Tatus na Chapada – Dia 9

Este seria o segundo e último dia de turismo na Chapada Diamantina. Uma pena porque passamos pouco tempo e vimos apenas uma fração do que poderia ser visto. A Chapada pede mais do turista. Pede mais tempo. Pede mais voltas. Eu voltarei.

Hoje a ideia de Tio Saulo é fazer nada radical, coisa light, para que acumulemos forças para encarar a volta de mais de 1000km amanhã. Portanto, o planejamento caprichado de Tio Saulo propõe uma visita a Lapa Doce (caverna), a Pratinha (rio com flutuação e relax na água) e a Subida do Pai Inácio (visão panorâmica e belas fotos).

Antes de pegarmos a estrada eu faço um tour novamente pelos locais onde perdi a Bandeira Azul. Tudo em vão. Nada da Bandeira. Espalho a notícia de que há uma recompensa para quem deixar a bandeira no posto de gasolina.

Pegamos a estrada em direção a Lapa Doce, seguindo oeste pela BR-242 e depois ao norte pela BA-122. Tio Saulo como sempre vai guiando. Dia de sol, poucas nuvens, ritmo rápido.

Na beira da estrada a esquerda um painel informa sobre as cavernas de Torrinha e Tio Saulo pergunta se num vale darmos uma olhada, afinal, estamos por aqui e nossos outros destinos (Lapa Doce, Pratinha e Pai Inácio) são próximos. Para mim é jogo e fazemos o desvio que iria mudar completamente os planos.

Chegamos a entrada da atração que se trata de nada mais nada menos que uma das maiores cavernas visitáveis do Brasil e da américa latina. O Eduardo, administrador do lugar, nos oferece um tour especial só para nós dois que incluiria um trecho da caverna que não é visitado normalmente. Ainda dá um desconto no ingresso e nós topamos. Vai começar uma das maiores aventuras da viagem. Tatus espeleólogos em ação. Tio Saulo tira a fantasia de motociclista, veste uma camiseta, bermuda e calça tênis. Como eu não trouxe tênis decido encarar a trilha com a bota Forma Terra Adventure. Ficaria ridículo eu de botas e sunga com dryfit, portanto vou com a calça de off-road mesmo. Decisão acertadíssima. A bota FTA é excelente como bota de aventura, confortável e resistente oferece a segurança e o grip de uma bota de cano baixo dessas de hikers. Com a vantagem de proteger bem a canela, coisa que seria muito útil lá dentro da caverna.

A caverna tem um clima surpreendentemente ameno, com temperatura de 24 graus constantes enquanto lá fora o calor já aparece e ultrapassa os 33 graus. Faríamos uma caminhada de cerca de 10km (contando ida e volta) em cerca de 2 horas. Mesmo com o ar condicionado, o exercício me faria suar bastante. Levamos meio litro de água cada um. Levar mais seria bom mas tem o risco de dar vontade de fazer xixi e lá dentro não pode de jeito nenhum.

Entramos por um salão enorme que já impressionava os pesquisadores até que em 1992 uma espeleóloga francesa achou uma passagem para outra parte da caverna que se descobriu então ser muito maior. Essa passagem original seria utilizada por nós na saída. Entramos por outra passagem artificial escavada para facilitar o acesso. Quer dizer, em termos.

O guia experiente, Toninho, nos explicava os vários espeleotemas. Essa caverna é considerada uma das mais interessantes não pelo tamanho em si mas sim pela variedade e quantidade de espeleotemas. As rosas de Aragonita são muito frequentes e algumas das maiores estão aqui. Formações como estalactites, estalagmites, vulcões de pedra, painéis nos tetos, cristais de gipsita, em tudo quanto é cor, tamanho e sabor.

A caminhada não é fácil. Entre tetos baixos que nos forçam a andar agachados até escaladas de pedras dentro dos salões, descidas e subidas íngremes. As lanternas fornecidas para nós são pequenas e fracas. Senti falta de um farolzão para iluminar tudo e ter uma visão mais panorâmica. As imagens com flash revelam mais coisas do que pudemos ver com as lanterninhas, que de tão fraquinhas coitadinhas, a gente tem que ligar outra lanterna ao lado para ver se estão acesas.

Algumas formações são muito interessantes e são translúcidas.

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Uma delas parece o castelo de Minas Tirth, da saga do Senhor dos Anéis.

Um trecho da exploração é particularmente difícil pois temos que nos arrastar sob um teto muito baixo, de uns 70cm de altura por uns 10 metros. Isso me deixa exausto.

Alcançamos os dois salões principais e o extra e tiramos dezenas de fotos impressionantes. No ponto mais remoto, o guia propõe que desliguemos as lanternas e façamos silêncio para ter uma experiência de privação sensorial. Sempre quis fazer uma dessas e foi legal. Mas a privação não era total. Ainda estava sentindo o peso do corpo sentado no chão. Mais tarde faria uma privação sensorial mais completa.

Hora de voltar, agora a caminhada volta pelo mesmo caminho que viemos, sem pausas para fotografia e com passo acelerado. Toninho e Tio Saulo vão abrindo vantagem e eu estou genuinamente cansado. Ainda tenho que encarar a passagem baixa lá na frente. Fico calado e falo nada durante o percurso. Próximo a saída decidimos usar a passagem que a pesquisadora francesa descobriu e a escalada para fora da caverna fica deveras interessante.

Ao sair da caverna o choque térmico é enorme. Dos amenos 24 graus partimos para 34 graus numa lufada de vento só. Tomamos água, usamos o banheiro. Tio Saulo quer ir para a Lapa Doce e eu veto. Pode ir. Eu não vou. Mais do mesmo não é uma boa ideia. Melhor fazermos algo diferente como a Pratinha e até mesmo o Pai Inácio e se sobrar tempo vamos a Lapa Doce. Tio Saulo então decide ir para a Pratinha e lá vamos nós.

Chegamos a Pratinha para visitar o rio, fazer a flutuação dentro da caverna e conhecer a Gruta Azul. Nesta última não poderemos mergulhar, só observar. A Gruta Azul se conecta ao Rio Pratinha através de uma caverna subterrânea com cerca de 80 metros de comprimento a 13 metros de profundidade. Essa caverna alagada não pode ser mergulhada por visitantes, apenas exploradores experientes.

A má notícia é que a entrada para a Gruta Azul fica a 200 metros da recepção e tem que subir e descer um morro bem íngreme. A foto dá uma noção do esforço. Eu estava esgotado e vou bem devagar. A gruta é interessante e tem que ser visitada logo pois daqui a pouco o sol estará tão baixo que os raios de sol não incidirão sobre a água da gruta causando o efeito “azul” que dá nome a atração. Tudo é muito bonito mas um tanto boring. Volto para a Pratinha. O que eu quero é a flutuação.

Descemos para a beira do rio e entrada da caverna, tiro a fantasia de motociclista e visto o equipamento de mergulho em apneia. Um guia nos leva para dentro da caverna e é como se tivéssemos voltado a um dos salões da Gruta da Torrinha, só que agora flutuando sobre o piso da caverna. Experiência muito legal.

Na parte iluminada da caverna a fauna e a flora é bem exuberante. Plantas aquáticas, algas, peixes de vários formatos e tamanhos. Até uma pequena tartaruga. A água é límpida e cristalina como nas piscinas naturais mais claras do litoral de Pernambuco, onde mergulhei milhares de vezes. A medida que nos afastamos da entrada da caverna a paisagem fica árida e estéril e só o chão e formações geológicas grandes. Nada de estalactite ou estalagmite ou coisa parecida. A água não permite tais formações.

A temperatura fria da água e o movimento lento são muito relaxantes e eu vou-me recuperando rapidamente. Quando chegamos a parte mais funda da caverna a água chega a 13 metros de profundidade, segundo o guia. Pergunto se posso dar uma mergulhadinha sem o colete e ele diz que não é permitido. Em compensação ele diz que dá para fazer a experiência de privação sensorial, pede para nós 3 apagarmos as luzes das lanternas e passarmos um tempo imóveis na piscina dentro da caverna. Escuridão total, silêncio total, ausência de peso. Agora sim. A sensação é muuuito legal. Pena que nós éramos o último grupo e o guia estava com pressa para ir embora. Ficamos pouco tempo e não deu para ter os efeitos alucinógenos que a privação sensorial completa proporciona. Mas a ideia é boa e vou tentar em algum outro lugar depois.

Voltamos para saída da caverna, damos mais uma relaxadinha e tiramos umas fotos.

Já é quase 17hs e o próximo programa é tomar banho na prainha do Rio Pratinha. Basta escalar o morro até a recepção, contornar o restaurante (que já estava fechado) e descer o morro pelo outro lado da caverna. Tudo isso levando na mão as botas, a câmera fotográfica, a calça off-road. Felizmente deixei o casaco e o capacete na moto. Uma mocinha no quiosque que vende os ingressos para a flutuação ofece-se para guardar a tralha e eu aceito.

Na prainha, pedimos o nosso “almoço” e Tio Saulo toma umas duas cervejas enquanto eu encaro um delicioso suco de mangaba. O por do sol se anuncia e a paisagem fica ainda mais bonita. A água claríssima é uma beleza.

Voltamos para Lençóis sem incidentes e o turismo acabou. Não tem mais passeio, não tem mais aventura, não tem mais nada. Agora é voltar para Recife pois Saulo tem um compromisso na quinta-feira. Depois do “dia relaxante” de hoje, amanhã vai ser só deslocamento por estrada de asfalto, sem brincadeira.

Só falta definirmos o roteiro.

 

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Tatus na Chapada – dia 8

Do que tatu gosta? De terra, de trilha, de poeira, de lama, de areia. Opa, talvez não muito de areia, né Saulo? Né Alan?

De onde vem esse papo de “Tatus no Jalapão”, “Tatus na Chapada”, “Tatus num-sei-onde”? Porque tatus e não outro bicho?

Diz a lenda que os motociclistas de Manguetown compravam motos bacanas, capazes das maiores aventuras, de encarar as estradas de terra mais radicais. Só que esses motociclistas não saiam do asfalto. Formavam motogrupos e motoclubes sempre fazendo menção a um bicho qualquer e com o sufixo “do asfalto” para deixar bem claro suas intenções. Esses motociclistas são carinhosamente chamados de “coxinhas“.

