Definição motociclística de tatu

armadillo_black_white_line_art_coloring_book_colouring-4444pxHá anos eu escrevi um artigo aqui no blog mostrando o significado do termo “coxinha” para os motociclistas. O artigo era muito necessário numa época de polarização política. Coxinha em termos políticos tem um quê de pejorativo. Já em termos motociclísticos, tal termo é na verdade algo até carinhoso.

Para todo ponto existe um contraponto. Para toda tendência existe uma antitendência e para opor-se aos coxinhas existem os tatus. Mas o que é tatu em termos motociclísticos?

Uma imagem vale mais do que mil palavras e um vídeo vale mais do que um post com mil palavras. Esse vídeo abaixo, de uma rede de concessionárias BMW nos Estados Unidos, dá uma ideia bem próxima do que é ser tatu.

O tatu é um estado de espírito motociclístico. O tatu não quer o fácil, não quer o que todo mundo faz. O tatu quer ir onde poucos (ou nenhum) foram. Tanto melhor. O tatu pede orientações na estrada só que de um jeito diferente. Onde “não passa” é por onde o tatu vai. Onde “a estrada está ruim” é por onde o tatu quer ir. Onde tem areia, lama, água, rio, pirambeira, barranco, buraco, rieira, erosão, batente, porteira fechada, mar, riacho, escuridão, frio, calor, vento, neve, poeira, duna, atoleiro, mata, deserto, tronco caído, é por aí que o tatu quer ir. Dá para ver que tatu é especial. E não só por isso.

O tatu não se interessa muito pelo destino. Assim como todo bom motociclista, ele se preocupa mais com a jornada. O tatu se prepara e também improvisa. O tatu vai chegar lá de algum jeito. Vai levar a moto até onde não é mais possível seguir sobre duas rodas. E ainda assim, o tatu fica imaginando como poderia transpor o rio intransponível, subir o barranco íngreme, atravessar o lamaçal, superar o areial. Ao contrário dos coxinhas, o tatu tenta tudo. Tenta tu aí. Tem tatu aí. Se tem tatu, tem aventura.

O tatu é o aventureiro sobre rodas e a sua moto é a sua companheira. A moto do tatu é diferente da moto do coxinha. Moto de tatu é equipada porém sem supérfluo. O tatu não se preocupa tanto com a forma e mais com a função. A prioridade é a capacidade da moto de superar obstáculos. Pneus off-road, protetores de motor, protetores de mão, ferramentas, cordas, materiais para reparos diverso entre outros acessórios e ferramentas fazem parte do arsenal do tatu. Entre todos esses equipamentos o principal: o espírito destemido e abnegado, a técnica e a determinação que vem com o piloto tatu.

Identificar um tatu é fácil. Nos postos de gasolina as motos dos tatus são as mais sujas. Eles não se importam. Nos estacionamentos dos pontos de encontro é fácil saber quem é o tatu. São os que descem das motos com arranhões, são cicatrizes das aventuras, cada uma delas com uma história de superação. Nas lojas de acessórios e boutiques de motos também é fácil identificar um tatu. Ele não se importa muito com a tendência da moda dos calçados ou das roupas. Ele quer saber se é resistente, se faz frio ou se faz calor, se aguenta o rojão de passar dias sem ser lavada. Se aguenta o rojão de passar dias sendo lavada pela chuva, ou pela poeira ou pelos dois juntos. Acredite. É possível. Para um tatu é possível. Chama-se “trilha das 4 estações” e acontece quando um tatu leva a sua moto e num mesmo dia enfrenta todos os tipos de condições climáticas.

O tatu preserva a sua moto mas não a idolatra. O tatu curte a moto pelo que ela proporciona de emoção, do que ela exige de técnica e domínio do piloto. O tatu curte a moto pelo que ela é capaz de fazer com ele montado nela. O tatu não é exibicionista, não faz questão de ir de moto para tomar cerveja com outros tatus. Ele faz questão de se aventurar, de se permitir. E de encontrar com outros tatus. Se for na terra, melhor ainda.

O tatu não se incomoda se está perdido no meio do mato. O tatu não se incomoda se o design do pneu não é bonito. O tatu não se incomoda se o adesivo da moto caiu. Não se importa se o seu “colete” tem brasão de moto clube. O tatu só se importa com uma coisa: você tem coragem de ir onde outros não vão? Se você tem essa coragem, você é um tatu.

O que o tatu gosta? Ele gosta da terra, gosta da aventura, gosta da sua moto para levá-lo para esses lugares. O tatu vai ajudar outro tatu diante de uma dificuldade mas antes ele vai dar umas risadas do tombo, da atolada, da saída pela tangente na curva, da peça de bagagem que caiu da moto, do caminho errado que o guia pegou, da trilha marcada no gps, das fotos da moto atravessando o rio, ou o lamaçal, ou a duna, ou a enchente, ou a poeira, ou a fumaça de uma queimada, ou o deserto, ou o rebanho de cabras no meio do sertão brasileiro.

O tatu é o companheiro das aventuras que você sempre quis fazer e a pasteurização da vida urbanóide impediu. Para os tatus os fabricantes de moto criaram as bigtrails. Assim como o vídeo acima demonstrou, o tatu não precisa de muito. Não faz reservas (de hotel). Nem tem reservas (a quem quer que seja). O tatu está lá para curtir o motociclismo de fato, o motociclismo rústico, o motociclismo em que o mais importante é o piloto e não a moto endeusada.

O tatu adora a terra e daí que vem o seu nome. Entre o caminho 100% asfalto e a estradinha ruim cheia de buracos e que todos dizem que “não passa”, advinha qual é a que o tatu prefere ?

Essas já seriam diferenças suficientes para separar o tatu dos outros animais moticiclísticos. Só falta a diferença básica. A atitude e o comportamento diante dos tombos.

O tatu cai. Sim, embora não pareça, os tatus também são suscetíveis a lei da gravidade. Tatu leva tombo. E mais do que isso, tatu sobrevive ao tombo, encara como uma oportunidade de aprender. O tatu reflete sobre o erro que cometeu e melhora a técnica, aprende com o erro. Tatu não se vangloria de “nunca ter caído”. Se nunca caiu é sinal de que não explorou o limite da pilotagem.

