Tatus na Chapada – Dia 9

Este seria o segundo e último dia de turismo na Chapada Diamantina. Uma pena porque passamos pouco tempo e vimos apenas uma fração do que poderia ser visto. A Chapada pede mais do turista. Pede mais tempo. Pede mais voltas. Eu voltarei.

Hoje a ideia de Tio Saulo é fazer nada radical, coisa light, para que acumulemos forças para encarar a volta de mais de 1000km amanhã. Portanto, o planejamento caprichado de Tio Saulo propõe uma visita a Lapa Doce (caverna), a Pratinha (rio com flutuação e relax na água) e a Subida do Pai Inácio (visão panorâmica e belas fotos).

Antes de pegarmos a estrada eu faço um tour novamente pelos locais onde perdi a Bandeira Azul. Tudo em vão. Nada da Bandeira. Espalho a notícia de que há uma recompensa para quem deixar a bandeira no posto de gasolina.

Pegamos a estrada em direção a Lapa Doce, seguindo oeste pela BR-242 e depois ao norte pela BA-122. Tio Saulo como sempre vai guiando. Dia de sol, poucas nuvens, ritmo rápido.

Na beira da estrada a esquerda um painel informa sobre as cavernas de Torrinha e Tio Saulo pergunta se num vale darmos uma olhada, afinal, estamos por aqui e nossos outros destinos (Lapa Doce, Pratinha e Pai Inácio) são próximos. Para mim é jogo e fazemos o desvio que iria mudar completamente os planos.

Chegamos a entrada da atração que se trata de nada mais nada menos que uma das maiores cavernas visitáveis do Brasil e da américa latina. O Eduardo, administrador do lugar, nos oferece um tour especial só para nós dois que incluiria um trecho da caverna que não é visitado normalmente. Ainda dá um desconto no ingresso e nós topamos. Vai começar uma das maiores aventuras da viagem. Tatus espeleólogos em ação. Tio Saulo tira a fantasia de motociclista, veste uma camiseta, bermuda e calça tênis. Como eu não trouxe tênis decido encarar a trilha com a bota Forma Terra Adventure. Ficaria ridículo eu de botas e sunga com dryfit, portanto vou com a calça de off-road mesmo. Decisão acertadíssima. A bota FTA é excelente como bota de aventura, confortável e resistente oferece a segurança e o grip de uma bota de cano baixo dessas de hikers. Com a vantagem de proteger bem a canela, coisa que seria muito útil lá dentro da caverna.

A caverna tem um clima surpreendentemente ameno, com temperatura de 24 graus constantes enquanto lá fora o calor já aparece e ultrapassa os 33 graus. Faríamos uma caminhada de cerca de 10km (contando ida e volta) em cerca de 2 horas. Mesmo com o ar condicionado, o exercício me faria suar bastante. Levamos meio litro de água cada um. Levar mais seria bom mas tem o risco de dar vontade de fazer xixi e lá dentro não pode de jeito nenhum.

Entramos por um salão enorme que já impressionava os pesquisadores até que em 1992 uma espeleóloga francesa achou uma passagem para outra parte da caverna que se descobriu então ser muito maior. Essa passagem original seria utilizada por nós na saída. Entramos por outra passagem artificial escavada para facilitar o acesso. Quer dizer, em termos.

O guia experiente, Toninho, nos explicava os vários espeleotemas. Essa caverna é considerada uma das mais interessantes não pelo tamanho em si mas sim pela variedade e quantidade de espeleotemas. As rosas de Aragonita são muito frequentes e algumas das maiores estão aqui. Formações como estalactites, estalagmites, vulcões de pedra, painéis nos tetos, cristais de gipsita, em tudo quanto é cor, tamanho e sabor.

A caminhada não é fácil. Entre tetos baixos que nos forçam a andar agachados até escaladas de pedras dentro dos salões, descidas e subidas íngremes. As lanternas fornecidas para nós são pequenas e fracas. Senti falta de um farolzão para iluminar tudo e ter uma visão mais panorâmica. As imagens com flash revelam mais coisas do que pudemos ver com as lanterninhas, que de tão fraquinhas coitadinhas, a gente tem que ligar outra lanterna ao lado para ver se estão acesas.

Algumas formações são muito interessantes e são translúcidas.

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Uma delas parece o castelo de Minas Tirth, da saga do Senhor dos Anéis.

Um trecho da exploração é particularmente difícil pois temos que nos arrastar sob um teto muito baixo, de uns 70cm de altura por uns 10 metros. Isso me deixa exausto.

Alcançamos os dois salões principais e o extra e tiramos dezenas de fotos impressionantes. No ponto mais remoto, o guia propõe que desliguemos as lanternas e façamos silêncio para ter uma experiência de privação sensorial. Sempre quis fazer uma dessas e foi legal. Mas a privação não era total. Ainda estava sentindo o peso do corpo sentado no chão. Mais tarde faria uma privação sensorial mais completa.

Hora de voltar, agora a caminhada volta pelo mesmo caminho que viemos, sem pausas para fotografia e com passo acelerado. Toninho e Tio Saulo vão abrindo vantagem e eu estou genuinamente cansado. Ainda tenho que encarar a passagem baixa lá na frente. Fico calado e falo nada durante o percurso. Próximo a saída decidimos usar a passagem que a pesquisadora francesa descobriu e a escalada para fora da caverna fica deveras interessante.

Ao sair da caverna o choque térmico é enorme. Dos amenos 24 graus partimos para 34 graus numa lufada de vento só. Tomamos água, usamos o banheiro. Tio Saulo quer ir para a Lapa Doce e eu veto. Pode ir. Eu não vou. Mais do mesmo não é uma boa ideia. Melhor fazermos algo diferente como a Pratinha e até mesmo o Pai Inácio e se sobrar tempo vamos a Lapa Doce. Tio Saulo então decide ir para a Pratinha e lá vamos nós.

Chegamos a Pratinha para visitar o rio, fazer a flutuação dentro da caverna e conhecer a Gruta Azul. Nesta última não poderemos mergulhar, só observar. A Gruta Azul se conecta ao Rio Pratinha através de uma caverna subterrânea com cerca de 80 metros de comprimento a 13 metros de profundidade. Essa caverna alagada não pode ser mergulhada por visitantes, apenas exploradores experientes.

A má notícia é que a entrada para a Gruta Azul fica a 200 metros da recepção e tem que subir e descer um morro bem íngreme. A foto dá uma noção do esforço. Eu estava esgotado e vou bem devagar. A gruta é interessante e tem que ser visitada logo pois daqui a pouco o sol estará tão baixo que os raios de sol não incidirão sobre a água da gruta causando o efeito “azul” que dá nome a atração. Tudo é muito bonito mas um tanto boring. Volto para a Pratinha. O que eu quero é a flutuação.

Descemos para a beira do rio e entrada da caverna, tiro a fantasia de motociclista e visto o equipamento de mergulho em apneia. Um guia nos leva para dentro da caverna e é como se tivéssemos voltado a um dos salões da Gruta da Torrinha, só que agora flutuando sobre o piso da caverna. Experiência muito legal.

Na parte iluminada da caverna a fauna e a flora é bem exuberante. Plantas aquáticas, algas, peixes de vários formatos e tamanhos. Até uma pequena tartaruga. A água é límpida e cristalina como nas piscinas naturais mais claras do litoral de Pernambuco, onde mergulhei milhares de vezes. A medida que nos afastamos da entrada da caverna a paisagem fica árida e estéril e só o chão e formações geológicas grandes. Nada de estalactite ou estalagmite ou coisa parecida. A água não permite tais formações.

A temperatura fria da água e o movimento lento são muito relaxantes e eu vou-me recuperando rapidamente. Quando chegamos a parte mais funda da caverna a água chega a 13 metros de profundidade, segundo o guia. Pergunto se posso dar uma mergulhadinha sem o colete e ele diz que não é permitido. Em compensação ele diz que dá para fazer a experiência de privação sensorial, pede para nós 3 apagarmos as luzes das lanternas e passarmos um tempo imóveis na piscina dentro da caverna. Escuridão total, silêncio total, ausência de peso. Agora sim. A sensação é muuuito legal. Pena que nós éramos o último grupo e o guia estava com pressa para ir embora. Ficamos pouco tempo e não deu para ter os efeitos alucinógenos que a privação sensorial completa proporciona. Mas a ideia é boa e vou tentar em algum outro lugar depois.

