certo, em cima da brita e a esquerda das sucatas de trilho de trem. Não cometeria o mesmo erro duas vezes. Pausa em cima da ponte de pedestres para tirarmos uma foto.

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Que fome !!!

Já estamos perto das 13hs e a última comida foi as 6 da manhã, um rocambole de doce de goiaba. O jeito é tapear a fome com uma barra de cereais. Descemos a passarela de pedestres numa manobra estreita para sair do tilho de trem e voltamos ao Picadinho, agora mais frequentado e com menos mato invadindo a trilha. De cara encontramos um caminhão de entrega de bebidas. So much for a motorcycle trail…. Sem incidentes chegamos a Ponte dos Carvalhos e nos perdemos no trânsito confuso. Como fazer para chegar a BR-101 ??? Não tem sinal e aparentemente todas as ruas são contra-mão. Levou um tempo mas chegamos a rodovia e tocamos para Recife. O Jura vai na frente pois ele que vai desviar para casa primeiro mas antes de nos despedirmos ele sugere um pequeno trecho de areia ao lado da BR-101 na altura da antiga Lagoa do Náutico. Lembro-me quando era criança e aquilo tudo ali era mato, deserto. Agora é um bairro popular com muitas crianças soltas na rua… Gostei não. Fiquei com medo e segui bem devagar porque o risco de pegar um garoto sapeca que corre e atravessa a rua é enorme.

Chegamos ao ponto de despedida. Deixamos um abraço e a promessa de fazermos mais trilhas no futuro. Em breve. A trilha acabou.

Conclusões e lições aprendidas

  • Não precisa de muito sol para a deixar a trilha seca. Havia chovido durante a madrugada da sexta para o sábado. Mas fez sol logo ao raiar do dia e ao meio dia a Trilha do Picadinho já estava seca. Ou seja, meio dia de sol e pronto. Verdade que trilhas mais baixas são outros 500 mas dá para encarar o Picadinho assim.
  • Cada moto tem a sua característica e a gente acaba ajustando o estilo de pilotagem a moto. Eu já estava acostumado ao torcão da BMW F800 GS em baixíssima rotação. Ela não morre nunca. Na XT66 tem que acelerar mais e não subi o morro do Outeiro de primeira por causa disso. Na trilha apertada dentro da mata de mangue a XT66 morreu algumas vezes em baixa rotação sem maiores consequências. Com a F800 e Homero, andei bem devagarzinho fazendo manobras bem fechadas e a negona num farrapou uma vez.
  • Dá para fazer um multi-passeio bem legal envolvendo Picadinho, Serrambi, Coqueirinho e Praia do Gravatá numa manhã, saindo cedinho. Para ficar perfeito é só arrumar uma trilha que conecte Nossa Senhora do Ó a Serrambi, passando por traz de Porto de Galinhas. Outra trilha ligando Serrambi a Sirinhaém+Guadulape a Praia dos Carneiros. E outra última trilha ligando a Praia do Porto até Praia do Gravatá. O passeio pode envolver um almoço em São José da Coroa Grande ou Barreiros e aí ficaria o 10 mesmo.
  • Jurandilson se mostrou o piloto mais capaz depois de Homero de andar no mesmo ritmo que eu. Omar calçado com Karoo 3 também deve andar junto. Mas o Jura tava com pneu normal. Imagine Jura-que-faz-trilha! com um pneu mais off …
  • Fazer as trilhas ao sábados tem uma intenção nobre que é dar tempo de lavar as motos no sábado a tarde ou durante o domingo. Só que está ficando dificil encontrar amigos que tem esse sábado livre. Os próximos passeios serão no domingo mesmo.

A melhor surpresa foi o novo companheiro de aventuras. Valeu a pena, mais uma alternativa e o risco de ficar sem ter com quem fazer trilha deve ter chegado ao máximo e agora tende a diminuir. Ainda bem.

Jura que faz trilha ? Juro !

 

Compre Karoo ! Compre Karoo !!

Chuva.

Um fenômeno da natureza altamente apreciado por nós nordestinos. Chuva significa fartura, significa não ter que pegar um pau-de-arara e deixar o Cariri.

Chuva.

Os futurólogos dizem que em tempo a humanidade será capaz de controlar o clima tornando a meteorologia numa ciência mais prestigiada do que a astrologia (?). Será ? A humanidade não se importa com o controle do tempo. Que se laske a humanidade. Chuva em dia de trilha é o fim da picada. Mal posso esperar pela profecia da ficção científica ser cumprida.

A semana inteira fiquei esperando para ver o Sol sorrindo, ver o sol brilhando. Quando a gente trilha, não pensa em dinheiro, só se quer ver o Sol brilhar, o Sol brilhar !

Mas dessa vez não deu. Já faz tempo que chove durante a semana mas no sábado dá uma aliviada. Chove um pouquinho no dia mas para e a gente vai para trilha feliz. Semana passada foi assim, com Homero. Choveu na hora da partida mas o céu abriu, o sol brilhou e a trilha foi boa. Hoje num teve jeito. Choveu quinta, choveu sexta, choveu no sábado de madrugada. O chão definitivamente estaria molhado. Mas tudo bem. Eu vou de Karoo !!! Hoje eu vou na XT calçada com os Karoo 3 que foram montados para o passeio de semana passada e que Iran furou (o passeio, os pneus estão zerados).