E o que dizer dos motociclistas que respeitam a concepção original da moto e a usam para fazer aventuras fora da estrada? Esses motociclistas são chamados de tatus pelo célebre Odilon Dias, um baluarte do motociclismo do nordeste e do Brasil. O veterano e experiente Odilon certa vez perguntado se usava a sua poderosa F800GS Adventure off-road disse “Eu não sou tatu para gostar de terra”. E o apelido pegou.

Agora um par de tatus havia firmado sua base de operações off-roadianas em Lençóis no coração da Chapada Diamantina, região notória pela exuberância da natureza e riqueza de trilhas. Pera? Você falou trilha? Oxente! É disso que tatu gosta. Pois o prato a ser servido vai ser muuuuuito cheio.

Tio Saulo já havia planejado o nosso dia para fazermos a trilha que liga Lençóis a Andaraí passando pelas cachoeiras do Cachorrim e do Roncador. Almoçaríamos em Igatu ou Mucugê e retornaríamos pelo asfalto. Os 32km de trilha cortando pelo meio da chapada resultariam num percurso de uns 150km de retorno pelo asfalto contornando a reserva. OK para mim. Se a trilha for boa mesmo, 150km de boring asfalt é um preço justo a se pagar… ou não. Veremos.

Tomamos um café da manhã honesto. A pousada Raio do Sol é bem rústica, sem luxo algum. O atendimento é super atencioso, o pessoal é simpático e bom de negócio. O quarto é simples, o banheiro é bem equipado e tem até uma varandinha para relaxar. Estacionamento fechado, mas descoberto, num jardim bonito porém mal cuidado.

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Motos no estacionamento da pousada em Lençois

Primeira parada foi uma loja de material de construção onde eu pretendia comprar 4 parafusos de rosca soberba para substituírem os que caíram da bolsinha de tanque. Comprei dois jogos de calibres levemente diferentes. Difícil foi explicar para o balconista da loja o que era um parafuso de rosca soberba. Acho que aqui no interior da Bahia tem outro nome essa peça.

Abastecemos nossos cantis com bastante água e caímos na trilha que parte do centro de Lençóis. A trilha é espetacular, belíssima, uma das melhores que fiz em toda a minha vida. A paisagem é exuberante de natureza, com mata, morros, pedras, leitos de rios secos e perenes, árvores frutíferas, copas altas, baixas, mato, campo, fazenda, comunidade alternativa, pousada no meio do mato. O chão da trilha oferece TUDO que se encontra em off-road: pedra solta, rochas grandes, lama, areia fofa, areia molhada, seixos, subidas e descidas técnicas, single track, double track. O menu completo. Vejam esse vídeo longo de um belo trecho.

Paramos na cachoeira do Cachorrim e estava absolutamente seca. Algumas fotos e um zumbido de um enxame de abelhas por perto … Vamos nessa continuar a trilha.DSC_0006

Mais subidas, descidas e vários cruzamentos de leitos de rios secos e outros nem tanto. O chão de pedras e seixos denuncia que aqui passa um riacho em época de chuva. Agora alguns estão secos.

A trilha tem variantes que oferecem muitas alternativas de aventura. Nos mantemos na principal para chegarmos ao Roncador. Fico só imaginando quanta trilha maravilhosa não fizemos por absoluta falta de tempo. Aqui merece uma estada mais longa, como Tio Saulo havia proposto inicialmente. Ficaremos apenas 3 dias e o jeito é aproveitar. De qualquer forma, o aperitivo despertou o apetite. Vou voltar aqui com a minha amada e passar pelo menos uns 10 dias.

Na trilha tem areia. E Tio Saulo não gosta, convive mal com a hipótese de pilotar a grandona no areial. Essa convivência é baseada numa premissa fundamental: andar devagar e com o trem de pouso baixado. Isso dificulta as coisas para mim pois a técnica adequada para pilotagem na areia envolve a velocidade mágica, que é superior a que Tio Saulo anda. Mais lento a moto atola e fica instável, mais rápido e não há controle. A velocidade mágica fica no meio.

Logo depois da Cachoeira do Cachorrim, eu pago a minha boca grande com o primeiro de uma série de 3 tombos na areia.

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Como levantar uma moto de 240 quilos na areia

Não é comum encontrar areia em subidas ou descidas, afinal a chuva arrasta a areia para as partes mais baixas. Mesmo assim existem alguns bancos de areia com rampas inclinadas. Se no plano é importante acelerar, nas subidas é mais importante ainda. E mais! Nas descidas também. A areia funciona como um freio, dissipando a energia cinética da moto. Portanto, na areia nem sequer há dúvida: acelere! Independente de estar no plano, subindo ou descendo.

Ao longo da trilha encontramos a placa da Comunidade da Capivara. Aqui tem muita gente alternativa com visão de mundo diferente do padrão ocidental, cristão e urbano. O clima e o astral causam/são causados por essa atitude diferente em relação a vida. De vez em quando é bom apreciar esse jeito alternativo de viver, nem que seja para saber que existe ou quem sabe cogitar no futuro numa aposentadoria ou  … ser prontamente descartado como coisa de bicho-grilo. Cada um com sua opinião. O fato é que a região é bonita e tolerante e tem de tudo por aqui.

Tio Saulo continua com o ritmo geriátrico de pilotagem. Não é trilha. É passeio. A ideia é essa mesmo, relax, aproveitar, curtir a trilha como turista. Tio Saulo dá umas paradas em pleno sol ignorando as sombras. Eu que não sou bobo aproveito cada uma delas.

No meio da trilha, antes do Roncador, encontramos várias árvores caídas sobre a trilha. Intransponível. Os troncos são grandes mas surpreendentemente leves e estão totalmente emaranhados em trepadeiras. Parece coisa recente. Saulo consegue achar um caminho alternativo pela esquerda da trilha. Só que, para desespero dele, é areia. Eu encaro o caminho e encontro um cajueiro com um caju gritando DEVORE-ME e bem a altura da mão. Eu num quero saber, arranco o caju do pé e atendo a seu pedido e na primeira mordida, a surpresa. Mel. O caju mais doce que eu comi em toda a minha vida. Eu com a fixação no caju e só ouvia Tio Saulo “Me ajuda Boko, minha moto está atolada”. De novo. Mas vai ter que esperar até eu deglutir o caju maravilha.

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A mesma receita para tirar a moto da areia: controle de tração desligado, piloto fora da moto, acelera pouco e a moto sai do buraco de areia. Os pneus murchos ajudam. Tio Saulo desenrola e vai na frente e nem me espera. Saímos do desvio e voltamos a trilha.

Chegamos a Cachoeira do Roncador, a margem de um rio com um areião enorme. Saulo atola a moto e ela fica em pé sem precisar de descanso. Desligamos o controle de tração e a moto sai, cruzamos o rio e paramos as motos na praia de areia branca. Ao fundo, a cachoeira do Roncador nos aguarda. O calor é enorme e a perspectiva de tomar banho numa água gelada é muito reconfortante.

Caminho pela areia e dispo-me da fantasia de motociclista na beira da água. O primeiro mergulho é um choque térmico daqueles de tirar o fôlego. Rapidamente me acostumo com a água fresquinha e aí é só delícia. Tio Saulo, mais experiente, tira a fantasia de tatu e deixa-a em cima de uma pedra. Boa ideia. Assim na hora de vestir tudo de novo não entra areia.

Tiramos cerca de umas 300 fotos só nesse trecho. Do lago ao pé da cachoeira

Na cachoeira um casal apaixonado formado por um homem e uma mulher (importante explicitar isso que antes era óbvio e agora não mais). A moça está bem a vontade fazendo um topless. O que é belo é para ser apreciado, sempre digo, e a cachoeira com suas quedas dágua é mesmo uma beleza. Outras coisas caídas nem tanto. O que vale é a intenção, se é que me entendem.

Tio Saulo e eu tentamos não perturbar o casal que não dá o menor sinal de se sentir incomodado. Curtem um ao outro e a cachoeira e não dão a mínima para nós. O amor está no ar e eles mandam ver. Bonito ver tanto carinho e nessa hora em fiquei com ainda maior saudade da minha Amada Lara.

A cachoeira é mesmo uma delícia e eu cogito por alguns minutos largar tudo, vender a moto e ficar por ali o resto da vida. Em seguida eu deixo de frescura, visto o equipamento e vou desatolar a moto de Tio Saulo para atravessar o areião da base da cachoeira e seguir a trilha. Se depender de Tio Saulo e sua pilotagem na areia com o trem de pouso baixado, sairíamos apenas a noite.

O areião tem duas saídas. Uma bem coxinha, pela trilha seca, e outra bem mais radical cruzando o rio novamente. Tio Saulo prefere a saída mais suave. Eu monto na Branca Filé e me encaminho para a saída mais radical e mesmo com o barulho do motor acelerando na areia dá para ouvir os gritos de Tio Saulo “Por aqui porra!” Eu me sensibilizo, faço a volta com um raio longo e passo por onde Tio Saulo mandou.

Ponto de vista do Piloto

Agora chega de coxinhice … a Mítica Black Mamba entra em campo

Ainda tem outra travessia

Radical demais.

Saímos do Roncador e o ritmo aumentou um pouco. Ao mesmo tempo, fomos para altitudes mais baixas e a trilha segue ao lado de um alagado que viria depois a saber que era o Rio São José.

Mais uma travessia seguida de areião. Tio Saulo filma tudo e aprende.

Tio Saulo está mais solto e revigorado e acelera bem. Andamos mais rápidos pela parte de terra batida e chão duro. Dá para ver no vídeo abaixo que ele está bem mais rápido.

Alcançamos o Asfalto e seguimos para Andaraí. Passada rápida pela cidade, bebemos uma água, e tiramos uma foto que nos lembra nosso amigo CH, o Chapolin de Manguetown, Clóvis Henrique.

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Aqui a cachaça abunda

Tocamos direto para Igatu onde tem umas cachoeiras que o Saulo quer checar. A cidade é toda de calçamento de pedras e está encravada na montanha. A estrada que dá a acesso a ela é também de pedras e as motos quicam. Ainda bem que murcharmos os pneus. Antes da cidade, um mirante onde tiramos belas fotos do vale. Dá até para ver a trilha que cruzamos na parte da manhã.

 

Chegamos a Igatu e logo de cara encontramos com uma F800GS 2015 novinha cujo dono, viríamos a saber depois, era o Alessandro, de Brasília e que possui uma pousada lá em Igatu mesmo.

