Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 35.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 13 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

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O medo e o coxinha

Medo é bom e faz bem a saúde. Principalmente dos dentes, já dizia o meu avô quando eu fazia alguma trela na sua oficina. Eu era criança e aprendi a ter medo. Muito da minha sobrevivência até a idade atual é devido ao medo que senti em um ou outro momento.

Mesmo assim, o medo é visto com preconceito e de um modo geral as pessoas “sem medo” são muito prestigiadas. As vezes são tidas como corajosas. Ledo engano. Coragem não é ausência de medo. Ausência de medo é ignorância dos riscos e frequentemente isso pode ser fatal. Coragem é sentir o medo e enfrentá-lo. Ajustar o seu comportamento diante de riscos conhecidos no sentido de minimizá-los. Por isso que medo é bom. Porque muda o nosso comportamento diante de uma situação potencialmente perigosa.

Mas e o excesso de medo ? Como já dizia outro avô, “Tudo demais é muito”. Medo demais pode paralisar. Quando suprimimos desejos por causa de medos estamos abrindo mão de muitas chances de fazer coisas que nos deixam felizes. Os coxinhas definitivamente tem um fator medo muito preponderante no seu comportamento. É o medo de danificar a moto, medo de ter um prejuízo com um acessório quebrado, o medo de se perder, o medo de se molhar, o medo de passar frio, o medo de sentir calor, o medo de se atrasar, o medo ser assaltado, o medo do que os outros vão pensar e até mesmo o medo de cair e se machucar.

O medo é algo que nossa mente constrói. O perigo é real, mas o medo é inventado por nós. Como no filme péssimo do Will Smith e seu filho Jaden demonstrou. Prova de que até num filme horrível ainda é possível tirar alguma coisa boa.

Quando um motociclista paralisa sua utilização da moto por causa do seu medo talvez seja hora de vender a moto ou talvez mudar de categoria. Não é incomum ver pilotos que deixam suas motos na garagem diante da mera possibilidade de chuva ou que se recusam terminantemente a colocar suas bigtrails em estradas de terra. Isso é o que me dói mais.

Quando deixamos de fazer coisas por causa do medo trocamos um risco (medido e calculado e portanto contornável) por uma certeza: estamos deixando de viver. Estamos fazendo errado ! Estamos deixando de lado uma oportunidade para enfrentar o medo e desse enfrentamento alavancarmos um comportamento mais preciso, melhor. O medo é um instrumento fabuloso para o auto-conhecimento e por isso mesmo o auto-melhoramento. O medo nos aponta nossas deficiências e principalmente nossa ignorância. Se sentimos medo de alguma coisa, existe uma grande chance de sermos em alguma medida ignorantes a respeito dessa coisa. Ora, contra a ignorância a melhor coisa é a informação que traz conhecimento. Se temos medo de alguma falta de habilidade a solução não é se render a esse medo e permanecer inábil. A solução é buscar conhecimento em como se faz a coisa bem feito e praticar para melhorar. Se temos medo de pilotar a moto em alguma circunstância temos que nos informar sobre como pilotar melhor e praticar e praticar e praticar até que o medo seja reduzido da forma paralisante para a forma da cautela saudável que nos mostra nossos limites.

Lembro certa vez que Ayrton Senna declarou que ao participar de uma prova de kart levou um couro danado quando a pista ficou encharcada devido a chuva. Imagino se Ayrton Senna chegou a ter medo de pilotar kart na chuva, nem que por um segundo. Isso é pura especulação minha mas o fato é que depois desse dia de derrota (medo?) Ayrton procurava pilotar sempre que chovia, mesmo sem ter competição alguma. Ele aproveitava todas as chances que tinha para pilotar na pista molhada e acabou transformando sua imperícia (medo?) de andar na chuva numa das suas maiores habilidades e diferenciais competitivos.