Ninguem pilota uma moto para levar um tombo. A ideia é de fato não cair. Só que cair faz parte da vida. É preciso conhecer o seu limite e o tombo/queda é o marco. Quanto um tatu cai a primeira coisa que ele faz é pensar “Poxa, que foi que eu fiz errado?”. O tatu não põe a culpa nos outros. O tatu encara a merda que fez e a limpa. O tatu aprende com o erro. As vezes … precisa de dois erros para ele entender. Nem todo tatu é inteligente. Esse não é o ponto forte, inteligência. O ponto forte é a determinação.

Quando encontrar um tatu montado na sua moto, fique certo que ele estará disposto a compartilhar o caminho que fez ou pretende fazer, trocará uma dica, perguntará sem vergonha, buscará ajudar sem pensar em obter alguma vantagem. O tatu é antes de tudo um motociclista e como tal tem um senso de comunidade e participação mais aguçado. Assim como o amigo coxinha, o tatu não se nega a ajudar, não deixa o companheiro para traz. O tatu cuida do seu grupo.

Então quais são as diferenças entre os tatus e os coxinhas ?

Se a moto cai: O coxinha entra em desespero e perde o gosto pela moto. O tatu levanda, sacode a poeira e segue em frente.

Se a moto suja: o coxinha imediatamente lava, poli, esfrega e se for o caso troca de moto. O tatu não liga. Se alguém perguntar como foi que sujou ele vai contar a saga da trilha/passeio que fez.

 

 

 

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Filtro de óleo – comparação

Filtros de óleo são componentes de motor daqueles que nunca ouvimos falar exceto quando o mecânico diz que tem que ser trocado. O filtro bom é aquele que funciona sem que o notemos. Mas como funcionam? Quais as diferenças entre um filtro de óleo e outro? Qual o filtro mais adequado para a moto?

oil-filter-flow-01Nessa figura dá para ver como um filtro de óleo funciona. A bomba de óleo do motor força o óleo para dentro do filtro através dos furos mais externos da parte de baixo do óleo. O óleo então entra no filtro e atravessa o elemento filtrante, normalmente feito de celulose e/ou fibras sintéticas, e segue para o centro do filtro onde é coletado e sai pelo furo no centro, voltando ao motor. No fundo do filtro, no lado oposto da rosca que o fixa ao bloco do motor, tem uma válvula de bypass. Essa válvula é resistente até uma certa pressão que se ultrapassada proporciona a abertura dessa válvula. O óleo então passa direto sem ser filtrado, bypassando (?) o elemento filtrante. Quando o óleo está frio se torna mais viscoso e de fluidez menor. Para evitar que o óleo viscoso “entupa” o filtro e deixe de circular no motor (com consequências catastróficas) essa válvula abre e deixa o óleo passar direto. Quando o óleo aquece, a pressão diminui e o óleo passa a ter que circular pelo elemento filtrante normalmente. Além do óleo frio, outra coisa que pode causar a abertura dessa válvula é a idade do filtro. A medida que o tempo vai passando o filtro vai entupindo com as impurezas e sujeiras do motor até um ponto em que filtra mais nada. A pressão acumula e a válvula abre, deixando o óleo passar. Está na hora de trocar o filtro quando isso acontece.  Na figura pode-se ver também um anel laranja que fica logo após os furos de entrada de óleo. Esse anel é feito de borracha nitrílica ou de silicone e funciona como uma válvula antidrenagem. A ideia é evitar que o óleo que está dentro do filtro escorra para fora quando o motor é desligado. Essa válvula antidreno serve para manter o circuito de dutos que leva óleo ao motor sempre cheio de óleo.

A explicação introdutória acima foi simplificada com fins didáticos. Outros detalhes podem ser obtidos no site da FRAM, renomado fabricante de filtros de óleo.

Depois dessa breve introdução de como o filtro de óleo funciona vamos mostrar como são os filtros de óleo na vida real e fazer um comparativo entre dois tipos de filtro aplicados em motos BMW F800 GS.

Meu amigo João Guerra há muito sugeriu que fizéssemos uma comparação entre o filtro de óleo original da BMW e a alternativa recomendada em vários sites e fóruns, o filtro de óleo do Ford KA, que sai muito mais barato. Eu havia montado um filtro de KA na minha moto e JG só esperava a hora de eu trocar de filtro para comparar com o filtro dele.

Aqui estão os filtros que vamos examinar. O branco é o filtro do Ford KA  e o preto é o filtro original da BMW, fabricado na Áustria. Apesar de funcionalmente equivalentes, existem algumas diferenças notáveis. A primeira é o tamanho. O filtro do KA é bem maior, tem um volume maior. Observem que os furos pequenos na boca do filtro são por onde o óleo é bombeado para dentro do filtro. O buraco maior central, que tem uma rosca, é por onde o óleo filtrado sai. Na parte mais externa tem o o-ring de borracha que veda/sela o filtro junto a sede dele no bloco do motor. Diferenças externas anotadas, agora vamos dissecar esses filtros.

Eis o filtro BMW. Ao redor do elemento filtrante tem uma fita de celulose/plástico. Imagino que sirva como um direcionador do fluxo para a parte mais central do elemento filtrante. No fundo tem uma mola bem forte que mantém o elemento filtrante firme junto a boca do filtro. No centro da mola tem uma peneira de metal cobrindo a válvula de bypass. Não há válvula antidreno.

Aqui dá para ver em detalhes a mola que fixa o elemento filtrante na carcaça, a peneira de metal que cobre a válvula de bypass, esse círculo preto no meio do núcleo do filtro. A válvula tem uma mola muito dura no interior e a tampa da válvula é de borracha/plástico bem deformável. A vedação é bem forte e segura e a pressão para acionar a válvula é bem grande.

Agora vejamos o filtro do Forda KA.

Aqui aparecem mais diferenças entre os filtros. Além da óbvia diferença do tamanho do elemento filtrante, este filtro possui uma válvula antidreno que fica ao redor dos furos da boca do filtro. No fundo do filtro, não tem uma mola como no filtro BMW e sim um suporte que fica sob tensão quando o filtro é montado, forçando o núcleo do filtro contra a boca.

