Segundo Raid Lucena-Pipa

O litoral do Nordeste é cheio de atrativos e uma das formas mais interessantes de conhecer tais atrações é fazendo turismo de aventura com motocicleta. Ir de moto a lugares que de outra forma ficariam mais difíceis de chegar.

O Raid Lucena-Pipa é isso. Uma aventura partindo da cidade de Lucena, do outro lado do rio no Pontal de Cabedelo, e seguindo até a praia de Pipa no Rio Grande do Norte.

O grupo dos Tatus Manguetown já tinha feito esse passeio com cerca de 10 motos entre membros e convidados. Todos eram experientes pilotos de off-road e depois de uma noite de farra na casa de Homero em Cabedelo saímos de manhã e chegamos as 15hs em Pipa. Isso foi em setembro de 2016.

Agora em fevereiro de 2018 a missão é levar alguns Amigos Coxinhas.

Convites feitos e entre aceites e desculpas amareladas para não ir o grupo formado ficou com Eu e Lara (F800gs), Eloy e Gabriela(F800gs), Demetrius (Ténéré 250), Laplace(F800gsADV), Rodolfo (F800gs) e Luciano de João Pessoa (F800gs, irmã gêmea da Mítica Black Mamba).

O clima estava  bem chuvoso. Nos últimos dias tinha chovido bastante e a previsão para o fim de semana era de mais chuva. A ideia era partir de Lucena na manhã do Sábado e seguir para Pipa e chegar lá pelas 16hs. O ponto de encontro é a balsa de Cabedelo-Lucena. Luciano que mora em João Pessoa e eu (que vim para Jampa na noite anterior) nos encontraríamos com o resto do grupo que veio de Recife logo cedo.

Apesar da chuva as perspectivas para a trilha eram boas. O percurso é praticamente todo plano e o solo dessa região é muito arenoso. Devemos pegar algumas poças de água mas não vai rolar muita lama pois simplesmente não tem. O solo dessa região é normalmente areia e de vez em quando um barrinho misturado. Areia de praia molhada é até melhor.

Pegamos a balsa as 9hs e começamos a aventura.

Desembarcamos da balsa e Demetrius seguiu liderando a trupe. Fomos em seguida para a Igreja da Guia para tirar as tradicionais fotos. O chão estava bem molhado e sem maiores dificuldades.

 

Abbey Road style. Não percebi mas essa marcha seguia em direção ao cemitério 🙂

Confissões feitas, promessas de se comportar e seguimos em direção as Ruínas de Bonsucesso.

Nessa foto dá para perceber que o tempo estava muito nublado e com chuva intermitente. A trilha promete aventuras.

Ruínas de Bonsucesso ficam numa trilha muito bonita por entre uma floresta em terreno de areia. Muitas poças dágua mas nada de lama ainda.

Nesse trecho já deu para perceber que alguns colegas estabeleceriam alguns latifúndios a partir de compra de terreno. Ou seja, quedas e tombos em profusão. Nada sério mesmo porque a velocidade era muito baixa. Começa o desgaste de energia para levantar as motos F800gs adv repetidas vezes.

Depois das Ruínas, temos que ir a Falésia que dá uma vista magnífica da foz do Rio Miriri, lá embaixo.

Pegamos a trilha novamente agora em direção a Rio Tinto. O rio Mamanguape tem em sua foz uma área de preservação reservada para berçários de bebês de peixe-boi marinho. Não tem ponte sobre o rio a não ser bem no interior próximo a Rio Tinto. Barcos a motor não podem navegar na barra do rio portanto não tem balsa nem jeito seguro de cruzar o rio no litoral para a próxima praia que é Baía da Traição. O jeito é desviar a trilha para o interior, ir a Rio Tinto e pegar um trecho de asfalto (ECA!) até a praia e retomar a trilha então.

Fizemos isso debaixo de chuva fina e constante. Pegamos a trilha novamente ao norte da cidadezinha de Baía de Traição. Essa trilha, a rigor, é a PB-008 que ao norte de Cabedelo existe apenas como uma estradinha de terra que em alguns lugares não passa de uma trilha mesmo.

Chegamos então em Barra de Camaratuba para a segunda travessia de balsa do percurso. O mar estava muito seco porém já estava enchendo. A balsa não estava no local de partida e tivemos que avançar sobre o areial do leito do rio até bem próximo da barra.

Duas motos atolaram, a de Eloy e a de Laplace. Voltei a pé para ajudar e acabei trazendo a moto de Laplace para a balsa. Sem capacete! Que coisa feia!!!

A trilha até então estava tranquila e só com pequenos sustos (escorregadas) e tombos com as motos paradas. Nada demais.

Na minha inocência, o trecho mais fácil viria a seguir. A praia plana com maré baixa entre Barra de Camaratuba e Barra de Guaju. O trecho tem cerca de 12 km de areia de praia só que a maré estava enchendo … aí a areia molhada vira areia movediça.

trecho camaratuba guagu

Eu estava com garupa e apesar da areia estar meio fofa, percebi que o melhor a fazer é acelerar para não pegar o trecho entre Guaju e Sagi (o pior de todo o raid) com a maré muito alta. Acelerei com Lara na garupa imaginando que os amigos não teriam mais dificuldades pois a praia plana, areia dura … me enganei.