A cidade é muito charmosa, encravada na montanha. A cidade servia de sede para a extração de diamantes, desde o século XIX até meados da década de 40 do século XX quando a produção de diamantes diminuiu a um ponto que não compensava mais nem financeiramente, nem ambientalmente. Restou um museu em Igatu, a Cidade de Pedra, com casas construídas a partir de pedras montadas umas sobre as outras sem argamassa. A cidade chegou a ter 9000 habitantes e agora parece não ter nem 600. Virou atração turística e está sendo redescoberta.

Decidimos procurar  a Cachoeira dos Pombos, uma entre as mais de 30 que tem nas cercanias. Seguimos uma trilha que foi apertando, apertando, ficando mais íngreme na descida. Paramos as motos e acompanhamos uns turistas a pé. Como estava muito seco, uma das cachoeiras do caminho estava muito seca, só um fio de água. Foi então que percebi que tinha deixado a chave da moto na ignição juntamente com a minha carteira e meu celular. Tio Saulo argumenta que quem iria roubar-nos em plena Chapada Diamantina. Decido desencanar e curtir a expedição.

Seguimos juntos com um jovem casal (homem e mulher) de turistas de Salvador que também estavam procurando a cachoeira juntamente com amigo americano. No caminho encontramos uma minicachoeira numa mini caverna, com o nível de água um pouco baixo por causa da seca mas ainda assim tirei umas fotos legais.

Apesar do visual legal, ainda não dá para tomar um bom banho de cachoeira aqui. Procuramos um pouco mais e achamos a cachoeira dos Pombos e seus dois “andares”.

Depois do relax está na hora comermos alguma coisa. A fome bateu e com força. Voltamos as motos e para meu alívio toda a minha tralha estava lá intocada. Uma pequena dificuldade para manobrar a moto de Tio Saulo devido a problemas de queimada. Faço o pivô no descanso e aprumo a moto para ele. Resolvido, pegamos a estrada de pedra e voltamos para Igatu.

Existe uma trilha que desce de Igatu para Andaraí e voltaria por um caminho diferente da estrada de pedra pela qual viemos. Decidimos não fazê-la pois seria uma volta para traz e perderíamos tempo. Mesmo assim, algumas atrações no comecinho da trilha mereciam ser vistas. Entre elas uma igreja muito bonita e o museu histórico combinado com um ateliê de artista. Paramos para as tradicionais fotos.

Além dos artefatos, fotos históricas contam a decadência de Igatu já no século XX, década de 30 a 40. Entre os artefatos uma máquina de escrever Triumph, da mesma marca das motos. Não vimos máquinas de escrever BMW e decidimos ir embora.

Tudo muito interessante e legal só que a fome já está fazendo o estômago rugir. Voltamos para Igatu e descobrimos que o único restaurante funciona dentro da pousada e pelo adiantado da hora não serviria mais almoços. Já eram umas 16hs. Decidimos tocar para Mucugê pois Tio Saulo recebeu a dica de um bom restaurante lá.

Pegamos a estrada de pedra, que viraria estrada de terra, em direção ao por do sol. Nessa hora senti falta da pala. O sol na cara prejudica a segurança e o ritmo é lento. Não dá para ver direito a estrada.

Chegamos em Mucugê e o restaurante está fechado. Funciona apenas de terça a domingo e hoje é segunda. Mais algumas perguntas e recebemos a dica de self-service no peso que ainda tinha almoço fresquinho. Antes de irmos para o restaurante, Tio Saulo e sua fixação por cemitérios nos leva a uma parada no “Cemitério Bizantino” que fica ao pé de uma falésia muito bonita. Mais fotos.

Tio Saulo quase se emociona ao rever o cemitério que ele conheceu há 14 anos.

 

Eu com a fome da moléstia dos cachorros e Tio Saulo querendo visitar cemitério.

Seguimos para o centro da cidade próximo a farmácia e rapidamente achamos o restaurante. A comida deliciosa e farta e o relax ao fim de um dia bem animado. Agora era só encher a pança e  voltar rapidinho para Lençóis.

Mucugê é uma cidade bem maior que Igatu e com um aspecto mais “moderno”. Também é mais plana e mais ampla. Tem muitas pousadas e me pareceu a mais bem servida. Não é tão alternativa quanto Lençóis nem tão rústica quanto Andaraí ou Igatu.

Enquanto comíamos e discutíamos como voltar para Lençóis, ao cair da noitinha, Tio Saulo me informa que teremos que encarar 132km de asfalto pelo lado leste da Chapada. Oxente? Como pode? Se andamos uns 60km de trilha?? Ora, trilhas atalham e deixam o percurso mais curto. Sugiro irmos pela trilha a noite mesmo e a sugestão é prontamente descartada por Tio Saulo.

Na mesa ao lado, o Marcelo, um morador da região e quiropraticista, ouve a nossa conversa e dá uma sugestão de um caminho por uma estrada de terra muito boa que passa por Guiné e Palmeiras, pelo lado oeste. Ele afirma que é moleza, fica mais rápido e mais perto. Além da dica, ele dá uma amostra grátis da massagem restauradora nas minha mãos e é uma benção. Em Tio Saulo a amostra grátis é maior e o Marcelo dá umas envergadas no pescoço da criatura que eu fiquei genuinamente com medo que nunca mais a espinhela de Tio Saulo voltaria ao lugar.

Eu topo na hora a sugestão do Marcelo e depois de um açaí, um sorvete, um num-sei-que-mais que Marcelo e a esposa tomaram antes da partida, seguimos pela estrada de asfalto atras da valente Falcon 400 de Marcelo, com a esposa na garupa. Rapidamente alcançamos a saída para estrada de barro já com a noite fechada e Marcelo arrepiando lá na frente, eu em seguida e Tio Saulo comendo toda a poeira para variar.

O ritmo que Marcelo impõe é rápido, ele conhece a estrada pois mora numa fazenda no meio do caminho. O carioca é desenrolado, manja bem e manda ver. Vamos seguindo a medida do possível e quanto a poeira deixa. De vez em quando um carro cruza nosso caminho e tome poeira a noite. Alguma tensão mas nada demais. De repente um Punto que vem por traz e cola na traseira aguarda apenas a chance de nos ultrapassar. Numa reta o Punto acelera e dana-se lá na frente levantando uma nuvem de poeira enorme que eu mal conseguia enxergar o painel da moto, quanto mais a estrada.

Paramos na entrada da fazenda de 260 hectares de Marcelo que nos convida para entrar, conhecer a casa dele e tomar um café. Gentilmente nos recusamos e decidimos tocar sozinhos o resto da estrada até Lençóis. Marcelo dá as ultimas dicas e eu vou na frente.

A estrada de terra é muito boa e o ritmo é rápido. Tio Saulo mantém uma distância grande por causa da poeira e eu fico meio preocupado quando ele some por traz de alguma sequência de curvas labirínticas. Paramos ainda umas duas vezes para perguntar por onde ir, cruzamos Guiné e a entrada do Vale do Capão e depois de subir e descer serras onde as temperaturas variaram de acordo, chegamos a Palmeiras e abastecemos. Agora eram apenas 58km de asfalto até Lençóis.

No fim, esse “atalho” pela estrada de terra não fez tanta diferença. Foi mais pela aventura mesmo. Os 10 a 20km que ganhamos foram neutralizados pela velocidade mais baixa na estrada de terra a noite. Para Tio Saulo esse foi o argumento para ficar nagging o tempo todo dizendo que deveríamos ir pelo outro lado. Valeu assim mesmo.

Chegamos em Lençóis na noite de segunda feira perto das 21hs agradavelmente exaustos. Fizemos muita trilha boa, de primeira, tiramos centenas de fotos, conhecemos 3 cidades (Andaraí, Igatu e Mucugê), passamos por mais duas (Guiné e Palmeiras), fizemos estrada de terra a noite, conhecemos duas cachoeiras e nos divertimos a beça (como diz o narrador da Sessão da Tarde). Fomos jantar e planejar o dia seguinte.

Tio Saulo planeja a terça feira com uma série de atividades light, bem relaxantes para que possamos acumular energia para o retorno a Recife, com seus mais de 1000 km, que faríamos na quarta-feira. Portanto, descansa e aproveita na terça e bota pra laskar na quarta e chegamos em Recife na quinta de manhã.

Planejamento ótimo, só que faríamos nada disso nos próximos dois dias.

 

Tatus na Chapada Diamantina – Dia 7

Sim, o relato mudou de título. Não tem mais Jalapão. Agora é Chapada Diamantina. E assim, de aventura de tatu essa jornada vira um passeio de coxinha. Not for long!

Depois de uma noite no mais confortável hotel de nossa aventura, arrumamos as coisas de decidimos encarar os 470 quilômetros que separam Barreiras de Lençóis.

No jardim do Hote, Rocky, o cachorro do Peter Frampton, faz uma festa. Ele cansou-se da vida agitada ao lado do rock star, migrou para Barreiras e vive incógnito por aqui.

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Eis o vídeo que o alçou a fama

Vamos encarar a BR-235, a principal via de escoamento da produção agrícola da nova fronteira no oeste da Bahia. Caminhões carregados devem ser uma constante mas felizmente, nas manhãs de domingos os caminhoneiros pegam mais leve. O tráfego deve ser um tiquinho menor do que o normal. Ainda bem pois a BR-235 não é duplicada e os relatos sobre o estado de conservação são conflitantes.

Passei por essa estrada no inverno de 1986 numa viagem de ônibus que fiz com meu irmão Homero para passar umas férias em Brasília na casa de meus tios. Lembro que passavam horas entre avistarmos um carro ou uma pessoa. Como mudou. O desenvolvimento do oeste da Bahia é notável. Barreiras era uma cidade pequena e mal servia como ponto intermediário para os ônibus da Viação Itapemirim. Hoje é uma cidade grande e sofisticada e não está só. Ainda mais ao oeste, Luiz Eduardo dizem está crescendo mais rápido e já está do tamanho de Barreiras.

Pegamos a estrada e cruzamos a cidade de oeste para leste e encontramos a pista em excelentes condições. O tráfego era normal, nada demais. A paisagem do sertão da Bahia alternava momentos de aridez e de verde. As formações de vales e montanhas eram um espetáculo para os olhos. Em tudo parecia a Rota 66 cruzando os desertos do meio oeste. As fazendas parecem mais ricas e agora gado bovino é muito presente. Ainda encontramos muito bode/cabra.