Nos fóruns sobre motociclismo encontro frequentemente as postagens de iniciantes expressando seus medos diante de exames de habilitação de moto nos DETRANs da vida. Pessoas que afirmam que “sabem fazer tudo direitinho” mas que ficam “nervosas” diante da perspectiva de falharem no teste. O medo de ser reprovado acaba se transformando numa profecia auto-cumprida. A pessoa tem  a habilidade mas o medo a faz por tudo a perder. Qual a solução para o medo diante do fracasso no teste ? A resposta mais fácil é ligar o “Fuck it!” e desencanar. De fato funciona mas acaba dando margem para a preparação inadequada. Não se importar com as coisas as vezes é útil mas se usado sem moderação pode levar a um estado de letargia tão paralisante quando o medo excessivo. Isso equivale a não ter o medo. O melhor ainda é usar o medo como impulsionador para praticar mais a pilotagem, exercitar as manobras em que tem mais dificuldade e tornar-se craque nelas. Praticar, praticar, praticar e quando estiver exausto de tanto praticar…. Ir lá e praticar mais um pouquinho. Praticar até o ponto em que faria as manobras de olhos fechados, ou com um pé nas costas, ou com as mãos amarradas .. .ou tudo isso junto (aí é cabra bom mesmo!).

Com frequência, quando vou fazer passeios off-road com amigos coxinhas, vejo alguns jovens ficarem absolutamente exaustos no meio do mato. Considerando que eu já não sou um menino (do alto dos meus 49 anos mas num corpinho de apenas 48), ficava sempre intrigado ao ver amigos em plena forma física, capazes de correr meias maratonas, as vezes maratonas inteiras, andar de bike, fazer academia 3 vezes por semana mas que no meio da trilha ficavam mortos. E eu inteiro. Como explicar isso se eu não pratico atividade aeróbica ou musculação alguma de forma frequente ? Porque eles estavam tão cansados e eu não ? Resposta: Tensão. A tensão sobre o guidão causada pelo medo paralisante exaure as energias de qualquer um. A maior prova de quão intensa intelectualmente é a atividade de pilotagem de motocicletas é a desenvoltura com que pilotos mais experientes, mesmo mais velhos, se saem de situações extenuantes mesmo sem terem o preparo físico mais top da turma. Não que preparo físico seja dispensável. Pelo contrário. Forma física é fundamental. Mas de nada adianta ser o rato de academia de ginástica se não tiver uma atitude mental superior diante do medo e a tensão impostas pela pilotagem.

Os amigos que pilotam comigo já conhecem o passeio até a Ilha do Coqueirinho Solitário ao sul de Tamandaré, Pernambuco. Durante muito tempo propus que esse passeio fosse considerado um ritual de iniciação ao grupo de bigtrail off-roaders. Lembro da primeira vez que eu fui a essa praia com a F800 GS. Ainda muito grosso e sem tanta habilidade e com a moto novinha, sozinho, fiz a loucura de ir até a Ilhota passando pelo areial divisor entre homens e pratos de papa. Depois de muitos sustos cheguei a parte de areia dura da praia completamente exausto. Esgotado mesmo. Parei a moto numa rocha, descansei, tirei fotos e imediatamente passei a pensar em como fazer para encarar de volta. O medo era paralisante. E se eu cair ? Quem vai me ajudar ? Sozinho numa praia deserta a coisa tinha um potencial enorme de virar uma grande merda. Não tive muita alternativa além de encarar o medo e fazer o percurso de volta. Quando cheguei de volta a Tamandaré eu estava ainda mais exausto, como não sabia possível.

Fiquei um tempo super bolado com o resultado desse episódio. Ora ? Se para percorrer um pequeno trecho de uns 1000 metros de areião eu fazia um esforço semelhante a parir trigêmeos … de que valia eu ter uma bigtrail ? Qual o sentido ? Alguma coisa tinha que ser feita. Passei a usar os medos de cair, de ficar sozinho, de ter gasto uma grana numa moto que não iria usar plenamente, de dar vexame, de ter um prejuízo numa queda, como drivers para me fazerem melhorar. Emagreci, melhorei meu condicionamento físico, me informei sobre como pilotar na areia, assisti vídeos, pedi dicas a pilotos experientes, pratiquei areia em pequenos trechos, juntei tudo isso e adicionei uma pitada de “foda-se” e um mês depois encarei EXATAMENTE o mesmo trecho, ainda sozinho. Tirei de letra ! Foi um passeio ! Cheguei lá dando risada e muito feliz com a conquista. Foi uma experiência libertadora que há muito eu não sentia. Uma coisa assim meio que de infância quando tinha feito uma trela na oficina do meu avô e ele não tinha me pego 🙂

