Porque fazemos as coisas que fazemos ?

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O que nos leva a fazer coisas ? O que nos impele a sair da inação para a ação ?

Parece bastante óbvio que o maior motivador, impulsionador da ação humana é a sobrevivência. Muita coisa foi e é feita sob essa justificativa. Fazemos coisas, realizamos atos para sobreviver, para nos mantermos vivos. Mas a medida que a sociedade humanda evolui, o esforço para sobrevivência fica menor. Nossos ancestrais pré-históricos tinham que dedicar uma boa parte do tempo de sua vida a procura de alimento e a luta contra outros predadores. Hoje em dia a vida está mais fácil, do ponto de vista de sobrevivência, apesar de toda a impressão que se tem que está cada vez mais difícil.

Os fatos contrariam a percepção generalizada. Da longevidade da população, índice de mortalidade infantil, altura média da população, índice de bem estar médio, diminuição do número de mortes violentas, todos os indicadores apontam para uma vida mais fácil.

Isso acaba proporcionando as pessoas mais tempo para elas fazerem o que querem, não só o que precisam fazer. E aí que começam a aparecer as coisas mais bizarras que a humanidade é capaz de fazer.

Quando alguém faz alguma coisa por sobrevivência, fica fácil de entender o que a levou a fazer isso. Mas e quando a sobrevivência não é a justificativa ? Deixando de lado os atos medonhos e moral/eticamente reprováveis, resta muita coisa que as pessoas fazem e que não encontra explicação tão facilmente.

Essa tirinha do Calvin & Hobbes me despertou esse questionamento. As tirinhas de C&H frequentemente tem esse efeito em mim. Além de serem superdivertidas, elas tem um quê de poético ao provocarem sensações que ultrapassam o que está desenhado, assim como a poesia é mais que métrica e rima. Outra coisa curiosa sobre as tirinhas é que não há garantia de que vá provocar em uma certa pessoa algo sequer parecido do que provocou em outra. Frequentemente mando essas tirinhas para parentes e amigos e na maioria das vezes recebo como resposta algo que é melhor traduzido num “E daí ?”.

No caso dessa tirinha em particular, vejo a questão do sentido da vida. Parece uma viagem e tanto para um assunto supostamente tão importante como o “Sentido da Vida” (filmes inteiros foram feitos sobre esse assunto) partir de uma simplória tirinha de história em quadrinhos. Mas será ? Será que algo tão supostamente importante como o sentido da vida pode prescindir de uma simples piadinha ? Será que é menos importante o que o autor da tirinha, talvez até não propositalmente, traz a tona quando diz “Because it’s there !” (porque está lá) como justificativa para um ato supostamente sem importância como descer um morro de neve num trenó ? Quem é que classifica isso como relevante/não relevante, importante/não importante ? Assim como a tirinha pode tocar ou não tocar alguém, assim como o efeito de diversão pode ser sentido ou não, essa variação de relevância nos motivadores da ação pode variar muito de uma pessoa para outra. E assim, o simples fato de simplesmente estar lá é mais do que suficiente para uns e um motivo absurdamente banal para outros.

A linha que separa a ação da inação varia muito de uma pessoa para outra, parece claro. Mas existe algo ainda mais interessante. Ela varia para cada indivíduo ao longo do tempo de das circunstâncias. Algo que seria suficiente motivador em um determinado momento, pode não ser em outros. Essa medida de disposição para ação não é precisa, é inconstante, flutua com o tempo, varia de indivíduo para indivíduo e não existe um aparelho ou método para medí-la. Pode ser considerada a coisa mais etérea e volúvel da civílização humana. A manifestação do fenômeno da ação causa assombro e é explorado pela mídia. O que levou essa pessoa a fazer tal coisa ? Todos os dias vemos relatos de pessoas que fizeram coisas impressionantes com motivações as mais diversas possíveis e tentamos nos colocar no lugar delas: Será que eu teria feito a mesma coisa ? Será que eu teria feito nessa intensidade ? Ou, esse cara é maluco de ter feito isso só por causa daquilo.