Voltamos para saída da caverna, damos mais uma relaxadinha e tiramos umas fotos.

Já é quase 17hs e o próximo programa é tomar banho na prainha do Rio Pratinha. Basta escalar o morro até a recepção, contornar o restaurante (que já estava fechado) e descer o morro pelo outro lado da caverna. Tudo isso levando na mão as botas, a câmera fotográfica, a calça off-road. Felizmente deixei o casaco e o capacete na moto. Uma mocinha no quiosque que vende os ingressos para a flutuação ofece-se para guardar a tralha e eu aceito.

Na prainha, pedimos o nosso “almoço” e Tio Saulo toma umas duas cervejas enquanto eu encaro um delicioso suco de mangaba. O por do sol se anuncia e a paisagem fica ainda mais bonita. A água claríssima é uma beleza.

Voltamos para Lençóis sem incidentes e o turismo acabou. Não tem mais passeio, não tem mais aventura, não tem mais nada. Agora é voltar para Recife pois Saulo tem um compromisso na quinta-feira. Depois do “dia relaxante” de hoje, amanhã vai ser só deslocamento por estrada de asfalto, sem brincadeira.

Só falta definirmos o roteiro.

 

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Tatus no Jalapão – Dia 5

O dia de reparos.

Amanhecemos em Bom Jesus do Piauí e eu com a ideia de seguirmos direto para Mateiros em Tocantins. Afinal, eram apenas 425 quilômetros, sendo que uns 250 sobre asfalto. Tio Saulo me convenceu a pararmos em Corrente ainda no Piauí. Estaríamos mais perto de Mateiros e poderíamos tirar a tarde para descansar melhor, revisar as motos e principalmente, consertar os empenos e armengues na moto dele.

Tomamos um café da manhã surpreendentemente honesto no pior hotel de toda a viagem. Demos uma revisada básica na moto de Saulo que havia levado dois tombos fortes no dia anterior na Serra Das Confusões. O baú lateral direito tinha quebrado o engate e agora só permanecia preso por estar amarrado ao suporte. O suporte esquerdo estava envergado e em contato com o escape. Para Tio Saulo isso era o fim. Tentamos desenvergar na força bruta e o máximo que conseguimos foi livrar alguns milímetros para evitar que o suporte mantivesse contato físico com o escape. Para consertar definitivamente seria necessário desmontar tudo e desenvergar. Enquanto fazíamos isso, Tio Saulo percebeu que a lanterna traseira não estava encaixada corretamente na carenagem. Em comparação com a minha moto dava para ver que tinha algo errado.

A paisagem de Bom Jesus era bizarra. Acordamos sob uma forte névoa de queimadas. Especulei que era fumaça oriunda das queimadas na Amazônia. O dia estava meio nublado e úmido e ainda muito quente. Dá para ver no vídeo abaixo a névoa. Não é sujeira na lente ok ?

Abastecemos as motos num posto Ipiranga e comprei um limpa viseira/desembaçante que se mostraria muito útil no dia seguinte. Comprei também dois pares de protetores auriculares e removi a pala do meu capacete para melhorar a aerodinâmica. Essa modificação foi muito conveniente e tornou a pilotagem mais confortável.

Pegamos a estrada BR-135 em direção sudoeste. Asfalto bom, algum tráfego de caminhões e pouco depois das 12hs estávamos em Corrente. A vegetação era mais verde, as árvores mais altas. Estávamos em outro bioma, diferente do sertão nordestino típico. Fomos direto ao hotel Rino e deixamos a tralha lá. Decidimos pôr as motos para lavar enquanto almoçávamos.

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Motos sendo lavadas

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Almoço em Corrente, Piauí

O lavajato não usava querosene mas estavam dispostos a aplica-lo se trouxéssemos. Procuramos no comércio e compramos um litro de querosene. Deixamos as motos lá e fomos almoçar, as 16hs as motos estariam prontas. Comemos um bom pedaço de coxão mole acompanhado de arroz feijão e salada. Muito frugal e rústico e delicioso. Ainda tivemos direito a uma porção de sarapatel de tripa de suíno que estava uma delícia. Voltamos ao lavajato antes do horário combinado e as motos estavam quase prontas. Dá gosto de ver. Nessas horas o espírito coxinha prevalece. Tio Saulo aproveitou para ver o que estava errado e precisava ser consertado em sua moto. Voltamos para o hotel no finzinho da tarde e começou o Boko’s Garage On The Go. Desmontamos o bagageiro da moto, suporte de lanterna e descobrimos que a mesma estava apenas mal encaixada. Primeiro problema resolvido. Agora os suportes dos baús. Terminamos quando já estava escuro e tudo ficou razoavelmente bom. O empeno no suporte não deixava as coisas perfeitamente simétricas como o Saulo exige mas ficou muito bom. Revisamos os apertos, tudo em ordem, fomos dormir.

Num dia em que percorremos cerca de 250km em meio dia, não houve muita novidade. O hotel era muito agradável, cercado por uma mata bonita. Os quartos eram amplos, com 3 camas e um banheiro grande. Dava para ver que era projeto da década de 80. Só que o hotel estava realmente muito derrubado. Tudo funcionando, diga-se de passagem, mas tudo muito gasto e precisando de ajustes. O banheiro tinha vários vazamentos, o piso algumas pedras quebradas, as fechaduras eram antigas e gastas. O clima ameno só era perturbado por um ensaio de meninas modelo de um projeto social com sede em Brasília e que atuava lá em Corrente. Eu desconfiei  que era aliciamento de menores mas na verdade não havia nada de errado. Só bizarro. Era meio estranho ver um monte de meninas dançando “Danúbio Azul” com um “príncípe” improvisado num rapazinho lá de Corrente. Muito bem intencionado, mas nem assim as meninas candidatas a modelo se entusiasmaram pelo charme do Príncipe.

A noite saímos para jantar na festa religiosa em frente a Igreja Católica no centro da cidade. Procuramos algum lugar para comer e no fim nos contentamos com uma sanduicheria na entrada da cidade. Fomos dormir cedinho com a sensação de que as motos estão limpas e preparadas para o que der e vier.

Amanhã chegaremos ao Jalapão !!! Pelo menos era essa nossa ilusão.

Tatus no Jalapão – Dia 2

O “cerumano” e a sua incrível capacidade de se adaptar as mais adversas situações. Sim, se adaptar pode ser se acostumar a um calor de 38/39 graus e achar 33 graus um “friozinho gostoso”. Pois foi isso que aconteceu conosco na noite do dia 2, quando chegamos as 18:30 a cidade de São Lourenço do Piauí. Mas como isso pode acontecer ? Comecei a história pelo fim.

Amanhecemos em Petrolina depois de uma noite onde jantamos um bode assado no Ângelo, regado a muita cerveja Heineken, a preferida do Tio Saulo. Também explico já já porque decidi chamar meu companheiro de aventura de “Tio”. Sob o belíssimo céu limpo e cristalino de Petrolina, em plena seca do El Nino, havia uma sombra que pairava sobre nós. A minha moto tinha morrido em pleno funcionamento duas vezes no fim do dia anterior. Sem motivo aparente a moto desligou. Duas vezes. Quais seriam as possíveis causas ?

