Tatus na Chapada – Dia 9

Este seria o segundo e último dia de turismo na Chapada Diamantina. Uma pena porque passamos pouco tempo e vimos apenas uma fração do que poderia ser visto. A Chapada pede mais do turista. Pede mais tempo. Pede mais voltas. Eu voltarei.

Hoje a ideia de Tio Saulo é fazer nada radical, coisa light, para que acumulemos forças para encarar a volta de mais de 1000km amanhã. Portanto, o planejamento caprichado de Tio Saulo propõe uma visita a Lapa Doce (caverna), a Pratinha (rio com flutuação e relax na água) e a Subida do Pai Inácio (visão panorâmica e belas fotos).

Antes de pegarmos a estrada eu faço um tour novamente pelos locais onde perdi a Bandeira Azul. Tudo em vão. Nada da Bandeira. Espalho a notícia de que há uma recompensa para quem deixar a bandeira no posto de gasolina.

Pegamos a estrada em direção a Lapa Doce, seguindo oeste pela BR-242 e depois ao norte pela BA-122. Tio Saulo como sempre vai guiando. Dia de sol, poucas nuvens, ritmo rápido.

Na beira da estrada a esquerda um painel informa sobre as cavernas de Torrinha e Tio Saulo pergunta se num vale darmos uma olhada, afinal, estamos por aqui e nossos outros destinos (Lapa Doce, Pratinha e Pai Inácio) são próximos. Para mim é jogo e fazemos o desvio que iria mudar completamente os planos.

Chegamos a entrada da atração que se trata de nada mais nada menos que uma das maiores cavernas visitáveis do Brasil e da américa latina. O Eduardo, administrador do lugar, nos oferece um tour especial só para nós dois que incluiria um trecho da caverna que não é visitado normalmente. Ainda dá um desconto no ingresso e nós topamos. Vai começar uma das maiores aventuras da viagem. Tatus espeleólogos em ação. Tio Saulo tira a fantasia de motociclista, veste uma camiseta, bermuda e calça tênis. Como eu não trouxe tênis decido encarar a trilha com a bota Forma Terra Adventure. Ficaria ridículo eu de botas e sunga com dryfit, portanto vou com a calça de off-road mesmo. Decisão acertadíssima. A bota FTA é excelente como bota de aventura, confortável e resistente oferece a segurança e o grip de uma bota de cano baixo dessas de hikers. Com a vantagem de proteger bem a canela, coisa que seria muito útil lá dentro da caverna.

A caverna tem um clima surpreendentemente ameno, com temperatura de 24 graus constantes enquanto lá fora o calor já aparece e ultrapassa os 33 graus. Faríamos uma caminhada de cerca de 10km (contando ida e volta) em cerca de 2 horas. Mesmo com o ar condicionado, o exercício me faria suar bastante. Levamos meio litro de água cada um. Levar mais seria bom mas tem o risco de dar vontade de fazer xixi e lá dentro não pode de jeito nenhum.

Entramos por um salão enorme que já impressionava os pesquisadores até que em 1992 uma espeleóloga francesa achou uma passagem para outra parte da caverna que se descobriu então ser muito maior. Essa passagem original seria utilizada por nós na saída. Entramos por outra passagem artificial escavada para facilitar o acesso. Quer dizer, em termos.

O guia experiente, Toninho, nos explicava os vários espeleotemas. Essa caverna é considerada uma das mais interessantes não pelo tamanho em si mas sim pela variedade e quantidade de espeleotemas. As rosas de Aragonita são muito frequentes e algumas das maiores estão aqui. Formações como estalactites, estalagmites, vulcões de pedra, painéis nos tetos, cristais de gipsita, em tudo quanto é cor, tamanho e sabor.

A caminhada não é fácil. Entre tetos baixos que nos forçam a andar agachados até escaladas de pedras dentro dos salões, descidas e subidas íngremes. As lanternas fornecidas para nós são pequenas e fracas. Senti falta de um farolzão para iluminar tudo e ter uma visão mais panorâmica. As imagens com flash revelam mais coisas do que pudemos ver com as lanterninhas, que de tão fraquinhas coitadinhas, a gente tem que ligar outra lanterna ao lado para ver se estão acesas.