Com a mudança de planos, a ideia é tentar recuperar  tempo e a viagem para Lençóis deixa de ser aventura e nem sequer turismo. É puro deslocamento. Só paramos para abastecer e comer. Quanto mais cedo chegarmos a Lençóis melhor.

Logo no início um campo com uma infestação de cupins. Os ninhos de cupins são enormes e só tinha visto assim tão altos no interior de Goiás. Aqui na Bahia eles tem cor diferente, justamente porque a “matéria prima” para construção dos ninhos é diferente. A terra da Bahia tem composição diferente da terra de Goiás.

Rapidamente chegamos a Ibotirama e novamente vamos cruzar o Rio São Francisco. A imagem é forte pois o rio da integração nacional tem sofrido um bocado esses últimos anos. As notícias mais recentes são boas. Voltou a chover na região da nascente do Véio Chico e tem água por lá. Já não era sem tempo. Aqui o rio é de cor barrenta, como era antes da construção do lago de Sobradinho mais abaixo.

Decidimos parar para abastecer e almoçar e rapidamente pegar a estrada. Perguntamos pelo limpa viseira spray e não tem. Nunca mais iríamos encontrar o tubinho spray que compramos no interior do Piauí.

A estrada que até então estava perfeita e com algum tráfego passa a ficar apenas regular e com tráfego maior ainda. O ritmo é forte e dá para manter uma média bem alta.

A previsão agora é de chegarmos por volta das 16hs em Lençóis. O ritmo continua bom apesar do aumento do tráfego e das irregularidades na pista. Um ou outro buraco sendo que o defeito mais comum são as “valas” no asfalto causadas pelo excesso de peso dos inúmeros caminhões carregados de produtos agrícolas ou whatever.

Como toda viagem sobre asfalto a chatice só é atenuada pelas belas paisagens do interior da Bahia. Pastos, plantações, serras, montanhas, vales, caatinga seca, áreas verdes, belas fazendas. A pista é reta e com curvas suaves, uma moleza mas um tanto entediante.

Em Seabra paramos para abastecer pela última vez antes de Lençóis. Tio Saulo suspeita que os preços de gasolina em nosso destino serão mais altos pois só tem um posto de combustível lá. Logo após a saída do posto começa a chover.

Para Impermeável Saulo é só um inconveniente. Para mim é exigido que pare e vista a capa de chuva, que por acaso eu coloquei no fundo do baú pois não imaginei que iria chover tanto no sertão da Bahia. Deu trabalho mas rapidamente eu estava protegido. Não coloquei a calça de plástico. Só a jaqueta. Foi uma medida correta pois a chuva fina que se anunciou engrossou e virou chuva de verdade.

Na subida da serra uma imagem impressionante de uma carreta tombada e sua carga espalhada pela pista. Desembaraçamos rapidamente e exceto por isso, a viagem seguiu sem incidentes.

Entramos em Lençóis debaixo de chuva e fomos procurar uma pousada para o pernoite. Me interessei por uma chamada “pousada do Cajueiro” que fica na subida de um morro. Não consigo encontrar a entrada da pousada e subo o morro até o alto onde tem uma capela muito simples e rústica a frente de um cemitério. Decido parar lá para tirar uma foto com a Azul.

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Seria a última vez que veria a Bandeira Azul. Na pressa para encontrar uma pousada não acomodei direito a bandeira nos amarradores de bagagem e ela caiu da moto no que eu presumo seja a descida desse morro, toda esburacada. Deve ter balançado e a bandeira caiu sem que eu visse.

Eu e Tio Saulo havíamos nos separado, cada um procurando uma pousada legal. Decido arriscar e ver se tem vagas no chic Canto das Águas. Quando volto para a moto percebo a ausência da bandeira. Encontro com Tio Saulo e ele já havia selecionado uma pousada para nós. Combino com ele de encontrar com ele lá enquanto refaço o percurso procurando a bandeira azul.

Subo de novo o morro em direção a capelinha pelo caminho que desci  e nada de encontrar a bandeira. Alguém a pegou.

Lá em cima eu converso com alguns moradores e deixo avisado que há uma recompensa para quem encontrar e devolver a bandeira no posto de gasolina. Decido voltar a pousada e resolver a questão da estadia. Procuro a bandeira mais tarde.

Ao descer o morro pela ladeira de pedras, encontro umas pessoas e vou falar com elas. Dou bobeira e com a moto parada levo um tombo forte em que sou arremessado ao chão pelo peso da moto. Caio de lado, batendo a bunda de lado no chão. Pancada forte daquelas que tira o ar dos pulmões. Fico parado uns segundos na esperança de não ter quebrado nenhum osso e por sorte nenhum quebrou. Mas doeu. Levanto-me com o lado do corpo todo doído e sabendo que assim que eu relaxar a dor vai vir com força.

Nenhum dano na moto exceto a bolsinha de tanque que desprendeu da base. Examino o kit e percebo que dos 4 parafusos que fixam a bolsa a base circular que engata na base fixa sobre o tanque, apenas dois estão presentes e ainda assim meio frouxos. Presumo que o excesso de peso que acomodei na bolsa e a vibração durante os quase 3000km que levamos para chegar a Lençóis devem ter afrouxado os parafusos. A queda foi a gota dágua. Parece que tem conserto.

Deixo de conversa, levanto a moto e sigo para pousada. Nem dói tanto enquanto eu estou montado na moto. Ao desmontar a dor chega. Parece dor de velho envergado. Ando com dificuldade e encontro com Tio Saulo que pede para eu dar uma olhada no quarto antes de fecharmos negócio com a pousada.

Rapidamente vistorio o quarto que tem uma cama de casal e uma de solteiro. Tio Saulo diz que por eu ser mais velho ficarei com a cama de casal. Negócio fechado. Estou exausto e chateadíssimo com a perda da bandeira azul e da queda. Nenhum dano além do moral e da dor.

Desmontamos a bagagem, tomamos um banho refrescante e saímos para jantar a pé na noite do domingo. Chegamos ao El Jamiro e comemos um prato de petiscos variados regados a cerveja deliciosa. Jogamos conversa fora enquanto Tio Saulo faz os planos para o dia seguinte, que promete. Na verdade, o dia seguinte seria o melhor dia de toda a viagem.

 

Tatus no Jalapão – Dia 6

Jalapão or Bust!

Bust.

Simples assim.

Nosso grito de guerra para o dia 6 poderia ser esse. Só que não. Minha ideia era partirmos de Corrente bem cedo e dormimos no Jalapão … ou morrer tentando! Desistir jamais! Mas que papo é esse de “desistir”? O dia mal começou!

Saímos cedo de Corrente e pegamos o asfalto por apenas 20km até entrarmos a direita na estrada de terra que serviria de atalho que nos economizaria uns 50km de estrada de terra até Mateiros em Tocantins, nossa planejada base no Jalapão. A estrada de terra rapidamente se transforma em trilha e a paisagem é deslumbrante.

A vegetação já se parece mais com uma mistura de caatinga e cerrado com manchas grandes de mata atlântica. Está úmido pois choveu na noite anterior.  Nada demais, algumas poças d’água e um pouco menos de poeira. Mas ainda tinha poeira. Algumas bifurcações nos forçaram a verificar direitinho no GPS qual caminho tomar. Paramos para esvaziar os pneus e aparece um senhor numa Fan 125. Perguntamos a ele como era o caminho para Coaceral, na Bahia. Ele afirma que temos que cruzar a serra e que o caminho é difícil mas dá para passar. Outro encontro com uma jovem senhora numa 125 e ela se assombra ao saber que vamos tentar passar a serra. A trilha vai ficando mais travada e mais legal, mais técnica. Numa outra bifurcação Saulo tem a feliz ideia de perguntar a um menino de 8 ou 9 anos qual é o caminho. Ele só sabe ir até a casa da avó. Brilhante!

Mais um trechinho de estrada, por enquanto.

Achamos o caminho definitivo e de repente a estrada some e vira um single track seguindo em paralelo a um grotão enorme que parece que não acaba mais. Estamos fora da track marcada pelo GPS. Tem algo errado. A single track fica super sinuosa e de repente encontramos um grupo de rapazes e um deles de moto. Perguntamos novamente sobre o caminho para Coaceral e o Francisco, o rapaz com a moto,  afirma categoricamente que nossas motos não passam. Eu duvido, como sempre, e peço ao Francisco para nos levar até o ponto que ele considera intransponível. Eis o caminho que ele guiou a gente

A trilha vai ficando mais travada ainda, uma delícia, e até agora as F800GS conseguem acompanhar a Bros 150 de Francisco. Subimos uma erosão e ele pede para deixarmos as motos ali e irmos dar uma olhada na subida da serra, a pé. Eu vou na frente e Saulo fica descansando. A subida é um caminho de pedestres, quase uma escadaria esculpida na erosão da terra. A trilha vai subindo e estreitando até um ponto que vira uma fenda na terra, seguindo a serra no fundo de um V estreito. De fato nossas motos não passariam facilmente por aqui. A de Tio Saulo com os baús laterais definitivamente não passaria. Ainda tem jeito, tiraríamos os baús, levamos lá para cima e remontamos. Vou subindo a ravina até chegarmos ao topo onde o ponto de vista me dá uma real noção do tamanho da bronca.

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Ravina criada pela erosão. Profundidade 10 metros

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Alto da Serra

A estrada não existe mais. A erosão levou. De lá de cima dava para ver perfeitamente o traçado original da estrada e como a erosão transformou todo esse trecho numa vala de erosão. O grotão que tínhamos visto lá embaixo na verdade era a “estrada”. Para sepultar de vez essa alternativa de atalho, no alto da serra a trilha segue ao lado de uma ravina de uns 10 metros de profundidade. No meio da trilha, lá no alto, uma estreita passagem é bloqueada por uma rocha encravada no barro. Teríamos que passar as motos por cima num risco enorme e sem margem de erro. Errou, despenca 10 metros. Foi o que aconteceu com o irmão de Francisco. Isso sem falar no trabalho hercúleo de arrastar duas f800gs completamente carregadas morro acima na fenda da erosão. Por aqui não vai dar.

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Francisco e eu com a Azul

Tirei umas fotos, filmei o depoimento do Francisco e pelo rádio avisei a Saulo que por sua vez já estava resignado e procurando uma alternativa no GPS. Francisco nos informa que tem um caminho mais ao sul, partindo da estrada asfaltada que liga Corrente a Barreiras. Decidimos ir por lá. A viagem que teria um atalho de 50km agora tem mais 46 de ida e volta a esse ponto intransponível e mais 70km de estrada de terra até Coaceral.