A sensação foi muito boa e como sempre acontece eu queria dividir isso com o mundo. Queria proporcionar isso para todas as pessoas com as quais eu encontrasse. Queria fazer as pessoas enfrentarem os seus medos porém sem aboli-los. Queria ensinar as pessoas a usarem seu medo para as fazerem mais felizes ! Por paradoxal que seja.

Comecei a levar alguns amigos ao passeio do Coqueirinho Solitário, como ficou mundialmente conhecido(?), e obtive resultados muito gratificantes. Vi homens crescidos sentirem medo e enfrentá-lo com coragem (as vezes uma pitada de irresponsabilidade) e conseguirem chegar a praia do coqueirinho com uma expressão de realização misturada com alívio. Vi lágrimas de alegria. Vi também alguns jurarem que jamais voltariam a fazer um passeio comigo 🙂 Well .. não se pode acertar todas.

Desde então o tema me fascina e de vez em quando encontro novos amigos pilotos que dão a chance de ajudá-los a superar seus próprios limites, quando pelo menos não os conhecerem mais nitidamente. A todos eu deixo 10 mil dos meus melhores obrigados pois é muito gratificante. Espero continuar fazendo isso por muito tempo.

Enquanto isso, lembro aqui a Litania Contra o Medo do Frank Herbert

“I must not fear.

Fear is the mind-killer.

Fear is the little-death that brings total obliteration.

I will face my fear.

I will permit it to pass over me and through me.

And when it has gone past I will turn the inner eye to see its path.

Where the fear has gone there will be nothing….

only I will remain”

E para quem achar essa litania muito complicada, deixo o link para o brilhante poema do Chico Buarque de Holanda, que é mais didático e não menos forte.

O que acontece com a política nos tempos de internet

Acompanho de forma consciente a política desde 1982 quando houve a primeira eleição direta para governadores depois do golpe e  ainda durante a ditadura. Desde aquela época me espanto com a quantidade de mentiras e meias verdades que são colocadas de forma descaradas pelos políticos. Lembro que era estudante, havia acabado de entrar na universidade, tinha 16 anos, e o movimento estudantil era mais denso. O guia eleitoral era ainda mais pobre do que é hoje em dia e praticamente não se faziam debates entre os políticos. Eram anos de ocaso de ditadura mas ainda era ditadura.  A dicotomia, o maniqueísmo eram agudos e eu achava que isso se devia a classe dos políticos, privados da democracia tinham que apelar para o que há de mais podre em termos de comportamento político. A culpa era dos políticos. Os cidadãos ainda não tinham a liberdade para discutir política de forma madura.

Os anos passaram, redemocratização (?), novas eleições e o nível do debate político continuava baixo. As mentiras eram atiradas de lado a lado, os temas realmente importantes não eram encarados ou discutidos. O maniqueísmo agora era mais agudo pois a ditadura havia acabado e a facilidade do discurso de quem combateu a ditadura era adotado por pessoas autênticas, por adesistas, por vira-casacas. A culpa ainda era dos políticos e do povo que ainda não tinha muita prática democrática, afinal, a ditadura acabara há pouco tempo.

Mais tempo passa e acontece a eleição de 89 com o catapultamento de Collor (uma fraude eleitoral) a Presidência. Era o fim da picada em termos de alienação política. O povo fora enganado e a esperança de amadurecimento democrático do povo atingiu o nível mais baixo. Mas de repente, o movimento do impeachment, os cara pintadas, a mobilização popular e a defenestração de Collor deram um sinal de que nem tudo estava perdido. Havia sinais de inteligência no planeta Brasilis. O funcionamento das instituições, a passagem do poder de forma democrática para FHC, o surgimento de novas lideranças políticas passavam a imagem de que agora a coisa ia para a frente.