Algumas formações são muito interessantes e são translúcidas.

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Uma delas parece o castelo de Minas Tirth, da saga do Senhor dos Anéis.

Um trecho da exploração é particularmente difícil pois temos que nos arrastar sob um teto muito baixo, de uns 70cm de altura por uns 10 metros. Isso me deixa exausto.

Alcançamos os dois salões principais e o extra e tiramos dezenas de fotos impressionantes. No ponto mais remoto, o guia propõe que desliguemos as lanternas e façamos silêncio para ter uma experiência de privação sensorial. Sempre quis fazer uma dessas e foi legal. Mas a privação não era total. Ainda estava sentindo o peso do corpo sentado no chão. Mais tarde faria uma privação sensorial mais completa.

Hora de voltar, agora a caminhada volta pelo mesmo caminho que viemos, sem pausas para fotografia e com passo acelerado. Toninho e Tio Saulo vão abrindo vantagem e eu estou genuinamente cansado. Ainda tenho que encarar a passagem baixa lá na frente. Fico calado e falo nada durante o percurso. Próximo a saída decidimos usar a passagem que a pesquisadora francesa descobriu e a escalada para fora da caverna fica deveras interessante.

Ao sair da caverna o choque térmico é enorme. Dos amenos 24 graus partimos para 34 graus numa lufada de vento só. Tomamos água, usamos o banheiro. Tio Saulo quer ir para a Lapa Doce e eu veto. Pode ir. Eu não vou. Mais do mesmo não é uma boa ideia. Melhor fazermos algo diferente como a Pratinha e até mesmo o Pai Inácio e se sobrar tempo vamos a Lapa Doce. Tio Saulo então decide ir para a Pratinha e lá vamos nós.

Chegamos a Pratinha para visitar o rio, fazer a flutuação dentro da caverna e conhecer a Gruta Azul. Nesta última não poderemos mergulhar, só observar. A Gruta Azul se conecta ao Rio Pratinha através de uma caverna subterrânea com cerca de 80 metros de comprimento a 13 metros de profundidade. Essa caverna alagada não pode ser mergulhada por visitantes, apenas exploradores experientes.

A má notícia é que a entrada para a Gruta Azul fica a 200 metros da recepção e tem que subir e descer um morro bem íngreme. A foto dá uma noção do esforço. Eu estava esgotado e vou bem devagar. A gruta é interessante e tem que ser visitada logo pois daqui a pouco o sol estará tão baixo que os raios de sol não incidirão sobre a água da gruta causando o efeito “azul” que dá nome a atração. Tudo é muito bonito mas um tanto boring. Volto para a Pratinha. O que eu quero é a flutuação.

Descemos para a beira do rio e entrada da caverna, tiro a fantasia de motociclista e visto o equipamento de mergulho em apneia. Um guia nos leva para dentro da caverna e é como se tivéssemos voltado a um dos salões da Gruta da Torrinha, só que agora flutuando sobre o piso da caverna. Experiência muito legal.

Na parte iluminada da caverna a fauna e a flora é bem exuberante. Plantas aquáticas, algas, peixes de vários formatos e tamanhos. Até uma pequena tartaruga. A água é límpida e cristalina como nas piscinas naturais mais claras do litoral de Pernambuco, onde mergulhei milhares de vezes. A medida que nos afastamos da entrada da caverna a paisagem fica árida e estéril e só o chão e formações geológicas grandes. Nada de estalactite ou estalagmite ou coisa parecida. A água não permite tais formações.

