Tatus no Jalapão – Dia 6

Jalapão or Bust!

Bust.

Simples assim.

Nosso grito de guerra para o dia 6 poderia ser esse. Só que não. Minha ideia era partirmos de Corrente bem cedo e dormimos no Jalapão … ou morrer tentando! Desistir jamais! Mas que papo é esse de “desistir”? O dia mal começou!

Saímos cedo de Corrente e pegamos o asfalto por apenas 20km até entrarmos a direita na estrada de terra que serviria de atalho que nos economizaria uns 50km de estrada de terra até Mateiros em Tocantins, nossa planejada base no Jalapão. A estrada de terra rapidamente se transforma em trilha e a paisagem é deslumbrante.

A vegetação já se parece mais com uma mistura de caatinga e cerrado com manchas grandes de mata atlântica. Está úmido pois choveu na noite anterior.  Nada demais, algumas poças d’água e um pouco menos de poeira. Mas ainda tinha poeira. Algumas bifurcações nos forçaram a verificar direitinho no GPS qual caminho tomar. Paramos para esvaziar os pneus e aparece um senhor numa Fan 125. Perguntamos a ele como era o caminho para Coaceral, na Bahia. Ele afirma que temos que cruzar a serra e que o caminho é difícil mas dá para passar. Outro encontro com uma jovem senhora numa 125 e ela se assombra ao saber que vamos tentar passar a serra. A trilha vai ficando mais travada e mais legal, mais técnica. Numa outra bifurcação Saulo tem a feliz ideia de perguntar a um menino de 8 ou 9 anos qual é o caminho. Ele só sabe ir até a casa da avó. Brilhante!

Mais um trechinho de estrada, por enquanto.

Achamos o caminho definitivo e de repente a estrada some e vira um single track seguindo em paralelo a um grotão enorme que parece que não acaba mais. Estamos fora da track marcada pelo GPS. Tem algo errado. A single track fica super sinuosa e de repente encontramos um grupo de rapazes e um deles de moto. Perguntamos novamente sobre o caminho para Coaceral e o Francisco, o rapaz com a moto,  afirma categoricamente que nossas motos não passam. Eu duvido, como sempre, e peço ao Francisco para nos levar até o ponto que ele considera intransponível. Eis o caminho que ele guiou a gente

A trilha vai ficando mais travada ainda, uma delícia, e até agora as F800GS conseguem acompanhar a Bros 150 de Francisco. Subimos uma erosão e ele pede para deixarmos as motos ali e irmos dar uma olhada na subida da serra, a pé. Eu vou na frente e Saulo fica descansando. A subida é um caminho de pedestres, quase uma escadaria esculpida na erosão da terra. A trilha vai subindo e estreitando até um ponto que vira uma fenda na terra, seguindo a serra no fundo de um V estreito. De fato nossas motos não passariam facilmente por aqui. A de Tio Saulo com os baús laterais definitivamente não passaria. Ainda tem jeito, tiraríamos os baús, levamos lá para cima e remontamos. Vou subindo a ravina até chegarmos ao topo onde o ponto de vista me dá uma real noção do tamanho da bronca.

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Ravina criada pela erosão. Profundidade 10 metros

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Alto da Serra

A estrada não existe mais. A erosão levou. De lá de cima dava para ver perfeitamente o traçado original da estrada e como a erosão transformou todo esse trecho numa vala de erosão. O grotão que tínhamos visto lá embaixo na verdade era a “estrada”. Para sepultar de vez essa alternativa de atalho, no alto da serra a trilha segue ao lado de uma ravina de uns 10 metros de profundidade. No meio da trilha, lá no alto, uma estreita passagem é bloqueada por uma rocha encravada no barro. Teríamos que passar as motos por cima num risco enorme e sem margem de erro. Errou, despenca 10 metros. Foi o que aconteceu com o irmão de Francisco. Isso sem falar no trabalho hercúleo de arrastar duas f800gs completamente carregadas morro acima na fenda da erosão. Por aqui não vai dar.