O quórum foi muito baixo. Marcado o encontro no tradicional Posto Shell da Abdias de Carvalho

Como sempre acontece, acordei as 5 da madrugada e comecei a me arrumar. Fui para o posto e cheguei lá as 6:00, uma hora antes do combinado. No caminho … nada de chuva. Tomei os dois espressos para acordar, o sanduíche natural (pero no mucho) e o todynho. Homero avisa que não virá, compromisso infanto-junino da filha o prendeu em João Pessoa. Omar e Eduardo iriam se atrasar. No problemo !!! Fico tirando onda no whatsapp do Falcão Sobre Rodas. Aí vem a péssima notícia. Gian comeu  muita coxinha ontem e  está passando mal. Não vem. Brunão só iria para o asfalto se Gian fosse com ele, ou seja, não vai. Off-Road para Brunão agora só quando os planetas se alinharem e os crash guard chegarem, ou ambos. Mais um fora. Alexandre está fazendo exame (acho que é proctológico … ou da faculdade, num lembro). Só 3 hoje vão encarar a trilha enxarcada. Well … num é muita gente mas já é mais do que na semana passada em que só foi eu e Homero. Enquanto espero, o céu desaba em baldes de chuva. Posso jurar que vi fios dágua, e não gotas, caindo do céu. Xiii .. acho que o passeio vai gorar. De repente .. SOL ! Eduardo e Omar demoram tanto que chegam com o chão já seco ! Sol-e-chuva, sol-e-chuva. Hoje vai ser interessante …

Lá pelas 8:10 saímos do posto e pegamos a BR-101 em direção a trilha do Pica-Pau. A intenção é subir para Aldeia e de lá descer para Paudalho, pegar a BR 408 e seguir para Vicência. Lá subiríamos para a rampa de decolagem das asas-delta e tiraríamos umas belas fotos. Se a chuva deixar, vai ser massa.

Logo na frente da Reitoria da UFPE encontramos um engarrafamento monstro. Não tem muita alternativa. Seja por cima do viaduto, seja por baixo, tudo paradaço. Eu vou por baixo e o triunvirato se separa. Costurando por entre os carros, finalmente chego ao ponto de estrangulamento. Um engavetamento sem maiores consequências (leia-se ninguem ferido) na BR-101 na altura de Apipucos. A pista a rigor está desimpedida. O que causa o engarrafamento é aquela “paradinha” para ver o que aconteceu. Resultado é a BR-101 engarrafada de Apipucos até a Abdias de Carvalho. Que venha o arco viário aliviando esse tráfego de caminhões.

Segui até a frente do Kennel Club onde parei para reagrupar. Não fazia ideia se Omar e Eduardo estavam a frente ou atras de mim. Liguei o walkie-talkie mas nada de contato. Decidi esperar ali pois a entrada para o Pica-Pau fica no lado esquerdo da BR-101 e tem que passar pelo pontilhão por baixo. Em minutos os companheiros chegaram. Reagrupados seguimos pela estradinha de acesso, agora asfaltada. Em breve … lama.

Sim, muita lama. Muitas poças dágua daquelas que parecem lagos. Seguimos pela estradinha do Barro Branco e ignoramos a primeira variante a esquerda, a que leva a estrada da Muribeca (agora asfaltada, eca). Passamos pela entrada do CT do Sport e pelo Sítio dos ex-jogadores do hexa do Náutico, onde Enrico Milet, meu enteado, joga bola todo sábado. A estrada estava muito molhada e com muitas poças dágua mas sem maiores dificuldades. A minha XT equipada com Karoo 3 estava realmente muito colada no chão. Os pneus são realmente muito bons para off-road. Mas deu para perceber que as suspensões da XT não se comparam com a da BMW F 800 GS … Não pude evitar e fiquei só pensando do que a negona seria capaz de fazer calçada com os Karoo 3 ..

Pegamos a segunda variante, onde a estrada vira trilha. O ritmo era lento para que Eduardo e Omar (com o pneu traseiro virtualmente slick) pudessem acompanhar. A XT estava dando show. Grudada no chão, ao acelerar se ajeitava sozinha na trilha. Uma delícia. Homero estava certo. A moto fica outra coisa com o pneu adequado para off-road. Demos umas paradas para fotos de vez em quando e seguimos pelo vale até a subida para Aldeia. Antes encontramos um monte de quads parados no bar no meio do mato. Passei devagar para ver se reconhecia alguém mas felizmente nenhum conhecido. Eles estavam em sentindo contrário ao nosso. Ainda bem pois ter que andar devagar atrás de quad no meio da trilha é o cúmulo do abuso de paciência. Cá entre nós, qual é a graça em quad ??? Assim, sem preconceito .. porque num vai de Vitara ou Jimny logo ? Ou Troller ? Tem ar-condicionado, som, dvd. Muito melhor do que ficar num implemento agrícola pensando que está pilotando algo radical. Deixa para lá.

Chegamos na subida mesmo e estava um sabão. Eu fiquei preocupado com os companheiros pois já havia subido isso com Tárcio (de garupa) e foi meio estresse. Decidi pegar a variante a esquerda, marcada pelos quads. Deve ser moleza, afinal os quads passaram. subimos sem maiores dificuldades e lá em cima decidi pegar a direita, voltando para a subida original. Quando chegamos na descida (que antes era subida) desci uns poucos metros e vi que estava um sabão enorme. Era malvadeza submeter os amigos a esse perigo. Decidi parar logo no começo e voltar. Fiz a volta pivotando a moto no descanso e subindo. Paramos para tirar umas fotos e reenergizar. Tava muito liso. Enquanto conversávamos nesse local aqui ….