A temperatura fria da água e o movimento lento são muito relaxantes e eu vou-me recuperando rapidamente. Quando chegamos a parte mais funda da caverna a água chega a 13 metros de profundidade, segundo o guia. Pergunto se posso dar uma mergulhadinha sem o colete e ele diz que não é permitido. Em compensação ele diz que dá para fazer a experiência de privação sensorial, pede para nós 3 apagarmos as luzes das lanternas e passarmos um tempo imóveis na piscina dentro da caverna. Escuridão total, silêncio total, ausência de peso. Agora sim. A sensação é muuuito legal. Pena que nós éramos o último grupo e o guia estava com pressa para ir embora. Ficamos pouco tempo e não deu para ter os efeitos alucinógenos que a privação sensorial completa proporciona. Mas a ideia é boa e vou tentar em algum outro lugar depois.

Voltamos para saída da caverna, damos mais uma relaxadinha e tiramos umas fotos.

Já é quase 17hs e o próximo programa é tomar banho na prainha do Rio Pratinha. Basta escalar o morro até a recepção, contornar o restaurante (que já estava fechado) e descer o morro pelo outro lado da caverna. Tudo isso levando na mão as botas, a câmera fotográfica, a calça off-road. Felizmente deixei o casaco e o capacete na moto. Uma mocinha no quiosque que vende os ingressos para a flutuação ofece-se para guardar a tralha e eu aceito.

Na prainha, pedimos o nosso “almoço” e Tio Saulo toma umas duas cervejas enquanto eu encaro um delicioso suco de mangaba. O por do sol se anuncia e a paisagem fica ainda mais bonita. A água claríssima é uma beleza.

Voltamos para Lençóis sem incidentes e o turismo acabou. Não tem mais passeio, não tem mais aventura, não tem mais nada. Agora é voltar para Recife pois Saulo tem um compromisso na quinta-feira. Depois do “dia relaxante” de hoje, amanhã vai ser só deslocamento por estrada de asfalto, sem brincadeira.

Só falta definirmos o roteiro.

 

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Tatus na Chapada Diamantina – Dia 7

Sim, o relato mudou de título. Não tem mais Jalapão. Agora é Chapada Diamantina. E assim, de aventura de tatu essa jornada vira um passeio de coxinha. Not for long!

Depois de uma noite no mais confortável hotel de nossa aventura, arrumamos as coisas de decidimos encarar os 470 quilômetros que separam Barreiras de Lençóis.

No jardim do Hote, Rocky, o cachorro do Peter Frampton, faz uma festa. Ele cansou-se da vida agitada ao lado do rock star, migrou para Barreiras e vive incógnito por aqui.

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Eis o vídeo que o alçou a fama

Vamos encarar a BR-235, a principal via de escoamento da produção agrícola da nova fronteira no oeste da Bahia. Caminhões carregados devem ser uma constante mas felizmente, nas manhãs de domingos os caminhoneiros pegam mais leve. O tráfego deve ser um tiquinho menor do que o normal. Ainda bem pois a BR-235 não é duplicada e os relatos sobre o estado de conservação são conflitantes.

Passei por essa estrada no inverno de 1986 numa viagem de ônibus que fiz com meu irmão Homero para passar umas férias em Brasília na casa de meus tios. Lembro que passavam horas entre avistarmos um carro ou uma pessoa. Como mudou. O desenvolvimento do oeste da Bahia é notável. Barreiras era uma cidade pequena e mal servia como ponto intermediário para os ônibus da Viação Itapemirim. Hoje é uma cidade grande e sofisticada e não está só. Ainda mais ao oeste, Luiz Eduardo dizem está crescendo mais rápido e já está do tamanho de Barreiras.

Pegamos a estrada e cruzamos a cidade de oeste para leste e encontramos a pista em excelentes condições. O tráfego era normal, nada demais. A paisagem do sertão da Bahia alternava momentos de aridez e de verde. As formações de vales e montanhas eram um espetáculo para os olhos. Em tudo parecia a Rota 66 cruzando os desertos do meio oeste. As fazendas parecem mais ricas e agora gado bovino é muito presente. Ainda encontramos muito bode/cabra.

Com a mudança de planos, a ideia é tentar recuperar  tempo e a viagem para Lençóis deixa de ser aventura e nem sequer turismo. É puro deslocamento. Só paramos para abastecer e comer. Quanto mais cedo chegarmos a Lençóis melhor.