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Francisco e eu com a Azul

Tirei umas fotos, filmei o depoimento do Francisco e pelo rádio avisei a Saulo que por sua vez já estava resignado e procurando uma alternativa no GPS. Francisco nos informa que tem um caminho mais ao sul, partindo da estrada asfaltada que liga Corrente a Barreiras. Decidimos ir por lá. A viagem que teria um atalho de 50km agora tem mais 46 de ida e volta a esse ponto intransponível e mais 70km de estrada de terra até Coaceral.

Voltamos para o entroncamento com a BR-135. Como já conhecíamos a estrada, aceleramos.

O tempo úmido, nublado já anuncia o que está por vir. Saímos do asfalto e pegamos o que viria a ser a pior estrada de toda a aventura.

Pior que uma estrada de terra é uma estrada de asfalto totalmente abandonada. Estávamos já na Bahia e a estrada que liga a BR-135 a Coaceral aparece no Tracksource como asfaltada e tem 78km de extensão, é a BA-225. Só que não há asfalto, apenas vestígios de um passado remoto. Não há marcações, praticamente não tem sinalização ou placas. O asfalto aparece e desaparece e quando aparece é cheio de buracos em forma de panelas. Não dá para desenvolver boa velocidade e o risco de acidente é alto. Temos que ir devagar e afastados um do outro para permitir que o colega faça desvios de rota em toda a largura da estrada. Muito tenso.

Tive que me concentrar na pilotagem para evitar os buracos. Parecia um jogo de videogame em que você vai perdendo pontos ao cair nos buracos. Devido a essa concentração não observei a paisagem ao lado da estrada. De repente me vi num lugar estranho. A estrada era plana assim como os campos ao lado da estrada. Havia algum tráfego de veículos 4×4 e caminhões pesados, os prováveis causadores do avançado estado de deterioração da estrada. De repente uma placa com uma chamada “Coaceral foi esquecido”. Uma reclamação dos que fazem uso da BA-225.

Não havia mata ou catinga ao lado da estrada. Só campos desmatados. A medida que nos aproximávamos de Coaceral os campos nus se transformavam em plantações extensas. Estávamos entrando na região dos grandes empreendimentos agrícolas. Campos de 5 a 10km de soja e/ou milho em diversos estágios. Aqui e acolá um grande silo ao lado de uma pequena estrutura administrativa. Uma instalação da Cargil se destacava. Passamos por um aglomerado com um posto de gasolina, uma borracharia e um pequeno prédio que não identifiquei o que seria. O vestígio de asfalto acaba definitivamente e temos que pegar uma bifurcação. Não eram mais estradas e sim caminhos de acesso aos campos de plantação. Perguntamos a um caminhoneiro qual o caminho para Mateiros e ele não sabia informar. Ele só conhece as fazendas ao redor. Decidimos voltar ao posto e perguntar qual é o caminho para Coaceral e de lá para Mateiros. O frentista informa: isso aqui que vocês estão vendo é Coaceral. Não é uma cidade, é um … entreposto… um ponto de apoio logístico para as dezenas de enormes fazendas da região. Ninguem é do local. A paisagem é desértica como nos filmes de faroeste americano. Um monte de coisa nenhuma no meio de lugar nenhum. Decidimos abastecer as motos e descansar um pouco, afinal já são 13hs e estamos rodando desde as 7 da manhã a partir de Corrente. Enquanto fazemos as coisas uma ventania enorme levanta uma tempestade de areia. Atrás da tempestade de areia nuvens carregadas despejam a chuva num campo de uma fazenda ao norte da nossa posição.

Eis um vídeo do temporal. Observem o raio

No bar/venda/restaurante do posto ninguém sabe informar o caminho para Mateiros. Um cara de moto escuta nossa conversa e afirma que veio de lá, nos descreve o caminho. Ele diz que estrada está boa e que não teremos problemas. Checamos as informações que ele dá e bate com a marcação do Tracksource no GPS. Decidimos então encarar o caminho. Algumas gotas de chuva esparsa dão uma molhadinha, voltamos para o fim do asfalto e pegamos a terra. Marquei então alguns pontos meta intermediários ao longo do caminho para seguirmos a rota. Não há qualquer marcação de cidade, vilarejo, posto de combustível ou qualquer outra coisa entre o Coaceral e e Mateiros.