Esse assombramento só tende a aumentar. A medida que a tecnologia proporciona mais tempo para lazer, as pessoas serão impelidas a fazer mais coisas diferentes, nunca tentadas e ainda por cima “só porque está lá”. A medida que essa frequência aumenta, a probabilidade de que abusos sejam cometidos também aumenta. A linha da motivação cruza a linha do respeito pelo direito dos outros. Fazer o que quiser, o que lhe der na veneta, é totalmente permitido desde que não fira qualquer outro direito de qualquer outra pessoa. A liberdade existe mas ela não pode ser confundida com permissividade. Mas isso é outra história.

Enquanto isso, segue a busca pelas motivações. Uma delas é a busca pela felicidade.

Fazer coisas no intuito de alcançar a felicidade, de chegar ao nirvana, de merecer o paraíso. Esse parece ser o motivador mais eficaz e mais universal. Todo mundo quer ser feliz, até mesmo as pessoas em profunda depressão. A diferença desses últimos é que acreditam mesmo que não são capazes de coisa alguma para serem felizes, ou que nada adianta ser feito. Mas querer, eles querem, portanto, todo mundo quer ser feliz.

Mas será que a felicidade é algo alcancável a partir de nossos atos ?

Eu acho que não.

Mas ainda assim, paradoxalmente, acho que qualquer um pode ser feliz.

Basta fazer coisas ! Basta buscar a felicidade. A felicidade está na busca, no processo. É algo dinãmico e permanente, móvel, agitado, inconstante, não mensurável, volúvel, frágil, efêmero e que precisa ser renovado a cada novo instante, assim como um movimento browniano. Pensando assim, teorizo se a linha de motivação mais baixa está ligada a capacidade de alguém de ser feliz. Suponhamos que fosse possível medir a linha de motivação, ou seja, o ponto a partir do qual um indivíduo se sente suficientemente motivado para fazer coisas, qualquer coisa, da mais simples e banal até a mais complexa ou estapafúrdia. O limiar para disparar a ação, se fosse possível medí-lo, seria então inversamente proporcional a capacidade de ser feliz daquele indivíduo. Quanto mais facilmente ele faz coisas, mais feliz será. Nessa hora, muita gente irá perguntar : Mas por qual motivo ? Mas com que finalidade ? E no exemplo extremo para fins de ilustração, eu responderia : por motivo nenhum … apenas porque está lá.

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O piloto, o painel de instrumentos e o padre

Semana passada a minha enteada concluiu o segundo grau e me convidou para o culto ecumênico (supostamente ecumênico) da Igreja Anglicana estreitamente ligada ao colégio onde ela estudou o 2º e o 3º ano.

Eu gosto muito dessa minha enteada e por causa desse amor decidi fazer o social, ou seja, ir ao culto, marcar presença e tolerar as técnicas de doutrinação e lavagem cerebral. Se por um lado eu não alimentava muitas ilusões sobre o que eu iria ouvir, por outro sempre me disseram que a denominação anglicana tem uma postura mais moderna, mais versátil. Vários conhecidos meus, pessoas bastante razoáveis, disseram-me que os sermões dos párocos de tal igreja frequentemente podiam ser aplicados a qualquer pessoa independente de sua religião pois tais sermões tratavam de questões relevantes da vida das pessoas. Decidi dar uma chance ao padre, que ouvira dizer, era gente boa.

Que decepção.

O conjunto de argumentos religiosos estavam todos lá disfarçados numa linguagem mais moderna, devo reconhecer. Os argumentos que de fato faziam algum sentido chegavam a ser triviais e óbvios. O resto dos argumentos não eram argumentos, a rigor. O carisma do pároco era muito bom e ele demonstrava completo domínio da audiência, das ovelhas, digamos assim. Sua substância, no entanto, era fraquinha fraquinha …

O estilo desse pároco apelava mais para as “fábulas atuais”, ou seja, situações contemporâneas que expõem as pessoas a questões difíceis do ponto de vista ético e/ou moral. Pena que a trivialização das questões e o manequeísmo estavam bem presentes. A primariedade das fábulas era tanta que me fez pensar sobre o grau de discernimento da audiência. Será que o pároco foi primário porque a audiência não assimilaria nada mais sofisticado ? Assim como um político que ajusta seu discurso de acordo com o eleitorado abordado em cada comício ? Bom, o nível chegava ao de Teletubies. As fábulas eram daquelas que você já sabia o final … antes mesmo de terminar a segunda frase.