  1. Gasolina adulterada quando abastecemos em Belém de São Francisco,
  2. Imperícia do condutor (nunca pode ser descartada)
  3. Síndrome da bomba de gasolina com defeito (mal que assola as BMDafras)

Acordamos por volta de 7 horas para o que planejávamos ser um trecho “fácil” de apenas 304 km até São Raimundo Nonato no Piauí. Fomos abastecer a moto num posto Shell para isolar a variável da gasolina adulterada. Adicionalmente e por via das dúvidas, enchi o tanque da moto com gasolina Shell Dupliplusboa Extra Good Aditivida Juramentada Abençoada. Se o problema era gasolina, agora o tanque cheio da supergasolina deveria resolver.  Logo depois do posto, um susto enorme. Minha moto jorrava gasolina e deixava um rastro por onde passava. O perigo era cair gasolina no escape quente e a coisa toda pegar fogo. Saulo que notou que estava vazando gasolina e me avisou. Meu primeiro pensamento foi “trincou o tanque de gasolina e a aventura acabou”. Nada disso. O incompetente do bombeiro (e do piloto) não fechou a tampa do tanque após abastecer. Fechei tudo, deixei a gasolina que escapou do tanque evaporar e seguimos caminho.

 

Antes de pegar a estrada a paranoia sobre a causa do problema na minha moto nos fez passar numa loja de peças da Bosch e comprar uma bomba de combustível de reserva. Relatos de vários proprietários de BMDafra F800GS contam histórias terríveis de bombas de gasolina que deixaram os pilotos na mão em pleno meio de lugar nenhum. De fato, a posse desse artigo místico, a bomba para carros 1.0 que segundo o Papa Piu (também conhecido como “O Durigan”) pode ser usada na F800GS me dava uma tranquilidade enorme. Resultado é que saímos de Petrolina perto das 10 horas da manhã. Mas sem problemas, o trecho é moleza e temos muito tempo para percorrer apenas 300km. Decidimos então fazer um desvio que adicionou 40km ao percurso e pagar uma visita a Barragem de Sobradinho na Bahia. Queríamos ver o maior lago artificial da América Latina. Para mim isso tinha um sabor especial pois eu havia visitado a barragem há 35 anos numa viagem migratória que fiz com meu pai de carro de Belém de volta para Recife.

Saímos de Petrolina em direção oeste, orientados pelo Tomtom, dobramos a esquerda e abordamos a barragem pelo lado norte. Antes de chegarmos a barragem subimos um morro com torres de telefonia celular e de lá tiramos belas fotos. O sertão virou mar, embora o nível da barragem esteja apenas a 1% da sua capacidade, a imagem ainda impressiona.

DSC_0002Figura 1 – O Sertão Virou Mar – Bandeira XT660 na Bahia

Descemos o morro e seguimos até a eclusa, passando sobre a ponte levadiça.

Eclusa light

Mais fotos da obra que permite que os “vapores” subam o Salto de Sobradinho, como diz a música de Sá e Guarabira.

Voltamos pela estrada em direção norte e o nosso próximo destino é Remanso, na Bahia, onde pretendemos almoçar e reabastecer as motos. Passaremos então por Casa Nova. Na música de Sá e Guarabira eram Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho. Todas elas relocadas pelo lago formado no fim da década de 70. Dessas nós visitaríamos 3. Pilão Arcado e Sento Sé ficam muito fora do roteiro.

Mais uma dose de estradas absolutamente retas e monótonas. Só que agora, em pleno sertão e as 10:30 da manhã a temperatura atingiu os 38 graus que no dia anterior só havíamos alcançado no meio/fim da tarde. Agora era constante. Quente. Ligaram o secador de cabelos e apontaram para nossa cara. A viseira do capacete fechada significa uma temperatura mais “amena”.

Sem incidentes chegamos a Remanso por volta de 12:30 e fomos almoçar no restaurante “Velho Chico” que ficava a margem do lago de Sobradinho. Com a seca, a margem recuou mais de 3km. Almoçamos um delicioso surubim frito acompanhado de suco de tamarindo feito artesanalmente. Descansamos um pouco e decidimos visitar as ruínas antes inundadas de Remanso Velho e agora descobertas pela seca. Segundo os locais, há 4 anos que a margem recuou e esse ano vai ser difícil ela voltar ao nível normal.

Esse foi o primeiro teste off-road que faríamos na viagem. Testar as amarrações e fixações de bagagem. A estradinha no leito do lago tinha de tudo: buracos, cascalho, areia fofa, muita poeira. Na saída um pequeno susto provocado pela perda de tração na traseira ao acelerar. Dá para ver no vídeo do youtube. Chegamos rapidamente a nova margem do rio e dá para ver a desolação que a seca provoca.

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Aqui a cor do rio é bem barrenta. A deposição que o lago de Sobradinho proporciona tornou o Véio Chico mais límpido abaixo da barragem. Como aqui é a nova “orla”, o comércio informal já se estabeleceu. Vimos alguns caminhões pipa reabastecendo com água e algumas barracas de bebidas e comidinhas.

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Voltamos pela mesma estradinha para Remanso e vamos pegar a estrada para São Raimundo Nonato em direção ao norte. Para nossa surpresa a estrada marcada como asfaltada na verdade é de terra.

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Nós pedimos, nós recebemos. Agora é encarar. A estrada, fácil, larga. Muito cascalho e pedras e muita poeira. Decidimos baixar a pressão dos pneus antes em estratosféricas 36/42. Com 22/25 as motos ficaram mais macias, menos ariscas, não quicavam tanto. Menos de 10km depois o pneu dianteiro da minha moto baixou. Acho que esvaziei demais. Saulo usou o o fantástico compressor Michelin portátil e pedi para ele por 30 libras e desejando sinceramente que tenha sido só um mal entendido de esvaziamento incompetente. Não era. Poucos quilômetros depois o veredito. O pneu tinha furado mesmo.

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No problemo! Tínhamos uma câmera Michelin 0km para essa contingência. Só que não levamos as espátulas para tirar o pneu. Tentei improvisar com as ferramentas e elas simplesmente envergavam e nada de desmontar a virola do pneu. O jeito é levar a roda a um borracheiro. Saulo encontrou um borracheiro escondido numa ruazinha ao lado da estrada num vilarejo uns 3 km antes do local onde havíamos parado. Enquanto o borracheiro remendava a câmara velha, Saulo trouxe o pneu com a câmara nova, murcho mesmo para eu montar. Me enrolei na hora de montar dei bobeira e as pastilhas de freio saíram da sede. Tem que tirar o pino e a cupilha, montar a roda, montar as pastilhas e colocar as cupilhas. Tudo certo até a hora de fixar as cupilhas, por pura incompetência minha uma delas envergou, “estilingou” e voou em direção ao esquecimento na poeira no meio da estrada. Nunca mais eu a vi. Paciência, essa vai sem cupilha mesmo. Estava ficando escuro e ainda tínhamos muita estrada de terra para encarar, não sabíamos quanto. Roda montada, câmara nova, estrada escura. Chegamos em São Lourenço do Piauí as 18:30, tudo escuro, paramos para tomar uns refrigerantes. Que delícia quando comparado ao forno de 38 frequentes com picos de 39/40 no meio da estrada. Recalibramos os pneus para asfalto usando o fantástico compressor Michelin de Saulo.

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Descansamos um pouco e tocamos para São Raimundo Nonato. Localizamos a pousada que nos recomendaram, Zabelê e finalmente consideramos que havíamos chegado.

O percurso de 300km que deveria ser concluído lá pelas 3 ou 4 da tarde se estendeu até as 7 da noite por causa do pneu furado. E aí cabe um relato interessante.

Sempre aplico a vacina de pneu da Motovisor na minha moto. Há 15 dias, fiz uma trilha com uns amigos e cheguei em casa com o pneu dianteiro furado. Lá em casa tem compressor e enchi o pneu novamente. A vacina tapou o furo perfeitamente tanto que percorri os 700+km até a estrada Remanso/São Lourenço do Piauí sem problemas. Tudo tem limite e a capacidade de cura da vacina estava há muito esgotada. O borracheiro encontrou nada mais do que 4 furos na câmara de ar. Portanto, a vacina tapou 3 de forma eficaz. O quarto furo era grande, um rasgo e aí não tem jeito, foi a lona.

Terminamos o dia bebendo umas cervejas na área comum do hotel, jantar frugal para mim. Conhecemos o Fernando Maia, um paulista (nascido em Pernambuco) que estava fazendo turismo de aventura com sua esposa na Serra da Capivara. Fernando deu dicas valiosas que seriam muito úteis no dia seguinte. O papo foi divertido e rapidamente criamos uma empatia com o Fernando.