Voltamos para o entroncamento com a BR-135. Como já conhecíamos a estrada, aceleramos.

O tempo úmido, nublado já anuncia o que está por vir. Saímos do asfalto e pegamos o que viria a ser a pior estrada de toda a aventura.

Pior que uma estrada de terra é uma estrada de asfalto totalmente abandonada. Estávamos já na Bahia e a estrada que liga a BR-135 a Coaceral aparece no Tracksource como asfaltada e tem 78km de extensão, é a BA-225. Só que não há asfalto, apenas vestígios de um passado remoto. Não há marcações, praticamente não tem sinalização ou placas. O asfalto aparece e desaparece e quando aparece é cheio de buracos em forma de panelas. Não dá para desenvolver boa velocidade e o risco de acidente é alto. Temos que ir devagar e afastados um do outro para permitir que o colega faça desvios de rota em toda a largura da estrada. Muito tenso.

Tive que me concentrar na pilotagem para evitar os buracos. Parecia um jogo de videogame em que você vai perdendo pontos ao cair nos buracos. Devido a essa concentração não observei a paisagem ao lado da estrada. De repente me vi num lugar estranho. A estrada era plana assim como os campos ao lado da estrada. Havia algum tráfego de veículos 4×4 e caminhões pesados, os prováveis causadores do avançado estado de deterioração da estrada. De repente uma placa com uma chamada “Coaceral foi esquecido”. Uma reclamação dos que fazem uso da BA-225.

Não havia mata ou catinga ao lado da estrada. Só campos desmatados. A medida que nos aproximávamos de Coaceral os campos nus se transformavam em plantações extensas. Estávamos entrando na região dos grandes empreendimentos agrícolas. Campos de 5 a 10km de soja e/ou milho em diversos estágios. Aqui e acolá um grande silo ao lado de uma pequena estrutura administrativa. Uma instalação da Cargil se destacava. Passamos por um aglomerado com um posto de gasolina, uma borracharia e um pequeno prédio que não identifiquei o que seria. O vestígio de asfalto acaba definitivamente e temos que pegar uma bifurcação. Não eram mais estradas e sim caminhos de acesso aos campos de plantação. Perguntamos a um caminhoneiro qual o caminho para Mateiros e ele não sabia informar. Ele só conhece as fazendas ao redor. Decidimos voltar ao posto e perguntar qual é o caminho para Coaceral e de lá para Mateiros. O frentista informa: isso aqui que vocês estão vendo é Coaceral. Não é uma cidade, é um … entreposto… um ponto de apoio logístico para as dezenas de enormes fazendas da região. Ninguem é do local. A paisagem é desértica como nos filmes de faroeste americano. Um monte de coisa nenhuma no meio de lugar nenhum. Decidimos abastecer as motos e descansar um pouco, afinal já são 13hs e estamos rodando desde as 7 da manhã a partir de Corrente. Enquanto fazemos as coisas uma ventania enorme levanta uma tempestade de areia. Atrás da tempestade de areia nuvens carregadas despejam a chuva num campo de uma fazenda ao norte da nossa posição.

Eis um vídeo do temporal. Observem o raio

No bar/venda/restaurante do posto ninguém sabe informar o caminho para Mateiros. Um cara de moto escuta nossa conversa e afirma que veio de lá, nos descreve o caminho. Ele diz que estrada está boa e que não teremos problemas. Checamos as informações que ele dá e bate com a marcação do Tracksource no GPS. Decidimos então encarar o caminho. Algumas gotas de chuva esparsa dão uma molhadinha, voltamos para o fim do asfalto e pegamos a terra. Marquei então alguns pontos meta intermediários ao longo do caminho para seguirmos a rota. Não há qualquer marcação de cidade, vilarejo, posto de combustível ou qualquer outra coisa entre o Coaceral e e Mateiros.

A essa altura a chuva já havia transformado a terra em lama. As motos patinavam e estava difícil de pilotar. Para complicar, a tempestade de raios era forte. Nossas motos eram as únicas coisas mais altas em dezenas de quilômetros ao nosso redor. O risco de levarmos um raio era muito grande. Encaramos assim mesmo.

Começou a chover sobre nossas cabeças.

Numa bifurcação no meio do nada, no meio de um campo de plantação, o GPS me indicava que tinha que ir para a direita. Só que não havia estrada ou caminho a direita. Apenas um rio raso com uma forte correnteza apesar do terreno tão plano. Decido pegar a esquerda e contornar e para meu desespero vejo que estamos indo para uma direção completamente diferente e sem nenhuma marcação de alternativa de voltarmos a rota. Decidimos dar meia volta no meio do campo e enquanto Saulo se desembaraça rapidamente, eu dou uma bobeira e a minha moto atola. O terreno está tão escorregadio que não dá tração nem para minhas botas. Tento mas não consigo, vou precisar de ajudar de Saulo para desatolar. E da corda. Ele dá meia volta e depois de muito esforço consigo virar a minha moto de volta a trilha. Voltamos ao ponto da bifurcação e confirmo que o caminho realmente está intransitável. A chuva aparentemente leve derrubou um dilúvio sobre o imenso campo e alagou tudo que não é  curva de nível e proteções contra erosão.

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Não vai dar.

A conclusão é essa. O caminho que escolhemos está bloqueado pela chuva/inundação/lama. Mesmo que forçássemos a barra e cruzássemos a inundação (cuja profundidade nós só podíamos imaginar mas cuja extensão sabíamos e víamos era imensa), ainda teríamos que encarar o massapê por dezenas de quilômetros numa região absolutamente deserta, sem sinal de celular. Para complicar num sábado, ou seja, folga de caminhoneiros que são as únicas criaturas bípedes que se aventuram por essas bandas. E para complicar ainda mais … estava ficando escuro.

Bust.

O caminho alternativo adicionaria mais de 1000km a viagem o que resultaria num atraso ainda maior. Tio Saulo tem compromisso em Manguetown no dia 10 e não daria para aproveitarmos as belezas do Jalapão. Não vai dar, não vai ser dessa vez, não vamos ao Jalapão.

Quando essa conclusão racional finalmente se sedimentou em minha mente eu tive um colapso nervoso. Estava cansado, molhado de chuva, com frio, com fome, esgotado pelo esforço de desatolar a moto, com medo de ser fulminado por um raio a qualquer momento e para coroar decepcionado porque não ia ao Jalapão. Surtei. Queria ir para casa ficar abraçado com a minha mulher, me teletransportar. Sair dessa roubada. E aí pensei que ia ter que encarar os 71km de asfalto sonrisal de volta a BR-135 .. era demais. Desabei.

Nessa hora Tio Saulo pode retribuir as inúmeras vezes em que ele se sentiu do mesmo jeito nas trilhas light que fazemos em Pernambuco. Vários amigos já passaram por isso, pelo esgotamento físico e psicológico de enfrentar uma trilha pesada com uma moto mais pesada ainda como a F800GS. As palavras de motivação são fundamentais para fazer passar esse surto.

Usei a força da mente racional para superar essa crise de frescura. Já tinha tido isso há anos quando sofri o acidente com a moto de Ricardo Carvalho. Na queda eu machuquei o ombro e fiquei algum tempo sem pilotar moto. Por força da mudança do flat para a minha casa, alguém tinha que levar a minha moto para o novo endereço e eu fui pilotá-la depois de semanas sem nem olhar para ela. Quando saí da garagem e encarei a avenida me deu um pânico e pensei que nunca mais ia andar de moto. Não pode! Mentalizei, encarei, acelerei a moto e mandei ver. A crise de frescura passou.

Pois bem. Era hora de usar a mesma técnica. Foco na pilotagem. Acelerei e a adrenalina me curou. Entre as panelas e poças e costelas de vaca e crateras da pior estrada, abri uma vantagem sobre Tio Saulo no caminho de volta a BR-135. Passou a frescura. Fiquei bom.

Abri uma vantagem muito grande em relação a Tio Saulo e decidi reduzir para ele me alcançar e pilotar a minha frente. Seguimos assim durante boa parte dos 71km com velocidade média baixíssima e aí .. começou a chover. Muito.

Eis o percurso

roteiro do dia 6

Dá para ver no mapa acima que boa parte do percurso foi ida-e-volta sem sucesso. O caminho para Barreiras ainda levaria 167km a partir desse ponto mais ao sul no mapa.

Chegamos a BR-135 e a chuva não dava trégua. A ideia era seguirmos para Barreiras, pernoitar lá e no dia seguinte seguirmos para a Chapada Diamantina. Aliás, a Chapada era o nosso destino original e mudamos para o Jalapão por causa das notícias dos incêndios. Como uma força invisível que decidia os nossos destinos, nos vimos forçados a encarar a Chapada. Mas antes precisávamos chegar a Barreiras. São 170km apenas, numa estrada com muitos caminhões e debaixo de chuva. A noite.

Paramos num posto para colocar a capa de chuva e no caso do Tio Saulo trocar de jaqueta pela Bogotá da Alpine Star, supostamente impermeável. Eu preferi as confiáveis capaz plásticas e usei a técnica do Charlie Boorman para manter os pés secos. A bota Forma Terra Adventure é impermeável mas não se você submerge num rio, como aconteceu comigo lá perto de Coaceral. Minhas meias estavam encharcadas e a bota não ia secar levando chuva o tempo todo. Um saco plástico de lixo em cada pé, meias secas e conforto da capa. Encaro até o dilúvio de 40 dias e 40 noites. Voltamos a estrada e escurece rapidamente. Noite fechada, chuva constante, trânsito intenso na noite do sábado.

Outra parada no meio do caminho e eu desisto de usar os óculos. O frio e o vento mantém ele permanentemente embaçado e com as contra luzes dos faróis dos carros em sentido contrário eu fico completamente cego. Para complicar, a moto começa a dar as farrapadas. Abaixo de 4000 rpm só falha na aceleração. O fantasma da bomba de combustível fajuta da BMDafra volta a assombrar e no pior momento e lugar: no meio da BR-135, a noite, debaixo de chuva. Saulo vai a frente guiando e eu tento acompanhá-lo mas a moto começa a perder força. Percebo que acima de 4000 rpm a moto funciona bem e decido ir reduzindo as marchas e acelerando mais. Qualquer quilômetro a mais percorrido é um quilômetro em direção a civilização. A moto vai falhando e eu controlando para ela não dar acelerada súbita e perder aderência na pista molhada. Misteriosamente, após uns 30 quilômetros as falhas somem e a moto volta a ser aquela seda, suave, aceleração limpa sem engasgadas.