Pura ilusão. A política brasileira continuava a viver de salvadores da pátria, a quem tudo se perdoava ou admitia, e as oposições radicais que detonavam qualquer iniciativa válida para estabilizar a economia que fosse oriunda do outro partido. O bem maior da nação não interessava a situação ou a oposição. Tudo era argumento eleitoreiro. Ora para se promover, ora para detonar o opositor. Nenhum partido oferecia (nem oferece) um programa que ele mesmo cumpra. O debate continua vazio, as questões relegadas a segundo plano, o personalismo impera, o “quem é contra” versus o “quem é a favor”. Os políticos não aprendem, não evoluem e o povo continua sem se envolver de forma madura na política. As eleições viram um festival bizarro, uma competição de esquisitice em que vale votar em candidatos absolutamente vazios de propostas mas com boa presença de marketing eleitoral. Seja porque é uma celebridade, seja porque tem acesso a recursos (escusos ou não) para sustentarem as suas campanhas caríssimas. Minha leitura era que os políticos continuavam péssimos e que a culpa da alienação política do povo era fundamentalmente do baixo nível dos políticos. O povo estava aprendendo devagar e até que tentava mas os políticos continuavam a política velha dos ataques pessoais, das trocas de favores, da orientação pelos seus interesses pessoais/carreirísticos, e o povo continuava massa de manobra e manipulada.

Aí vem a Internet. A esperança era de que o acesso a informação viraria o jogo. O eleitor agora vai poder se lembrar. As promessas dos políticos ficarão registradas e poderão ser conferidas com as suas atuações depois de eleitos.  A interatividade da internet promoveria o debate maduro e equilibrado, as pessoas fariam seus pleitos de forma desintermediada. Mobilizações poderiam ser efetuadas mais rapidamente. Alguns cientistas políticos cogitavam até que a democracia representativa estaria com os dias contados dando lugar a democracia diretíssima, sem intermediários, sem políticos. Eram ideias causadas pelo efeito inebriante da Internet em praticamente todos os ramos do conhecimento e comportamento humano. A Internet era a panaceia que aceleraria o amadurecimento político.

Infelizmente não é isso que aconteceu. Com o advento das redes sociais o povo, os eleitores, agora podem sim praticar a política. Podem expor suas ideias e seus apoios, criticar políticos, programas partidários, assumir um papel de protagonista no processo democrático. Mas não é isso que acontece. As práticas políticas mais nefastas e nojentas que os políticos fazem há décadas são as mesmas que o povo pratica nas redes sociais. Acusar sem verificar a veracidade das coisas. Denunciar sem provas. Formar opinião obtusa e fechada sem se informar. Exclamar de forma histérica uma opinião sem o menor fundamento em fato ou conhecimento de causa. Antagonizar e impedir o debate com o que pensa diferença. Assumir posições sectárias visando interesses pessoais ou pior, interesse de terceiros dos quais sequer tem consciência.

A massa de manobra continua massa de manobra nas redes sociais. Continua propagando opiniões de celebridades reais ou virtuais sem a menor verificação do conteúdo. O adesismo, o oportunismo e o imediatismo são praticados pelos eleitores, não apenas pelos políticos.

De repente a ficha caiu para mim: O político vazio, oportunista, adesista, corrupto, demagogo, falastrão que sempre populou os horários eleitorais não era causa e sim efeito do comportamento deliberado do povo. Acontece que há 30 anos não se via isso porque faltavam os meios para interação massiva com a população política (ou apolítica para todos os efeitos). Com as redes sociais dá para ver que o padrão da alienação é predominante. Alienação deliberada e por “opção”, alienação por manipulação de terceiros. O fato é que se a ditadura um dia foi responsável pelo afastamento da população da Política (essa com p maiúsculo) agora o povo pode sim voltar a fazê-la mas no fim opta por fazer a mesma baixaria que os políticos fazem.  Tem a chance, tem a ferramenta e, mais que tudo, tem a urgente necessidade de tomar o processo político em suas mãos. Mas prefere a saída fácil de votar num palhaço, num médico histriônico, num defensor da ditadura, num fundamentalista religioso, num ativista xiita de uma causa de preservação, num falso profeta de apocalipse econômico, numa celebridade do futebol. Prefere isso a ter que conversar com os amigos de forma madura sobre as divergências e encontrar um consenso mínimo. Isso é impossível. A eleição continua uma competição absurda em que o eleitor é o competidor ! Como se fora um jogo.