Uma dessas fábulas era aquela típica fábula da ameaça velada, ou … da inveja velada. Pessoas que aparentemente tinham vida boa, de sucesso financeiro ou profissional .. no fundo tinham problemas emocionais seríssimos. Espaço até para um pouco de chauvinismo por parte do padre, do tipo em que menciona a mulher bonita e rica que faz sucesso na sociedade mas que ao se confessar para o pároco revela que é adúltera ! VADE RETRO !!! Rotulada e defenestrada, o pé de pavão da madame é o que é ressaltado na história. Mas e o contexto  ? E o que essa mulher da história passou ? O que ela sentiu ? Não importa, o rótulo está lá. E obviamente, para um problema sério como esse de adultério … a solução é … JESUS ! Não sei exatamente que tipo de recomendação alienante e falso moralista o pároco passou para a pecadora mas a idéia básica é a seguinte, pode fazer o que quiser, minha ovelha, mas ser feliz só se Jesus estiver na sua vida, embora, do ponto de vista prático, tem nada a acrescentar/ajudar. Essa manobra cínica revela como um profissional treinado (o pároco) se aproveita da inveja das pessoas para manipular suas opiniões e sentimentos. A pessoa rica e de sucesso tem o pé de barro. Você pode até sentir inveja mas como consolação saiba que se você tem Jesus, ela não tem !!! Tanto que é adúltera !!?? Entenderam a lógica obtusa ? Ao mesmo tempo em que apela para inveja da maioria da audiência, manipula a culpa da mulher adúltera.

Mas essa ainda não foi a pior da noite.

Em certo momento o pároco mencionou que um dos fiéis era um piloto de aviões e que esse piloto as vezes achava que o avião estava subindo/descendo embora quando checava nos instrumentos percebia que o voo estava normal. O pároco então perguntou “Meu filho, você confia nos seus sentimentos quando está pilotando ou no que o painel de instrumentos lhe diz? “ e o piloto respondeu “Padre, se eu confiasse nos meus sentimentos eu já teria derrubado meu avião várias vezes”. Bom … essa parte do sermão foi a que eu achei a cereja em cima do bolo no que diz respeito a besteira. Ora, se religião é fé e sentimento, essa parábola é um verdadeiro tiro no pé no que diz respeito a estimular a parte sensitiva dos fiéis. Se for para acreditarmos mais no que os painéis de instrumentos da vida proporcionam, a rigor, não precisaríamos de religiões doutrinantes e ilógicas. Quando um padre pede para o fiel usar o painel de instrumentos, ou seja, a observação objetiva dos fenömenos que o cercam, o fiel é induzido a uma reflexão racional, a uma libertação baseada no cognos. Isso é justamente o discruso anti-religioso. Quando o pároco usou o “Tá vendo ?! Você tem que confiar no painel de instrumentos e não se deixar levar por sentimentos”. Oxente ? ! Mas essa n idéia é diametralmente oposta a das crendices em geral e da religião cristã em particular ? Por incrível que pareça, para o pároco, a Bíblia é o “instrumento” que deve guiar a vida das pessoas. Bom, não preciso dizer que depois de um argumento desses minhas expectativas quanto a relevância do sermão do padra ficaram abaixo de zero. Um sofisma desses não se sustenta nem diante do crente mais obstinado. Um livro cheio de preconceito e dizeres absurdos não serve de guia moral ou espiritual para quem quer que seja.

Mas o sermão foi um sucesso. As pessoas saíram da cerimônica verdadeiramente bem. Sentindo-se bem, digo. O que atesta o “poder da palavra”. Lamentavelmente, é uma falácia e no final o que importa é o bem que o sermão proporcionou a essas pessoas.

Será que os fins justificam os meios ? Será que devemos respeitar as religiões pelo fato delas proporcionarem esse conforto espiritual baseado numa mentira ?

Em algum momento a pergunta difícil aparece: você quer ser feliz ou quer ter razão ? Em uma parcela significativa da sociedade a opção pela felicidade prevalecerá, mesmo que seja baseada num sofisma. E com esse fim, o que mais importa ? Desde que se seja feliz, importa o meio que se utilizou para alcançar tal objetivo  ? Talvez seja possível, de fato, ser feliz acreditando numa lenda ao mesmo tempo em que não se faz mal a ninguem. Talvez seja válido para uma ou outra pessoa.

Tomara que não seja válido para todas as pessoas ao mesmo tempo.