Logo no início um campo com uma infestação de cupins. Os ninhos de cupins são enormes e só tinha visto assim tão altos no interior de Goiás. Aqui na Bahia eles tem cor diferente, justamente porque a “matéria prima” para construção dos ninhos é diferente. A terra da Bahia tem composição diferente da terra de Goiás.

Rapidamente chegamos a Ibotirama e novamente vamos cruzar o Rio São Francisco. A imagem é forte pois o rio da integração nacional tem sofrido um bocado esses últimos anos. As notícias mais recentes são boas. Voltou a chover na região da nascente do Véio Chico e tem água por lá. Já não era sem tempo. Aqui o rio é de cor barrenta, como era antes da construção do lago de Sobradinho mais abaixo.

Decidimos parar para abastecer e almoçar e rapidamente pegar a estrada. Perguntamos pelo limpa viseira spray e não tem. Nunca mais iríamos encontrar o tubinho spray que compramos no interior do Piauí.

A estrada que até então estava perfeita e com algum tráfego passa a ficar apenas regular e com tráfego maior ainda. O ritmo é forte e dá para manter uma média bem alta.

A previsão agora é de chegarmos por volta das 16hs em Lençóis. O ritmo continua bom apesar do aumento do tráfego e das irregularidades na pista. Um ou outro buraco sendo que o defeito mais comum são as “valas” no asfalto causadas pelo excesso de peso dos inúmeros caminhões carregados de produtos agrícolas ou whatever.

Como toda viagem sobre asfalto a chatice só é atenuada pelas belas paisagens do interior da Bahia. Pastos, plantações, serras, montanhas, vales, caatinga seca, áreas verdes, belas fazendas. A pista é reta e com curvas suaves, uma moleza mas um tanto entediante.

Em Seabra paramos para abastecer pela última vez antes de Lençóis. Tio Saulo suspeita que os preços de gasolina em nosso destino serão mais altos pois só tem um posto de combustível lá. Logo após a saída do posto começa a chover.

Para Impermeável Saulo é só um inconveniente. Para mim é exigido que pare e vista a capa de chuva, que por acaso eu coloquei no fundo do baú pois não imaginei que iria chover tanto no sertão da Bahia. Deu trabalho mas rapidamente eu estava protegido. Não coloquei a calça de plástico. Só a jaqueta. Foi uma medida correta pois a chuva fina que se anunciou engrossou e virou chuva de verdade.

Na subida da serra uma imagem impressionante de uma carreta tombada e sua carga espalhada pela pista. Desembaraçamos rapidamente e exceto por isso, a viagem seguiu sem incidentes.

Entramos em Lençóis debaixo de chuva e fomos procurar uma pousada para o pernoite. Me interessei por uma chamada “pousada do Cajueiro” que fica na subida de um morro. Não consigo encontrar a entrada da pousada e subo o morro até o alto onde tem uma capela muito simples e rústica a frente de um cemitério. Decido parar lá para tirar uma foto com a Azul.

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Seria a última vez que veria a Bandeira Azul. Na pressa para encontrar uma pousada não acomodei direito a bandeira nos amarradores de bagagem e ela caiu da moto no que eu presumo seja a descida desse morro, toda esburacada. Deve ter balançado e a bandeira caiu sem que eu visse.

Eu e Tio Saulo havíamos nos separado, cada um procurando uma pousada legal. Decido arriscar e ver se tem vagas no chic Canto das Águas. Quando volto para a moto percebo a ausência da bandeira. Encontro com Tio Saulo e ele já havia selecionado uma pousada para nós. Combino com ele de encontrar com ele lá enquanto refaço o percurso procurando a bandeira azul.

Subo de novo o morro em direção a capelinha pelo caminho que desci  e nada de encontrar a bandeira. Alguém a pegou.

Lá em cima eu converso com alguns moradores e deixo avisado que há uma recompensa para quem encontrar e devolver a bandeira no posto de gasolina. Decido voltar a pousada e resolver a questão da estadia. Procuro a bandeira mais tarde.