 

…. uma CG 125 subia a rampa que havíamos refugado. Humilhação total. Assim não dá ! Alguém tem que recuperar a nossa moral. Omar to the rescue ! Vou descer !!!  E depois subir, que é que são elas. E lá vai Omar

 

Subida no style cool de Omar, como sempre. Decidimos então seguir para Aldeia, descer pelo mato para Paudalho e voltar pela BR 408 para Recife. Aí toca o meu celular e a minha esposa me avisa que o sogro de minha enteada (filha) morreu. Perda lamentável, eu preciso dar uma força para meu genro nessa hora dificil. Vou acompanhar os amigos até a Estrada de Aldeia e descer para Recife. Trilha abreviada para mim, mas o amigos podem continuar. Ainda assim, restam alguns KM´s até o KM 16 da estrada de Aldeia. Muita lama. Eis Omar atravessando um “lago”.

Omar na lama

Chegamos sem incidentes na Estrada de Aldeia e eu me despedi dos amigos Eduardo e Omar. Voltava para Recife e antes de alcançar a descida para Camaragibe, o céu desabou. Chuva. Muita chuva. Vejamos o lado bom, vai dar para lavar a moto. Ok, mas a água rapidamente alagou a minha bota, molhou completamente a minha roupa de trilha e eu estava úmido até os ossos. Chuva, Chuva, Chuva, peguei a entrada da Avenida Caxangá e caiu mais chuva. Era muita água, o céu completamente escuro e o dilúvio de 40 dias e 40 noites que se anunciava. Não sei se já escrevi nesse post mas tava chovendo pra caramba. E para coroar, a Caxangá completamente parada. Ainda insisti em avançar pela Caxangá até o cruzamento com a BR-101 e desisti. Entrei a direita no escritório do Wal Mart e aí .. parou de chover. Ótimo. Mas não só isso. Começou a fazer sol (!!???) What ? Isso mesmo sol a pino, um calor miserável, eu todo encharcado e a pista molhada. Quando alcancei a Avenida Abdias de Carvalho o chão já estava seco !!! Voltava para casa no Derby e abri o portão debaixo de sol daqueles de praia, céu azul  ! Isso é assim mesmo no Recife.

A trilha acabou sendo um bocado curta pois saímos muito tarde do posto Shell da Abdias de Carvalho e tive que abreviar a minha volta. As 11:50 já estava de volta em casa, molhado até os ossos mas feliz com o desempenho do pneu Karoo 3 montado na XT 660 R 2008 azul em bom estado.

Minhas conclusões sobre o pneu é que definitivamente vale muito a pena. A moto fica muito mais estável e segura no off-road. Não tem nem comparação. Em momento nenhum faltou tração e considerando que esse tipo de trilha era até um pouco mais radical do que estou pretendendo fazer significa que o pneu dá e sobra para a finalidade. Ao mesmo tempo, cheguei a conclusão que a minha ideia de radicalizar a XT 660 R para usá-la apenas para trilhas não será levada adiante. A moto é realmente muito boa, muito fácil de pilotar, tem potência de sobra para encarar as trilhas e quando calçada com os pneus Karoo 3 fica uma delícia. Agarra no chão, dá aquela derrapadinha sadia de alinhamento na trilha quando a gente acelera … mas … contudo … todavia … a suspensão da XT não é páreo para a suspensão da BMW F 800 GS. Lamento profundamente chegar a essa conclusão mas não tem como escapar. A F800 GS é realmente superior a XT 660 R inclusive na trilha, na buraqueira, nos saltos, nas subidas, nas curvas derrapando. Em tudo exceto na hora de levantar quando ela cai. Aí a XT é melhor pois são quase 30 quilos a menos do que a F800 GS em ordem de marcha.

A coisa é séria pois a XT 660 R 2008 azul e em bom estado está calçada com os Karoo 3, que são soberbos na trilha. Mal posso esperar para por esses magníficos pneus na F800 Gs e acabar de vez com a saída de traseira quando acelera. Caramba, aquele torque todo da F800 Gs com a roda traseira colada no chão deve ser um arraso !!! E a suspensão que absorve tudo, inclusive a incompetência desse piloto aqui. O conforto, a suavidade do motor, tudo isso fez eu decidir. A XT 660 r vai ser mesmo vendida, infelizmente. Dá uma pena me livrar de uma companheira de aventuras tão fiel, tão valente, tão boa como a azulada mas ela vai ser mais feliz sendo pilotada por alguém que vai fazer bom uso dela pois quando eu calçar a negona (F800 GS ) com os Karoo 3 … well … cês sabem.

Quanto ao pneu Karoo 3, excedeu a expectativa. Na lama, na areia, no barro, agarrou muito bem, melhor do que eu imaginava. Eu estava disposto a pagar um preço de instabilidade no asfalto. Não foi tão ruim quanto eu pensava. Ou seja, na trilha o pneu foi melhor do que eu esperava e no asfalto não foi tão ruim quanto é de se imaginar. Obviamente, não dá para comparar o desempenho no asfalto do Karoo 3 com os fantásticos Anakee que equipavam a azulada. Pneu bom, durável, confortável mas que na lama viravam um sabão. No asfalto os Karoo 3 são honestos, nada de excepcional. Fazem mais barulho. Aliás, bem mais barulho. A moto fica meio arisca na mudança de trajetória mas … não é um problema. É uma característica diferente, eu diria. Nas curvas, para o meu limite, eles ficaram bem. Não costumo andar rápido no asfalto pois não vejo graça alguma de modo que esse limite superior dos Anakee ou Tourance não vai me fazer falta na BMW F800 GS. Raramente ultrapassei 140km/hora na reta. Tem gente que já deu 200km/h em vias públicas com uma BMW F 800 GS. Eu acho ridículo e francamente não faço questão alguma. Meu negócio é dirt road. Acelerar em linha reta é fácil. Esses mesmo coxinhas que se gabam de ter chegado a 200km/h em linha reta fritam os freios 500 metros antes da curva.