Cheguei a balsa de Guaju sem dificuldades e esperei pelos amigos. Nada.

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Começaram a demorar mais do que seria razoável. Alguém levou alguma queda ou atolou e eu simplesmente não conseguia conceber como. Praia lisa ? Como pode ter dado problema. Mal sabia. Na balsa uma Titan 150 de um nativo seguia em sentido contrário. Pedi para ele avisar aos amigos que estava tudo bem comigo e que eu os aguardava do outro lado do rio. Saberia depois que o emissário alcançou Eloy e deu o recado.

Atravessei o rio e me dirigi a praia com Lara na Garupa. A maré já estava enchendo muito. A areia estava realmente muito fofa e na primeira tentativa a moto saiu derrapando de um lado para outro e a cerca de 30km/h deu uma enterrada total. A frente da moto ficou completamente coberta de areia. Sem condições de fazer o trecho até Sagi com garupa.  A maré já estava enchendo para valer e a janela de tempo ficou muito estreita. A praia ficaria alagada com a maré alta. O jeito é seguir em frente pois não há saída de Barra de Guaju a não ser pela praia e por uma estrada de areia aos pés das dunas.

Enquanto desatolava a minha moto vi que Luciano havia chegado a balsa. Pedi a Lara ir lá falar com ele para saber o que aconteceu. Luciano assegurou que estava tudo bem e  sob controle.  Desenterrei a moto e consegui levantá-la. Lara voltou bem na hora em que eu dei partida. Ela foi de buggy até Sagi. Mandei ver na areia fofa. Depois que a moto atinge uns 30km/h ela não atola mais porém fica sambando na areia. Tem que acelerar até uns 40km/h no mínimo para estabilizar. O trecho entre Barra de Guaju e a vila de Sagi tem uns 2,5km de muita areia. Cheguei em Sagi e em direção ao calçamento, a 10cm da rua de paralelepípedo .. levei uma queda. Sem maiores consequencias mas deu uma raiva enorme. Levantei a moto e estacionei-a próxima a calçada. De repente meu celular dá um alerta de mensagem. Era uma mensagem de Laplace -> “HELP!”.

Caramba, a mensagem havia sido enviada quase uma hora atras, antes de Luciano nos encontrar. Lara chega alguns minutos depois no buggy. Vamos esperar um pouco .. que vira mais tempo .. mais tempo e nada dos companheiros chegarem. Deu alguma zica.

Dois guris estavam queimando gasolina em dois UTV’s da Polaris, passando pra lá e pra cá sem muita coisa a fazer. Cheguei para eles e pedi ajuda. Tenho alguns amigos que devem estar precisando de ajuda entre Camaratuba e Sagi. Eles toparam ajudar, subi no Polaris e voltei em direção a Barra de Guaju para ajudar os amigos.

No meio do caminho encontrei Rodolfo, Eloy,  Luciano e Laplace. Cadê Demetrius ? Aí comecei a receber a conta-gotas os relatos do que acontecera aos companheiros.

Demetrius havia levado um tombo espetacular quando voltou para salvar Laplace. A moto entrou na água do mar, a viseira, o capacete e a go pro se soltaram e cairam na água. O relato impressiona:

Esse vídeo foi gravado um pouco antes de eu reencontrar os amigos. Eles estão na barraquinha de Barra de Guaju. Nesse momento eu já estava com Lara em Sagi, 2,5km adiante.  O interruptor do motor de arranque da moto de Demetrius ficou acionado o tempo todo com o motor de arranque ligado. Demetrius muito safo já resolveu depois de recolocar a moto em ordem de marcha (guidao empenado, paralama travado, gopro resgatada).

Decidi mandar Gabriela, a garupa de Eloy, e Laplace nos Polaris. Peguei a moto de Laplace e a trouxe pela estradinha nos pés das Dunas. A praia já estava alagada pela maré. Cheguei em Sagi sem incidentes. Minutos depois chegaram os Polaris e seus passageiros e pouco depois o restante do grupo.

resgate polaris

Fomos para uma oficina de motos em Sagi onde pneus foram recalibrados e o guidão da moto de Demetrius foi parcialmente desempenado. Chovia firme e constante uma chuva honesta. Lavamos as motos e tiramos umas 10 toneladas de areia das motos e dos pilotos.

Com a chuva intensa e o adiantado da hora, já eram quase 17hs, não ia dar para continuar na trilha até Pipa. O jeito era voltar para a BR-101. Eu, Lara, Eloy e Gabriela iríamos para Pipa. Laplace, Luciano, Demetrius e Rodolfo voltariam para João Pessoa e Recife.

Aí começou a chover. Muuuuuito. Chuva diluvial de proporções bíblicas. O céu escureceu definitivamente pouco depois das 16:30. A estrada entre Sagi e a BR-101 é de barro batido e cheia de pequenos buracos. Super molhada e escorregadia. Eu e Eloy encaramos só que eu mantive um ritmo mais forte porque não queria ter que rodar nessa estrada em péssimas condições e ainda por cima a noite com o farol alto queimado. Sim, descobri isso na noite anterior e fiquei tranquilo pois não imaginava que teria que rodar a noite considerando que partimos de Lucena as 9hs da manhã.