Religiosidade e doutrinação

Quando eu tinha 8 anos ingressei em colégio religioso católico. Estudei neles até os 14 anos.Quando eu tinha uns 10 anos decidi ler a bíblia de cabo a rabo (ops). Lembro perfeitamente de ter conseguido e lembro perfeitamente que não entendi nem 10 por cento do que lia. As histórias eram confusas, cheias de contradições, algumas sem pé nem cabeça isso sem falar na linguagem rebuscada e arcaica. O que me marcou era como as histórias eram fantásticas. Homens que viviam 900 anos, tinham 300 filhos. Deus vingativo e mudava de opinião o tempo todo. Deus submetendo as pessoas a matarem os próprios filhos. A passagem de Abraão foi a que me marcou mais.Nunca me identifiquei com a religiosidade da escola que frequentava. Me sentia um outsider, um ET. Lembro de colegas que ansiavam por ir a missa e eu achava aquilo um saco. A tentativa de ler a bíblia, recomendaçào dos padres da minha escola, era uma chance que eu dei a esse negócio todo de ter uma explicação, de fazer sentido, de ser interessante. Como todo colégio religioso, tinha aula de religião compulsória. Era o fim de picada. Os padres, com frequencia eram estrangeiros, e como se não bastasse a dificuldade do idioma/sotaque bizarro eles tratavam os alunos como débil mental. Ao menor questionamento que eu fazia, sacavam algum dogma. Eu frequentemente ia para recuperaçào e uma vez lembro que meus pais foram chamados lá e ameaçaram expulsar-me se eu não tomasse tenência. Só gostei das aulas de religião quando um padre novo, brasileiro, adepto da Teologia da Libertação, mandava a gente fazer trabalhos sobre a biografia dos ganhadores do prêmio nobel da paz (lembro que o meu foi um judeu chamado Albert Schwitzer) e sobre quanto deveria ser o salário mínimo. Quando eu tinha uns 12 anos, minha última tentativa foi fazer um cursinho para primeira comunhão. Todos os meus colegas iam fazer entào eu fui fazer também. Tinha que pagar uma taxinha para comprar a apostila e eu paguei e fiquei ansioso para recebê-la porque devia ser um livro mais legal do que a chatice da bíblia. Que decepção. A apostila era concebida para quem tinha algum problema mental, só pode ser. A técnica fundamental era da repetição a exaustão dos dogmas para doutrinação. Abandonei o cursinho e nunca fiz primeira comunhão. Quando tinha uns 13 anos cheguei a conclusão que eu era ateu e deixei de ler coisas relacionadas a religião em geral e a cristianismo em particular.
O tempo passa e quando eu já era adulto, dezenas de anos depois, trabalhava numa empresa, era gerente lá, e um funcionário de origem muito humilde se esforçava muito para melhorar de vida. Eu ajudei esse cara e ensinei algumas coisas a ponto dele mudar de carreira, fazer cursos e hoje é um profissional de alto nível. Esse cara ficou tão grato a mim que me deu um livro de Mórmon, a bíblia dos mórmons. Que livro interessante ! Por ter sido escrito no século XIX, ou seja, mais moderno. Bem mais fácil de ler e com histórias mais fantástica, de apelo mais atual. Eu recomendo dar uma lida nele.
De qualquer forma, o apelo da religião é completamente inefetivo para mim. Nunca me senti tocado espiritualmente, emocionalmente, pelas histórias das religiões. Assumi então a postura de análise fenomenológica da religião. Como manifestação cultural é muuuuito interessante.

 
 

O triunfo da mediocridade

O Triunfo da mediocridade

Quem não conhece a história está condenado a repetí-la.

Na história da humanidade existem vários relatos de sociedades/civilizações menos avançadas que destruiram ou conquistaram sociedades consideradas mais evoluídas.

Bárbaros levaram Roma ao ocaso. Considerando que Roma tinha serviço de transportes, correios, leis que regiam comércio e vida civil, sistemas de estímulo a criação artística, arquitetura e engenharia avançadas.

A biblioteca de Alexandria era sustentada por dinastias de faraós egípcios e promovia a cultura e o intercâmbio de idéias no mundo antigo. Dizem que os tesouros da biblioteca que foram perdidos quandos os bárbaros a destruíram eram de valor inestimável ainda hoje. Milhares de anos de geografia, literatura, história, fisiologia, anatomia, tudo perdido. A humanidade levou milênios para ser recuperar de tamanha perda.