Moral da história é que os Karoo 3 vieram para ficar na minha moto, a XT 660 R mostrou seus limites e vai ser vendida.

Lições aprendidas:

  • Pneu off-road de fato faz a diferença. Insistir em usar na trilha pneu de uso predominante em asfalto é bobeira e até perigoso. Meus tombos ridículos apontavam para isso e a trilha com os Karoo 3 acabaram por provar definitivamente.
  • Suspensão adequada para off-road também faz a diferença, enorme eu diria. O projeto da XT 660 R é de 2003/2004 e já não se pode comparar com as suspensões modernas da BMW F 800 GS.

Agora eu me sinto como aquelas crianças do comercial do Baton da Garoto …

Seu eu pudesse, faria um igual só que … COMPRE KAROO ! COMPRE KAROO !

 

Trilha do Picadinho.

Mais uma semana de chuvas em Manguetown que ameaçavam o passeio do fim de semana. Homero voltou de São Paulo com dois pares de pneus Karoo 3 para colocarmos em nossas motos e assim podermos fazer trilha na terra sem medo. Os Anakee II cumpriram o seu papel. São excelentes no asfalto, são duráveis e resistentes mas chegaram ao fim de suas vidas úteis e agora nós queremos por as motos no barro.  Serão substituídos por pneus mais radicais.

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Quinta e sexta foram dias de sol enter nuvens. Chuvas fracas e rápidas melhoraram as perspectivas de trilha seca para o sábado. Na sexta, Homero me liga confirmando tudo e ate se oferecendo, junto com Tio Iran, para levar a XTzona para trocar os pneus. Que serviço bom ! Não bastasse ter comprado o pneu em São Paulo, despachá-lo para Recife (via Lara Log) ainda iria providenciar a montagem dos pneus. Verdade que para Tio Iran, tudo é festa e uma oportunidade para andar na XTzona azul é tudo que ele quer.

Postei o convite do evento no Facebook na manhã da sexta-feira mas com poucas esperanças de que algum colega aventureiro aparecesse. Tárcio ainda impedido, Gian já tinha dito que não poderia esse fim de semana. Convidar com apenas 24hs de antecedência é pedir para aparecer ninguem. Não há tempo hábil para manobrar agendas familiares, negociar com as esposas a escapada com uns amigos malucos que gostam de por a moto na lama. Ouve-se muito “Tá doido de andar de moto com essa chuva ?” Mesmo assim postei o convite pois tinham confirmados 3 pilotos: Eu, Homero e Iran.

A participação de Tio Iran nesse passeio era particularmente importante para mim. Tio Iran é o responsável por tudo isso. Foi ele quem me emprestou a primeira moto de verdade para eu pilotar. Foi dele que herdei a paixão por motocicletas quando era um menino e ele foi-me visitar em Manaus. Levar Tio Iran para passear de moto é como resgatar uma dívida que tenho com ele. Sem falar que é diversão garantida ouvir as histórias, se deliciar com as mamoadas e as interações gravitacionais não controladas.

Acordei muito cedo, por volta das 5hs da manhã e o céu não tava bom não. Muitas nuvens, mas ainda sem chuva. Enquanto arrumava o equipamento, meu celular dá um aviso sonoro de que alguém postou alguma coisa no Facebook … Era Homero já animando para a partida e postando que estava pronto.

Começa a chover. Chuviscado que vira chuva fraca e eu todo fantasiado já pensando que o passeio havia gorado por efeitos diluvianos. A chuva dá uma aliviada e me mando para o Posto Shell da Abdias de Carvalho onde encontro Homero já me esperando antes das 7hs. Eu faço um lanche rápido a base de sanduíche natural (?) e um todynho mais um café expresso para deixar os neurônios no ponto. Ficamos batendo papo até Tio Iran aparecer e nos contar que tinha que salvar o mundo, que tinha que curar o câncer, que tinha que fazer isso e aquilo e que não poderia ir conosco. Too bad. O passeio com Titio vai ficar para outro dia.

Eis nós aqui prontos para partir.

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A ideia original desse passeio era fazer, de novo,  a trilha de Nova Cruz e Monjope. Agora completamente mapeada, a trilha é uma delícia e Homero não conhece. De tanto fazê-la recentemente (Com Tárcio, com Bruno e Alexandre, depois com Omar+Eduardo+Gian) eu já estava com ela decorada. Não precisa nem de GPS. Saímos do posto, pegamos logo a direita na BR-101 e seguimos para o norte em direção a Cruz de Rebouças mas não fomos longe. Quando cruzamos a Avenida Norte Homero fez sinal. Não vai dar. Tem muita chuva pesada caindo sobre o litoral norte. Decidimos voltar pela pista local e inverter o passeio. Vamos para o litoral sul e o máximo que pode acontecer é chover do mesmo jeito. Arriscamos encontrar algum sol, quem sabe.

BR-101 lá vamos nós e quando passávamos pelo entroncamento próximo a Vitarella tive a idéia de fazer a trilha do Picadinho. Também conhecida como “Estrada Velha de Barreiros” esse caminho segue em direção ao sul mais ou menos pelo meio entre  a PE-060 e a beira do mar, cruzando uma mata belíssima chamada “Mata do Zumbi”, que diz a lenda, é tudo terra dos Brennand. Alguém por favor confirme ou não essa história. Essa estrada é antiga, de pedras e já foi abandonada há muito tempo. Eu costuma fazer trilha de moto por aqui nos anos 80 e em 2009 estive com Lara fazendo uma trilha com  a XT 660 R em direção a Praia do Paiva. Já tinha feito essa trilha com Cuca e Poliana e é muito divertida. Minha intenção era seguir para a Praia do Paiva, pegando a direita na segunda ou terceira variante depois do Rio Pirapema. Mas antes teríamos que chegar a esse ponto da trilha.