Retiramos o elemento filtrante e agora dá para ver as carcaças dos filtros. Os furos do filtro Ford são menores e mais numerosos e dispostos de forma helicoidal por todo o eixo da carcaça. Os furos do filtro BMW são maiores e em menor número e estão numa faixa a cerca de 2/3 do comprimento. Isso pode explicar porque a fita cobre uma parte do elemento filtrante. O metal utilizado no BMW é lata bem flexível.  Já o Ford é bem rígido e mais robusto. Curiosamente, a capa externa que envolve o filtro (primeira coisa que abrimos) é mais fina no Ford e mais dura no BMW.

Aqui as duas válvulas de bypass em comparação. A válvula do BMW tem uma mola de espessura bem grossa, tem um curso longo e é bem tensa. A tampa é de borracha/plástico e o acabamento é superior. A válvula do Ford tem uma mola com um fio bem fino, parece um arame, o curso é curto e tensão é baixa. O acabamento é inferior.

Eis a válvula do filtro BMW em ação

Conclusões.

Os filtros são funcionalmente equivalentes e um tem vantagens sobre o outro e vice-versa. O filtro BMW é mais bem acabado, ocupa menos espaço e é mais robusto. Isso é particularmente importante pois nas F800 GS o filtro está bem exposto a pedras e objetos que podem atingi-lo. A válvula de bypass é mais robusta e bem acabada.

O filtro Ford tem maior volume e é equipado com uma válvula antidreno que é particularmente útil numa motocicleta. Isso evita que o motor rode aqueles poucos segundos sem óleo assim que ligamos a moto. O óleo é retido no circuito e rapidamente volta a lubrificar o motor. Considerando a aplicação de para/anda no tránsito da cidade e os tombos que levamos no off-road, essa válvula antidreno se torna uma vantagem.

O filtro BMW por ser mais curto se dá melhor com os protetores de carter que equipam as motos. Principalmente os protetores de carter que envolvem o próprio filtro e que por isso são altamente recomendáveis. Já o filtro Ford, por ser maior, não cabe em todos os protetores. O protetor padrão BMW que equipava as F800GS Trophy fica exatamente na medida com um filtro Ford. Ambos os filtros requerem que os protetores de metal sejam removidos para efetuar a troca. Apenas o protetor simbólico de plástico (o standard que equipa as F800gs) não requer a remoção.

Além dessas características técnicas, vale lembrar que o filtro BWM pode ser encontrado fora das concessionárias por algo em torno de R$ 60,00 a R$ 90,00. Nas concessionárias custa mais de R$ 150,00. Já o filtro Ford custa algo perto de R$ 20,00.

Considerando todas as características, diria que não vale a pena a economia do filtro do Ford KA. Economizar 50 ou 70 reais a cada 10 mil km é muito pouco e se levarmos em conta o inconveniente do comprimento maior e eventual incompatibilidade com os protetores de carter, o filtro Ford não é uma boa ideia. Porém, é importante saber que existe essa alternativa, principalmente em situações de viagem por lugares muito remotos em que não é fácil achar uma revenda BMW. Ou até mesmo na civilização onde até tem a revenda mas faltam peças.

Meus sinceros agradecimentos a João Guerra pela iniciativa e pelo apoio logístico (filtros, ferramentas de corte, ideias, etc).

Aguardem mais artigos como esse do JG & BM Labs !

 

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 35.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 13 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Grande Raid dos Sertões

Alguns amigos pediram para eu simplificar o acesso ao relato da aventura de 4000km
Aqui vai

Dia 1 – De Recife a Petrolina – O personagem Calor aparece

Dia 2 – Petrolina a São Raimundo Nonato – Primeiros off-roads

Dia 3 – Turismo na Serra da Capivara

Dia 4 – Mad Max no Sertão do Piauí

Dia 5 – Um dia de coxinha

Dia 6 – Jalapão or Bust!

Dia 7 – Boring Asfalt in Bahia

Dia 8 – Trilhas e Cachoeiras na Chapada

Dia 9 – Tudo sobre rios e cavernas

Dia 10 – O Retorno do JEdAL

Conclusão

 

Tatus em Manguetown – Conclusão

Depois de 4000 km de aventura em cima de uma moto, o relato precisa de uma conclusão onde vou ponderar algumas coisas que não estão relacionadas com cronologia ou mesmo estão diretamente conectadas aos acontecimentos. São conclusões e ideias que surgem depois de uma jornada, como um balanço.

As motos

Black Mamba

A Famigerada, mítica, admirada Black Mamba, temida pelos coxinhas, minha F800 GS Triple Black ano 2012 que terminou a jornada com 29263km.

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Equipada com um bauleto Touratech de alumínio onde levei as ferramentas e peças de reposição, corda, além da capa de chuva. Minhas roupas seguiram numa mala amarrada no banco, capacidade de bagagem que se provou insuficiente e tive que aproveitar a mochilinha ordinária para trazer mais coisas. O engate do baú soltou durante algum momento entre Corrente e Lençois e eu só percebi no dia seguinte a nossa chegada em Lençois. Protetor de carenagem. Filtro de ar lavável K&N. Pneus Karoo 3, sendo que o dianteiro estava em meia vida e agora acabou de vez. Um carregador de 12v/5v usb no guidão, antena corta pipa e bolsinha de tanque da Givi com suporte para o tablet, que virou navegador GPS. A transmissão já estava em meia vida após 25kkm e agora está na lona, será substituida. Exceto pelos sustos com a injeção em Petrolina e próximo a Barreiras, a moto apresentou nenhum problema, inclusive esse último nunca mais apareceu. Sistematicamente a Black Mamba consumiu menos do que a Branca Filé de Tio Saulo. Depois dessa saga, a Black Manba vai passar por uma revisão completa quando instalarei as molas Hyperpro e o novo par de pneus Mitas E07. De longe, a melhor moto que tive em minha vida e nem tão cedo pretendo trocá-la, simplesmente porque não há no mercado moto mais adequada ao tipo de uso que faço (uso urbano e off-road nos fins de semana). O conforto poderia ser melhorado com uma bolha mais alta … com prejuízo para o uso off-road. Levou 5 tombos durante essa viagem, todos sem maior gravidade além de arranhar o protetor de carenagem.