Fomos dormir agradavelmente exaustos. O dia seguinte seria cheio de surpresas.

 

O medo e o coxinha

Medo é bom e faz bem a saúde. Principalmente dos dentes, já dizia o meu avô quando eu fazia alguma trela na sua oficina. Eu era criança e aprendi a ter medo. Muito da minha sobrevivência até a idade atual é devido ao medo que senti em um ou outro momento.

Mesmo assim, o medo é visto com preconceito e de um modo geral as pessoas “sem medo” são muito prestigiadas. As vezes são tidas como corajosas. Ledo engano. Coragem não é ausência de medo. Ausência de medo é ignorância dos riscos e frequentemente isso pode ser fatal. Coragem é sentir o medo e enfrentá-lo. Ajustar o seu comportamento diante de riscos conhecidos no sentido de minimizá-los. Por isso que medo é bom. Porque muda o nosso comportamento diante de uma situação potencialmente perigosa.

Mas e o excesso de medo ? Como já dizia outro avô, “Tudo demais é muito”. Medo demais pode paralisar. Quando suprimimos desejos por causa de medos estamos abrindo mão de muitas chances de fazer coisas que nos deixam felizes. Os coxinhas definitivamente tem um fator medo muito preponderante no seu comportamento. É o medo de danificar a moto, medo de ter um prejuízo com um acessório quebrado, o medo de se perder, o medo de se molhar, o medo de passar frio, o medo de sentir calor, o medo de se atrasar, o medo ser assaltado, o medo do que os outros vão pensar e até mesmo o medo de cair e se machucar.

O medo é algo que nossa mente constrói. O perigo é real, mas o medo é inventado por nós. Como no filme péssimo do Will Smith e seu filho Jaden demonstrou. Prova de que até num filme horrível ainda é possível tirar alguma coisa boa.

Quando um motociclista paralisa sua utilização da moto por causa do seu medo talvez seja hora de vender a moto ou talvez mudar de categoria. Não é incomum ver pilotos que deixam suas motos na garagem diante da mera possibilidade de chuva ou que se recusam terminantemente a colocar suas bigtrails em estradas de terra. Isso é o que me dói mais.

Quando deixamos de fazer coisas por causa do medo trocamos um risco (medido e calculado e portanto contornável) por uma certeza: estamos deixando de viver. Estamos fazendo errado ! Estamos deixando de lado uma oportunidade para enfrentar o medo e desse enfrentamento alavancarmos um comportamento mais preciso, melhor. O medo é um instrumento fabuloso para o auto-conhecimento e por isso mesmo o auto-melhoramento. O medo nos aponta nossas deficiências e principalmente nossa ignorância. Se sentimos medo de alguma coisa, existe uma grande chance de sermos em alguma medida ignorantes a respeito dessa coisa. Ora, contra a ignorância a melhor coisa é a informação que traz conhecimento. Se temos medo de alguma falta de habilidade a solução não é se render a esse medo e permanecer inábil. A solução é buscar conhecimento em como se faz a coisa bem feito e praticar para melhorar. Se temos medo de pilotar a moto em alguma circunstância temos que nos informar sobre como pilotar melhor e praticar e praticar e praticar até que o medo seja reduzido da forma paralisante para a forma da cautela saudável que nos mostra nossos limites.

Lembro certa vez que Ayrton Senna declarou que ao participar de uma prova de kart levou um couro danado quando a pista ficou encharcada devido a chuva. Imagino se Ayrton Senna chegou a ter medo de pilotar kart na chuva, nem que por um segundo. Isso é pura especulação minha mas o fato é que depois desse dia de derrota (medo?) Ayrton procurava pilotar sempre que chovia, mesmo sem ter competição alguma. Ele aproveitava todas as chances que tinha para pilotar na pista molhada e acabou transformando sua imperícia (medo?) de andar na chuva numa das suas maiores habilidades e diferenciais competitivos.

Nos fóruns sobre motociclismo encontro frequentemente as postagens de iniciantes expressando seus medos diante de exames de habilitação de moto nos DETRANs da vida. Pessoas que afirmam que “sabem fazer tudo direitinho” mas que ficam “nervosas” diante da perspectiva de falharem no teste. O medo de ser reprovado acaba se transformando numa profecia auto-cumprida. A pessoa tem  a habilidade mas o medo a faz por tudo a perder. Qual a solução para o medo diante do fracasso no teste ? A resposta mais fácil é ligar o “Fuck it!” e desencanar. De fato funciona mas acaba dando margem para a preparação inadequada. Não se importar com as coisas as vezes é útil mas se usado sem moderação pode levar a um estado de letargia tão paralisante quando o medo excessivo. Isso equivale a não ter o medo. O melhor ainda é usar o medo como impulsionador para praticar mais a pilotagem, exercitar as manobras em que tem mais dificuldade e tornar-se craque nelas. Praticar, praticar, praticar e quando estiver exausto de tanto praticar…. Ir lá e praticar mais um pouquinho. Praticar até o ponto em que faria as manobras de olhos fechados, ou com um pé nas costas, ou com as mãos amarradas .. .ou tudo isso junto (aí é cabra bom mesmo!).

Com frequência, quando vou fazer passeios off-road com amigos coxinhas, vejo alguns jovens ficarem absolutamente exaustos no meio do mato. Considerando que eu já não sou um menino (do alto dos meus 49 anos mas num corpinho de apenas 48), ficava sempre intrigado ao ver amigos em plena forma física, capazes de correr meias maratonas, as vezes maratonas inteiras, andar de bike, fazer academia 3 vezes por semana mas que no meio da trilha ficavam mortos. E eu inteiro. Como explicar isso se eu não pratico atividade aeróbica ou musculação alguma de forma frequente ? Porque eles estavam tão cansados e eu não ? Resposta: Tensão. A tensão sobre o guidão causada pelo medo paralisante exaure as energias de qualquer um. A maior prova de quão intensa intelectualmente é a atividade de pilotagem de motocicletas é a desenvoltura com que pilotos mais experientes, mesmo mais velhos, se saem de situações extenuantes mesmo sem terem o preparo físico mais top da turma. Não que preparo físico seja dispensável. Pelo contrário. Forma física é fundamental. Mas de nada adianta ser o rato de academia de ginástica se não tiver uma atitude mental superior diante do medo e a tensão impostas pela pilotagem.

Os amigos que pilotam comigo já conhecem o passeio até a Ilha do Coqueirinho Solitário ao sul de Tamandaré, Pernambuco. Durante muito tempo propus que esse passeio fosse considerado um ritual de iniciação ao grupo de bigtrail off-roaders. Lembro da primeira vez que eu fui a essa praia com a F800 GS. Ainda muito grosso e sem tanta habilidade e com a moto novinha, sozinho, fiz a loucura de ir até a Ilhota passando pelo areial divisor entre homens e pratos de papa. Depois de muitos sustos cheguei a parte de areia dura da praia completamente exausto. Esgotado mesmo. Parei a moto numa rocha, descansei, tirei fotos e imediatamente passei a pensar em como fazer para encarar de volta. O medo era paralisante. E se eu cair ? Quem vai me ajudar ? Sozinho numa praia deserta a coisa tinha um potencial enorme de virar uma grande merda. Não tive muita alternativa além de encarar o medo e fazer o percurso de volta. Quando cheguei de volta a Tamandaré eu estava ainda mais exausto, como não sabia possível.