Ao descer o morro pela ladeira de pedras, encontro umas pessoas e vou falar com elas. Dou bobeira e com a moto parada levo um tombo forte em que sou arremessado ao chão pelo peso da moto. Caio de lado, batendo a bunda de lado no chão. Pancada forte daquelas que tira o ar dos pulmões. Fico parado uns segundos na esperança de não ter quebrado nenhum osso e por sorte nenhum quebrou. Mas doeu. Levanto-me com o lado do corpo todo doído e sabendo que assim que eu relaxar a dor vai vir com força.

Nenhum dano na moto exceto a bolsinha de tanque que desprendeu da base. Examino o kit e percebo que dos 4 parafusos que fixam a bolsa a base circular que engata na base fixa sobre o tanque, apenas dois estão presentes e ainda assim meio frouxos. Presumo que o excesso de peso que acomodei na bolsa e a vibração durante os quase 3000km que levamos para chegar a Lençóis devem ter afrouxado os parafusos. A queda foi a gota dágua. Parece que tem conserto.

Deixo de conversa, levanto a moto e sigo para pousada. Nem dói tanto enquanto eu estou montado na moto. Ao desmontar a dor chega. Parece dor de velho envergado. Ando com dificuldade e encontro com Tio Saulo que pede para eu dar uma olhada no quarto antes de fecharmos negócio com a pousada.

Rapidamente vistorio o quarto que tem uma cama de casal e uma de solteiro. Tio Saulo diz que por eu ser mais velho ficarei com a cama de casal. Negócio fechado. Estou exausto e chateadíssimo com a perda da bandeira azul e da queda. Nenhum dano além do moral e da dor.

Desmontamos a bagagem, tomamos um banho refrescante e saímos para jantar a pé na noite do domingo. Chegamos ao El Jamiro e comemos um prato de petiscos variados regados a cerveja deliciosa. Jogamos conversa fora enquanto Tio Saulo faz os planos para o dia seguinte, que promete. Na verdade, o dia seguinte seria o melhor dia de toda a viagem.

 

Tatus no Jalapão – Dia 2

O “cerumano” e a sua incrível capacidade de se adaptar as mais adversas situações. Sim, se adaptar pode ser se acostumar a um calor de 38/39 graus e achar 33 graus um “friozinho gostoso”. Pois foi isso que aconteceu conosco na noite do dia 2, quando chegamos as 18:30 a cidade de São Lourenço do Piauí. Mas como isso pode acontecer ? Comecei a história pelo fim.

Amanhecemos em Petrolina depois de uma noite onde jantamos um bode assado no Ângelo, regado a muita cerveja Heineken, a preferida do Tio Saulo. Também explico já já porque decidi chamar meu companheiro de aventura de “Tio”. Sob o belíssimo céu limpo e cristalino de Petrolina, em plena seca do El Nino, havia uma sombra que pairava sobre nós. A minha moto tinha morrido em pleno funcionamento duas vezes no fim do dia anterior. Sem motivo aparente a moto desligou. Duas vezes. Quais seriam as possíveis causas ?

  1. Gasolina adulterada quando abastecemos em Belém de São Francisco,
  2. Imperícia do condutor (nunca pode ser descartada)
  3. Síndrome da bomba de gasolina com defeito (mal que assola as BMDafras)

Acordamos por volta de 7 horas para o que planejávamos ser um trecho “fácil” de apenas 304 km até São Raimundo Nonato no Piauí. Fomos abastecer a moto num posto Shell para isolar a variável da gasolina adulterada. Adicionalmente e por via das dúvidas, enchi o tanque da moto com gasolina Shell Dupliplusboa Extra Good Aditivida Juramentada Abençoada. Se o problema era gasolina, agora o tanque cheio da supergasolina deveria resolver.  Logo depois do posto, um susto enorme. Minha moto jorrava gasolina e deixava um rastro por onde passava. O perigo era cair gasolina no escape quente e a coisa toda pegar fogo. Saulo que notou que estava vazando gasolina e me avisou. Meu primeiro pensamento foi “trincou o tanque de gasolina e a aventura acabou”. Nada disso. O incompetente do bombeiro (e do piloto) não fechou a tampa do tanque após abastecer. Fechei tudo, deixei a gasolina que escapou do tanque evaporar e seguimos caminho.