Por muito tempo achava que a pior coisa do processo democrático era o horário político. O espetáculo de horrores de absoluta falta de propostas e de discussão densa. Agora o horário eleitoral gratuito não é o pior. O pior é utilização das redes sociais para a propaganda política, a desinformação, a histeria política e patrulhamento ideológico (na verdade proto-ideológico) das pessoas. Amizades são desfeitas, postagem são bloqueadas, insultos de baixo calão são trocados. Os temas não são discutidos, os embates são absolutamente estéreis. O maniqueísmo da época da ditadura volta, agora praticado pelo “povo”. Rótulos são colocados nas pessoas e as posições obtusas se acirram.  O povo faz tanto ou pior que os políticos em seus guias eleitorais.

Coisas que encontramos durante o período eleitoral de forma mais aguda

  • Maniqueísmo. Tudo que a oposição fala contra o governo é golpismo. Tudo que alguém fala a favor do governo é adesismo. Soluções boas para problemas são detonadas ou promovidas como dignas de prêmio Nobel a depender da sua origem partidária e não pelo mérito da solução propriamente dito. Tudo que os nossos fazem é do bem, tudo que os outros fazem é do mal.
  • Valetudismo. Vale tudo para detonar a oposição (se você é alinhado com a situação) ou vice-versa. Vale falar mal do próprio país, vale acoitar uma posição evidentemente absurda, desde que seja contra/favor de quem você é contra/favor.
  • A absoluta falta de compromisso com a mínima verificação da veracidade da notícia. Posta-se  reposta-se qualquer coisa, não importa se é verdadeira.
  • A absoluta incapacidade de se discutir, abrir mão de uma opinião, mudar de ideia. O que importa é estar certo e não ceder. Como se fora uma torcida de time de futebol que jamais admite que o time perdeu mesmo diante do placar explícito. Admitir que estava enganado ? Jamais !
  • A opção pela não informação num processo de negação. Quando a evidência é apresentada, nega-se a vê-la. Sequer cogitá-la.
  • A pura e simples falta de civilidade e urbanidade. Insultos, piadas de mau gosto, desrespeito puro e simples.
  • Postura sectária diante de algumas ideias.
  • Incapacidade para debate.

Será que a internet tem algum efeito (bom ou mau) no amadurecimento político do povo ? Não sei. Só a história poderá responder no futuro. Enquanto isso o que assisto me assusta. Assim como o filme “Idiocracy”, que era para ser uma comédia mas que a cada vez que o assisto se parece mais com um filme de horror. No filme algumas cenas parecem proféticas e ao ver o comportamento das pessoas supostamente esclarecidas nas redes sociais vejo que as profecias estão sendo cumpridas. O revisionismo histórico, a criação de “memes” com informação errada que passa a ser assumida como verdade. Numa cena do filme, a paródia que Charlie Chaplin faz de Hitler no filme “O Grande Ditador” é tomada como verdadeira pela população alienada do futuro e o artista que era um defensor da liberdade agora é conhecido como algo diametralmente oposto. Parece absurdo alguém chegar a essa conclusão mas se perguntarmos ao usuário típico das redes sociais o que é um Big Brother ele provavelmente vai achar que é algo legal e que é uma celebridade a ser admirada, numa inversão completa da ideia orwelliana original.  No terreno da ignorância e alienação o absurdo é o normal.

Será que algum dia teremos um povo com postura crítica para questionar sem vilipendiar ? Será que teremos uma classe política que seja capaz de pensar de forma maior, num interesse comum e de mais longo prazo ? As vezes penso que não.

 

 

 

Porque fazemos as coisas que fazemos ?

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O que nos leva a fazer coisas ? O que nos impele a sair da inação para a ação ?