Quase 30 anos se passaram e a paisagem de Ponte dos Carvalhos é bem diferente. A rua principal que entrocava com a BR-101 agora é quase uma praça e, devido as obras de urbanização da antiga BR-101, temos que ir lá na frente e fazer o retorno para pegar a faixa no sentido Cabo->Recife e dobrar a direita numa ruazinha anterior a principal. Tudo agora é asfaltado e com lombadas. Lembro que quando fazia trilhas por aqui era todo chão batido  e os redutores de velocidade eram os buracos na rual má cuidada. A rua segue até o entrocamento da linha do trem urbano que agora segue para Suape e própria estrada Velha de Barreiros. A passagem de nível ainda está lá. Trinta anos de abuso e absolutamente nenhuma manutenção, os buracos aumentam, as pedras que formavam o calçamento mais soltas, muitas poças dáguas cheias com as chuvas recentes. Muita lama sobre as pedras e a Trilha do Picadinho de repente fica muito ruim para mim pois meus pneus são 90% para asfalto (queria saber quem é que faz essa conta) e mesmo murchos tem extrema dificuldade em obter a mínima aderência frente a lama, musgo, água, sujeira e outras substâncias orgânicas que meu asco impede de declinar o nome agora. Para complicar, começa a chover fraco mas o suficiente para manter tudo ainda mais encharcado. A moto tem dificuldade de manter-se em linha reta e as derrapagens forçam ângulos estranhos com as linhas paralelas da beira da estrada. Homero assiste a tudo isso do conforto da XT 660 R agora equipada com os Karoo 3. O meu par de pneus, comprados em São Paulo por Homero e carinhosamente trazidos pela minha mulher, foram montados na minha XT 660 R que nesse exato momento deve (supostamente) estar levando Tio Iran ao proctologista (ou era dentista?). Se eu soubesse tinha deixado a BMW com ele … Depois de uns sustos vejo que o jeito é reduzir a velocidade e só acelerar quando o chão fica só com pedras relativamente limpas de musgo. Observo que o mato havia avançado para o meio da estrada o que é um sinal de que está sendo pouco usada. Nas priscas eras em que eu fazia trilha por aqui era comum ver um ou outro carro de passeio arriscando um trecho da trilha mas agora dá para ver que a estrada foi definitivamente abandonada. Saberei o motivo logo a frente: A ponte sobre o Rio Pirapema havia desabado.

Eu não me lembrava mas já sabia que isso tinha acontecido quando fiz a trilha de bicicleta e de moto com Lara, Cuca e Poliana. Só agora caiu a ficha de que se não passa carro pela estrada, ela vai cair em desuso de vez. A alternativa para cruzar o rio é a ponte da linha de trem urbano, uns 100 metros a direita da Trilha do Picadinho. Deu para ver uma picada no mato ligando ao pé da ponte e para minha alegre surpresa, ao lado da ponte de trem tem agora uma passarela para bípedes. Que alívio pois eu me lembro que passar a moto para dentro dos trilhos e atravessar a ponte foi algo estressante tanto fisicamente (a moto pesava muito e  a BMW pesa inda mais) como mentalmente (o medo de algo dar errado e o trem passar por cima). Com a passarela vai ser moleza. A rampa de subida para a passarela tinha um contra-ângulo agudo mais nada que uma ou duas manobras com ajuda da gravidade não resolvessem. Subi na passarela, atravessei o rio e …. perdi o ponto de saída … Caramba. Deve ter outo lá na frente … Mas não tinha !!! Homero foi mais esperto e passou a XT por cima de umas sucatas de trilho para a faixa de brita da estrada de ferro. Ei fiquei preso entre o mato e as sucatas de trilho. A medida que me afastava da ponte, a falsa trilha ia ficando mais apertada e não aparecia a saída para a esquerda que me levaria para a estradinha. O trem havia acabado de passar e a moto de Homero estava mais próxima dos trilhos do trem. Melhor não dar bobeira. Parei a minha moto no mato e Homero seguiu pela brita até uma passagem de nível uns 500 metros depois. Eis a minha moto parada.

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Não dá para ver porque o mato tá alto mas aí nesse mato tem um monte de sucata de trilhos que me impediam de subir com a moto andando para a faixa de brita que aparece na foto. À esquerda da moto só tinha barranco e mato, não tinha saída para a estradinha que ficava nessa direção. Eu precisava suspender as rodas das motos por sobre as sucatas de trilho para atingir a brita e aí seguir andando. Me desculpem, mas num tem macho no mundo que consiga levantar uma F800 GS sozinho. Homero to the rescue !!!

 

Homero on the tracks

Esperando Homerogoudot Keep Walking homero

 

Lá vem o meu irmão para me ajudar. Coloquei a minha moto na trilha de brita e fomos embora para a passagem de nível.

Aqui dá para ver a altura elevada em que o trem corre. Imagino que é alto assim para evitar os frequentes alagamentos. Essa região toda é meio pantanosa.