Rodar numa estrada de terra que você não conhece, com garupa, sob chuva torrencial e com a noite se aproximando não é uma experiência legal. Felizmente chegamos a BR 101 sem incidentes as 16:54 mas. Aí … a chuva que eu pensava que já tava no máximo começou a virar uma tempestade. Encharcado até os ossos, encaramos a BR-101 que é um tapete até Goianinha onde parei para abastecer. Eloy estava num ritmo mais lento e isso me preocupava. Já era noite fechada, a chuva não aliviava e a estrada de Goianinha para Pipa é muito sinuosa, cheia de lombadas e alguns buracos. Não estava afim de encarar essa estrada por muito tempo a noite escura. Como é uma estrada muito movimentada e cheia de vilas, mesmo que furasse um pneu não é difícil de obter ajuda. Decidi acelerar e seguir direto para Pipa chegando na Pousada Aconhego da Pipa as 17:47. Minutos depois, Eloy me avisa que tinham chegado sãos e salvos na Pousada Alemã.

Demetrius, Laplace, Rodolfo e Luciano vão um pouco atras, e pegam a BR-101 enfrentando muita chuva. Algumas horas depois, Luciano avisa que já estava são e salvo em casa em João Pessoa. Laplace, Dema e Rodolfo continuaram para Recife a noite e na chuva torrencial.

O raid não foi completo pois não fizemos o trecho entre Sagi e Baía Formosa, quando voltaríamos a praia e seguiríamos até Barra de Cunhaú, depois Sibaúma e a estradinha que vai dali até o “Chapadão” de Pipa. Não havia condições. Muito escuro, muita chuva e a maré alta iria impedir o passeio na praia entre Baía Formosa e Barra de Cunháu, onde pegaríamos outra balsa.

No fim, o passeio que deveria ter sido super tranquilo virou uma aventura com ares dramáticos e que para alguns era quase um pesadelo. Mesmo assim valeu a pena. Amizades se consolidaram e o valor da solidariedade em momentos de angústia foi devidamente apreciado pelos aventureiros.

Apesar do saldo positivo, existiram alguns erros. O maior foi ter subestimado a maré em Barra de Camaratuba.

Primeiro eu li a hora da maré erradamente.  A maré estava completamente seca as 11:23 pois o horário do site que eu vi era de Brasília, que no sábado ainda estava no horário de verão e dizia 12:23 … Ora, quando entramos na praia em Barra de Camaratuba já eram 13:26, portanto, a maré já estava enchendo há 2 horas. Esse ponto tem que ser atingido com a  maré ainda secando por pelo menos mais 2 horas que é para dar tempo de chegar a Sagi sem maiores complicações e ainda com sobra de tempo para pegar a praia entre Baia Formosa e Barra de Cunhaú, sem estresse. Em suma, estávamos 4 horas atrasados. Desse atraso, uma hora foi por erro de horário de verão. As outras 3 horas foram erro meu de não ter dimensionado bem o tempo entre Lucena e Camaratuba.

Entre Camaratuba e Guaju, eu e Lara fizemos de moto em 17 minutos. Isso porque no meio do caminho eu notei que os amigos haviam se atrasado e cheguei a voltar para ver o que estava acontecendo. Depois que vi que todos estavam na praia e rodando (a distancia), retomei o rumo em direção a Guaju e acelerei. Segundo o meu tracklog, foram 4 minutos de turn-around. Ou seja, o trecho entre Camaratuba e Guaju pode ser feito em 13 minutos, com garupa.

O ponto chave desse roteiro é a Barra de Camaratuba. Se a maré não estiver secando quando chegar e esse ponto, é melhor desviar para a trilha por dentro dos canaviais (que eu não conheço).

Entre Guaju e Sagi fica o trecho mais dificil. A praia é estreita e tem pedras encravadas na beira da praia. Tem que ter muito cuidado. A areia é muito grossa e fofa e a alternativa é a estradinha no sopé das dunas. Eu não conheço essa estradinha. Ela é muito usada por 4×4 que visitam essa região. Com a chuva, a estradinha estava razoavelmente fácil. Só que eu não sabia. O jeito foi ir pela praia mesmo. Porém, para os amigos seria tarde demais. A maré alagaria a praia toda. O ponto que quero demonstrar é que Guaju para Sagi talvez seja melhor pela estradinha, afinal de contas.

Eu e Lara ficamos na pousada esperando a chuva passar para irmos jantar com Eloy e Gabriela. Só que a chuva que já estava alagando a vila de Pipa engrossou ainda mais. Comemos um jantar por ali mesmo apesar dos convites insistentes de Eloy para jantarmos juntos. Só que estávamos relativamente longe para ir a pé na chuva. Mesmo assim, deu uma estiada e corremos para a Sorveteria Preciosa. Eloy/Gabriela ainda estavam jantando e decidimos nos encontrar na hora do almoço do domingo, faça chuva ou sol. Sim, a previsão de tempo era que ia chover para caramba no domingo.