Chegamos em Barreiras as 19:20, depois de termos saído as 7:03 de Corrente no Piauí. Foram 12 horas de estrada sendo que 7h23m de deslocamento, uma boa parte delas debaixo de chuva. Rodamos no total 485km para um deslocamento efetivo de apenas 231km de Corrente Piauí e Barreiras Bahia.

Abastecemos as motos e procuramos um hotel por perto. Achamos um belo hotel que tinha piscina e eu mal podia esperar para experimentá-la. Tio Saulo achava que a água deveria estar fria depois de toda essa chuva. Eu não me importava. Queria flutuar na água, mesmo que gelada. Enfrentamos frio, frustração, chuva, escuridão, cansaço, exaustão, calor, poeira, falha na injeção de combustível, lama, poupança confiscada no Plano Collor, tudo isso nos fez merecedores de um luxo.

Chego na piscina e a água está surpreendentemente morna. Ao lado tem um bar e a garçonete me serve uma cerveja bem gelada, deliciosa. Deus existe. Relaxo por vários minutos. Pergunto a garçonete como é que a piscina está tão deliciosamente morna e ela me conta que em Barreiras o dia foi de sol forte e só choveu, pouco, no início da noite. Ou seja, a chuva chegou conosco.

Mando a garçonete servir uma Heineken para meu amigo Saulo lá no quarto. Termino o mergulho e levo outra para ele. Mas ele nem bebe. Vamos jantar e peço uma salada deliciosa com presunto e atum.

De longe, o hotel em Barreiras foi o melhor que ficamos durante toda a viagem. Além de barato, as instalações são bem modernas, bem cuidadas, tudo organizadinho nos conformes.

Amanhã começa a versão Tatus Na Chapada do que era antes Tatus no Jalapão. São 470km de estrada asfaltada até Lençóis na Bahia e a viagem deixa de ser aventura e passa a ser moto turismo. Ao alcance de qualquer coxinha.

Mas eu sempre vou por uma pimenta …

 

 

 

Tatus no Jalapão – Dia 5

O dia de reparos.

Amanhecemos em Bom Jesus do Piauí e eu com a ideia de seguirmos direto para Mateiros em Tocantins. Afinal, eram apenas 425 quilômetros, sendo que uns 250 sobre asfalto. Tio Saulo me convenceu a pararmos em Corrente ainda no Piauí. Estaríamos mais perto de Mateiros e poderíamos tirar a tarde para descansar melhor, revisar as motos e principalmente, consertar os empenos e armengues na moto dele.

Tomamos um café da manhã surpreendentemente honesto no pior hotel de toda a viagem. Demos uma revisada básica na moto de Saulo que havia levado dois tombos fortes no dia anterior na Serra Das Confusões. O baú lateral direito tinha quebrado o engate e agora só permanecia preso por estar amarrado ao suporte. O suporte esquerdo estava envergado e em contato com o escape. Para Tio Saulo isso era o fim. Tentamos desenvergar na força bruta e o máximo que conseguimos foi livrar alguns milímetros para evitar que o suporte mantivesse contato físico com o escape. Para consertar definitivamente seria necessário desmontar tudo e desenvergar. Enquanto fazíamos isso, Tio Saulo percebeu que a lanterna traseira não estava encaixada corretamente na carenagem. Em comparação com a minha moto dava para ver que tinha algo errado.

A paisagem de Bom Jesus era bizarra. Acordamos sob uma forte névoa de queimadas. Especulei que era fumaça oriunda das queimadas na Amazônia. O dia estava meio nublado e úmido e ainda muito quente. Dá para ver no vídeo abaixo a névoa. Não é sujeira na lente ok ?

Abastecemos as motos num posto Ipiranga e comprei um limpa viseira/desembaçante que se mostraria muito útil no dia seguinte. Comprei também dois pares de protetores auriculares e removi a pala do meu capacete para melhorar a aerodinâmica. Essa modificação foi muito conveniente e tornou a pilotagem mais confortável.

Pegamos a estrada BR-135 em direção sudoeste. Asfalto bom, algum tráfego de caminhões e pouco depois das 12hs estávamos em Corrente. A vegetação era mais verde, as árvores mais altas. Estávamos em outro bioma, diferente do sertão nordestino típico. Fomos direto ao hotel Rino e deixamos a tralha lá. Decidimos pôr as motos para lavar enquanto almoçávamos.

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Motos sendo lavadas

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Almoço em Corrente, Piauí

O lavajato não usava querosene mas estavam dispostos a aplica-lo se trouxéssemos. Procuramos no comércio e compramos um litro de querosene. Deixamos as motos lá e fomos almoçar, as 16hs as motos estariam prontas. Comemos um bom pedaço de coxão mole acompanhado de arroz feijão e salada. Muito frugal e rústico e delicioso. Ainda tivemos direito a uma porção de sarapatel de tripa de suíno que estava uma delícia. Voltamos ao lavajato antes do horário combinado e as motos estavam quase prontas. Dá gosto de ver. Nessas horas o espírito coxinha prevalece. Tio Saulo aproveitou para ver o que estava errado e precisava ser consertado em sua moto. Voltamos para o hotel no finzinho da tarde e começou o Boko’s Garage On The Go. Desmontamos o bagageiro da moto, suporte de lanterna e descobrimos que a mesma estava apenas mal encaixada. Primeiro problema resolvido. Agora os suportes dos baús. Terminamos quando já estava escuro e tudo ficou razoavelmente bom. O empeno no suporte não deixava as coisas perfeitamente simétricas como o Saulo exige mas ficou muito bom. Revisamos os apertos, tudo em ordem, fomos dormir.

Num dia em que percorremos cerca de 250km em meio dia, não houve muita novidade. O hotel era muito agradável, cercado por uma mata bonita. Os quartos eram amplos, com 3 camas e um banheiro grande. Dava para ver que era projeto da década de 80. Só que o hotel estava realmente muito derrubado. Tudo funcionando, diga-se de passagem, mas tudo muito gasto e precisando de ajustes. O banheiro tinha vários vazamentos, o piso algumas pedras quebradas, as fechaduras eram antigas e gastas. O clima ameno só era perturbado por um ensaio de meninas modelo de um projeto social com sede em Brasília e que atuava lá em Corrente. Eu desconfiei  que era aliciamento de menores mas na verdade não havia nada de errado. Só bizarro. Era meio estranho ver um monte de meninas dançando “Danúbio Azul” com um “príncípe” improvisado num rapazinho lá de Corrente. Muito bem intencionado, mas nem assim as meninas candidatas a modelo se entusiasmaram pelo charme do Príncipe.

A noite saímos para jantar na festa religiosa em frente a Igreja Católica no centro da cidade. Procuramos algum lugar para comer e no fim nos contentamos com uma sanduicheria na entrada da cidade. Fomos dormir cedinho com a sensação de que as motos estão limpas e preparadas para o que der e vier.

Amanhã chegaremos ao Jalapão !!! Pelo menos era essa nossa ilusão.

Tatus no Jalapão – dia 4

O limite.

Qual o limite da resistência? Até que ponto uma pessoa pode ser levada sem quebrar, sem desistir? A partir de que ponto o “cerumano” chuta o balde? Em breve eu teria respostas para algumas dessas perguntas. Todas as respostas providas por Tio Saulo e não de forma verbal ou escrita. As respostas viriam ao vivo e a cores. Através de um vivência extrema.

Amanhecemos em São Raimundo Nonato bem dispostos e com uma sensação de satisfação.  A aventura tinha atingido um dos pontos mais altos e mesmo com todos o problemas que enfrentamos, os ânimos estavam altos, a disposição elevada e o espírito de aventura estava atiçado. A impressão que tínhamos é que não havia dificuldade que não fôssemos capaz de superar. Isso tudo por causa de 2 pneus furados em dois dias.

Nosso objetivo original, planejado do alto do conforto de nossas casas em Manguetown, era sair bem cedo de São Raimundo Nonato e esticar até Corrente, no sul do Piauí. A distância nem parecia tão grande se a estrada fosse toda asfaltada. Mas tem trecho de estrada de terra. Aliás, um atalho e tanto que encurtaria bastante a nossa jornada. Só que tem um porém. Sempre tem. Esse atalho cruza a Serra das Confusões e é uma estrada de terra pouco utilizada justamente por ser muito difícil.

Para encarar essa aventura as motos precisavam estar em ordem. Por motos, entendam a minha moto. A de Tio Saulo já estava perfeita. A minha estava numa fase devoradora de câmaras de ar dianteiras e as cupilhas que prendem o pino de deslizamento das pastilhas haviam sido perdidas no episódio do dia 2. Decidimos comprar as espátulas de borracheiro para estarmos 100% equipados em caso de um novo furo. Obviamente, precisávamos também comprar novas câmaras de ar. Uma para repor a que foi remendada e outra para backup. Aproveitaria para resolver o problema da garantia do meu Nike legítimo de 50 reais que comprei na feira. Nesse item  sapatístico não teve jeito. Recebi a grana de volta e fiquei novamente sem tênis.

Só conseguimos pegar a estrada as 11 da manhã. Realmente muito tarde. Para complicar, os reportes obtidos em São Raimundo Nonato sobre a estrada de terra que iriamos pegar eram divergentes. Alguns diziam que não dava para passar. Outros diziam que era bem mais curto e que dava sim para passar. Outros recomendavam um caminho diferente. Tio Saulo mentalmente planejava uma rota nova a cada input que recebia. Vamos perguntar mais perto do início da rota cogitada para obter informação de primeira mão.

Saímos pela PI-144 em direção oeste. No meio do caminho, o primeiro encontro com bovinos cruzando a estrada. Saulo pede para eu tirar uma foto e em vez de usar a gopro do capacete eu paro e tiro uma foto com a Nikon. Ficou legal.

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As 13hs parávamos no restaurante da Ednéia em Caracol. No posto que nos deu a dica do restaurante, os relatos sobre a rota ainda eram conflitantes. Num certo momento eu disse para Saulo não perguntar mais, tomar uma decisão e seguirmos. Decidimos seguir pela estrada de terra que liga Caracol a Guaribas e de lá para Santa Luz. A estrada definitiva em termos de cruzamento do Parque Nacional da Serra das Confusões.