A essa altura a chuva já havia transformado a terra em lama. As motos patinavam e estava difícil de pilotar. Para complicar, a tempestade de raios era forte. Nossas motos eram as únicas coisas mais altas em dezenas de quilômetros ao nosso redor. O risco de levarmos um raio era muito grande. Encaramos assim mesmo.

Começou a chover sobre nossas cabeças.

Numa bifurcação no meio do nada, no meio de um campo de plantação, o GPS me indicava que tinha que ir para a direita. Só que não havia estrada ou caminho a direita. Apenas um rio raso com uma forte correnteza apesar do terreno tão plano. Decido pegar a esquerda e contornar e para meu desespero vejo que estamos indo para uma direção completamente diferente e sem nenhuma marcação de alternativa de voltarmos a rota. Decidimos dar meia volta no meio do campo e enquanto Saulo se desembaraça rapidamente, eu dou uma bobeira e a minha moto atola. O terreno está tão escorregadio que não dá tração nem para minhas botas. Tento mas não consigo, vou precisar de ajudar de Saulo para desatolar. E da corda. Ele dá meia volta e depois de muito esforço consigo virar a minha moto de volta a trilha. Voltamos ao ponto da bifurcação e confirmo que o caminho realmente está intransitável. A chuva aparentemente leve derrubou um dilúvio sobre o imenso campo e alagou tudo que não é  curva de nível e proteções contra erosão.

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Não vai dar.

A conclusão é essa. O caminho que escolhemos está bloqueado pela chuva/inundação/lama. Mesmo que forçássemos a barra e cruzássemos a inundação (cuja profundidade nós só podíamos imaginar mas cuja extensão sabíamos e víamos era imensa), ainda teríamos que encarar o massapê por dezenas de quilômetros numa região absolutamente deserta, sem sinal de celular. Para complicar num sábado, ou seja, folga de caminhoneiros que são as únicas criaturas bípedes que se aventuram por essas bandas. E para complicar ainda mais … estava ficando escuro.

Bust.

O caminho alternativo adicionaria mais de 1000km a viagem o que resultaria num atraso ainda maior. Tio Saulo tem compromisso em Manguetown no dia 10 e não daria para aproveitarmos as belezas do Jalapão. Não vai dar, não vai ser dessa vez, não vamos ao Jalapão.

Quando essa conclusão racional finalmente se sedimentou em minha mente eu tive um colapso nervoso. Estava cansado, molhado de chuva, com frio, com fome, esgotado pelo esforço de desatolar a moto, com medo de ser fulminado por um raio a qualquer momento e para coroar decepcionado porque não ia ao Jalapão. Surtei. Queria ir para casa ficar abraçado com a minha mulher, me teletransportar. Sair dessa roubada. E aí pensei que ia ter que encarar os 71km de asfalto sonrisal de volta a BR-135 .. era demais. Desabei.

Nessa hora Tio Saulo pode retribuir as inúmeras vezes em que ele se sentiu do mesmo jeito nas trilhas light que fazemos em Pernambuco. Vários amigos já passaram por isso, pelo esgotamento físico e psicológico de enfrentar uma trilha pesada com uma moto mais pesada ainda como a F800GS. As palavras de motivação são fundamentais para fazer passar esse surto.

Usei a força da mente racional para superar essa crise de frescura. Já tinha tido isso há anos quando sofri o acidente com a moto de Ricardo Carvalho. Na queda eu machuquei o ombro e fiquei algum tempo sem pilotar moto. Por força da mudança do flat para a minha casa, alguém tinha que levar a minha moto para o novo endereço e eu fui pilotá-la depois de semanas sem nem olhar para ela. Quando saí da garagem e encarei a avenida me deu um pânico e pensei que nunca mais ia andar de moto. Não pode! Mentalizei, encarei, acelerei a moto e mandei ver. A crise de frescura passou.