Felizmente amanheceu um belo dia ensolarado. Formos para a praia, tomamos uma água de coco com Eloy/Gabriela e voltamos para a Pousada Aconchego da Pipa, empacotamos as coisas e pegamos a estrada de volta para Recife. Pequena pausa para calibrar os pneus em Goianinha, onde Lara fez um lanchinho e eu comi uma coxinha (canibalismo) e tomei um café para ficar esperto. Eram 13:15 da tarde quando pegamos a BR-101 pra valer sentido sul para irmos para Recife. Dia ensolarado, viagem sem maiores incidentes. Paramos no Rei das Coxinhas 2 horas depois. Mais canibalismo e 3 coxinhas de camarão com catupiry para nossas filhas que nos aguardavam em Recife. O tempo já não estava mais tão ensolarado e lá longe dava para ver que as nuvens carregadas ameaçam dar outro banho na gente. Passei com cuidado na curva depois da fronteira PB/PE um pouco antes de Goiana onde eu imaginava que tinha sido a queda de Laplace. Eu só viria a saber com certeza o local da queda na segunda-feira de manhã. Realmente o local é perigoso, uma curva numa descida com algumas ondulações na pista, piche e resto de cana-de-açucar esmagada. Deve ficar um sabão. Isso a noite então é um acidente esperando acontecer.

Chegamos em casa as 16:20 felizes por mais uma aventura.

Minha esposa Lara foi magnífica. Com espírito de aventura, não reclamou uma vez sequer do frio, calor, umidade, areia, sal, lama, buraqueira, fome, sede, medo de cair ou qualquer coisa que fosse. Sempre encarou na boa e com excelente humor. Ficou um bocado preocupada com os amigos que se atrasaram e no fim ficou aliviada porque não houve nada sério, apenas os perrengues típicos de uma aventura de trilha light do Bokomoko.

Segue o tracklog do passeio

https://www.wikiloc.com/wikiloc/spatialArtifacts.do?event=view&id=22752779&measures=off&title=off&near=off&images=off&maptype=SPowered by Wikiloc

 

 

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Tatus na Chapada Diamantina – Dia 7

Sim, o relato mudou de título. Não tem mais Jalapão. Agora é Chapada Diamantina. E assim, de aventura de tatu essa jornada vira um passeio de coxinha. Not for long!

Depois de uma noite no mais confortável hotel de nossa aventura, arrumamos as coisas de decidimos encarar os 470 quilômetros que separam Barreiras de Lençóis.

No jardim do Hote, Rocky, o cachorro do Peter Frampton, faz uma festa. Ele cansou-se da vida agitada ao lado do rock star, migrou para Barreiras e vive incógnito por aqui.

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Eis o vídeo que o alçou a fama

Vamos encarar a BR-235, a principal via de escoamento da produção agrícola da nova fronteira no oeste da Bahia. Caminhões carregados devem ser uma constante mas felizmente, nas manhãs de domingos os caminhoneiros pegam mais leve. O tráfego deve ser um tiquinho menor do que o normal. Ainda bem pois a BR-235 não é duplicada e os relatos sobre o estado de conservação são conflitantes.

Passei por essa estrada no inverno de 1986 numa viagem de ônibus que fiz com meu irmão Homero para passar umas férias em Brasília na casa de meus tios. Lembro que passavam horas entre avistarmos um carro ou uma pessoa. Como mudou. O desenvolvimento do oeste da Bahia é notável. Barreiras era uma cidade pequena e mal servia como ponto intermediário para os ônibus da Viação Itapemirim. Hoje é uma cidade grande e sofisticada e não está só. Ainda mais ao oeste, Luiz Eduardo dizem está crescendo mais rápido e já está do tamanho de Barreiras.

Pegamos a estrada e cruzamos a cidade de oeste para leste e encontramos a pista em excelentes condições. O tráfego era normal, nada demais. A paisagem do sertão da Bahia alternava momentos de aridez e de verde. As formações de vales e montanhas eram um espetáculo para os olhos. Em tudo parecia a Rota 66 cruzando os desertos do meio oeste. As fazendas parecem mais ricas e agora gado bovino é muito presente. Ainda encontramos muito bode/cabra.

Com a mudança de planos, a ideia é tentar recuperar  tempo e a viagem para Lençóis deixa de ser aventura e nem sequer turismo. É puro deslocamento. Só paramos para abastecer e comer. Quanto mais cedo chegarmos a Lençóis melhor.

Logo no início um campo com uma infestação de cupins. Os ninhos de cupins são enormes e só tinha visto assim tão altos no interior de Goiás. Aqui na Bahia eles tem cor diferente, justamente porque a “matéria prima” para construção dos ninhos é diferente. A terra da Bahia tem composição diferente da terra de Goiás.

Rapidamente chegamos a Ibotirama e novamente vamos cruzar o Rio São Francisco. A imagem é forte pois o rio da integração nacional tem sofrido um bocado esses últimos anos. As notícias mais recentes são boas. Voltou a chover na região da nascente do Véio Chico e tem água por lá. Já não era sem tempo. Aqui o rio é de cor barrenta, como era antes da construção do lago de Sobradinho mais abaixo.