João eurico desce da estrada de ferro e volta para a trilha

João eurico desce da estrada de ferro e volta para a trilha

 

Voltamos a Trilha do Picadinho e a lama não dá trégua. Muita água, muita pedra e pouco pneu para mim. Tava ruim, tava tenso e eu não estava gostando. Quando passamos pela entrada da variante a esquerda que leva a Praia do Paiva vi que não tinha condição alguma da minha moto passar. Se estava ruim no Picadinho, na trilha sem calçamento ia ser muito pior. Estava alagado completamente com aquela água barrenta que significa que na parte submersa só tem lama, massapê, ou seja, um sabão para os meus pneus. Seguimos pelo Picadinho e de repente a trilha acaba num acampamento de máquinas. Logo atras, a Rota do Atlântico. Lascou tudo !!! A rodovia pedagiada é cercada para evitar que espertinhos a usem sem passar pela praça de pedágio. Isso significa que não conseguiríamos entrar na Rota do Atlântico naquele ponto. Seguimos a estrada de barro (leia-se sabão para mim) e ela passava por baixo de um pontilhão, cruzando a rodovia. Do outro lado, uma estrada de barro que eu imaginei que era de serviço seguindo em paralelo a autopista.

Se pegássemos a direita, voltaríamos em direção ao Cabo. A esquerda, seguiríamos em direção a Gaibu/Suape. Homero decidiu e fomos pela esquerda. Mas vocês não fazem ideia. Homero foi na frente de Karoo 3 e eu tentando acompanhar. A moto ia de um lado a outro da estrada deslizando sobre o massapê encharcado. Um sabão. Num certo ponto eu escorreguei para fora da estrada, acelerei e milagrosamente voltei para  estrada com uns tufos de mato enganchados por toda a moto. Atingimos o asfalto na estrada PE-028. Nessa hora, eu achei ótimo voltar ao asfalto. Sinceramente, não dava para mim. O chão estava muito escorregadio. Eis a cara de Homero quando encontramos a pista.

Homero e Karoo 3

Homero satisfeito com o desempenho do Karoo 3 na trilha de lama

Partimos pela PE-028 em direção a praça de pedágio da Rota do Atlântico para seguirmos para Suape, Porto de Galinhas e Serrambi. No asfalto, boring, mas devo confessar que o pneu da BMW F 800 GS agora era melhor que o de Homero. Curvas deitando tudo, o asfalto limpo pela chuva, agora estava seco. O céu clareando, o sol aparecendo. Boring .. é verdade, mas num instante estávamos em Porto de Gallinhas, pegamos a saída para Serrambi.

Já quase no entroncamento com a PE-051 (a estrada que vai para Serrambi e Toquinho) me lembrei que havia feito uma bela trilha por aquelas bandas com o Ricardo Carvalho, o Ricardo Júnior e o Guilherme Carvalho. Era uma trilha com chão de areia … hmmmm … Areia era todo que eu precisava para melhorar a aderência. Melhor areia para o meu pneu do que barro molhado (que vira um sabão). Passamos o entroncamento e subimos a trilha de areia para o Alto de Serrambi.

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Nessa subida levei um tombo, mais uma vez, por falta de tração na roda traseira. Tá ficando monótomo. A moto precisa de força, eu acelero, ela sai de traseira  … e lá vou eu comprar terreno. Invariavelmente isso acontece com a moto quase parada. Nenhum dano, só o trabalho para levantar os 250 quilos da moto em ordem de marcha. Aproveito para capturar a subida de Homero. Vejam só

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Tiramos algumas fotos da bela vista de lá de cima. Uma igrejinha, uma estátua de uma entidade religiosa, uma torre de telecomunicações e a vista do pontal de Maracaípe.

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Tentamos descer pela trilha alternativa mas a erosão destruiu tudo. Voltamos por onde subimos e num instante estávamos lá embaixo. Seguimos a trilha de areia para a área próxima ao mangue. Aí a trilha ficou gostosa. A areia molhada fica durinha e adere ao meu pneu. Nos perdemos umas duas vezes e finalmente saímos na estrada para Serrambi. Mas antes passamos pela trilha na floresta de Mangue muito agradável.

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Fomos para a casa de Ricardo Carvalho em Enseadinha mas ele não estava lá. Então decidimos ir para a casa de Tárcio, afinal hoje é o aniversário dele e íamos dar um abraço. Mas ele estava caminhando na praia. Fomos para a praia tentar encontrá-lo.  A praia estava deserta e fomos para o Pontal de Serrambi onde tiramos umas belas fotos.

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Nade de encontrar o Tárcio. Já estava ficando tarde e decidimos voltar para Recife. Na volta, fomos pela Rota do Atlântico, agora no sentido inverso e aproveitei para localizar o ponto onde a autopista encontra a estrada ancestral, por volta do KM 33.

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Chegamos em Recife por volta de 12:30.
Conclusões: O passeio foi curto e tinha tudo para dar errado. Desde o baixíssimo quórum até a chuva, tudo atrapalhou. Felizmente a mudança de região deu certo. Pegamos muito sol e a trilha em Serrambi foi uma delícia.

Lições aprendidas:

  •  Quando chove não dá mesmo para forçar a barra com o pneu on-road. É perigoso, chato e cansativo. No entanto .. todavia … porém … a trilha de areia não tem problema algum. Pelo contrário. Fica até melhor. Isso significa que quando estiver muito molhado vamos para Serrambi ou para a Trilha do Coqueiro Solitário. Quando fizer sol, tá liberado para tudo quanto é canto.
  • O Pneu Karoo 3 parece que é bom mesmo. Mal posso esperar a chance de experimentá-lo na trilha.
  • É importante levar uma machadinha ou um facão para fazer a picada no meio do mato.
  • Ainda tem muita trilha na Mata do Zumbi.