Pois bem. Era hora de usar a mesma técnica. Foco na pilotagem. Acelerei e a adrenalina me curou. Entre as panelas e poças e costelas de vaca e crateras da pior estrada, abri uma vantagem sobre Tio Saulo no caminho de volta a BR-135. Passou a frescura. Fiquei bom.

Abri uma vantagem muito grande em relação a Tio Saulo e decidi reduzir para ele me alcançar e pilotar a minha frente. Seguimos assim durante boa parte dos 71km com velocidade média baixíssima e aí .. começou a chover. Muito.

Eis o percurso

roteiro do dia 6

Dá para ver no mapa acima que boa parte do percurso foi ida-e-volta sem sucesso. O caminho para Barreiras ainda levaria 167km a partir desse ponto mais ao sul no mapa.

Chegamos a BR-135 e a chuva não dava trégua. A ideia era seguirmos para Barreiras, pernoitar lá e no dia seguinte seguirmos para a Chapada Diamantina. Aliás, a Chapada era o nosso destino original e mudamos para o Jalapão por causa das notícias dos incêndios. Como uma força invisível que decidia os nossos destinos, nos vimos forçados a encarar a Chapada. Mas antes precisávamos chegar a Barreiras. São 170km apenas, numa estrada com muitos caminhões e debaixo de chuva. A noite.

Paramos num posto para colocar a capa de chuva e no caso do Tio Saulo trocar de jaqueta pela Bogotá da Alpine Star, supostamente impermeável. Eu preferi as confiáveis capaz plásticas e usei a técnica do Charlie Boorman para manter os pés secos. A bota Forma Terra Adventure é impermeável mas não se você submerge num rio, como aconteceu comigo lá perto de Coaceral. Minhas meias estavam encharcadas e a bota não ia secar levando chuva o tempo todo. Um saco plástico de lixo em cada pé, meias secas e conforto da capa. Encaro até o dilúvio de 40 dias e 40 noites. Voltamos a estrada e escurece rapidamente. Noite fechada, chuva constante, trânsito intenso na noite do sábado.

Outra parada no meio do caminho e eu desisto de usar os óculos. O frio e o vento mantém ele permanentemente embaçado e com as contra luzes dos faróis dos carros em sentido contrário eu fico completamente cego. Para complicar, a moto começa a dar as farrapadas. Abaixo de 4000 rpm só falha na aceleração. O fantasma da bomba de combustível fajuta da BMDafra volta a assombrar e no pior momento e lugar: no meio da BR-135, a noite, debaixo de chuva. Saulo vai a frente guiando e eu tento acompanhá-lo mas a moto começa a perder força. Percebo que acima de 4000 rpm a moto funciona bem e decido ir reduzindo as marchas e acelerando mais. Qualquer quilômetro a mais percorrido é um quilômetro em direção a civilização. A moto vai falhando e eu controlando para ela não dar acelerada súbita e perder aderência na pista molhada. Misteriosamente, após uns 30 quilômetros as falhas somem e a moto volta a ser aquela seda, suave, aceleração limpa sem engasgadas.

Chegamos em Barreiras as 19:20, depois de termos saído as 7:03 de Corrente no Piauí. Foram 12 horas de estrada sendo que 7h23m de deslocamento, uma boa parte delas debaixo de chuva. Rodamos no total 485km para um deslocamento efetivo de apenas 231km de Corrente Piauí e Barreiras Bahia.

Abastecemos as motos e procuramos um hotel por perto. Achamos um belo hotel que tinha piscina e eu mal podia esperar para experimentá-la. Tio Saulo achava que a água deveria estar fria depois de toda essa chuva. Eu não me importava. Queria flutuar na água, mesmo que gelada. Enfrentamos frio, frustração, chuva, escuridão, cansaço, exaustão, calor, poeira, falha na injeção de combustível, lama, poupança confiscada no Plano Collor, tudo isso nos fez merecedores de um luxo.