Decidimos parar para abastecer e almoçar e rapidamente pegar a estrada. Perguntamos pelo limpa viseira spray e não tem. Nunca mais iríamos encontrar o tubinho spray que compramos no interior do Piauí.

A estrada que até então estava perfeita e com algum tráfego passa a ficar apenas regular e com tráfego maior ainda. O ritmo é forte e dá para manter uma média bem alta.

A previsão agora é de chegarmos por volta das 16hs em Lençóis. O ritmo continua bom apesar do aumento do tráfego e das irregularidades na pista. Um ou outro buraco sendo que o defeito mais comum são as “valas” no asfalto causadas pelo excesso de peso dos inúmeros caminhões carregados de produtos agrícolas ou whatever.

Como toda viagem sobre asfalto a chatice só é atenuada pelas belas paisagens do interior da Bahia. Pastos, plantações, serras, montanhas, vales, caatinga seca, áreas verdes, belas fazendas. A pista é reta e com curvas suaves, uma moleza mas um tanto entediante.

Em Seabra paramos para abastecer pela última vez antes de Lençóis. Tio Saulo suspeita que os preços de gasolina em nosso destino serão mais altos pois só tem um posto de combustível lá. Logo após a saída do posto começa a chover.

Para Impermeável Saulo é só um inconveniente. Para mim é exigido que pare e vista a capa de chuva, que por acaso eu coloquei no fundo do baú pois não imaginei que iria chover tanto no sertão da Bahia. Deu trabalho mas rapidamente eu estava protegido. Não coloquei a calça de plástico. Só a jaqueta. Foi uma medida correta pois a chuva fina que se anunciou engrossou e virou chuva de verdade.

Na subida da serra uma imagem impressionante de uma carreta tombada e sua carga espalhada pela pista. Desembaraçamos rapidamente e exceto por isso, a viagem seguiu sem incidentes.

Entramos em Lençóis debaixo de chuva e fomos procurar uma pousada para o pernoite. Me interessei por uma chamada “pousada do Cajueiro” que fica na subida de um morro. Não consigo encontrar a entrada da pousada e subo o morro até o alto onde tem uma capela muito simples e rústica a frente de um cemitério. Decido parar lá para tirar uma foto com a Azul.

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Seria a última vez que veria a Bandeira Azul. Na pressa para encontrar uma pousada não acomodei direito a bandeira nos amarradores de bagagem e ela caiu da moto no que eu presumo seja a descida desse morro, toda esburacada. Deve ter balançado e a bandeira caiu sem que eu visse.

Eu e Tio Saulo havíamos nos separado, cada um procurando uma pousada legal. Decido arriscar e ver se tem vagas no chic Canto das Águas. Quando volto para a moto percebo a ausência da bandeira. Encontro com Tio Saulo e ele já havia selecionado uma pousada para nós. Combino com ele de encontrar com ele lá enquanto refaço o percurso procurando a bandeira azul.

Subo de novo o morro em direção a capelinha pelo caminho que desci  e nada de encontrar a bandeira. Alguém a pegou.

Lá em cima eu converso com alguns moradores e deixo avisado que há uma recompensa para quem encontrar e devolver a bandeira no posto de gasolina. Decido voltar a pousada e resolver a questão da estadia. Procuro a bandeira mais tarde.

Ao descer o morro pela ladeira de pedras, encontro umas pessoas e vou falar com elas. Dou bobeira e com a moto parada levo um tombo forte em que sou arremessado ao chão pelo peso da moto. Caio de lado, batendo a bunda de lado no chão. Pancada forte daquelas que tira o ar dos pulmões. Fico parado uns segundos na esperança de não ter quebrado nenhum osso e por sorte nenhum quebrou. Mas doeu. Levanto-me com o lado do corpo todo doído e sabendo que assim que eu relaxar a dor vai vir com força.

Nenhum dano na moto exceto a bolsinha de tanque que desprendeu da base. Examino o kit e percebo que dos 4 parafusos que fixam a bolsa a base circular que engata na base fixa sobre o tanque, apenas dois estão presentes e ainda assim meio frouxos. Presumo que o excesso de peso que acomodei na bolsa e a vibração durante os quase 3000km que levamos para chegar a Lençóis devem ter afrouxado os parafusos. A queda foi a gota dágua. Parece que tem conserto.

Deixo de conversa, levanto a moto e sigo para pousada. Nem dói tanto enquanto eu estou montado na moto. Ao desmontar a dor chega. Parece dor de velho envergado. Ando com dificuldade e encontro com Tio Saulo que pede para eu dar uma olhada no quarto antes de fecharmos negócio com a pousada.

Rapidamente vistorio o quarto que tem uma cama de casal e uma de solteiro. Tio Saulo diz que por eu ser mais velho ficarei com a cama de casal. Negócio fechado. Estou exausto e chateadíssimo com a perda da bandeira azul e da queda. Nenhum dano além do moral e da dor.