Parece bastante óbvio que o maior motivador, impulsionador da ação humana é a sobrevivência. Muita coisa foi e é feita sob essa justificativa. Fazemos coisas, realizamos atos para sobreviver, para nos mantermos vivos. Mas a medida que a sociedade humanda evolui, o esforço para sobrevivência fica menor. Nossos ancestrais pré-históricos tinham que dedicar uma boa parte do tempo de sua vida a procura de alimento e a luta contra outros predadores. Hoje em dia a vida está mais fácil, do ponto de vista de sobrevivência, apesar de toda a impressão que se tem que está cada vez mais difícil.

Os fatos contrariam a percepção generalizada. Da longevidade da população, índice de mortalidade infantil, altura média da população, índice de bem estar médio, diminuição do número de mortes violentas, todos os indicadores apontam para uma vida mais fácil.

Isso acaba proporcionando as pessoas mais tempo para elas fazerem o que querem, não só o que precisam fazer. E aí que começam a aparecer as coisas mais bizarras que a humanidade é capaz de fazer.

Quando alguém faz alguma coisa por sobrevivência, fica fácil de entender o que a levou a fazer isso. Mas e quando a sobrevivência não é a justificativa ? Deixando de lado os atos medonhos e moral/eticamente reprováveis, resta muita coisa que as pessoas fazem e que não encontra explicação tão facilmente.

Essa tirinha do Calvin & Hobbes me despertou esse questionamento. As tirinhas de C&H frequentemente tem esse efeito em mim. Além de serem superdivertidas, elas tem um quê de poético ao provocarem sensações que ultrapassam o que está desenhado, assim como a poesia é mais que métrica e rima. Outra coisa curiosa sobre as tirinhas é que não há garantia de que vá provocar em uma certa pessoa algo sequer parecido do que provocou em outra. Frequentemente mando essas tirinhas para parentes e amigos e na maioria das vezes recebo como resposta algo que é melhor traduzido num “E daí ?”.

No caso dessa tirinha em particular, vejo a questão do sentido da vida. Parece uma viagem e tanto para um assunto supostamente tão importante como o “Sentido da Vida” (filmes inteiros foram feitos sobre esse assunto) partir de uma simplória tirinha de história em quadrinhos. Mas será ? Será que algo tão supostamente importante como o sentido da vida pode prescindir de uma simples piadinha ? Será que é menos importante o que o autor da tirinha, talvez até não propositalmente, traz a tona quando diz “Because it’s there !” (porque está lá) como justificativa para um ato supostamente sem importância como descer um morro de neve num trenó ? Quem é que classifica isso como relevante/não relevante, importante/não importante ? Assim como a tirinha pode tocar ou não tocar alguém, assim como o efeito de diversão pode ser sentido ou não, essa variação de relevância nos motivadores da ação pode variar muito de uma pessoa para outra. E assim, o simples fato de simplesmente estar lá é mais do que suficiente para uns e um motivo absurdamente banal para outros.

A linha que separa a ação da inação varia muito de uma pessoa para outra, parece claro. Mas existe algo ainda mais interessante. Ela varia para cada indivíduo ao longo do tempo de das circunstâncias. Algo que seria suficiente motivador em um determinado momento, pode não ser em outros. Essa medida de disposição para ação não é precisa, é inconstante, flutua com o tempo, varia de indivíduo para indivíduo e não existe um aparelho ou método para medí-la. Pode ser considerada a coisa mais etérea e volúvel da civílização humana. A manifestação do fenômeno da ação causa assombro e é explorado pela mídia. O que levou essa pessoa a fazer tal coisa ? Todos os dias vemos relatos de pessoas que fizeram coisas impressionantes com motivações as mais diversas possíveis e tentamos nos colocar no lugar delas: Será que eu teria feito a mesma coisa ? Será que eu teria feito nessa intensidade ? Ou, esse cara é maluco de ter feito isso só por causa daquilo.