Fiquei um tempo super bolado com o resultado desse episódio. Ora ? Se para percorrer um pequeno trecho de uns 1000 metros de areião eu fazia um esforço semelhante a parir trigêmeos … de que valia eu ter uma bigtrail ? Qual o sentido ? Alguma coisa tinha que ser feita. Passei a usar os medos de cair, de ficar sozinho, de ter gasto uma grana numa moto que não iria usar plenamente, de dar vexame, de ter um prejuízo numa queda, como drivers para me fazerem melhorar. Emagreci, melhorei meu condicionamento físico, me informei sobre como pilotar na areia, assisti vídeos, pedi dicas a pilotos experientes, pratiquei areia em pequenos trechos, juntei tudo isso e adicionei uma pitada de “foda-se” e um mês depois encarei EXATAMENTE o mesmo trecho, ainda sozinho. Tirei de letra ! Foi um passeio ! Cheguei lá dando risada e muito feliz com a conquista. Foi uma experiência libertadora que há muito eu não sentia. Uma coisa assim meio que de infância quando tinha feito uma trela na oficina do meu avô e ele não tinha me pego 🙂

A sensação foi muito boa e como sempre acontece eu queria dividir isso com o mundo. Queria proporcionar isso para todas as pessoas com as quais eu encontrasse. Queria fazer as pessoas enfrentarem os seus medos porém sem aboli-los. Queria ensinar as pessoas a usarem seu medo para as fazerem mais felizes ! Por paradoxal que seja.

Comecei a levar alguns amigos ao passeio do Coqueirinho Solitário, como ficou mundialmente conhecido(?), e obtive resultados muito gratificantes. Vi homens crescidos sentirem medo e enfrentá-lo com coragem (as vezes uma pitada de irresponsabilidade) e conseguirem chegar a praia do coqueirinho com uma expressão de realização misturada com alívio. Vi lágrimas de alegria. Vi também alguns jurarem que jamais voltariam a fazer um passeio comigo 🙂 Well .. não se pode acertar todas.

Desde então o tema me fascina e de vez em quando encontro novos amigos pilotos que dão a chance de ajudá-los a superar seus próprios limites, quando pelo menos não os conhecerem mais nitidamente. A todos eu deixo 10 mil dos meus melhores obrigados pois é muito gratificante. Espero continuar fazendo isso por muito tempo.

Enquanto isso, lembro aqui a Litania Contra o Medo do Frank Herbert

“I must not fear.

Fear is the mind-killer.

Fear is the little-death that brings total obliteration.

I will face my fear.

I will permit it to pass over me and through me.

And when it has gone past I will turn the inner eye to see its path.

Where the fear has gone there will be nothing….

only I will remain”

E para quem achar essa litania muito complicada, deixo o link para o brilhante poema do Chico Buarque de Holanda, que é mais didático e não menos forte.

Jura que faz trilha !

Copa do mundo no Brasil e chuva praticamente todos os dias da semana em Manguetown. Chove e faz sol no mesmo dia e essa é a característica do inverno que está apenas começando aqui em Pernambuco. A chuva pode passar de um inconveniente a um impedidor total de fazer trilha. Mas existe algo com poder maior para impedir uma boa trilha: falta de companheiros que topem ir com você. Não se faz trilha sozinho.

A situação desse fim de semana estava crítica nesse aspecto. São João na terça-feira conjugado com jogo do Brasil na segunda e feriado de Corpus Christi na quinta-feira anterior significa que para algumas pessoas seria um feriadão de quase 7 dias. Bastava imprensar a sexta-feira. Muita gente viaja para o interior para aproveitar as festas juninas e todos os meus companheiros tinham algum impedimento para a tradicional trilha do sábado. Bem no meio do imenso feriadão.

Mas eis que um novo integrante do Portal Big Trails me manda uma mensagem privada perguntando quando é que vai ser a próxima. No sábado, eu respondo, e aí o quórum mínimo foi alcançado: Dois. O Jurandilson Ferreira, também conhecido como Jura, procurava um parceiro para um passeio. Não conhecia muito a região, apesar de ser natural de Manguetown.

Convidei vários outros amigos mas nenhum topou ir conosco. O Diego amanheceu gripado e cancelou a ida. Agora só falta a presença do Sol para trilha ficar boa.

Manhã de sábado com sol após uma madrugada de chuva. O plano original era fazer a trilha da Usina Bom Jesus mas o Gian já havia dito que se estivesse molhada essa trilha ficava muito difícil. Depois do trauma da trilha do Picadinho eu não estava muito disposto a radicalizar. Sendo assim, a alternativa é fazer trilha em areia de Praia. Vamos visitar nosso amigo Coqueiro Solitário na praia do Porto. Trilha plana, praticamente 100% na areia que mesmo molhada não traz dificuldade adicional. O único porém é que a maré será grande (lua minguante quase cheia) e não sei se dá para ir até a ilhota com a maré cheia que aconteceria mais ou menos na hora que chegaríamos por lá.

Na sexta-feira eu havia colocado o bar raiser na XT66 tornando-a ainda mais radical. Pneus Karoo 3 já haviam mostrado que são excelentes na breve e interrompida trilha da semana passada com Omar e Eduardo. Com o bar raiser o guidão fica numa posição bem mais confortável para pilotar em pé na XT66, quase tão confortável quanto na BMW F800 GS. Queria experimentar isso numa boa trilha e o sábado trouxe a chance.

Nos encontramos no tradicional posto Shell da Abdias de Carvalho as 7 horas. Várias outras motos street estavam por lá. Logo vi a Ténéré do Jura estacionada na frente da loja de conveniência. Abasteci a XT66 com 4 litros de gasolina que completaram o tanque depois da trilha da semana passada. Andei pouco mesmo. Mas hoje vamos andar mais.

Jura muito simpático me fala que tem a Ténéré já há alguns anos, fez algumas viagens de longa distância e anda muito com o pessoal do Ténéré Club. Fez curso de pilotagem na Honda onde teve a chance de pilotar as CRF 230 em off-road e gostou muito. Jovem esperto e inteligente, topava qualquer proposta. Expliquei para ele as nossas alternativas de trilha e ele disse que o que eu decidir fica bom para ele. Simpático e solícito, Jura deixa uma excelente primeira impressão. Se pilotar tão bem quanto é simpático será o companheiro perfeito para fazer trilha. Veremos logo mais adiante.

Tomei um café expresso, conversamos até as 7:40 e pegamos a BR-101 sul em direção a Serrambi, via Rota do Atlântico, a rodovia pedagiada que liga o Cabo a Porto de Galinhas, passando por dentro do Complexo de Suape. Próximo ao entroncamento da estrada que liga Porto de Galinhas a estrada de Camela->Serrambi, saímos para a subida do Outeiro. Malvadeza minha, confesso. Estávamos frios ainda, andamos uns 100 metros de terra e encaramos logo uma subida íngreme com areia e erosão. Agora a trilha começa de verdade e nessa hora as diferenças entre a XT66 e a BMW F800GS apareceram. Havia subido essa ladeira com Homero há 15 dias com a BMW F800gs e levei um tombo quase parado porque o pneu de asfalto não deu tração na subida. A roda traseira desliza, tenta ultrapassar a roda dianteira pela esquerda, derrapando. Tombo. Agora com a XT66 equipada com Karoo 3 vai ser diferente!!! De fato, vai ser diferente. Tração não falta porém …. a curva de torque da XTzona é diferente do torque da BMW F800GS. A F800gs é muuuuuuuito mais potente e a força aparece em baixíssimas rotações. O cuidado na F800 é para não acelerar muito pois sobra potência. A XT66 tem lá a sua força em baixa mas não é a mesma coisa. Tem que acelerar mais. Eu estava desacostumado, não acelerei o necessário e de repente a moto morre em plena subida. Tombo de novo. Ora bolas ! Será que eu nunca vou conseguir subir essa danada dessa ladeira ? A segunda diferença entre a XT66 e a BMW F800GS apareceu, torque menor e num giro mais alto. A primeira é a aderência superior da XT66 com Karoo3. Moto no chão sem maiores consequências (afinal eu estava praticamente parado). Aparece então a terceira diferença: Como a XT66 é leve !!! Leve ???!!!! Sim, leve em relação a BMW F800GS !! Ahhhh bom. Levantei a moto sozinho e vi que o Jura tinha tombado lá embaixo. Perguntei se tinha se machucado, tudo em ordem por lá. Acelera que ela sobe !!! Encontrei com ele lá em cima e paramos para tirar umas fotos.