Desmontamos a bagagem, tomamos um banho refrescante e saímos para jantar a pé na noite do domingo. Chegamos ao El Jamiro e comemos um prato de petiscos variados regados a cerveja deliciosa. Jogamos conversa fora enquanto Tio Saulo faz os planos para o dia seguinte, que promete. Na verdade, o dia seguinte seria o melhor dia de toda a viagem.

 

Tatus no Jalapão – Dia 5

O dia de reparos.

Amanhecemos em Bom Jesus do Piauí e eu com a ideia de seguirmos direto para Mateiros em Tocantins. Afinal, eram apenas 425 quilômetros, sendo que uns 250 sobre asfalto. Tio Saulo me convenceu a pararmos em Corrente ainda no Piauí. Estaríamos mais perto de Mateiros e poderíamos tirar a tarde para descansar melhor, revisar as motos e principalmente, consertar os empenos e armengues na moto dele.

Tomamos um café da manhã surpreendentemente honesto no pior hotel de toda a viagem. Demos uma revisada básica na moto de Saulo que havia levado dois tombos fortes no dia anterior na Serra Das Confusões. O baú lateral direito tinha quebrado o engate e agora só permanecia preso por estar amarrado ao suporte. O suporte esquerdo estava envergado e em contato com o escape. Para Tio Saulo isso era o fim. Tentamos desenvergar na força bruta e o máximo que conseguimos foi livrar alguns milímetros para evitar que o suporte mantivesse contato físico com o escape. Para consertar definitivamente seria necessário desmontar tudo e desenvergar. Enquanto fazíamos isso, Tio Saulo percebeu que a lanterna traseira não estava encaixada corretamente na carenagem. Em comparação com a minha moto dava para ver que tinha algo errado.

A paisagem de Bom Jesus era bizarra. Acordamos sob uma forte névoa de queimadas. Especulei que era fumaça oriunda das queimadas na Amazônia. O dia estava meio nublado e úmido e ainda muito quente. Dá para ver no vídeo abaixo a névoa. Não é sujeira na lente ok ?

Abastecemos as motos num posto Ipiranga e comprei um limpa viseira/desembaçante que se mostraria muito útil no dia seguinte. Comprei também dois pares de protetores auriculares e removi a pala do meu capacete para melhorar a aerodinâmica. Essa modificação foi muito conveniente e tornou a pilotagem mais confortável.

Pegamos a estrada BR-135 em direção sudoeste. Asfalto bom, algum tráfego de caminhões e pouco depois das 12hs estávamos em Corrente. A vegetação era mais verde, as árvores mais altas. Estávamos em outro bioma, diferente do sertão nordestino típico. Fomos direto ao hotel Rino e deixamos a tralha lá. Decidimos pôr as motos para lavar enquanto almoçávamos.

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Motos sendo lavadas

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Almoço em Corrente, Piauí

O lavajato não usava querosene mas estavam dispostos a aplica-lo se trouxéssemos. Procuramos no comércio e compramos um litro de querosene. Deixamos as motos lá e fomos almoçar, as 16hs as motos estariam prontas. Comemos um bom pedaço de coxão mole acompanhado de arroz feijão e salada. Muito frugal e rústico e delicioso. Ainda tivemos direito a uma porção de sarapatel de tripa de suíno que estava uma delícia. Voltamos ao lavajato antes do horário combinado e as motos estavam quase prontas. Dá gosto de ver. Nessas horas o espírito coxinha prevalece. Tio Saulo aproveitou para ver o que estava errado e precisava ser consertado em sua moto. Voltamos para o hotel no finzinho da tarde e começou o Boko’s Garage On The Go. Desmontamos o bagageiro da moto, suporte de lanterna e descobrimos que a mesma estava apenas mal encaixada. Primeiro problema resolvido. Agora os suportes dos baús. Terminamos quando já estava escuro e tudo ficou razoavelmente bom. O empeno no suporte não deixava as coisas perfeitamente simétricas como o Saulo exige mas ficou muito bom. Revisamos os apertos, tudo em ordem, fomos dormir.

Num dia em que percorremos cerca de 250km em meio dia, não houve muita novidade. O hotel era muito agradável, cercado por uma mata bonita. Os quartos eram amplos, com 3 camas e um banheiro grande. Dava para ver que era projeto da década de 80. Só que o hotel estava realmente muito derrubado. Tudo funcionando, diga-se de passagem, mas tudo muito gasto e precisando de ajustes. O banheiro tinha vários vazamentos, o piso algumas pedras quebradas, as fechaduras eram antigas e gastas. O clima ameno só era perturbado por um ensaio de meninas modelo de um projeto social com sede em Brasília e que atuava lá em Corrente. Eu desconfiei  que era aliciamento de menores mas na verdade não havia nada de errado. Só bizarro. Era meio estranho ver um monte de meninas dançando “Danúbio Azul” com um “príncípe” improvisado num rapazinho lá de Corrente. Muito bem intencionado, mas nem assim as meninas candidatas a modelo se entusiasmaram pelo charme do Príncipe.