Chego na piscina e a água está surpreendentemente morna. Ao lado tem um bar e a garçonete me serve uma cerveja bem gelada, deliciosa. Deus existe. Relaxo por vários minutos. Pergunto a garçonete como é que a piscina está tão deliciosamente morna e ela me conta que em Barreiras o dia foi de sol forte e só choveu, pouco, no início da noite. Ou seja, a chuva chegou conosco.

Mando a garçonete servir uma Heineken para meu amigo Saulo lá no quarto. Termino o mergulho e levo outra para ele. Mas ele nem bebe. Vamos jantar e peço uma salada deliciosa com presunto e atum.

De longe, o hotel em Barreiras foi o melhor que ficamos durante toda a viagem. Além de barato, as instalações são bem modernas, bem cuidadas, tudo organizadinho nos conformes.

Amanhã começa a versão Tatus Na Chapada do que era antes Tatus no Jalapão. São 470km de estrada asfaltada até Lençóis na Bahia e a viagem deixa de ser aventura e passa a ser moto turismo. Ao alcance de qualquer coxinha.

Mas eu sempre vou por uma pimenta …

 

 

 

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Tatus no Jalapão – Dia 5

O dia de reparos.

Amanhecemos em Bom Jesus do Piauí e eu com a ideia de seguirmos direto para Mateiros em Tocantins. Afinal, eram apenas 425 quilômetros, sendo que uns 250 sobre asfalto. Tio Saulo me convenceu a pararmos em Corrente ainda no Piauí. Estaríamos mais perto de Mateiros e poderíamos tirar a tarde para descansar melhor, revisar as motos e principalmente, consertar os empenos e armengues na moto dele.

Tomamos um café da manhã surpreendentemente honesto no pior hotel de toda a viagem. Demos uma revisada básica na moto de Saulo que havia levado dois tombos fortes no dia anterior na Serra Das Confusões. O baú lateral direito tinha quebrado o engate e agora só permanecia preso por estar amarrado ao suporte. O suporte esquerdo estava envergado e em contato com o escape. Para Tio Saulo isso era o fim. Tentamos desenvergar na força bruta e o máximo que conseguimos foi livrar alguns milímetros para evitar que o suporte mantivesse contato físico com o escape. Para consertar definitivamente seria necessário desmontar tudo e desenvergar. Enquanto fazíamos isso, Tio Saulo percebeu que a lanterna traseira não estava encaixada corretamente na carenagem. Em comparação com a minha moto dava para ver que tinha algo errado.

A paisagem de Bom Jesus era bizarra. Acordamos sob uma forte névoa de queimadas. Especulei que era fumaça oriunda das queimadas na Amazônia. O dia estava meio nublado e úmido e ainda muito quente. Dá para ver no vídeo abaixo a névoa. Não é sujeira na lente ok ?

Abastecemos as motos num posto Ipiranga e comprei um limpa viseira/desembaçante que se mostraria muito útil no dia seguinte. Comprei também dois pares de protetores auriculares e removi a pala do meu capacete para melhorar a aerodinâmica. Essa modificação foi muito conveniente e tornou a pilotagem mais confortável.

Pegamos a estrada BR-135 em direção sudoeste. Asfalto bom, algum tráfego de caminhões e pouco depois das 12hs estávamos em Corrente. A vegetação era mais verde, as árvores mais altas. Estávamos em outro bioma, diferente do sertão nordestino típico. Fomos direto ao hotel Rino e deixamos a tralha lá. Decidimos pôr as motos para lavar enquanto almoçávamos.