 

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Bela vista que o Jura não conhecia. E ele curtindo muito! Que beleza. O pequeno tombo na subida não significa nada. O mais importante é que ele encarou o tombo na boa, não deu o menor sinal de abatimento. Hmmm, interessante. Essa característica de resiliência é muito importante para fazer trilha. O garoto tem potencial. Até agora tudo bem. Muitos marmanjos desanimam se levam um tombinho de nada nos 5 primeiros minutos de trilha. Para Jura tava tudo OK, ele tava curtindo e achando o máximo o visual lá de cima. Vamos em frente !.

Descemos pelo mesmo lugar que subimos. Ainda não queria descer pela alternativa pois tava muito molhado e com erosão. Descemos sem incidentes e pegamos a trilha do manguezal, com areia branca por meio da mata de pau-de-mangue. Errei o caminho e voltamos precocemente para o asfalto. Backtracking, vamos pela mata fechada, uma beleza, e caímos no areal que não consegui atravessar com Homero há 15 dias. Mas dessa vez decidi encarar. Achamos uma passagem estreita por meio do alagado e passamos sem problema. Tive chance de ver o Jura mandando bem na areia da trilha apertada. Sempre que olhava para o meu retrovisor o Jura estava lá. Não precisei parar para esperar. Hmmmm, bom sinal. Só consigo andar assim com Homero. Será que Jura consegue acompanhar ? Até agora ele está indo muito bem. Dessa vez eu liguei o wikiloc para mapear a trilha por dentro do manguezal. Dá para ver que o sinal de GPS foi perdido justamente na parte mais interessante da curta trilha. Observem o início dela e verão

Pegamos a estrada asfaltada (eca) para Serrambi e fomos arriscar uma visita a meus amigos Ricardo Carvalho e Fabíola em Enseadinha. Sorte que eles estavam lá, verdade que os acordamos (quer dizer, o Ricardo pois Fabíola já estava em plena atividade). Eram umas 9hs da manhã, tomamos um café com eles, batemos um papo, trocamos uns abraços(sempre muito bem recebidos na casa de FabíoImagemla e Ricardo e fomos visitar o outro Carvalho, primo de Ricardo, Dr Tárcio no outro lado de Serrambi. Fomos carinhosamente recebidos pelo Tárcio e pela Camilla. Tive chance de dar um abraço de aniversário em Tárcio que não pude dar no passeio anterior com Homero. Por pouco não o havíamos encontrado no pontal de Serrambi. Mais bate papo, tiramos umas fotos e pegamos a estrada asfaltada, dessa vez até Tamandaré, passando por Carneiros.

Agora começa a segunda parte da trilha. A estradinha que liga Tamandaré a Praia do Porto passando por traz de Mamucabinhas. Essa é uma estradinha de uma enorme plantação de côco com chão de areia. Na primeira vez que passei por essa estada, com a BMW F800 GS cheguei ao fim dela absolutamente exausto. Era só a tensão da pilotagem no chão de areia. Na segunda vez, fui com os amigos do Falcão Sobre Rodas e frequentemente tinha que parar para que o grupo me alcançasse. Achei que teria que fazer vários mamão-check para o Jura me alcançar mas que nada ! Sempre que olhava para o retrovisor, lá estava o Jura me acompanhando. E eu não aliviei não ! Afinal, estava com a XT66 com Karoo 3 !! Uma delícia na trilha de areia. Acelerei mesmo e o Jura sempre no mesmo passo. Caramba, o garoto é bom mesmo. A Ténéré estava equipada com pneus normais de uso misto, com baú e tudo e mesmo assim andava de igual para igual com a XT66 semi-radicalizada (falta o escape por cima e o protetor de mão). Chegamos a praia e no areial enorme onde eu tive uma interação gravitacional não controlada com um coqueiro derrubado durante o passeio com os Falcões. Mas agora é diferente. Gás aberto, a XT66 flutuava sobre a areia e danei-me em direção a praia, com o mar cheio. Para minha surpresa, mesmo com a maré alta, ainda tinha uma faixa de areia ligando o continente a Ilhota do coqueirinho. Parei a moto e tirei uma foto da valente XT66.

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Jura estava lutando com a areia e acelerava bastante a Té 250 e tive chance de tirar umas belas fotos do companheiro em ação.

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A tensão da pilotagem na areia fofa cansa qualquer um e decidimos descansar um pouco, tirar umas fotos. Encontramos uma dupla de aventureiros que vinham de moto desde Maceió e estavam na ilhota também tirando umas fotos e eles fizeram o obséquio.

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E agora ? Para onde vamos ? Tínhamos 3 alternativas: Voltar por onde viemos (boring), passar pelo “restaurante” que estressou conosco ou seguir pela Big Rock sul e voltar por Barreiros. Quando fizemos a trilha com os Falcões em fevereiro o Omar não recomendou subirmos a Big Rock. Mas agora é diferente, éramos apenas 2 e o Jura tava mandando muito bem. Além disso a vista lá de cima é maravilhosa e eu ainda não tinha ido lá de moto. A única dificuldade era encarar muuuuuuita areia fofa na beira da praia. E com o mar batendo, não haveria margem para erro. Acelerar, dar gás e não deixar a moto atolar. Reforcei a dica para o Jura, que vi rapidamente “baixando o trem de pouso” na primeira perna do areial. Mostrei para ele, pés na pedaleira, dar gás e olhar para onde quer ir. Dito isso e já fui-me embora para o nonolito sul da Praia do Porto. Tinha uns caras jogando bola na praia e atrapalhamos o jogo deles passando rapidinho pelo campo estreito (e inclinado) na faixa de areia. Foco na pedra, foco na pedra e o areião fica muito fofo. Mais gás ! Mais gás porque se atolar aqui vai dar trabalho. A XT66 urrava ia devagarzinho levantando o véu de areia no pneu traseiro mas não parou. Fim da praia, hora de subir para o mato e passar por uma pequena porteira que leva ao mato. Acerto de primeira, subo para a parte mais dura e olho para traz para ver como o Jura tava indo. Subiu na areia seca e deu umas patinadas mas passou direto. Cabra bom !! Vamos embora descer a parte de traz do monolito para subir para a Big Rock e aí eu dou bobeira e levou um tombo na areia. Jura assistiu de camarote. Caí de lado e a pancada foi tão forte que o meu rim esquerdo subiu até a garganta. Tive que engolir forte para fazer ele voltar ao lugar certo. Pausa para recuperar o fôlego. Nenhum dano além do orgulho. Como Jura ainda não está acostumado com as minhas quedas ele ficou um pouco preocupado. Relaxa, faz parte do show e sempre tenho que dar uma lambança dessas senão a trilha não tem graça. Meus companheiros já estão acostumados e mal podem esperar acontecer para darem umas boas risadas ! Em tempo o Jura também …

Pegamos a estradinha de barro que leva a subida até Big Rock e aí o lance é acelerar. Muita erosão, escolha a linha de subida e dá-lhe gás senão é chão na certa. Agora separaremos os homens dos pratos de papa ! De novo Jura-que-faz-trilha subiu direto e curtiu muito. Lá em cima tiramos umas fotos belíssimas. Tenho que voltar com os companheiros e transformar essa trilha no ritual definitivo de iniciação no grupo de trilheiros.

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Pegamos a trilha de volta a PE-060 seguindo pelas estradinhas de canavial para o entroncamento perto da ponte que fica antes da entrada de Barreiros.

 

Essa trilha tem umas variantes interessantes a esquerda que levam para a Varzea do Una o que abre uma possibilidade interessante para fazer um super passeio que envolva a Praia do Gravatá.