Branca Filé

Branca filéA F800GS Branca, modelo 2014 de Tio Saulo. A mais bela e que chavama atenção por onde passava. Moto de coxinha. Bem cuidada, recém revitalizada. Equipada com Karoo 3 novinhos, banco confort (emprestado de Alan), protetor de carenagem modificado pelo próprio Saulo. Com 3 baús Givi monokey E360 tem mais capacidade de bagagem do que um carro popular 1.0. Para navegar, dois GPS, um Zumi e um Etrex. Levou apenas 3 tombos durante a viagem, sendo que um deles quebrou o engate do baú direito e no outro empenou a ferragem para a esquerda. Nenhum vestígio sequer de defeito ou problema. Uma das carenagens foi arranhada pelo parafuso da joelheira direita de Tio Saulo, problema prontamente resolvido com um adesivo protetor. O paralama havia sido partido por uma pancada do protetor de carenagem mal projetado. Tio Saulo modificou o protetor  e resolveu o desenho mal feito. O paralama foi recondicionado mas durante a viagem a vibração provocou uma rachadura que resolvemos com silver tape. Certamente será substituido em breve pois moto de coxinha não pode ter remendo de silver tape. Consumiu mais que a Black Mamba provavelmente devido ao “estilo” do piloto.

Equipamentos

Bokomoko – Levei apenas uma jaqueta Exustar verão, calça off-road ASW, joelheiras, uma capa de chuva impermeável, botas Forma Terra Adventure, capacete Mormai com pala (que removi), luvas Exustar de nylon e Alpine Star de couro. As Exustar são inadequadas para longas viagens e me causaram muitos calos. A Alpine star estava com um rasguinho que aumentou e inviabilizou seu uso. Pilotei sempre com camisas dryfit de manga longa, sendo que duas delas do MTA muito confortáveis. Levei também um par de sandálias havaianas apenas. Uma câmera Nikon D3200, uma objetiva de 200mm além da de 50mm, um roteador wifi 3g portátil com chip da Claro (que não consegui usar), um notebook, uma câmera Gopro 3 White montada ao lado direito do meu capacete. Vou mudá-la para o lado esquerdo para facilitar o liga/desliga. Uma câmera de ação xing ling que nunca usamos. Um par de walkie talkies baratinhos e seu carregador de baterias. Um tablet de 7 polegadas que serviu de GPS na medida em cima da bolsinha de tanque da Givi. Uma bateria externa para celular/tablet/câmera. Meu celular Samsung S4 também serviu de câmera fotográfica. Dois chips de 32gb que nunca encheram pois os limpava todo dia no notebook. Vários carregadores de celular, um adaptador de tomada universal (que pensei ter perdido e comprei outro, ficando com 2). Deveria ter levado um tênis ou bota de aventura. Tentei comprar um em São Raimundo Nonato mas não deu certo. Acabei comprando uma mochila para levar água nas caminhadas e que me serviu para trazer mais bagagem (presentes e a roupa suja).

Tio Saulo – Levou duas calças off-road, duas jaquetas sendo uma delas Bogotá multiwheather, dois pares de botas, um par de tênis. Um GPS Zumi e outro E-trex, ambos da Garmim. Levou também uma câmera Canon compacta mas muito boa e responsável por várias das melhores fotos de toda a jornada. Um fantástico compressor Michelin com motor 12v que nos salvou em várias ocasiões. Isso tudo coube e sobrou espaço nos imensos baús Givi. O celular Iphone com chip da Vivo foi o que funcionou melhor em termos de cobertura.

Ferramentas

Levei o meu kit tradicional de ferramentas que levo sempre em trilhas. Jogo de ferramentas Torx da Gedore de primeira, um kit de torx xingling com cabos mais longos e de plástico. Um jogo de torx fêmeas soquete porém o adaptador da catraca não veio. Compramos duas espátulas para montar desmontar pneus e descobrimos depois que são mágicas e protegem os pneus contra furos num raio de 200 metros. Seguiram no baú imenso de Tio Saulo. Levamos um par de câmaras de ar michelin sendo que a dianteira foi montada depois do primeiro furo e logo em seguida também furou. Compramos mais duas câmaras de reserva em São Raimundo Nonato da Pirelli mesmo. Tyre Repair da Motul que não usamos de bobeira (ainda bem). Minhas câmeras de ar estavam com vacina de pneu. A câmara que furou na estrada de Remanso/São Lourenço do Piauí tinha 4 furos, 3 deles tapados pela vacina. Foi remendada e acho que ainda funciona numa emergência. O pneu traseiro foi e voltou sem baixar uma vez e está com vacina.

Acesso a internet

Durante toda a viagem o acesso a internet foi precário. No momentos menos ruins, o 3g/4g da Tim e da Vivo funcionavam melhor do que as internet de hotéis e bares/restaurantes. O problema é que em vários locais nada funcionava. A melhor cobertura era Vivo, mesmo lá no sertão. Quando comprei um chip pré pago da Vivo para usar no roteador wifi o sinal da Vivo sumiu. Dei azar. O celular de Saulo era Vivo e funcionou a maior parte do tempo, com 3g/4g inclusive. Por causa do acesso precário a internet, os primeiros relatos não saíram com muitas fotos na primeira edição. Pretendo corrigir depois.

O roteiro

O roteiro preliminar era para irmos para a Chapada Diamantina. Por causa dos avisos de incêndio, mudamos para o Jalapão. Um erro induzido por mim. Tio Saulo sempre achou que devíamos ir para a Chapada. Mesmo assim valeu a pena pois a aventura ficou bem apimentada. O erro de roteirização no acesso ao Jalapão é muito comum. A dica que fica é que é preciso obter relatos de primeira mão e com confiabilidade. Não adianta desconfiar de um caminho e ficar na dúvida no meio de canto nenhum pois não há a quem perguntar e que dê informação confiável. Lá é deserto mesmo.

Como bônus passamos pela aventura de cruzar a Serra das Confusões. Ainda assim, pegamos um caminho errado e um pouco mais longo. Dá para explorar mais e usar um caminho alternativo, talvez mais radical, mais curto. Não pode ir sozinho para a Serra das Confusões. A minha queda quase parado demonstra isso.

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Já na Chapada, é tranquilo. Muito perto da civilização, região densamente povoada com acessos via asfalto. É coxinha, mas tá valendo

Sobre os pilotos

Bokomoko – 50 anos, num corpinho de 49. Nada mais a dizer a respeito de mim mesmo.