Almoçamos uma comida caseira gostosa e pegamos a estrada de terra para Guaribas. Logo logo me senti como se estivesse no outback australiano. Estrada de terra empoeirada cercada de pequenas propriedades rurais. A estrada é sinuosa, cheia de manchas de areia que dão um susto na gente. De repente a estrada fica reta e dá para ver ela se estendendo até depois do horizonte por quilômetros. Absolutamente nada de um lado e do outro e o chão de barro duro com cobertura de areia e de cascalho. Poucos buracos, mas alguns buracos que mantem o piloto alerta. Ao longe lá na frente uma nuvem de poeira.

Saulo dá a sugestão de trilharmos lado a lado assim um não vai comer poeira do outro. A princípio eu acho uma boa ideia pois a estrada é larga. Acontece que a largura não é constante, os obstáculos e irregularidades da pista e os poucos veículos em sentindo contrário a estreitam subitamente. Decido ir em fila atrás de Saulo para acompanhar o ritmo dele. Mantenho uma grande distância porque tem muita poeira e pedras soltas sendo arremessadas contra a minha moto que por sinal não tem protetor de farol.

A velocidade é boa, dá para manter 80 a 100 km/h na pressão. Saulo dá show e logo chegamos a nuvem de poeira imensa levantada por um caminhão a nossa frente. Decido me aproximar e ultrapassar o caminhão. Aí vira uma cena de Mad Max. O caminhão não facilita, não dá para enxergar nada, a estrada no meio do deserto e o poeirão.  Não consigo me aproximar o suficiente para fazer uma ultrapassagem segura. O caminhão é apenas um vulto na nuvem de poeira. De repente, uma rajada de vento tira a poeira por alguns segundos e eu me aproximo mas dá azar e a estrada fica estreita demais. Buzino, grito mas não tem jeito do motorista ouvir. Nem ver. Desisto de ultrapassar e reduzo a velocidade para sair da nuvem de poeira e reencontro com Saulo que vinha lá atrás, furioso por eu ter deixado ele sozinho. De repente, numa bifurcação o caminhão some e voltamos a ter a estrada só para nós. Chegamos a Guaribas e tiramos a foto com bandeira azul. Buscamos informações sobre o caminho para Santa Luz e todos dizem que são mais 90 km de chão. Nossa informação original estava errada.

IMG_0004Saulo ficou super chateado com essa info de mais 90km de terra e pergunta sobre o estado da estrada. Nenhuma informação consistente e nós não temos muita alternativa. Vamos encarar.

A estrada fica mais estreita, dual track, deserto total, no meio da Serra das Confusões e muita areia. Logo na saída de Guaribas o tombo de Saulo acontece. Saiu de traseira, a moto girou e ele foi ao chão danificando o suporte do baú direito. Nada machucado, ainda bem. Registrei a queda em vídeo mas a imagem ficou ruim porque a lente estava totalmente empoeirada. Dá para ver a ação assim mesmo.

Amarramos o baú com um esticador e seguimos a trilha. A trilha vai ficando mais difícil, embora plana, é areião puro. Areia, poeira, calor e de vez em quando uma poça dágua com lama. Prato cheio para quem gosta de off-road. Mais alguns quilômetros e Saulo leva outro tombo. Nenhum machucado mas o limite psicológico de Saulo é alcançado. Ele começa a praguejar, a lamentar ter vindo por aqui, a ficar desesperado. Está com sede e já bebeu toda  a sua água do back-pack. Eu ofereço água e conforto emocional. Seguimos agora num ritmo perigosamente lento.

Saulo leva o terceiro e último tombo que o esgota. Dessa vez a moto caiu sobre o baú esquerdo empenando o suporte e fazendo-o tocar no escape.

Pilotar na areia é descobrir qual é a velocidade ideal para estabilizar a moto ao mesmo tempo que mantém o controle da mesma para o limite de sua habilidade e rigor do terreno. Rápido demais e você pode não reagir a tempo para encarar um obstáculo. Devagar demais e a moto fica instável no areião. Saulo pilota na segunda alternativa. Eu vou seguindo-o pois as chances dele cair são maiores do que as minhas. Dito e feito, outro tombo de Saulo. Pragueja, lamenta e levanta, sacode a poeira e continua. Não há alternativa. Estamos mais perto do fim do que para o começo. A velocidade reduz ainda mais e agora é a minha vez de levar um tombo.

Nada sério, nenhum dano material na moto só que saí da estrada e caí no mato ao lado. Minha perna direita fica presa entre a moto e uma pequena árvore. Meu rádio está sem bateria e eu não consigo chamar Saulo. Por ter saído da estrada, estou fora da linha de visão de Saulo. Ao passar por um lameiro, Saulo reduz a velocidade, olha para traz e não me vê. Ainda bem que aconteceu o lameiro senão ele só perceberia minha queda mais a frente. Ele me chama pelo rádio, não obtem resposta e fica pensando o pior, que eu havia desmaiado ou coisa parecida. Nada tão dramático. A bota Forma Terra Adventure protege a minha canela  e com um pouco de força com a outra perna empurro a moto para o lado e minha perna solta. Levanto-me para ver Saulo caminhando em minha direção, dando carão em mim porque não o respondi. Nenhum dano em mim ou na moto, ele me ajuda a levantá-la e seguimos viagem.

A estrada que cruza o parque da Serra das Confusões começa a apresentar mais poças de água com lama e portanto mais risco de atolamento. Numa dessas poças, Saulo dá azar e escolhe uma passagem com muita lama, o controle de tração da F800GS dá aquela vacilada característica e a moto atola. Eu consigo passar um pouco mais a direita e paro a minha moto fora do atoleiro. Usamos a corda e eu puxo a moto de Saulo para fora. Nem precisou da moto. Mais trilha em seguida e agora a paisagem começa a mudar.

Cerca de 70 km da trilha foram feitos em absoluta linha reta sendo que uns 50km eram de areia fofa. Quando as poças começaram a aparecer com mais frequência a trilha tem um entroncamento, uma curva mais acentuada para a esquerda e caímos numa estradinha diferente. Havíamos chegado ao extremo e as coisas começam a voltar ao normal. Um povoado, um casa de camponês. Começamos a descer a serra de de repente uma visão magnífica dos paredões de rocha e as várias camadas geológicas expostas. Paro para tirar uma foto dessa paisagem e me vem a sensação de desafio superado.

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Havíamos cruzado a Serra no trecho que até o momento tinha sido o mais difícil da nossa jornada. Faltam apenas 12km para Santa Luz.

Eis o percurso

Percurso SRN - Bom Jesus

Chegamos a Santa Luz por volta das 17hs, bem na hora do por do sol. Paramos numa vendinha e Saulo toma um litro e meio de água e uma coca-cola praticamente num gole só. Damos uma esticada nas pernas, descansamos um pouco e em seguida usamos o compressor Michelin para voltar a pressão de asfalto. Saulo está exausto e pede para eu guiar até Bom Jesus do Piauí, onde iríamos pernoitar. Tento usar o Tomtom como navegador e mais uma vez ele manda ir para a direção errada. Corrigido o percurso, pegamos a BR 235 em direção ao sul e entroncamos com a BR 135 em direção a oeste. O hotel em Bom Jesus foi definitivamente o pior hotel de toda a aventura. Além de caro, as instalações são muito precárias. A internet, para variar, não funciona bem. O quarto tem 3 camas e nenhum armário ou local para guardar roupas e objetos pessoais. O banheiro não tem box no chuveiro. Nem tem cortina. Resultado é que o banheiro vira um dilúvio. A água é tão quente naturalmente que não precisa de chuveiro elétrico, que nem em São Raimundo Nonato.

Tomamos um merecido banho long play e vamos a noite de Bom Jesus para jantar. Encontramos um lugar que serve uma costela ao molho barbicue . Esse é o legítimo outback brasileiro, a começar da localização. Em tudo se parece com o sertão australiano: fronteira agrícola, serviços precários, baixa densidade populacional e grandes distâncias de estradas de terra.

Proponho a Saulo que façamos a próxima perna direto até Mateiros, em Tocantins, afinal, não estamos tão longe assim e uma boa parte do percurso será sobre asfalto. Seriam 421 km no total sendo que uns 250 de asfalto. Saulo discorda e sua posição iria salvar as nossas vidas no dia seguinte.

 

Tatus no Jalapão – Dia 3

O maior conjunto de sítios arqueológicos que puseram por terra a hipótese de povoamento das américas a partir do Estreito de Behring. Hoje a maioria dos cientistas não considera essa hipótese tão válida. Quem diria hein ? O que eu estudei na escola quando criança não vale mais nada. Já aconteceu com você ?

Terceiro dia da aventura foi reservado por Tio Saulo para relax. Um dia inteiro de turista no magnífico Parque Nacional da Serra da Capivara próximo a São Raimundo Nonato. Depois de um dia em que pneu furado e 40km de estrada de terra foram o ponto alto, hoje vai ser só turistada. Relax, aproveitar a paisagem, tirar fotos bacanas e absorver conhecimento.

Graças as valiosas dicas do novo amiguinho feito no hall da Pousada Zabelê na noite anterior, decidimos contratar um guia para nos levar para o Parque. O passeio recomendado pelo Fernando Maia nos levaria a conhecer um grande pedaço do parque num dia só. Além disso, como o parque é grande e requer deslocamentos de carro, teríamos uma vantagem pois vamos de moto e dá para chegar mais perto das atrações. O nosso guia era o Wilke e ele é muito bom e experiente, conhece tudo do parque e tem um astral de aventura, igual ao nosso.

Tomamos café bem cedo, e eu saí para o comércio de São Raimundo Nonato antes de aberto com a missão de comprar um par de tênis. Esqueci de trazer e ainda por cima meu espaço de bagagem é limitado. O kit turista teria que incluir uma mochila para levar água e barras de cereais e um chapéu, além do par de tênis. Chapéu para mim sempre é um problema pois o tamanho é 62/63 e difícil de achar. Como se não bastasse isso Tio Saulo tava agoniado (pra variar) pois não conseguia conceber que uma pessoa vá fazer uma viagem dessas e não traga tudo que precisa de casa. Fácil para ele dizer isso do alto dos 152 litros de bagagem disponíveis nos seus três baús Givi novinhos em folha. Eu não tinha muito tempo a perder e Tio Saulo é pressão para eu ir logo “Foco  Boko !! Foco Boko !!”, ele dize sempre.