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Motos sendo lavadas

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Almoço em Corrente, Piauí

O lavajato não usava querosene mas estavam dispostos a aplica-lo se trouxéssemos. Procuramos no comércio e compramos um litro de querosene. Deixamos as motos lá e fomos almoçar, as 16hs as motos estariam prontas. Comemos um bom pedaço de coxão mole acompanhado de arroz feijão e salada. Muito frugal e rústico e delicioso. Ainda tivemos direito a uma porção de sarapatel de tripa de suíno que estava uma delícia. Voltamos ao lavajato antes do horário combinado e as motos estavam quase prontas. Dá gosto de ver. Nessas horas o espírito coxinha prevalece. Tio Saulo aproveitou para ver o que estava errado e precisava ser consertado em sua moto. Voltamos para o hotel no finzinho da tarde e começou o Boko’s Garage On The Go. Desmontamos o bagageiro da moto, suporte de lanterna e descobrimos que a mesma estava apenas mal encaixada. Primeiro problema resolvido. Agora os suportes dos baús. Terminamos quando já estava escuro e tudo ficou razoavelmente bom. O empeno no suporte não deixava as coisas perfeitamente simétricas como o Saulo exige mas ficou muito bom. Revisamos os apertos, tudo em ordem, fomos dormir.

Num dia em que percorremos cerca de 250km em meio dia, não houve muita novidade. O hotel era muito agradável, cercado por uma mata bonita. Os quartos eram amplos, com 3 camas e um banheiro grande. Dava para ver que era projeto da década de 80. Só que o hotel estava realmente muito derrubado. Tudo funcionando, diga-se de passagem, mas tudo muito gasto e precisando de ajustes. O banheiro tinha vários vazamentos, o piso algumas pedras quebradas, as fechaduras eram antigas e gastas. O clima ameno só era perturbado por um ensaio de meninas modelo de um projeto social com sede em Brasília e que atuava lá em Corrente. Eu desconfiei  que era aliciamento de menores mas na verdade não havia nada de errado. Só bizarro. Era meio estranho ver um monte de meninas dançando “Danúbio Azul” com um “príncípe” improvisado num rapazinho lá de Corrente. Muito bem intencionado, mas nem assim as meninas candidatas a modelo se entusiasmaram pelo charme do Príncipe.

A noite saímos para jantar na festa religiosa em frente a Igreja Católica no centro da cidade. Procuramos algum lugar para comer e no fim nos contentamos com uma sanduicheria na entrada da cidade. Fomos dormir cedinho com a sensação de que as motos estão limpas e preparadas para o que der e vier.

Amanhã chegaremos ao Jalapão !!! Pelo menos era essa nossa ilusão.

Tatus no Jalapão – Dia 2

O “cerumano” e a sua incrível capacidade de se adaptar as mais adversas situações. Sim, se adaptar pode ser se acostumar a um calor de 38/39 graus e achar 33 graus um “friozinho gostoso”. Pois foi isso que aconteceu conosco na noite do dia 2, quando chegamos as 18:30 a cidade de São Lourenço do Piauí. Mas como isso pode acontecer ? Comecei a história pelo fim.

Amanhecemos em Petrolina depois de uma noite onde jantamos um bode assado no Ângelo, regado a muita cerveja Heineken, a preferida do Tio Saulo. Também explico já já porque decidi chamar meu companheiro de aventura de “Tio”. Sob o belíssimo céu limpo e cristalino de Petrolina, em plena seca do El Nino, havia uma sombra que pairava sobre nós. A minha moto tinha morrido em pleno funcionamento duas vezes no fim do dia anterior. Sem motivo aparente a moto desligou. Duas vezes. Quais seriam as possíveis causas ?

  1. Gasolina adulterada quando abastecemos em Belém de São Francisco,
  2. Imperícia do condutor (nunca pode ser descartada)
  3. Síndrome da bomba de gasolina com defeito (mal que assola as BMDafras)

Acordamos por volta de 7 horas para o que planejávamos ser um trecho “fácil” de apenas 304 km até São Raimundo Nonato no Piauí. Fomos abastecer a moto num posto Shell para isolar a variável da gasolina adulterada. Adicionalmente e por via das dúvidas, enchi o tanque da moto com gasolina Shell Dupliplusboa Extra Good Aditivida Juramentada Abençoada. Se o problema era gasolina, agora o tanque cheio da supergasolina deveria resolver.  Logo depois do posto, um susto enorme. Minha moto jorrava gasolina e deixava um rastro por onde passava. O perigo era cair gasolina no escape quente e a coisa toda pegar fogo. Saulo que notou que estava vazando gasolina e me avisou. Meu primeiro pensamento foi “trincou o tanque de gasolina e a aventura acabou”. Nada disso. O incompetente do bombeiro (e do piloto) não fechou a tampa do tanque após abastecer. Fechei tudo, deixei a gasolina que escapou do tanque evaporar e seguimos caminho.