Esse assombramento só tende a aumentar. A medida que a tecnologia proporciona mais tempo para lazer, as pessoas serão impelidas a fazer mais coisas diferentes, nunca tentadas e ainda por cima “só porque está lá”. A medida que essa frequência aumenta, a probabilidade de que abusos sejam cometidos também aumenta. A linha da motivação cruza a linha do respeito pelo direito dos outros. Fazer o que quiser, o que lhe der na veneta, é totalmente permitido desde que não fira qualquer outro direito de qualquer outra pessoa. A liberdade existe mas ela não pode ser confundida com permissividade. Mas isso é outra história.

Enquanto isso, segue a busca pelas motivações. Uma delas é a busca pela felicidade.

Fazer coisas no intuito de alcançar a felicidade, de chegar ao nirvana, de merecer o paraíso. Esse parece ser o motivador mais eficaz e mais universal. Todo mundo quer ser feliz, até mesmo as pessoas em profunda depressão. A diferença desses últimos é que acreditam mesmo que não são capazes de coisa alguma para serem felizes, ou que nada adianta ser feito. Mas querer, eles querem, portanto, todo mundo quer ser feliz.

Mas será que a felicidade é algo alcancável a partir de nossos atos ?

Eu acho que não.

Mas ainda assim, paradoxalmente, acho que qualquer um pode ser feliz.

Basta fazer coisas ! Basta buscar a felicidade. A felicidade está na busca, no processo. É algo dinãmico e permanente, móvel, agitado, inconstante, não mensurável, volúvel, frágil, efêmero e que precisa ser renovado a cada novo instante, assim como um movimento browniano. Pensando assim, teorizo se a linha de motivação mais baixa está ligada a capacidade de alguém de ser feliz. Suponhamos que fosse possível medir a linha de motivação, ou seja, o ponto a partir do qual um indivíduo se sente suficientemente motivado para fazer coisas, qualquer coisa, da mais simples e banal até a mais complexa ou estapafúrdia. O limiar para disparar a ação, se fosse possível medí-lo, seria então inversamente proporcional a capacidade de ser feliz daquele indivíduo. Quanto mais facilmente ele faz coisas, mais feliz será. Nessa hora, muita gente irá perguntar : Mas por qual motivo ? Mas com que finalidade ? E no exemplo extremo para fins de ilustração, eu responderia : por motivo nenhum … apenas porque está lá.

O triunfo da mediocridade

O Triunfo da mediocridade

Quem não conhece a história está condenado a repetí-la.

Na história da humanidade existem vários relatos de sociedades/civilizações menos avançadas que destruiram ou conquistaram sociedades consideradas mais evoluídas.

Bárbaros levaram Roma ao ocaso. Considerando que Roma tinha serviço de transportes, correios, leis que regiam comércio e vida civil, sistemas de estímulo a criação artística, arquitetura e engenharia avançadas.

A biblioteca de Alexandria era sustentada por dinastias de faraós egípcios e promovia a cultura e o intercâmbio de idéias no mundo antigo. Dizem que os tesouros da biblioteca que foram perdidos quandos os bárbaros a destruíram eram de valor inestimável ainda hoje. Milhares de anos de geografia, literatura, história, fisiologia, anatomia, tudo perdido. A humanidade levou milênios para ser recuperar de tamanha perda.

Uma sociedade mais avançada nas ciências humanas está protegida da aniquilação por uma menos avançada ? Será que o avanço em si é uma proteção ? Veja o caso da Suíça, que aboliu seu exército e é considerada uma das sociedades mais justas da face da terra. Está a Suíça livre de ser destruída por alguma forma de barbariedade moderna ?

O controle dos meios de destruição é muito precário hoje em dia. Pessoas ímpias tem a seu alcance os botões e os meios para destruir coisas belas em nome das razões mais estapafúrdias: religião, dinheiro, interesses obscuros, poder, etnia, sabe-se lá mais o que.

Para conter a ameaça usa-se de tudo, inclusive os mesmos argumentos e/ou meios usados pelos que ameaçam. Uma tropa de bárbaros destrói um laboratório de uma empresa que pesquisa novos remédios. Uma nação invade outra e destrói monumentos milenares.

Isso sem falar na destruição de seres humanos.