Uma sociedade mais avançada nas ciências humanas está protegida da aniquilação por uma menos avançada ? Será que o avanço em si é uma proteção ? Veja o caso da Suíça, que aboliu seu exército e é considerada uma das sociedades mais justas da face da terra. Está a Suíça livre de ser destruída por alguma forma de barbariedade moderna ?

O controle dos meios de destruição é muito precário hoje em dia. Pessoas ímpias tem a seu alcance os botões e os meios para destruir coisas belas em nome das razões mais estapafúrdias: religião, dinheiro, interesses obscuros, poder, etnia, sabe-se lá mais o que.

Para conter a ameaça usa-se de tudo, inclusive os mesmos argumentos e/ou meios usados pelos que ameaçam. Uma tropa de bárbaros destrói um laboratório de uma empresa que pesquisa novos remédios. Uma nação invade outra e destrói monumentos milenares.

Isso sem falar na destruição de seres humanos.

A necessidade da religião

Porque as religiões fazem tanto sucesso ? Porque tanta gente faz coisas tão admiráveis e tão deploráveis em nome da religião ?
Durante muito tempo eu tenho sido ateu. Estudei em colégios religiosos católicos desde a 3a série e nunca me identifiquei com as coisas religiosas. Nunca entendia, nunca via lógica nos ritos. As missas eram cansativas, metade do que se falava eu não entendia e de um modo geral sentia um forte ar de hipocrisia entre as pessoas que rezavam o amor dentro da igreja e tinham uma prática bem diferente assim que passavam pela porta do templo.
Tomei consciência de que era ateu por volta dos 13 anos e desde então tenho pesquisado sobre o fenômeno da regiliosidade dos humanos. Coisas ainda me intrigam, como por exemplo o processo de construção da religião. Já pensei seriamente em fazer um curso de teologoia para ver como é que é por dentro mas temo que numa entrevista preliminar os religiosos descubram meu real intento.
Assim, o jeito é estudar de fora e tentar entender a caixa preta, como o frei franciscano que decifra o labirinto da biblioteca do mosteiro no livro “O nome da rosa”. Mas não é fácil.
A popularidade das religiões é incontestável. Em que pese o fato de que fundar uma religião ser um negócio extremamente lucrativo em qualquer lugar do mundo mas especialmente no Brasil, coisas lucrativas existem aos montes e não alcançam a difusão que as religiões tem. Bancos por exemplo, são extremamente lucrativos porém não tem a mesma capilaridade que as religiões alcançam. Por mais miserável que seja uma comunidade no interior do Brasil, lá terá uma Assembléia de Deus, uma Igreja Católica ou, se for rentável, um tempo da Igreja Universal do Reino de Deus. Com frequéncia, encontramos todas essas aí e até outras. Todo dia surge uma designação diferente de igreja evangélica.Também pudera, igreja não paga imposto.
Mas porque as pessoas precisam de religião em primeiro lugar ?
Segundo Richard Dawkins o ser humano foi progamado pela evolução para acreditar. Um bebê humano pré-histórico aprende mais rápido ao acreditar nas coisas que seus pais dizem do que se ele aprendesse por tentativa e erro. Os humanos evoluiram para essa facilidade de crer através do meio natural da evolução. O que aconteceu depois é que essa característica inata do homem moderno foi sendo abusada pelos líderes sociais, sejam líderes políticos, sejam religiosos. Diante dessa facilidade institiva para crer se opõe o pensamento racional para evitar que acreditemos em besteiras. Mas a verdade é que todos humanos um dia acreditaram em papai noel, fadinhas, desenhos animados, super heróis, duendes, políticos e religiosos. A questão é quão fantasiosa a fábula é e quão racional é o indivíduo. Se colocarmos esses dois fatores, veremos que a fábula mais crível pode convencer o indivíduo mais racional. Vide os casos dos esquemas de enriquecimento rápido que explodiram recentemente.
Colocada essa facilidade para crer e uma fábula razoavelmente crível, temos os ingredientes para se fundar uma religião. Mas é preciso que algo impulsione o futuro crente. Algo que o tire de seu estado passivo em relação a crença e o dirija para a crença específica nas coisas que as religiões professam.
Aí entra o Maslow e sua pirâmide de necessidades.