A primeira loja que entrei resolvi a parada. Um boné laranja-boia-da-marinha, um tênis preto (deve ser uma beleza quando o sol bate) da Nike, dois pares de meia e uma mochila de dois compartimentos. Tudo bem baratinho e com tendência a descartável. Total da fatura ficou em 101 reais. Os preços por aqui são realmente baixos, ainda que consideremos a “qualidade” e “autenticidade” do tênis Nike. Voltei para a pousada e as gréias de praxe de Tio Saulo a respeito da minha preferência e gosto para combinar cores.

Pegamos a estrada em direção nordeste por cerca de 20 quilômetros até uma das entradas do Parque (são quase 92 mil hectares após a última expansão). Ingresso pago, termo de responsabilidade assinado (não pode depredar, não pode fazer barulho, não pode poluir, não pode fumar, não pode um monte de coisas). Tio Saulo providenciou a burocracia e num dos cartazes algumas imagens de nossos primos tatus de 4 patas. Os de 2 patas estão em Recife no nosso moto grupo.

 

Entramos de moto e seguimos para a base de um morro onde fizemos uma escalada para o alto de onde se pode ter uma panorâmica sensacional da beira do parque, com direito a vista da famosa Pedra Furada lá embaixo.

Logo nos primeiros metros de caminhada nas trilhas da caatinga, a sola do meu Nike novinho soltou do calcanhar esquerdo. O som de lept-lept-lept iria me acompanhar pelo resto da manhã. Ao longo do caminho, centenas de pinturas rupestres nas paredes de arenito. O acervo é enorme e tem de tudo desenhado. A idade média é de 10 mil anos mas tem pinturas ainda mais antigas e outras mais recentes. As imagens relatam atividades de dança, caça, sexo de tudo quanto é forma e variedade. Animais aquáticos, terrestres, aves, fogueiras. Um dos desenhos mais curiosos e mais frequentes, espalhados por vários lugares parece mais um convite para uma festa, com indicação de localização e tudo. Segundo o Wilke, as interpretações dos desenhos são as mais variadas. De religião a antropologia, cada um que dê sua opinião.

Numa das subidas para um dos sítios mais interessantes a sola do calcanhar esquerdo descolou de vez e eu só percebi quando estava lá em cima. Perguntei ao guia se iríamos voltar pelo mesmo caminho e felizmente ele disse que sim. Não queria deixar uma poluição plástica na forma de um solado de tênis ordinário. Já pensou ? Escavações arqueológicas no futuro poderiam ser induzidas a pensarem ter descoberto o “homo tabacudos”, um ser humanoide parente e muito parecido com o “homo sapiens” porém com uma inexplicável tendência a comprar calçados de qualidade discutível e em cima da hora.

Descemos o morro que havíamos escalado anteriormente e fomos para a lanchonete dar uma merecida refrescada. Impressionante como a gente desidrata rapidamente. O calor enorme e o vento quente e seco são tão eficazes que quase dá para sentir você mesmo murchando e ressecando. Na lanchonete tem artigos e lembrancinhas, com camisas UV de toda cor chegante que você imaginar, cerâmica da indústria instalada próxima ao parque e decorada com reproduções das pinturas rupestres. Ok, tudo muito legal mas o que queríamos era picolé de limão e água. Muita água. Descansamos um pouco, reabastecemos nossas mochilas com água e seguimos de moto até a base da Pedra Furada. Nessa hora senti falta da Bandeira XT660.Net que deixei na pousada. Que pena, dessa vez nada de foto com a Bandeira.

Mais algumas caminhadas, fotos e fotos e fotos e fotos. Vale dizer que o guia ajusta o trajeto e a intensidade da caminhada/escalada à capacidade física do grupo de visitantes. A diária do guia custa R$ 120,00 e dá direito a formar um grupo com até 8 pessoas.  Existem percursos até para cadeirantes com rampas de acesso bem conservadas, tudo sinalizado e cheio de cartazes explicativos. No centro de apoio onde fica a lanchonete tem um mini museu com fósseis impressionantes de preguiça gigante, tigres de dentre de sabre, cavalos pré-históricos. No centro também tem um auditório onde palestras e vídeos são exibidos aos visitantes. Ah sim, no auditório tem ar condicionado. Deus existe.

Chega a hora do almoço e o roteiro nos leva a Fábrica de Cerâmica onde tem um restaurante, uma loja de camisetas e chapéus e, obviamente,  a própria fábrica. A cerâmica fica fora do parque, saímos pela porteira que entramos e regressaremos ao parque por outra entrada. O ingresso deve ser portado pelo visitante nessas entradas/saídas para agilizar. Se perder o ingresso ainda pode entrar sem ter que pagar novamente mas demora mais pois a atendente tem que checar no sistema.

A cerâmica fica a beira de uma estrada que está recebendo aquele “asfalto sonrisal” e o cheiro de piche recém aplicado me dá um enjoo danado. O restaurante faz parte de um pequeno complexo de prédios que tem também um albergue, não muito popular pois fica no meio do nada, perto mas fora do parque. Não há muita vantagem em se hospedar aqui a não ser que você seja um arqueólogo ou geólogo ou antropólogo ou historiador de arte ou pesquisador de qualquer um dos inúmeros ramos do conhecimento humano que podem ter uma overdose de informação ao visitar o parque.

A caminhada abriu o nosso apetite e nos fartamos com a deliciosa e simples comida caseira que o restaurante self-service proporciona. Como se não bastasse a comida boa, sucos de caju, cajá e goiaba fizeram o deleite de Tio Saulo. Bebíamos tudo que passasse a nossa frente. O calor é fenomenal e o vento muito seco. A programação previa um descanso de uma hora após o almoço e eu tive a brilhante ideia de molhar minha camisa dryfit UV para dar uma refrescada. E deu certo! Que sensação maravilhosa. O vento de quente ficou fresco e a sensação refrescante era uma delícia. Durou exatos 6 minutos. Minha roupa estava novamente completamente seca! Sequinha, impressionante.

Voltamos ao parque e entramos por outra portaria rumo aos “boqueirões” que são os caminhos ao lado das bases das falésias. Esses boqueirões são como vales sombreados e na estação das águas tem pequenos riachos nos sopés das montanhas. A vegetação é bem mais exuberante e a sombra deixa a temperatura mais fresca, na casa dos muito bem-vindos 30 graus. Uma delícia. Eita “cerumano” se contentando com coisas simples como uma temperatura apenas 9 graus menor. Pinturas e pinturas e pinturas e uma fauna surpreendentemente exuberante. Mocós, macacos, aves, repteis, insetos. A trilha é uma delícia, coberta pela copa de árvores frondosas. Segundo o Wilke, mata atlântica igualzinha a que encontramos no litoral do nordeste. Surpreendente. Vamos alternando entre trechos na moto (o Wilke na minha garupa) e caminhadas entre grutas, cavernas, abrigos naturais criados pela inclinação negativa das paredes de rochas. Encontramos com um dos mantenedores do parque montado em sua POP 100. Ele troca algumas dicas com o nosso guia. Segundo entendi, os mantenedores tem contratos específicos para manter trilhas/áreas do parque. Eles são encarregados de manter os cartazes, sinais, passarelas, corrimãos, iluminação.  O mantenedor nos alerta para ficarmos espertos quanto a cobras pois os  boqueirões são o local preferido. Embora raros existem episódios de picadas de cobras.

Visitamos a impressionante Caverna do Inferno onde tiramos umas fotos dramáticas.  O caminho por entre duas montanhas de rocha segue o desfiladeiro até um ponto sem saída onde há uma abertura para o céu. Em época de chuvas essa abertura se transforma numa cachoeira que deve ser belíssima. Dá para ver a marca da água nas pedras. No meio do caminho, enquanto eu me concentrava para me equilibrar por entre as rochas e rochedos com o meu par de tênis Nike-pero-no-mucho modelo Meio-fundo-Meio-Raso, sinto um toque delicado e suave no meu tornozelo. Coração parou esperando a picada da cobra….. Era Tio Saulo com um graveto tirando onda. Ela inda me paga ….

Voltamos caminhando para as motos e já eram umas 4 da tarde. Destino o último conjunto de cavernas e sítios pré-históricos para terminar nosso tour. Montamos nas motos, andamos 100 metros e …. o pneu dianteiro da minha moto está furado. De novo! Mas como se no dia anterior havíamos montado uma câmara de ar novinha da Michelin? Não tem conversa. Embora Tio Saulo ainda tenha cogitado a “brilhante” ideia de eu seguir com o pneu furado mesmo até a borda do parque, totalmente descartada, mãos a obra para desmontar a roda. Eu já estava craque. Segundo as regras do parque, nenhum visitante pode ficar sozinho. Tio Saulo levou o guia e o pneu até a portaria por onde sairíamos e veio me pegar. Em seguida, eu e o Wilke levamos o pneu até a cidade Coronel José Dias onde um borracheiro detectou que areia que havia entrado no pneu (não sei como essa areia entrou lá, alguém faz ideia?) e grudou num vestígio de vacina que havia vazado para tapar algum dos 3 furos anteriores. A areia  limou a câmera e a condenou. Ele faria o remendo mas teríamos que trocar a câmara. Custou 7 reais. Voltei a portaria e pilotando a moto de Tio Saulo, levei-o na garupa até o local onde estava a minha moto. Rapidamente montei a roda dianteira e pudemos fazer um off-road legal sem a patrulha do guia. Já estava escurecendo.

Pegamos a estrada de volta a São Raimundo Nonato e chegamos novamente a Pousada Zabelê, agradavelmente exaustos. Depois de nos refrescarmos descemos para a entrada da pousada onde reencontramos o simpático casal Fernando e Liana Maia, os mesmos que haviam dado as valiosas dicas. Fernando é palmeirense e estava ansioso acompanhando a decisão da Copa do Brasil. Derrubamos algumas cervejas, compartilhamos as histórias e o Fernando foi dormir campeão da Copa do Brasil e com um monte de vídeos registrando as manifestações da enorme torcida palmeirense de São Raimundo Nonato.

O dia seguinte prometia muita aventura. Iríamos pegar o primeiro trecho de estrada de terra para valer e eu cheio de coisas para resolver. Vai ser punk. E foi … muuuito.