A noite saímos para jantar na festa religiosa em frente a Igreja Católica no centro da cidade. Procuramos algum lugar para comer e no fim nos contentamos com uma sanduicheria na entrada da cidade. Fomos dormir cedinho com a sensação de que as motos estão limpas e preparadas para o que der e vier.

Amanhã chegaremos ao Jalapão !!! Pelo menos era essa nossa ilusão.

Tatus no Jalapão – Dia 2

O “cerumano” e a sua incrível capacidade de se adaptar as mais adversas situações. Sim, se adaptar pode ser se acostumar a um calor de 38/39 graus e achar 33 graus um “friozinho gostoso”. Pois foi isso que aconteceu conosco na noite do dia 2, quando chegamos as 18:30 a cidade de São Lourenço do Piauí. Mas como isso pode acontecer ? Comecei a história pelo fim.

Amanhecemos em Petrolina depois de uma noite onde jantamos um bode assado no Ângelo, regado a muita cerveja Heineken, a preferida do Tio Saulo. Também explico já já porque decidi chamar meu companheiro de aventura de “Tio”. Sob o belíssimo céu limpo e cristalino de Petrolina, em plena seca do El Nino, havia uma sombra que pairava sobre nós. A minha moto tinha morrido em pleno funcionamento duas vezes no fim do dia anterior. Sem motivo aparente a moto desligou. Duas vezes. Quais seriam as possíveis causas ?

  1. Gasolina adulterada quando abastecemos em Belém de São Francisco,
  2. Imperícia do condutor (nunca pode ser descartada)
  3. Síndrome da bomba de gasolina com defeito (mal que assola as BMDafras)

Acordamos por volta de 7 horas para o que planejávamos ser um trecho “fácil” de apenas 304 km até São Raimundo Nonato no Piauí. Fomos abastecer a moto num posto Shell para isolar a variável da gasolina adulterada. Adicionalmente e por via das dúvidas, enchi o tanque da moto com gasolina Shell Dupliplusboa Extra Good Aditivida Juramentada Abençoada. Se o problema era gasolina, agora o tanque cheio da supergasolina deveria resolver.  Logo depois do posto, um susto enorme. Minha moto jorrava gasolina e deixava um rastro por onde passava. O perigo era cair gasolina no escape quente e a coisa toda pegar fogo. Saulo que notou que estava vazando gasolina e me avisou. Meu primeiro pensamento foi “trincou o tanque de gasolina e a aventura acabou”. Nada disso. O incompetente do bombeiro (e do piloto) não fechou a tampa do tanque após abastecer. Fechei tudo, deixei a gasolina que escapou do tanque evaporar e seguimos caminho.

 

Antes de pegar a estrada a paranoia sobre a causa do problema na minha moto nos fez passar numa loja de peças da Bosch e comprar uma bomba de combustível de reserva. Relatos de vários proprietários de BMDafra F800GS contam histórias terríveis de bombas de gasolina que deixaram os pilotos na mão em pleno meio de lugar nenhum. De fato, a posse desse artigo místico, a bomba para carros 1.0 que segundo o Papa Piu (também conhecido como “O Durigan”) pode ser usada na F800GS me dava uma tranquilidade enorme. Resultado é que saímos de Petrolina perto das 10 horas da manhã. Mas sem problemas, o trecho é moleza e temos muito tempo para percorrer apenas 300km. Decidimos então fazer um desvio que adicionou 40km ao percurso e pagar uma visita a Barragem de Sobradinho na Bahia. Queríamos ver o maior lago artificial da América Latina. Para mim isso tinha um sabor especial pois eu havia visitado a barragem há 35 anos numa viagem migratória que fiz com meu pai de carro de Belém de volta para Recife.

Saímos de Petrolina em direção oeste, orientados pelo Tomtom, dobramos a esquerda e abordamos a barragem pelo lado norte. Antes de chegarmos a barragem subimos um morro com torres de telefonia celular e de lá tiramos belas fotos. O sertão virou mar, embora o nível da barragem esteja apenas a 1% da sua capacidade, a imagem ainda impressiona.

DSC_0002Figura 1 – O Sertão Virou Mar – Bandeira XT660 na Bahia

Descemos o morro e seguimos até a eclusa, passando sobre a ponte levadiça.

Eclusa light

Mais fotos da obra que permite que os “vapores” subam o Salto de Sobradinho, como diz a música de Sá e Guarabira.

Voltamos pela estrada em direção norte e o nosso próximo destino é Remanso, na Bahia, onde pretendemos almoçar e reabastecer as motos. Passaremos então por Casa Nova. Na música de Sá e Guarabira eram Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho. Todas elas relocadas pelo lago formado no fim da década de 70. Dessas nós visitaríamos 3. Pilão Arcado e Sento Sé ficam muito fora do roteiro.

Mais uma dose de estradas absolutamente retas e monótonas. Só que agora, em pleno sertão e as 10:30 da manhã a temperatura atingiu os 38 graus que no dia anterior só havíamos alcançado no meio/fim da tarde. Agora era constante. Quente. Ligaram o secador de cabelos e apontaram para nossa cara. A viseira do capacete fechada significa uma temperatura mais “amena”.