Tio Saulo – 36 anos de praia, surfe, off-road 4×4, piloto de CRF 230 e agora de bigtrail. Cara agradável de lidar, sempre divertido e com opinião sobre tudo. Chamei-o de Tio pois ele tinha orientação para tudo que fazíamos. Até a posição/orientação da moto no estacionamento. Liderou o passeio em 90% do tempo, definiu o roteiro de visitações, escolheu a comida, ligou/desligou a chuva. Alternou entre momentos em que era uma seda e um papel para embrulhar prego. Foi companheiro quando eu precisei no surto do Jalapão e me deu a chance de ajudá-lo quando ele ficou esgotado psicologicamente. Com Saulo e a experiência que ele tem eu vou até para a guerra.

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Sobre o Sertão

Como cheguei a mencionar, estive em Sobradinho há 36 anos. De lá para cá o desenvolvimento do sertão avançou bastante mas ainda há muito o que ser feito. Comparando a Arcoverde que visitei em novembro de 2005 com a mesma cidade de dezembro de 2015, dá para ver que as políticas de distribuição de renda deram certo e promoveram muito desenvolvimento econômico da região.

A vocação para o turismo é enorme e em alguns casos o potencial ainda não foi explorado sequer 1%. É o caso do Parque da Serra da Capivara que recebe apenas 20 mil turistas por ano. Parques semelhantes porém muito menores e com menos atrações na França recebem mais de 2 milhões de visitantes por ano. Comparando os números assim cruamente fica dificil de entender. No entanto, ao irmos para lá dá para ver o porque dessa discrepância enorme. A infraestrutura.

Se durante algum tempo a falta de acesso a água foi o motivo do atraso do sertão brasileiro em geral e do nordestino em específico, hoje já se sabe que não basta ter água (que por sinal existe em abundância, acreditem). O que falta é infraestrutura: estradas, aeroportos, telecomunicações, rede hoteleira, rede de serviços em geral.

Para um turista ir a Serra da Capivara no Piauí ele tem que estar disposto a muita aventura. O turista médio não quer isso. Ele quer relax, quer moleza. Encarar horas de estrada esburacada, num calor enorme e ter que se hospedar numa pousada que não tem acesso decente a internet para ele postar as fotos magníficas que fez no Facebook … nada feito. Esse turista ainda vai preferir ir para Porto de Galinhas ou coisa parecida.

Uma pena pois a beleza rústica do sertão, mesmo na seca, é encantadora. O sertão ainda tem coisas a serem descobertas e as que já foram descobertas precisam ser exploradas com consciência de preservação. O ambiente apesar de rústico é frágil. A fauna é surpreendentemente rica, considerando a escassez. Um dia ainda teremos resorts bacanas no meio do deserto como vemos em outros países.

 

Tatus na Chapada – Dia 10

Do que o amor pode tornar as pessoas capazes? O amor por uma estrada é capaz de uma pessoa cometer loucuras. Tio Saulo é apaixonado pela BR-101 e por causa da oportunidade de conjunção carnal que se aproxima ele tapa os ouvidos a razão. Gente apaixonada é assim. Ahhh… o amor ….

Hoje é o dia 9 de dezembro de 2015 e será um dia de deslocamento de Lençóis na Bahia para Manguetown (também conhecida como Recife) em Pernambuco. Não vai ter aventura, não vai ter trilha. Tudo 100% asfalto que nem o dia de deslocamento de Barreiras para Lençóis.

Na noite anterior demos uma pré-arrumada na bagagem, empacotamos o máximo de coisas possível e eu dei uma revisada na minha moto. Os parafusos que comprei para usar na bolsinha de tanque ficaram melhores que os originais. Reacomodei a bagagem, agora acrescida dos presentes e lembrancinhas para parentes e amigos. Não é fácil acomodar tudo na minha moto mas depois de muita engenharia a base de tentativa e erro, coube tudo.

Tio Saulo e sua capacidade de carga maior do que de um Jac J2 estava tranquilo. Os baús e360 givi são realmente uma beleza. Além de espaçosos, são resistentes, fáceis de montar/desmontar na moto e servem como malas. Na hora de montar, eu perco uma das pecinhas de acabamento que haviam caído do baú de Tio Saulo na travessia da Serra das Confusões. Ele fica furioso e com razão. Ainda procuro no canteiro do jardim mal cuidado mas não acho. A prioridade é arrumar as coisas e depois eu vejo isso.

Nosso plano é chegar o mais perto possível de Recife hoje, quarta feira. Pernoitaremos em algum lugar de Alagoas, provavelmente e na manhã da quinta partimos cedinho com a meta de chegar a Recife antes das 10 da manhã. Totalmente factível e com uma boa margem de segurança caso algum problema com as motos ou com a estrada apareça.

Durante o café da manhã na Pousada Raio de Sol conhecemos uma equipe do IBAMA que está lá incógnita para investigar e coibir os incêndios muito suspeitos que assolaram a Chapada nas últimas semanas. Um deles nos dá uma dica de desviarmos da BR-242 na altura de Itaberaba e seguir nordeste em direção a Ipirá pela BA-223 e depois pegar a BA-052 em direção a Feira de Santana, onde pegaríamos a famigerada BR-101. Fazendo assim, evitaríamos o trecho mais movimentado de caminhões da BR-242 que inclusive está com mais defeitos na pista a medida que nos aproximamos do litoral.

Dou uma última passadinha no posto para checar se a bandeira azul apareceu  … nada feito. Bom, paciência. Vamos seguir viagem. Acabamos saindo mesmo as 8hs da manhã.

O tráfego na BR-242 é intenso sem prejudicar muito o ritmo. Em Itaberaba, o portal da Chapada para quem vem do leste, desviamos para Ipirá e a estrada perfeita, reta e sem buracos está completamente vazia. Aceleramos e mantemos médias altas, o consumo vai lá para cima e fazemos a primeira parada para abastecer em Ipirá. Maravilha. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

Cruzamos a cidade pequena e pegamos a BA-052 em direção a Feira de Santana e a estrada fica uma porcaria. Um movimento enorme de carros de passeio e caminhões e o asfalto cheio de ondulações, buracos, imprudência e barbeiragem. Veículos lentos, poucas chances de ultrapassagem e veículos em velocidade acima do limite de segurança. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Chegamos em Feira de Santana e o TomTom me faz pegar o anel viário em direção ao leste. Num entroncamento fico na dúvida, Saulo afirma que entrei no caminho errado pois uma placa para Fortaleza mandava fazer a curva a esquerda e o Tomtom a direita.