 

Antes de pegar a estrada a paranoia sobre a causa do problema na minha moto nos fez passar numa loja de peças da Bosch e comprar uma bomba de combustível de reserva. Relatos de vários proprietários de BMDafra F800GS contam histórias terríveis de bombas de gasolina que deixaram os pilotos na mão em pleno meio de lugar nenhum. De fato, a posse desse artigo místico, a bomba para carros 1.0 que segundo o Papa Piu (também conhecido como “O Durigan”) pode ser usada na F800GS me dava uma tranquilidade enorme. Resultado é que saímos de Petrolina perto das 10 horas da manhã. Mas sem problemas, o trecho é moleza e temos muito tempo para percorrer apenas 300km. Decidimos então fazer um desvio que adicionou 40km ao percurso e pagar uma visita a Barragem de Sobradinho na Bahia. Queríamos ver o maior lago artificial da América Latina. Para mim isso tinha um sabor especial pois eu havia visitado a barragem há 35 anos numa viagem migratória que fiz com meu pai de carro de Belém de volta para Recife.

Saímos de Petrolina em direção oeste, orientados pelo Tomtom, dobramos a esquerda e abordamos a barragem pelo lado norte. Antes de chegarmos a barragem subimos um morro com torres de telefonia celular e de lá tiramos belas fotos. O sertão virou mar, embora o nível da barragem esteja apenas a 1% da sua capacidade, a imagem ainda impressiona.

DSC_0002Figura 1 – O Sertão Virou Mar – Bandeira XT660 na Bahia

Descemos o morro e seguimos até a eclusa, passando sobre a ponte levadiça.

Eclusa light

Mais fotos da obra que permite que os “vapores” subam o Salto de Sobradinho, como diz a música de Sá e Guarabira.

Voltamos pela estrada em direção norte e o nosso próximo destino é Remanso, na Bahia, onde pretendemos almoçar e reabastecer as motos. Passaremos então por Casa Nova. Na música de Sá e Guarabira eram Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho. Todas elas relocadas pelo lago formado no fim da década de 70. Dessas nós visitaríamos 3. Pilão Arcado e Sento Sé ficam muito fora do roteiro.

Mais uma dose de estradas absolutamente retas e monótonas. Só que agora, em pleno sertão e as 10:30 da manhã a temperatura atingiu os 38 graus que no dia anterior só havíamos alcançado no meio/fim da tarde. Agora era constante. Quente. Ligaram o secador de cabelos e apontaram para nossa cara. A viseira do capacete fechada significa uma temperatura mais “amena”.

Sem incidentes chegamos a Remanso por volta de 12:30 e fomos almoçar no restaurante “Velho Chico” que ficava a margem do lago de Sobradinho. Com a seca, a margem recuou mais de 3km. Almoçamos um delicioso surubim frito acompanhado de suco de tamarindo feito artesanalmente. Descansamos um pouco e decidimos visitar as ruínas antes inundadas de Remanso Velho e agora descobertas pela seca. Segundo os locais, há 4 anos que a margem recuou e esse ano vai ser difícil ela voltar ao nível normal.

Esse foi o primeiro teste off-road que faríamos na viagem. Testar as amarrações e fixações de bagagem. A estradinha no leito do lago tinha de tudo: buracos, cascalho, areia fofa, muita poeira. Na saída um pequeno susto provocado pela perda de tração na traseira ao acelerar. Dá para ver no vídeo do youtube. Chegamos rapidamente a nova margem do rio e dá para ver a desolação que a seca provoca.