Sem incidentes chegamos a Remanso por volta de 12:30 e fomos almoçar no restaurante “Velho Chico” que ficava a margem do lago de Sobradinho. Com a seca, a margem recuou mais de 3km. Almoçamos um delicioso surubim frito acompanhado de suco de tamarindo feito artesanalmente. Descansamos um pouco e decidimos visitar as ruínas antes inundadas de Remanso Velho e agora descobertas pela seca. Segundo os locais, há 4 anos que a margem recuou e esse ano vai ser difícil ela voltar ao nível normal.

Esse foi o primeiro teste off-road que faríamos na viagem. Testar as amarrações e fixações de bagagem. A estradinha no leito do lago tinha de tudo: buracos, cascalho, areia fofa, muita poeira. Na saída um pequeno susto provocado pela perda de tração na traseira ao acelerar. Dá para ver no vídeo do youtube. Chegamos rapidamente a nova margem do rio e dá para ver a desolação que a seca provoca.

remanso velho light

Aqui a cor do rio é bem barrenta. A deposição que o lago de Sobradinho proporciona tornou o Véio Chico mais límpido abaixo da barragem. Como aqui é a nova “orla”, o comércio informal já se estabeleceu. Vimos alguns caminhões pipa reabastecendo com água e algumas barracas de bebidas e comidinhas.

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Voltamos pela mesma estradinha para Remanso e vamos pegar a estrada para São Raimundo Nonato em direção ao norte. Para nossa surpresa a estrada marcada como asfaltada na verdade é de terra.

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Nós pedimos, nós recebemos. Agora é encarar. A estrada, fácil, larga. Muito cascalho e pedras e muita poeira. Decidimos baixar a pressão dos pneus antes em estratosféricas 36/42. Com 22/25 as motos ficaram mais macias, menos ariscas, não quicavam tanto. Menos de 10km depois o pneu dianteiro da minha moto baixou. Acho que esvaziei demais. Saulo usou o o fantástico compressor Michelin portátil e pedi para ele por 30 libras e desejando sinceramente que tenha sido só um mal entendido de esvaziamento incompetente. Não era. Poucos quilômetros depois o veredito. O pneu tinha furado mesmo.

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No problemo! Tínhamos uma câmera Michelin 0km para essa contingência. Só que não levamos as espátulas para tirar o pneu. Tentei improvisar com as ferramentas e elas simplesmente envergavam e nada de desmontar a virola do pneu. O jeito é levar a roda a um borracheiro. Saulo encontrou um borracheiro escondido numa ruazinha ao lado da estrada num vilarejo uns 3 km antes do local onde havíamos parado. Enquanto o borracheiro remendava a câmara velha, Saulo trouxe o pneu com a câmara nova, murcho mesmo para eu montar. Me enrolei na hora de montar dei bobeira e as pastilhas de freio saíram da sede. Tem que tirar o pino e a cupilha, montar a roda, montar as pastilhas e colocar as cupilhas. Tudo certo até a hora de fixar as cupilhas, por pura incompetência minha uma delas envergou, “estilingou” e voou em direção ao esquecimento na poeira no meio da estrada. Nunca mais eu a vi. Paciência, essa vai sem cupilha mesmo. Estava ficando escuro e ainda tínhamos muita estrada de terra para encarar, não sabíamos quanto. Roda montada, câmara nova, estrada escura. Chegamos em São Lourenço do Piauí as 18:30, tudo escuro, paramos para tomar uns refrigerantes. Que delícia quando comparado ao forno de 38 frequentes com picos de 39/40 no meio da estrada. Recalibramos os pneus para asfalto usando o fantástico compressor Michelin de Saulo.

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Descansamos um pouco e tocamos para São Raimundo Nonato. Localizamos a pousada que nos recomendaram, Zabelê e finalmente consideramos que havíamos chegado.

O percurso de 300km que deveria ser concluído lá pelas 3 ou 4 da tarde se estendeu até as 7 da noite por causa do pneu furado. E aí cabe um relato interessante.

Sempre aplico a vacina de pneu da Motovisor na minha moto. Há 15 dias, fiz uma trilha com uns amigos e cheguei em casa com o pneu dianteiro furado. Lá em casa tem compressor e enchi o pneu novamente. A vacina tapou o furo perfeitamente tanto que percorri os 700+km até a estrada Remanso/São Lourenço do Piauí sem problemas. Tudo tem limite e a capacidade de cura da vacina estava há muito esgotada. O borracheiro encontrou nada mais do que 4 furos na câmara de ar. Portanto, a vacina tapou 3 de forma eficaz. O quarto furo era grande, um rasgo e aí não tem jeito, foi a lona.

Terminamos o dia bebendo umas cervejas na área comum do hotel, jantar frugal para mim. Conhecemos o Fernando Maia, um paulista (nascido em Pernambuco) que estava fazendo turismo de aventura com sua esposa na Serra da Capivara. Fernando deu dicas valiosas que seriam muito úteis no dia seguinte. O papo foi divertido e rapidamente criamos uma empatia com o Fernando.

Fomos dormir agradavelmente exaustos. O dia seguinte seria cheio de surpresas.