 

Antes de pegar a estrada a paranoia sobre a causa do problema na minha moto nos fez passar numa loja de peças da Bosch e comprar uma bomba de combustível de reserva. Relatos de vários proprietários de BMDafra F800GS contam histórias terríveis de bombas de gasolina que deixaram os pilotos na mão em pleno meio de lugar nenhum. De fato, a posse desse artigo místico, a bomba para carros 1.0 que segundo o Papa Piu (também conhecido como “O Durigan”) pode ser usada na F800GS me dava uma tranquilidade enorme. Resultado é que saímos de Petrolina perto das 10 horas da manhã. Mas sem problemas, o trecho é moleza e temos muito tempo para percorrer apenas 300km. Decidimos então fazer um desvio que adicionou 40km ao percurso e pagar uma visita a Barragem de Sobradinho na Bahia. Queríamos ver o maior lago artificial da América Latina. Para mim isso tinha um sabor especial pois eu havia visitado a barragem há 35 anos numa viagem migratória que fiz com meu pai de carro de Belém de volta para Recife.

Saímos de Petrolina em direção oeste, orientados pelo Tomtom, dobramos a esquerda e abordamos a barragem pelo lado norte. Antes de chegarmos a barragem subimos um morro com torres de telefonia celular e de lá tiramos belas fotos. O sertão virou mar, embora o nível da barragem esteja apenas a 1% da sua capacidade, a imagem ainda impressiona.

DSC_0002Figura 1 – O Sertão Virou Mar – Bandeira XT660 na Bahia

Descemos o morro e seguimos até a eclusa, passando sobre a ponte levadiça.

Eclusa light

Mais fotos da obra que permite que os “vapores” subam o Salto de Sobradinho, como diz a música de Sá e Guarabira.

Voltamos pela estrada em direção norte e o nosso próximo destino é Remanso, na Bahia, onde pretendemos almoçar e reabastecer as motos. Passaremos então por Casa Nova. Na música de Sá e Guarabira eram Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho. Todas elas relocadas pelo lago formado no fim da década de 70. Dessas nós visitaríamos 3. Pilão Arcado e Sento Sé ficam muito fora do roteiro.

Mais uma dose de estradas absolutamente retas e monótonas. Só que agora, em pleno sertão e as 10:30 da manhã a temperatura atingiu os 38 graus que no dia anterior só havíamos alcançado no meio/fim da tarde. Agora era constante. Quente. Ligaram o secador de cabelos e apontaram para nossa cara. A viseira do capacete fechada significa uma temperatura mais “amena”.

Sem incidentes chegamos a Remanso por volta de 12:30 e fomos almoçar no restaurante “Velho Chico” que ficava a margem do lago de Sobradinho. Com a seca, a margem recuou mais de 3km. Almoçamos um delicioso surubim frito acompanhado de suco de tamarindo feito artesanalmente. Descansamos um pouco e decidimos visitar as ruínas antes inundadas de Remanso Velho e agora descobertas pela seca. Segundo os locais, há 4 anos que a margem recuou e esse ano vai ser difícil ela voltar ao nível normal.

Esse foi o primeiro teste off-road que faríamos na viagem. Testar as amarrações e fixações de bagagem. A estradinha no leito do lago tinha de tudo: buracos, cascalho, areia fofa, muita poeira. Na saída um pequeno susto provocado pela perda de tração na traseira ao acelerar. Dá para ver no vídeo do youtube. Chegamos rapidamente a nova margem do rio e dá para ver a desolação que a seca provoca.

remanso velho light

Aqui a cor do rio é bem barrenta. A deposição que o lago de Sobradinho proporciona tornou o Véio Chico mais límpido abaixo da barragem. Como aqui é a nova “orla”, o comércio informal já se estabeleceu. Vimos alguns caminhões pipa reabastecendo com água e algumas barracas de bebidas e comidinhas.