Depois de seguir para Fortaleza percebo que estamos no caminho errado. Tio Saulo se esqueceu que a BR-101 não segue para Fortaleza. A placa estava indicando o caminho pela BR-116 que passa por Cabrobó, muito a oeste e fora de nossa rota.

Para complicar as coisas, o anel viário que já não é bem sinalizado está em obras. O trânsito intenso do final de uma manhã de quarta feira numa das cidades mais importantes da logística terrestre de todo o Nordeste tornam tudo devagar e complicado. Perdemos uns 30 minutos até acharmos o caminho da BR-101 que passa a sudeste de Feira de Santana.

Quando entramos na BR-101 recebemos uma amostra leve do que vai ser o sufoco de trafegar numa das piores estradas do Brasil. Trânsito intenso, asfalto irregular, muitas cidades com lombadas e redutores de velocidade.

Paramos para abastecer pela segunda vez em Alagoinhas e eu proponho a Tio Saulo que peguemos a BR-110 em direção a Paulo Afonso, sigamos de lá para Garanhuns e pegamos a nossa boa, superfaturada e velha BR-232 que tanto conhecemos. O caminho adicionaria apenas 60 km num trajeto de mais de 1000km, ou seja 6% sendo que esses 60km equivalem ao deslocamento de Gravatá para Recife. Evitaríamos a BR-101 no seu pior trecho e teríamos várias alternativas de pernoite em cidades agradáveis do nosso Pernambuco. Não teve jeito. Tio Saulo prefere a BR-101 e é por ela que vamos. Não estava tão ruim assim … talvez dê para chegar em Recife hoje.

Maldita BR-101! Que estrada ruim da gota serena. Vestígios de duplicação só em Sergipe. O governo Federal fez nada de duplicação nessa estrada na Bahia apesar de 3 governos estaduais sucessivos do PT. Vá entender. Ondulações no asfalto, cavas de peso excessivo de caminhões, lombadas e lombadas e lombadas, pista simples um tráfego tão intenso de caminhões que faria duvidar que estamos numa economia em recessão.

A média cai bastante e de vez em quando pegamos um engarrafamento. Sim, engarrafamento desses que se vê em trânsito urbano. Eu vou logo perdendo a paciência e pergunto a Tio Saulo se ele está “gostando” dessa “estrada maravilhosa”. Ele jamais vai admitir que fizemos besteira e diz que está curtindo muito, que até prefere a estrada travada pois não dá sono. Como se não bastasse, nas curvas Tio Saulo tira a mão e faz as curvas as vezes a 60km/h. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Tio Saulo me consola e afirma que dentro de mais 30km, quando entrarmos em Sergipe, já vai ter duplicação. Os 30km viram 90km e nada de duplicação da rodovia. Quando ela chega é uma desgraça. A pista da direita está tão gasta que acaba tendo uma pista só. De qualquer forma o ritmo melhora bastante. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

A alegria dura pouco. A duplicação termina subitamente em meio a obras tocadas pelo Exército. Caramba! Ainda não terminaram? Lembro que em Pernambuco a duplicação do trecho norte da BR-101 que liga Recife a João Pessoa teve a licitação cancelada. O Presidente Lula arretou-se e mandou o Exército construir o trecho. A obra começou e estava andando. Demorou tanto que o trecho sul foi licitado depois, iniciou a obra depois e terminou tudo antes. E ainda era mais longo! Aqui em Sergipe, se depender do Exército essa BR-101 só estará duplicada em 2020 e olhe lá. E eu irritado com tudo por causa disso.

Decido acompanhar Tio Saulo como fizemos em 90% da jornada até agora. Só que o ritmo é lento e eu furioso decido ir na frente para estimular Tio Saulo a tocar mais rápido. Só que tem um detalhe. Os baús laterais da moto de Tio Saulo o impedem de manobrar entre os carros com a mesma agilidade que a Esguia e Mítica Black Mamba é capaz. Sem perceber abri uma vantagem enorme e quando me aproximei do cruzamento do Rio São Francisco (pela terceira vez nessa nossa jornada) estou tão a frente que dá tempo de eu parar no posto Ipiranga e perguntar pelo limpa viseira, dar uma mijadinha e apreciar a paisagem antes que Tio Saulo me alcance. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Mais trechos duplicados e novamente o ritmo sobe. Tio Saulo finalmente reage ao estímulo e a estrada alterna trechos perfeitos com trechos pré-históricos. Pista simples, pista duplicada e felizmente nenhum pare/siga. Ainda bem. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

Paramos em São Miguel dos Campos para fazer um lanche e reabastecer. Faltam apenas 287km pela BR-101 até Recife. O pior trecho da BR-101 nos aguarda entre Messias e Palmares. A duplicação não está pronta e vamos pegar tudo isso a noite. Chegou a hora de decidir. São 17:30hs. Tocamos para Recife ou pernoitamos em Maceió? Eu voto por encararmos direto e Tio Saulo concorda. Caprichamos na lavagem das viseiras. Viseira suja com luz alta de carro em sentido contrário é ofuscante. Você pilota pelo olfato.

Agora não tem mais “será que dá?”. Vai ter que dar. Ligo para a minha Amada Lara e aviso que essa noite dormirei em casa. Ela fica super feliz e se prepara para me receber. Mais um estímulo para eu encarar o suplício da BR-101 … a noite … depois de 800km e 10 horas em cima de uma moto.

Pegamos a estrada determinados a abastecer em Palmares, o início do trecho realmente duplicado da BR-101 em Pernambuco, um trecho conhecido por nós, seguro, sinalizado e com tráfego ameno. Se chegarmos a Palmares  … chegamos em Recife hoje. Palmares or bust!

Não foi fácil. Muito caminhão na pista. Além dos caminhões normais, lembro que é época de safra nas usinas de cana de açucar da região. Isso baixa muito o nível médio de habilidade dos motoristas. O campônes que colhe cana na ponta de um facão sonha um dia ser motorista de caminhão que coleta a cana colhida. Instrução mínima e o cara vira motorista de caminhão. Acredito até que muitos dos que cruzamos nas estradas da região canavieira do nordeste sequer tem habilitação.