No fim de semana tem mais 🙂

 

 

 

 

 

Do caos a lama

Noite de quarta feira (14 de maio de 2014) em Manguetown e a greve da Polícia Militar é deflagrada. Começa o caos que dura pouco mais de 24 horas. Na manhã da sexta feira a vida volta ao normal. Será ? Normalizou mesmo ? Em outras palavras, vai dar para fazer uma trilha de moto no sábado  ? Isso é o que interessa. Não bastasse os últimos dias de chuva em Recife, ainda por cima essa greve da polícia que estimulou a bandidagem a ir para a rua.

Não andava de moto desde o dia 1º de maio quando fiz um belo passeio com o Bruno Gomes e o Alexandre Dessani até Nova Cruz. Finalmente a trilha que liga a praia até Cruz de Rebouças estava marcada de forma inequívoca. Trafegável com moto, trilha fácil.
Mas agora, sábado dia 17 de maio, longínquos 16 dias depois do feriado do Trabalhador, as perspectivas de fazer um bom passeio não eram boas. Homero está em São Paulo, Tarcio com impedimentos detranísticos (leia-se carteira de motorista emitida por engano sem a categoria A impressa), Omar sempre trabalhando no sábado. Meus companheiros não-coxinha me abandonaram. O Brunão até encarava mas já havia se comprometido a fazer um passeio 100% asfáltico para Tracunhaem. Fiquei definitivamente sozinho. Vou ficar em casa assistindo televisão. Eis que pelo Whatsapp consigo convencer Hodor (leia-se Brunão) a dar uma escapadinha no passeio asfáltico e subir a Serra das Russas pela trilha do “Esqueleto da Gata”. Agora sim ! Sendo assim, diga ao povo que eu vou para o passeio de moto no sábado. Ainda tentei cooptar o Robson mas ele ia fazer plantão no feirão da casa própria.
O ponto de encontro é o posto Ypiranga em frente a CHESF na Abdias de Carvalho. De fato é bem mais fácil de achar porém a lanchonete é muito pequena. O roteiro proposto por Odilon partia dali, parava na Tapiocaria Cabana de Taipa em Bonanza e seguia pela PE-050 até Glória do Goitá, depois PE-090 por Lagoa do Carro onde uma visita ao Museu da Cachaça, depois Tracunhaém e almoço no Panela Cheia em Carpina.
Cheguei realmente muito cedo no Posto e tomei um saudável café da manhá a base de sanduiche natural de ontem e uma caixinha de todynho. Exatamente as 7:31 chega ao posto um Gigante montado numa F800 GS branca, belíssima. Era o Gian, o primeiro a chegar. Abasteceu a moto, logo em seguida se apresentou, muito simpático. Conhecia uns poucos do grupo e veio convidado pelo Odilon. Em seguida chegou um monte de gente e a coisa animou. O próprio Odilon, o Sílvio, o Heráclio, o Casagrande, Brunão (ainda bem), João Guerra, Emerson Bueno, Newton Tenório, Elder Maranhão. Chegaram também o Mateus numa XJ6 e um outro piloto numa belíssima Fazer 600. Chegou também uma Harley Davidson, mas foi só uma coincidência. Não fazia parte do grupo.
Conversa animada, e enquanto os líderes decidiam os detalhes do roteiro eu parti para a jugular. “Brunão, você prometeu para mim que ia subir a serra comigo ! Não vai amarelar hein ?”. O Hodor Mineiro segurou a onda. Tamo nessa. Prometi ao Brunão que sairíamos do grupo, faríamos a trilha e logo em seguida nos rejuntaríamos ao grupo novamente. Trilha garantida, passei para o modo “cooptar”. E aí seu Gian ? Gostaria de fazer uma emocionante trilha no topo mais alto da Serra das Russas ? O outro gigante ficou interessado … Olha só ?! Será que faríamos a trilha a 3 ? Veremos.
Turma animada

Mesa com Elder e Rosana, Emerson Bueno, Mateus, Odilon e Newton Tenório

Brunão em ação

Bruno encara a saída da trilha

Emerson e a ST dando show

Olha a Super Ténéré no Mato !!! O Emerson encarou a trilha muito bem

Gian em ação na serra das russas

Gian mostra como é que se faz

Partimos para a BR 232 liderados pelo João Guerra. O dia era de sol entre nuvens mas sem sinal de que iria chover. Passeio tranquilo a deliciosos 100km/h quando de repente o Newton agoniado acelerou e foi cutucar o JG !! Acelera rapaz, isso tá devagar demais. JG acelerou para 120km/h !!
Cabana de Taipa alcançada, nos instalamos nas mesas e tome conversa. O grupo sempre muito simpático e ainda mais enfeitado pela presença das Myladies. Hodor, como não poderia deixar de ser, tava morto de fome. Numa das mesas mais animadas, estava o Elder sempre com o astral magnífico, Newton Tenório conversando muito como sempre e o Emerson Bueno, que eu não conhecia. Ele tinha ouvido falar de uma trilhazinha aí que ia rolar e tal … OPA ! Mais um interessado. Eu jurei de pés-juntos que tudo que falam de mim são exageros, que a trilha é “light”, que a foto que o Hugo Falcão postou no Whatsapp era só gréia, que exceto pela força de gravidade, a subida da Serra pela trilha era “moleza”. Eu nunca digo que é difícil, já perceberam ? O Emerson topou. Caramba !!!! Será que eu tô ouvindo coisas? Tendo alucinações ? Uma das Super Ténérés vai para a trilha com a gente ???? Se o Emerson for (e sobreviver) vai ser um troféu e tanto ! Num vai mais ter explicação de dono de Transalp para deixar de fazer trilha com a gente ! Se a ST faz .. a TA também faz !!!! Mas era isso mesmo, Emerson segurou a onda e vai com a gente. Já éramos 4: eu, Brunão, Gian e Emerson. Tá bom demais.
No topo, na trilha