Os humanos, ao satisfazerem suas necessidades mais básicas de sobrevivência, rapidamente criam novas necessidades a ponto de nunca ficarem completamente satisfeitos. Uma das necessidades mais fortes que os humanos tem é a da segurança. Segurança física mesmo, ou seja, ter certeza que estará vivo dentro mais alguns instantes. Essa necessidade de segurança física, a medida em que é satisfeita, dá espaço a outras necessidades mas não desaparece completamente. A necessidade de estar vivo praticamente se expande até o infinito. O ser humano quer viver para sempre. A idéia da morte não lhe cai bem. Ele quer a vida eterna. E aí entram as religiões oferecendo exatamente isso. Uma eternidade de segurança.
Essa visão reconfortante de uma vida eterna e segura é uma imagem muito poderosa e difícil de ser neutralizada com os argumentos racionais pois apela para um instinto fundamental a todo ser vivo: o de sobrevivência. Alie o instinto de acreditar e a receita está pronta.
As vezes a morte física nem precisa estar rondando para fazer o indivíduo buscar algo reconfortante. Pode ser apenas a perspectiva de um tempo mais turbulento, ou o afastamento de um ente querido, ou um desejo não realizado. Pequenas mortes dessas que enfrentamos todos os dias. Morte de um sonho, morte de uma perspectiva, morte de outra pessoa. Para enfrentar uma situaçào adversa é preciso de uma força interna, uma firmeza de princípios, um conjunto de valores, uma fortaleza emocional que nem todos tem. Diante das vicissitudes da vida pode-se adotar uma entre as várias posturas. Pode-se enfrentar os problemas com seus próprios meios, pode-se resignar-se e deixar para lá, ou pode-se apelar para uma “instância superior”.
Novamente a evolução programa os seres humanos para isso. Crianças humanas instintivamente procuram seus pais diante de uma situação e suposto perigo. Ao longo da infância, da adolescência e as vezes até durante a fase adulta, é comum os filhos recorrerem aos pais para resolverem seus problemas. Em algumas sociedades essa figura paterna é incorporada pelo governo mas o mais comum é o pai celestial ser invocado quando a situação é de fato muito difícil. Esse apelo ao “pai” é manipulado pelas religiões que criam a figura paterna até para quem não tem pai. O pai amoroso, capaz de perdoar, capaz de prover, mas não aqui na Terra. Só no céu.
É possível conceber que alguns indivíduos encontrarão dentro de si mesmo as forças necessárias para superar as adversidades da vida. Das mais simples (um pneu furado) até as mais duras (a morte de um ente querido), pessoas encararão sozinhas outras pedirão ajuda. Para as que mais frequentemente pedem ajuda, as religiões oferecem as saídas fáceis que variam desde a resignação e aceitar seu destino (catolicismo e espiritismo) até ter fé que o ser supremo vai resolver, desde que você creia de fato. Poucas religiões ocidentais recomendam encarar o problema de frente e resolvê-lo. Estou considerando os livros e cursos de auto-ajuda como não-religião.
O que faz então uma pessoa decidir entre encarar o problema ou apelar para deuses ? Porque alguns indivíduos tentam por si só e outros apelam quase que instantaneamente a uma força superior ? Um pai, um líder, um político, um deus ?
A educação que o indivíduo recebeu durante sua formação será o fator mais determinante para a atitude que ele tomará diante das adversidades. Indivíduos que são educados para resolverem seus próprios problemas tenderão a não precisar de deuses para resolvê-los. Pessoas que conhecem mais alternativas, que tem mais instrução sobre os fenômenos que as cercam, conseguem entender melhor o que está acontecendo e bolam soluções. Cogitam possibilidades que houviram falar, leram a respeito, gostariam de experimentar. Quem tem a mente aberta é mais versátil e se adapta melhor portanto pode enfrentar novos problemas de forma propositiva, criando soluções. Quem é doutrinado para crer sem saber, sem entender, sem questionar, fica de fato mal equipado para criar soluções pois sua mente está formatada para a resignação e o conformismo. Para esses indivíduos, o estresse da situação dificil só tem uma cura: acreditar mais, torcer para o provedor atuar, o deus fazer seu milagre.
Por isso que as religiões andam as turras com os sistemas educacionais laicos. Cada indivíduo esclarecido, instruido e que teve a sua mente aberta é um indivíduo a menos suscetível ao bitolamento instrumental das religiões.