Treminhões carregados, tratores, motoniveladoras, shineray XYQ50, D20 modelo 1991, Infinity FX35. A fauna rodoviária é exuberante. Só não vi moto grande, de estilo algum. Agora caiu a ficha. Exceto pela F800gs coxinha lá em Igatu, nenhuma bigtrail em todo o percurso. Será que foram todas para o Atacama? Bom, isso é irrelevante agora. O ritmo baixou, o farol na cara virou constante, as curvas são feitas bem devagar pois a sinalização da BR-101 em Alagoas é nula.

Tio Saulo é uma constante no meu retrovisor. Só vejo o farol vesgo da moto dele de vez em quando para não me ofuscar. Começa o pior trecho entre Novo Lino, Alagoas e Xexéu, Pernambuco. Posto fiscal em ambos lados da fronteira estadual. Tio Saulo fica para traz  por causa dos baús. Eu esqueci novamente.

De repente, no meio da escuridão, reconheço a curva que desce para Palmares. A duplicaçao está logo ali. Como combinei com o Tio Saulo, parei no primeiro posto para reabastecer, dar uma relaxada, tomar uma água, limpar as viseiras novamente. Faço isso tudo e só então Tio Saulo chega ao posto. Ligo para minha Amada Lara e aviso que estou em Palmares. Mais uma hora e estarei em casa. Agora não tem o que dar errado.

A BR-101 se transforma num tapete e o ritmo sobe, mesmo no escuro. Olho para o retrovisor e para meu deleite Tio Saulo está me acompanhando. Aperto o ritmo e Tio Saulo lá … Acelero mais e Tio .. epa .. peraí … não pode! Nesse ritmo fazendo curvas no escuro a 140km/h? Nem nos delírios mais megalomaníacos Tio Saulo conseguiria. É outra moto! Mas quem é esse cara? E qual é a intençao dele? Bate a neura. Pode ser um assalto. Mantenho o ritmo acelerado e o cara aproxima nas retas e afasta-se nas curvas. Certamente não é uma moto pequena. Tento observar melhor e parece ser um Hornet nova, com o farol em forma de escudo. Já estou em Escada quando chego a essa conclusão. Melhor manter assim e chegar a Recife. Antes de chegar em Charneca a moto misteriosa sumiu. E nem sinal de Tio Saulo.

Havíamos nos despedido no posto de Palmares e com essa tocada acabamos nos separando. Segui direto para casa e fui muito bem recebido pela minha Amada Lara, por Tais e alguns minutos depois por Rayssa e Nani. Estava super feliz. Havia antecipado em um dia a chegada e iria dormir na minha cama depois de 9 noites.

Fiquei animado com a chegada e nem me submeti ao cansaço. Abracei a minha mulher e a cobri de beijos, tomei um banho refrescante e parti para a distribuição de lembrancinhas entre as 4 mulheres da minha vida. Contei histórias, fiz um lanchinho, demos risadas e eu fui dormir. Minutos depois, Tio Saulo manda uma mensagem para o whatsapp do grupo avisando que estava são e salvo em casa. A viagem real acabou. Começa agora a viagem na memória para registrar e contar para os amigos e parentes.

 

Tatus na Chapada – Dia 9

Este seria o segundo e último dia de turismo na Chapada Diamantina. Uma pena porque passamos pouco tempo e vimos apenas uma fração do que poderia ser visto. A Chapada pede mais do turista. Pede mais tempo. Pede mais voltas. Eu voltarei.

Hoje a ideia de Tio Saulo é fazer nada radical, coisa light, para que acumulemos forças para encarar a volta de mais de 1000km amanhã. Portanto, o planejamento caprichado de Tio Saulo propõe uma visita a Lapa Doce (caverna), a Pratinha (rio com flutuação e relax na água) e a Subida do Pai Inácio (visão panorâmica e belas fotos).

Antes de pegarmos a estrada eu faço um tour novamente pelos locais onde perdi a Bandeira Azul. Tudo em vão. Nada da Bandeira. Espalho a notícia de que há uma recompensa para quem deixar a bandeira no posto de gasolina.

Pegamos a estrada em direção a Lapa Doce, seguindo oeste pela BR-242 e depois ao norte pela BA-122. Tio Saulo como sempre vai guiando. Dia de sol, poucas nuvens, ritmo rápido.

Na beira da estrada a esquerda um painel informa sobre as cavernas de Torrinha e Tio Saulo pergunta se num vale darmos uma olhada, afinal, estamos por aqui e nossos outros destinos (Lapa Doce, Pratinha e Pai Inácio) são próximos. Para mim é jogo e fazemos o desvio que iria mudar completamente os planos.

Chegamos a entrada da atração que se trata de nada mais nada menos que uma das maiores cavernas visitáveis do Brasil e da américa latina. O Eduardo, administrador do lugar, nos oferece um tour especial só para nós dois que incluiria um trecho da caverna que não é visitado normalmente. Ainda dá um desconto no ingresso e nós topamos. Vai começar uma das maiores aventuras da viagem. Tatus espeleólogos em ação. Tio Saulo tira a fantasia de motociclista, veste uma camiseta, bermuda e calça tênis. Como eu não trouxe tênis decido encarar a trilha com a bota Forma Terra Adventure. Ficaria ridículo eu de botas e sunga com dryfit, portanto vou com a calça de off-road mesmo. Decisão acertadíssima. A bota FTA é excelente como bota de aventura, confortável e resistente oferece a segurança e o grip de uma bota de cano baixo dessas de hikers. Com a vantagem de proteger bem a canela, coisa que seria muito útil lá dentro da caverna.

A caverna tem um clima surpreendentemente ameno, com temperatura de 24 graus constantes enquanto lá fora o calor já aparece e ultrapassa os 33 graus. Faríamos uma caminhada de cerca de 10km (contando ida e volta) em cerca de 2 horas. Mesmo com o ar condicionado, o exercício me faria suar bastante. Levamos meio litro de água cada um. Levar mais seria bom mas tem o risco de dar vontade de fazer xixi e lá dentro não pode de jeito nenhum.

Entramos por um salão enorme que já impressionava os pesquisadores até que em 1992 uma espeleóloga francesa achou uma passagem para outra parte da caverna que se descobriu então ser muito maior. Essa passagem original seria utilizada por nós na saída. Entramos por outra passagem artificial escavada para facilitar o acesso. Quer dizer, em termos.