Os 4 cavalheiros no topo da Serra das Russas: Gian, eu, Bruno e Emerson (esquerda para a direita)

Combinei com o Gian para ele ficar por último e dei um walkie-talkie para ele. A experiência na Trilha da Ilha do Coqueirinho ensinou que um par de radinhos de 40 reais pode facilitar muito os mamão-check. Um rádio no guia, um no ferrolho e estamos bem. Partimos com o grupo inteiro pela BR-232 e na bifurcação para a PE-050 nos dividimos. Os 4 cavalheiros encarando o caminho para Pombos e a subida pela trilha. Era tudo que eu queria.
Lá vamos nós a módicos 100km/h na BR 232 quando o Gigante Mineiro (num tô falando do Cruzeiro não) buzina atras de mim “Acelera ! miserávi !!” .. Oxente ? Eu já tô a 100 e o cara quer que eu vá mais rápido ? Danou-se .. é o jeito. Acelerei para 120 na saída de Vitória de Santo Antão. O Speedy Gonzales Mineiro num tava satisfeito ! Toma buzina ! Mais rápido sua paca manca !!! Danou-se !? Eu já tava com medinho mas o jeito foi acelerar para 140km/h !! Quem disse que o Brunão tava satisfeito ? Ele queria mais !! Mais rápido nessa porcaria rapaz ! Mas ainda bem que já estávamos no pé da serra. A entrada para a trilha fica no sentido Gravatá-Recife (descendo) e nós estávamos no sentindo inverso. Atravessamos para o outro lado e antes de pegar a trilha, orientação para desligar o ABS. Só que na SuperTénèrè num tem essa opção. Pegamos a trilha. Muito cascalho na trilha sinuosa e íngreme, pneus de asfalto e para completar, pilotos com pouca experiência. Mas todos passaram bem pela parte mais íngreme da curtíssima trilha. A SuperTénéré morreu num ponto particularmente chato com muito cascalho. Aí o controle de tração ajudou bastante. De uma forma tranquila a motona subiu a trilha sem maiores incidentes. Uma suavidade e facilidade impressionantes. Assisti tudo lá de cima. Muito mato, capim navalha, carrapicho, algumas erosões e chegamos lá no topo da Serra, no local da tradicional foto enquadrando as duas variantes da BR 232 subindo/descendo a Serra das Russas, com direito a ponte e tudo.
Voltamos para a BR 232, tirei umas fotos das “moto en assão” cruzando uma poça dágua que faria qualquer vigilância sanitária dar pulos. Mas o principal havia sido conquistado. A Superténéré fez uma trilha com a gente! Agora não tem mais argumento, num vai ter mais dono de Transalp dizendo que a trilha é radical demais. Se a SuperTénéré passa, a TA passa também. É viável. Verdade que o piloto da ST em questão tem quase 2 metros de altura (dos quais presumo que uns bons 1,2m sejam só de pernas).
Outro ponto positivo foi que no grupo dos 4 cavaleiros, eu era o “baixinho”. Nada mal né ? Eu tenho 1,81m
Descemos a Serra pela BR, cruzamos para o outro lado no mesmo ponto em que entramos na trilha, subimos a Serra e fomos para Bezerros. De novo o Hurried Hodor buzinando para eu acelerar ! Tive que chegar a 140 por hora ! E por vários minutos!!! Entramos em Bezerros e saímos pela PE-097, uma das estradas mais belas e mais bem conservadas de Pernambuco. Ideal para motos bigtrail e para quem gosta de asfalto. Sinuosa, sem ser perigosa. Rodeada de paisagem belíssima, ainda mais agora num inverno úmido que deixa o agreste pernambucano todo verdinho que dá gosto que nem o Luiz Gonzaga cantou em Asa Branca 2, o retorno. Pegamos a PE-095 em Ameixas e saímos do céu para o inferno. Estrada esburacada de dar dó. Limoeiro nos ofereceu uma parada para refrescar e tomar uma deliciosa água de coco. Reabastecemos as motos e Brunão manteve contato com o Elder que nos informou que o grupo já estava em Tracunhaem. Estamos indo ! Espera a gente aí. Seguimos para Carpina pela PE-090 e quando contornamos a rotatória para pegar a estrada para Nazaré da Mata nos deparamos com o grupo no sentido contrário. Paramos no Panela Cheia e degustamos uma deliciosa costela no bafo.
Já eram quase 14hs mas a fome só não era menor do que a vontade de contar/ouvir para/dos os amigos como fora o passeio. Animação geral, tiração de onda, muita gréia, boas risadas e surpresa geral da nação Bigtrail com o fato de que os 3 corajosos que caíram na minha conversa mole de fazer trilha tinham sobrevivido incólumes. João Guerra (que havia voltado a civilização depois da tapiocaria) duvidou e tivemos que mandar uma foto de Gian para ele pelo Whatsapp. O Odilon serviu de testemunha.
O saldo do passeio foi muito positivo. Conhecemos pessoalmente vários colegas com os quais só tínhamos interagido via Whatsapp ou o Portal. Consegui inocular o vírus da trilha de aventura em mais dois pilotos: Gian e Emerson. O Brunão completou a sua conversão.
Nos despedimos na escadaria do restaurante ouvindo promessas de novos passeios semelhantes.
Mal posso esperar.