Chegamos a PE-060 por volta de meio dia e a fome bateu. Decidimos voltar direto para Recife e encerrar o passeio, dando tempo para lavarmos motos e coisas tais. O sol estava forte durante toda a manhã e deve ter secado as trilhas, e aí pensei passar pelo Picadinho e superar o meu trauma, agora com Karoo 3 e o chão mais seco. Pegamos asfalto direto até a entrada para a PE-028, a estrada que leva a Gaibú. Logo depois da linha do trem, pegamos a entrada a esquerda que leva para  a agora estrada de serviço da Rota do Atlântico. Seco. hmmm , legal. Estrada reta de barro úmido, sem lama. As motos andando bem e seguimos paralelos a Rota do Atlântico e cruzamos com duas motos de trilha. Pegamos a saída a direita por baixo do viaduto e estávamos na Trilha do Picadinho (antiga Estrada Velha de Barreiros). Seco também. Agora é só achar a saída a esquerda para a ponte de pedestres ao lado da ponte do trem sobre o Rio Pirapema (ou Pirapama). Algumas poças dágua com lama, nada demais. Lembrei-me de quando fazia trilhas com a DT 180 aqui há 30 anos e a impressão é muito parecida. A trilha é chata, a verdade é essa. Não tem curva, só buraco, muita trepidação causada pelas pedras. Boring. Mas tá valendo assim mesmo. Na variante para a Praia do Paiva, que agora está a nossa esquerda, um grande grupo de motos de trilha estavam paradas, batendo papo. Saudamos com uma buzinada e seguimos em frente.

Na saída a esquerda, subimos para o trilho do trem. Muita lama cinza, algumas escorregadas bizarras mas nada demais. Pegamos o lado certo, em cima da brita e a esquerda das sucatas de trilho de trem. Não cometeria o mesmo erro duas vezes. Pausa em cima da ponte de pedestres para tirarmos uma foto.

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Que fome !!!

Já estamos perto das 13hs e a última comida foi as 6 da manhã, um rocambole de doce de goiaba. O jeito é tapear a fome com uma barra de cereais. Descemos a passarela de pedestres numa manobra estreita para sair do tilho de trem e voltamos ao Picadinho, agora mais frequentado e com menos mato invadindo a trilha. De cara encontramos um caminhão de entrega de bebidas. So much for a motorcycle trail…. Sem incidentes chegamos a Ponte dos Carvalhos e nos perdemos no trânsito confuso. Como fazer para chegar a BR-101 ??? Não tem sinal e aparentemente todas as ruas são contra-mão. Levou um tempo mas chegamos a rodovia e tocamos para Recife. O Jura vai na frente pois ele que vai desviar para casa primeiro mas antes de nos despedirmos ele sugere um pequeno trecho de areia ao lado da BR-101 na altura da antiga Lagoa do Náutico. Lembro-me quando era criança e aquilo tudo ali era mato, deserto. Agora é um bairro popular com muitas crianças soltas na rua… Gostei não. Fiquei com medo e segui bem devagar porque o risco de pegar um garoto sapeca que corre e atravessa a rua é enorme.

Chegamos ao ponto de despedida. Deixamos um abraço e a promessa de fazermos mais trilhas no futuro. Em breve. A trilha acabou.

Conclusões e lições aprendidas

  • Não precisa de muito sol para a deixar a trilha seca. Havia chovido durante a madrugada da sexta para o sábado. Mas fez sol logo ao raiar do dia e ao meio dia a Trilha do Picadinho já estava seca. Ou seja, meio dia de sol e pronto. Verdade que trilhas mais baixas são outros 500 mas dá para encarar o Picadinho assim.
  • Cada moto tem a sua característica e a gente acaba ajustando o estilo de pilotagem a moto. Eu já estava acostumado ao torcão da BMW F800 GS em baixíssima rotação. Ela não morre nunca. Na XT66 tem que acelerar mais e não subi o morro do Outeiro de primeira por causa disso. Na trilha apertada dentro da mata de mangue a XT66 morreu algumas vezes em baixa rotação sem maiores consequências. Com a F800 e Homero, andei bem devagarzinho fazendo manobras bem fechadas e a negona num farrapou uma vez.
  • Dá para fazer um multi-passeio bem legal envolvendo Picadinho, Serrambi, Coqueirinho e Praia do Gravatá numa manhã, saindo cedinho. Para ficar perfeito é só arrumar uma trilha que conecte Nossa Senhora do Ó a Serrambi, passando por traz de Porto de Galinhas. Outra trilha ligando Serrambi a Sirinhaém+Guadulape a Praia dos Carneiros. E outra última trilha ligando a Praia do Porto até Praia do Gravatá. O passeio pode envolver um almoço em São José da Coroa Grande ou Barreiros e aí ficaria o 10 mesmo.
  • Jurandilson se mostrou o piloto mais capaz depois de Homero de andar no mesmo ritmo que eu. Omar calçado com Karoo 3 também deve andar junto. Mas o Jura tava com pneu normal. Imagine Jura-que-faz-trilha! com um pneu mais off …
  • Fazer as trilhas ao sábados tem uma intenção nobre que é dar tempo de lavar as motos no sábado a tarde ou durante o domingo. Só que está ficando dificil encontrar amigos que tem esse sábado livre. Os próximos passeios serão no domingo mesmo.

A melhor surpresa foi o novo companheiro de aventuras. Valeu a pena, mais uma alternativa e o risco de ficar sem ter com quem fazer trilha deve ter chegado ao máximo e agora tende a diminuir. Ainda bem.

Jura que faz trilha ? Juro !

 

Do caos a lama

Noite de quarta feira (14 de maio de 2014) em Manguetown e a greve da Polícia Militar é deflagrada. Começa o caos que dura pouco mais de 24 horas. Na manhã da sexta feira a vida volta ao normal. Será ? Normalizou mesmo ? Em outras palavras, vai dar para fazer uma trilha de moto no sábado  ? Isso é o que interessa. Não bastasse os últimos dias de chuva em Recife, ainda por cima essa greve da polícia que estimulou a bandidagem a ir para a rua.

Não andava de moto desde o dia 1º de maio quando fiz um belo passeio com o Bruno Gomes e o Alexandre Dessani até Nova Cruz. Finalmente a trilha que liga a praia até Cruz de Rebouças estava marcada de forma inequívoca. Trafegável com moto, trilha fácil.
Mas agora, sábado dia 17 de maio, longínquos 16 dias depois do feriado do Trabalhador, as perspectivas de fazer um bom passeio não eram boas. Homero está em São Paulo, Tarcio com impedimentos detranísticos (leia-se carteira de motorista emitida por engano sem a categoria A impressa), Omar sempre trabalhando no sábado. Meus companheiros não-coxinha me abandonaram. O Brunão até encarava mas já havia se comprometido a fazer um passeio 100% asfáltico para Tracunhaem. Fiquei definitivamente sozinho. Vou ficar em casa assistindo televisão. Eis que pelo Whatsapp consigo convencer Hodor (leia-se Brunão) a dar uma escapadinha no passeio asfáltico e subir a Serra das Russas pela trilha do “Esqueleto da Gata”. Agora sim ! Sendo assim, diga ao povo que eu vou para o passeio de moto no sábado. Ainda tentei cooptar o Robson mas ele ia fazer plantão no feirão da casa própria.
O ponto de encontro é o posto Ypiranga em frente a CHESF na Abdias de Carvalho. De fato é bem mais fácil de achar porém a lanchonete é muito pequena. O roteiro proposto por Odilon partia dali, parava na Tapiocaria Cabana de Taipa em Bonanza e seguia pela PE-050 até Glória do Goitá, depois PE-090 por Lagoa do Carro onde uma visita ao Museu da Cachaça, depois Tracunhaém e almoço no Panela Cheia em Carpina.
Cheguei realmente muito cedo no Posto e tomei um saudável café da manhá a base de sanduiche natural de ontem e uma caixinha de todynho. Exatamente as 7:31 chega ao posto um Gigante montado numa F800 GS branca, belíssima. Era o Gian, o primeiro a chegar. Abasteceu a moto, logo em seguida se apresentou, muito simpático. Conhecia uns poucos do grupo e veio convidado pelo Odilon. Em seguida chegou um monte de gente e a coisa animou. O próprio Odilon, o Sílvio, o Heráclio, o Casagrande, Brunão (ainda bem), João Guerra, Emerson Bueno, Newton Tenório, Elder Maranhão. Chegaram também o Mateus numa XJ6 e um outro piloto numa belíssima Fazer 600. Chegou também uma Harley Davidson, mas foi só uma coincidência. Não fazia parte do grupo.
Conversa animada, e enquanto os líderes decidiam os detalhes do roteiro eu parti para a jugular. “Brunão, você prometeu para mim que ia subir a serra comigo ! Não vai amarelar hein ?”. O Hodor Mineiro segurou a onda. Tamo nessa. Prometi ao Brunão que sairíamos do grupo, faríamos a trilha e logo em seguida nos rejuntaríamos ao grupo novamente. Trilha garantida, passei para o modo “cooptar”. E aí seu Gian ? Gostaria de fazer uma emocionante trilha no topo mais alto da Serra das Russas ? O outro gigante ficou interessado … Olha só ?! Será que faríamos a trilha a 3 ? Veremos.
Turma animada