O guia experiente, Toninho, nos explicava os vários espeleotemas. Essa caverna é considerada uma das mais interessantes não pelo tamanho em si mas sim pela variedade e quantidade de espeleotemas. As rosas de Aragonita são muito frequentes e algumas das maiores estão aqui. Formações como estalactites, estalagmites, vulcões de pedra, painéis nos tetos, cristais de gipsita, em tudo quanto é cor, tamanho e sabor.

A caminhada não é fácil. Entre tetos baixos que nos forçam a andar agachados até escaladas de pedras dentro dos salões, descidas e subidas íngremes. As lanternas fornecidas para nós são pequenas e fracas. Senti falta de um farolzão para iluminar tudo e ter uma visão mais panorâmica. As imagens com flash revelam mais coisas do que pudemos ver com as lanterninhas, que de tão fraquinhas coitadinhas, a gente tem que ligar outra lanterna ao lado para ver se estão acesas.

Algumas formações são muito interessantes e são translúcidas.

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Uma delas parece o castelo de Minas Tirth, da saga do Senhor dos Anéis.

Um trecho da exploração é particularmente difícil pois temos que nos arrastar sob um teto muito baixo, de uns 70cm de altura por uns 10 metros. Isso me deixa exausto.

Alcançamos os dois salões principais e o extra e tiramos dezenas de fotos impressionantes. No ponto mais remoto, o guia propõe que desliguemos as lanternas e façamos silêncio para ter uma experiência de privação sensorial. Sempre quis fazer uma dessas e foi legal. Mas a privação não era total. Ainda estava sentindo o peso do corpo sentado no chão. Mais tarde faria uma privação sensorial mais completa.

Hora de voltar, agora a caminhada volta pelo mesmo caminho que viemos, sem pausas para fotografia e com passo acelerado. Toninho e Tio Saulo vão abrindo vantagem e eu estou genuinamente cansado. Ainda tenho que encarar a passagem baixa lá na frente. Fico calado e falo nada durante o percurso. Próximo a saída decidimos usar a passagem que a pesquisadora francesa descobriu e a escalada para fora da caverna fica deveras interessante.

Ao sair da caverna o choque térmico é enorme. Dos amenos 24 graus partimos para 34 graus numa lufada de vento só. Tomamos água, usamos o banheiro. Tio Saulo quer ir para a Lapa Doce e eu veto. Pode ir. Eu não vou. Mais do mesmo não é uma boa ideia. Melhor fazermos algo diferente como a Pratinha e até mesmo o Pai Inácio e se sobrar tempo vamos a Lapa Doce. Tio Saulo então decide ir para a Pratinha e lá vamos nós.

Chegamos a Pratinha para visitar o rio, fazer a flutuação dentro da caverna e conhecer a Gruta Azul. Nesta última não poderemos mergulhar, só observar. A Gruta Azul se conecta ao Rio Pratinha através de uma caverna subterrânea com cerca de 80 metros de comprimento a 13 metros de profundidade. Essa caverna alagada não pode ser mergulhada por visitantes, apenas exploradores experientes.

A má notícia é que a entrada para a Gruta Azul fica a 200 metros da recepção e tem que subir e descer um morro bem íngreme. A foto dá uma noção do esforço. Eu estava esgotado e vou bem devagar. A gruta é interessante e tem que ser visitada logo pois daqui a pouco o sol estará tão baixo que os raios de sol não incidirão sobre a água da gruta causando o efeito “azul” que dá nome a atração. Tudo é muito bonito mas um tanto boring. Volto para a Pratinha. O que eu quero é a flutuação.

Descemos para a beira do rio e entrada da caverna, tiro a fantasia de motociclista e visto o equipamento de mergulho em apneia. Um guia nos leva para dentro da caverna e é como se tivéssemos voltado a um dos salões da Gruta da Torrinha, só que agora flutuando sobre o piso da caverna. Experiência muito legal.

Na parte iluminada da caverna a fauna e a flora é bem exuberante. Plantas aquáticas, algas, peixes de vários formatos e tamanhos. Até uma pequena tartaruga. A água é límpida e cristalina como nas piscinas naturais mais claras do litoral de Pernambuco, onde mergulhei milhares de vezes. A medida que nos afastamos da entrada da caverna a paisagem fica árida e estéril e só o chão e formações geológicas grandes. Nada de estalactite ou estalagmite ou coisa parecida. A água não permite tais formações.

A temperatura fria da água e o movimento lento são muito relaxantes e eu vou-me recuperando rapidamente. Quando chegamos a parte mais funda da caverna a água chega a 13 metros de profundidade, segundo o guia. Pergunto se posso dar uma mergulhadinha sem o colete e ele diz que não é permitido. Em compensação ele diz que dá para fazer a experiência de privação sensorial, pede para nós 3 apagarmos as luzes das lanternas e passarmos um tempo imóveis na piscina dentro da caverna. Escuridão total, silêncio total, ausência de peso. Agora sim. A sensação é muuuito legal. Pena que nós éramos o último grupo e o guia estava com pressa para ir embora. Ficamos pouco tempo e não deu para ter os efeitos alucinógenos que a privação sensorial completa proporciona. Mas a ideia é boa e vou tentar em algum outro lugar depois.

Voltamos para saída da caverna, damos mais uma relaxadinha e tiramos umas fotos.

Já é quase 17hs e o próximo programa é tomar banho na prainha do Rio Pratinha. Basta escalar o morro até a recepção, contornar o restaurante (que já estava fechado) e descer o morro pelo outro lado da caverna. Tudo isso levando na mão as botas, a câmera fotográfica, a calça off-road. Felizmente deixei o casaco e o capacete na moto. Uma mocinha no quiosque que vende os ingressos para a flutuação ofece-se para guardar a tralha e eu aceito.

Na prainha, pedimos o nosso “almoço” e Tio Saulo toma umas duas cervejas enquanto eu encaro um delicioso suco de mangaba. O por do sol se anuncia e a paisagem fica ainda mais bonita. A água claríssima é uma beleza.

Voltamos para Lençóis sem incidentes e o turismo acabou. Não tem mais passeio, não tem mais aventura, não tem mais nada. Agora é voltar para Recife pois Saulo tem um compromisso na quinta-feira. Depois do “dia relaxante” de hoje, amanhã vai ser só deslocamento por estrada de asfalto, sem brincadeira.

Só falta definirmos o roteiro.