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Voltamos pela mesma estradinha para Remanso e vamos pegar a estrada para São Raimundo Nonato em direção ao norte. Para nossa surpresa a estrada marcada como asfaltada na verdade é de terra.

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Nós pedimos, nós recebemos. Agora é encarar. A estrada, fácil, larga. Muito cascalho e pedras e muita poeira. Decidimos baixar a pressão dos pneus antes em estratosféricas 36/42. Com 22/25 as motos ficaram mais macias, menos ariscas, não quicavam tanto. Menos de 10km depois o pneu dianteiro da minha moto baixou. Acho que esvaziei demais. Saulo usou o o fantástico compressor Michelin portátil e pedi para ele por 30 libras e desejando sinceramente que tenha sido só um mal entendido de esvaziamento incompetente. Não era. Poucos quilômetros depois o veredito. O pneu tinha furado mesmo.

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No problemo! Tínhamos uma câmera Michelin 0km para essa contingência. Só que não levamos as espátulas para tirar o pneu. Tentei improvisar com as ferramentas e elas simplesmente envergavam e nada de desmontar a virola do pneu. O jeito é levar a roda a um borracheiro. Saulo encontrou um borracheiro escondido numa ruazinha ao lado da estrada num vilarejo uns 3 km antes do local onde havíamos parado. Enquanto o borracheiro remendava a câmara velha, Saulo trouxe o pneu com a câmara nova, murcho mesmo para eu montar. Me enrolei na hora de montar dei bobeira e as pastilhas de freio saíram da sede. Tem que tirar o pino e a cupilha, montar a roda, montar as pastilhas e colocar as cupilhas. Tudo certo até a hora de fixar as cupilhas, por pura incompetência minha uma delas envergou, “estilingou” e voou em direção ao esquecimento na poeira no meio da estrada. Nunca mais eu a vi. Paciência, essa vai sem cupilha mesmo. Estava ficando escuro e ainda tínhamos muita estrada de terra para encarar, não sabíamos quanto. Roda montada, câmara nova, estrada escura. Chegamos em São Lourenço do Piauí as 18:30, tudo escuro, paramos para tomar uns refrigerantes. Que delícia quando comparado ao forno de 38 frequentes com picos de 39/40 no meio da estrada. Recalibramos os pneus para asfalto usando o fantástico compressor Michelin de Saulo.

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Descansamos um pouco e tocamos para São Raimundo Nonato. Localizamos a pousada que nos recomendaram, Zabelê e finalmente consideramos que havíamos chegado.

O percurso de 300km que deveria ser concluído lá pelas 3 ou 4 da tarde se estendeu até as 7 da noite por causa do pneu furado. E aí cabe um relato interessante.

Sempre aplico a vacina de pneu da Motovisor na minha moto. Há 15 dias, fiz uma trilha com uns amigos e cheguei em casa com o pneu dianteiro furado. Lá em casa tem compressor e enchi o pneu novamente. A vacina tapou o furo perfeitamente tanto que percorri os 700+km até a estrada Remanso/São Lourenço do Piauí sem problemas. Tudo tem limite e a capacidade de cura da vacina estava há muito esgotada. O borracheiro encontrou nada mais do que 4 furos na câmara de ar. Portanto, a vacina tapou 3 de forma eficaz. O quarto furo era grande, um rasgo e aí não tem jeito, foi a lona.

Terminamos o dia bebendo umas cervejas na área comum do hotel, jantar frugal para mim. Conhecemos o Fernando Maia, um paulista (nascido em Pernambuco) que estava fazendo turismo de aventura com sua esposa na Serra da Capivara. Fernando deu dicas valiosas que seriam muito úteis no dia seguinte. O papo foi divertido e rapidamente criamos uma empatia com o Fernando.

Fomos dormir agradavelmente exaustos. O dia seguinte seria cheio de surpresas.