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Aqui a cor do rio é bem barrenta. A deposição que o lago de Sobradinho proporciona tornou o Véio Chico mais límpido abaixo da barragem. Como aqui é a nova “orla”, o comércio informal já se estabeleceu. Vimos alguns caminhões pipa reabastecendo com água e algumas barracas de bebidas e comidinhas.

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Voltamos pela mesma estradinha para Remanso e vamos pegar a estrada para São Raimundo Nonato em direção ao norte. Para nossa surpresa a estrada marcada como asfaltada na verdade é de terra.

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Nós pedimos, nós recebemos. Agora é encarar. A estrada, fácil, larga. Muito cascalho e pedras e muita poeira. Decidimos baixar a pressão dos pneus antes em estratosféricas 36/42. Com 22/25 as motos ficaram mais macias, menos ariscas, não quicavam tanto. Menos de 10km depois o pneu dianteiro da minha moto baixou. Acho que esvaziei demais. Saulo usou o o fantástico compressor Michelin portátil e pedi para ele por 30 libras e desejando sinceramente que tenha sido só um mal entendido de esvaziamento incompetente. Não era. Poucos quilômetros depois o veredito. O pneu tinha furado mesmo.

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No problemo! Tínhamos uma câmera Michelin 0km para essa contingência. Só que não levamos as espátulas para tirar o pneu. Tentei improvisar com as ferramentas e elas simplesmente envergavam e nada de desmontar a virola do pneu. O jeito é levar a roda a um borracheiro. Saulo encontrou um borracheiro escondido numa ruazinha ao lado da estrada num vilarejo uns 3 km antes do local onde havíamos parado. Enquanto o borracheiro remendava a câmara velha, Saulo trouxe o pneu com a câmara nova, murcho mesmo para eu montar. Me enrolei na hora de montar dei bobeira e as pastilhas de freio saíram da sede. Tem que tirar o pino e a cupilha, montar a roda, montar as pastilhas e colocar as cupilhas. Tudo certo até a hora de fixar as cupilhas, por pura incompetência minha uma delas envergou, “estilingou” e voou em direção ao esquecimento na poeira no meio da estrada. Nunca mais eu a vi. Paciência, essa vai sem cupilha mesmo. Estava ficando escuro e ainda tínhamos muita estrada de terra para encarar, não sabíamos quanto. Roda montada, câmara nova, estrada escura. Chegamos em São Lourenço do Piauí as 18:30, tudo escuro, paramos para tomar uns refrigerantes. Que delícia quando comparado ao forno de 38 frequentes com picos de 39/40 no meio da estrada. Recalibramos os pneus para asfalto usando o fantástico compressor Michelin de Saulo.

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Descansamos um pouco e tocamos para São Raimundo Nonato. Localizamos a pousada que nos recomendaram, Zabelê e finalmente consideramos que havíamos chegado.

O percurso de 300km que deveria ser concluído lá pelas 3 ou 4 da tarde se estendeu até as 7 da noite por causa do pneu furado. E aí cabe um relato interessante.

Sempre aplico a vacina de pneu da Motovisor na minha moto. Há 15 dias, fiz uma trilha com uns amigos e cheguei em casa com o pneu dianteiro furado. Lá em casa tem compressor e enchi o pneu novamente. A vacina tapou o furo perfeitamente tanto que percorri os 700+km até a estrada Remanso/São Lourenço do Piauí sem problemas. Tudo tem limite e a capacidade de cura da vacina estava há muito esgotada. O borracheiro encontrou nada mais do que 4 furos na câmara de ar. Portanto, a vacina tapou 3 de forma eficaz. O quarto furo era grande, um rasgo e aí não tem jeito, foi a lona.

Terminamos o dia bebendo umas cervejas na área comum do hotel, jantar frugal para mim. Conhecemos o Fernando Maia, um paulista (nascido em Pernambuco) que estava fazendo turismo de aventura com sua esposa na Serra da Capivara. Fernando deu dicas valiosas que seriam muito úteis no dia seguinte. O papo foi divertido e rapidamente criamos uma empatia com o Fernando.

Fomos dormir agradavelmente exaustos. O dia seguinte seria cheio de surpresas.