Mesa com Elder e Rosana, Emerson Bueno, Mateus, Odilon e Newton Tenório

Brunão em ação

Bruno encara a saída da trilha

Emerson e a ST dando show

Olha a Super Ténéré no Mato !!! O Emerson encarou a trilha muito bem

Gian em ação na serra das russas

Gian mostra como é que se faz

Partimos para a BR 232 liderados pelo João Guerra. O dia era de sol entre nuvens mas sem sinal de que iria chover. Passeio tranquilo a deliciosos 100km/h quando de repente o Newton agoniado acelerou e foi cutucar o JG !! Acelera rapaz, isso tá devagar demais. JG acelerou para 120km/h !!
Cabana de Taipa alcançada, nos instalamos nas mesas e tome conversa. O grupo sempre muito simpático e ainda mais enfeitado pela presença das Myladies. Hodor, como não poderia deixar de ser, tava morto de fome. Numa das mesas mais animadas, estava o Elder sempre com o astral magnífico, Newton Tenório conversando muito como sempre e o Emerson Bueno, que eu não conhecia. Ele tinha ouvido falar de uma trilhazinha aí que ia rolar e tal … OPA ! Mais um interessado. Eu jurei de pés-juntos que tudo que falam de mim são exageros, que a trilha é “light”, que a foto que o Hugo Falcão postou no Whatsapp era só gréia, que exceto pela força de gravidade, a subida da Serra pela trilha era “moleza”. Eu nunca digo que é difícil, já perceberam ? O Emerson topou. Caramba !!!! Será que eu tô ouvindo coisas? Tendo alucinações ? Uma das Super Ténérés vai para a trilha com a gente ???? Se o Emerson for (e sobreviver) vai ser um troféu e tanto ! Num vai mais ter explicação de dono de Transalp para deixar de fazer trilha com a gente ! Se a ST faz .. a TA também faz !!!! Mas era isso mesmo, Emerson segurou a onda e vai com a gente. Já éramos 4: eu, Brunão, Gian e Emerson. Tá bom demais.
No topo, na trilha

Os 4 cavalheiros no topo da Serra das Russas: Gian, eu, Bruno e Emerson (esquerda para a direita)

Combinei com o Gian para ele ficar por último e dei um walkie-talkie para ele. A experiência na Trilha da Ilha do Coqueirinho ensinou que um par de radinhos de 40 reais pode facilitar muito os mamão-check. Um rádio no guia, um no ferrolho e estamos bem. Partimos com o grupo inteiro pela BR-232 e na bifurcação para a PE-050 nos dividimos. Os 4 cavalheiros encarando o caminho para Pombos e a subida pela trilha. Era tudo que eu queria.
Lá vamos nós a módicos 100km/h na BR 232 quando o Gigante Mineiro (num tô falando do Cruzeiro não) buzina atras de mim “Acelera ! miserávi !!” .. Oxente ? Eu já tô a 100 e o cara quer que eu vá mais rápido ? Danou-se .. é o jeito. Acelerei para 120 na saída de Vitória de Santo Antão. O Speedy Gonzales Mineiro num tava satisfeito ! Toma buzina ! Mais rápido sua paca manca !!! Danou-se !? Eu já tava com medinho mas o jeito foi acelerar para 140km/h !! Quem disse que o Brunão tava satisfeito ? Ele queria mais !! Mais rápido nessa porcaria rapaz ! Mas ainda bem que já estávamos no pé da serra. A entrada para a trilha fica no sentido Gravatá-Recife (descendo) e nós estávamos no sentindo inverso. Atravessamos para o outro lado e antes de pegar a trilha, orientação para desligar o ABS. Só que na SuperTénèrè num tem essa opção. Pegamos a trilha. Muito cascalho na trilha sinuosa e íngreme, pneus de asfalto e para completar, pilotos com pouca experiência. Mas todos passaram bem pela parte mais íngreme da curtíssima trilha. A SuperTénéré morreu num ponto particularmente chato com muito cascalho. Aí o controle de tração ajudou bastante. De uma forma tranquila a motona subiu a trilha sem maiores incidentes. Uma suavidade e facilidade impressionantes. Assisti tudo lá de cima. Muito mato, capim navalha, carrapicho, algumas erosões e chegamos lá no topo da Serra, no local da tradicional foto enquadrando as duas variantes da BR 232 subindo/descendo a Serra das Russas, com direito a ponte e tudo.
Voltamos para a BR 232, tirei umas fotos das “moto en assão” cruzando uma poça dágua que faria qualquer vigilância sanitária dar pulos. Mas o principal havia sido conquistado. A Superténéré fez uma trilha com a gente! Agora não tem mais argumento, num vai ter mais dono de Transalp dizendo que a trilha é radical demais. Se a SuperTénéré passa, a TA passa também. É viável. Verdade que o piloto da ST em questão tem quase 2 metros de altura (dos quais presumo que uns bons 1,2m sejam só de pernas).
Outro ponto positivo foi que no grupo dos 4 cavaleiros, eu era o “baixinho”. Nada mal né ? Eu tenho 1,81m
Descemos a Serra pela BR, cruzamos para o outro lado no mesmo ponto em que entramos na trilha, subimos a Serra e fomos para Bezerros. De novo o Hurried Hodor buzinando para eu acelerar ! Tive que chegar a 140 por hora ! E por vários minutos!!! Entramos em Bezerros e saímos pela PE-097, uma das estradas mais belas e mais bem conservadas de Pernambuco. Ideal para motos bigtrail e para quem gosta de asfalto. Sinuosa, sem ser perigosa. Rodeada de paisagem belíssima, ainda mais agora num inverno úmido que deixa o agreste pernambucano todo verdinho que dá gosto que nem o Luiz Gonzaga cantou em Asa Branca 2, o retorno. Pegamos a PE-095 em Ameixas e saímos do céu para o inferno. Estrada esburacada de dar dó. Limoeiro nos ofereceu uma parada para refrescar e tomar uma deliciosa água de coco. Reabastecemos as motos e Brunão manteve contato com o Elder que nos informou que o grupo já estava em Tracunhaem. Estamos indo ! Espera a gente aí. Seguimos para Carpina pela PE-090 e quando contornamos a rotatória para pegar a estrada para Nazaré da Mata nos deparamos com o grupo no sentido contrário. Paramos no Panela Cheia e degustamos uma deliciosa costela no bafo.
Já eram quase 14hs mas a fome só não era menor do que a vontade de contar/ouvir para/dos os amigos como fora o passeio. Animação geral, tiração de onda, muita gréia, boas risadas e surpresa geral da nação Bigtrail com o fato de que os 3 corajosos que caíram na minha conversa mole de fazer trilha tinham sobrevivido incólumes. João Guerra (que havia voltado a civilização depois da tapiocaria) duvidou e tivemos que mandar uma foto de Gian para ele pelo Whatsapp. O Odilon serviu de testemunha.
O saldo do passeio foi muito positivo. Conhecemos pessoalmente vários colegas com os quais só tínhamos interagido via Whatsapp ou o Portal. Consegui inocular o vírus da trilha de aventura em mais dois pilotos: Gian e Emerson. O Brunão completou a sua conversão.
Nos despedimos na escadaria do restaurante ouvindo promessas de novos passeios semelhantes.
Mal posso esperar.