Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 35.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 13 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

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O medo e o coxinha

Medo é bom e faz bem a saúde. Principalmente dos dentes, já dizia o meu avô quando eu fazia alguma trela na sua oficina. Eu era criança e aprendi a ter medo. Muito da minha sobrevivência até a idade atual é devido ao medo que senti em um ou outro momento.

Mesmo assim, o medo é visto com preconceito e de um modo geral as pessoas “sem medo” são muito prestigiadas. As vezes são tidas como corajosas. Ledo engano. Coragem não é ausência de medo. Ausência de medo é ignorância dos riscos e frequentemente isso pode ser fatal. Coragem é sentir o medo e enfrentá-lo. Ajustar o seu comportamento diante de riscos conhecidos no sentido de minimizá-los. Por isso que medo é bom. Porque muda o nosso comportamento diante de uma situação potencialmente perigosa.

Mas e o excesso de medo ? Como já dizia outro avô, “Tudo demais é muito”. Medo demais pode paralisar. Quando suprimimos desejos por causa de medos estamos abrindo mão de muitas chances de fazer coisas que nos deixam felizes. Os coxinhas definitivamente tem um fator medo muito preponderante no seu comportamento. É o medo de danificar a moto, medo de ter um prejuízo com um acessório quebrado, o medo de se perder, o medo de se molhar, o medo de passar frio, o medo de sentir calor, o medo de se atrasar, o medo ser assaltado, o medo do que os outros vão pensar e até mesmo o medo de cair e se machucar.

O medo é algo que nossa mente constrói. O perigo é real, mas o medo é inventado por nós. Como no filme péssimo do Will Smith e seu filho Jaden demonstrou. Prova de que até num filme horrível ainda é possível tirar alguma coisa boa.

Quando um motociclista paralisa sua utilização da moto por causa do seu medo talvez seja hora de vender a moto ou talvez mudar de categoria. Não é incomum ver pilotos que deixam suas motos na garagem diante da mera possibilidade de chuva ou que se recusam terminantemente a colocar suas bigtrails em estradas de terra. Isso é o que me dói mais.

Quando deixamos de fazer coisas por causa do medo trocamos um risco (medido e calculado e portanto contornável) por uma certeza: estamos deixando de viver. Estamos fazendo errado ! Estamos deixando de lado uma oportunidade para enfrentar o medo e desse enfrentamento alavancarmos um comportamento mais preciso, melhor. O medo é um instrumento fabuloso para o auto-conhecimento e por isso mesmo o auto-melhoramento. O medo nos aponta nossas deficiências e principalmente nossa ignorância. Se sentimos medo de alguma coisa, existe uma grande chance de sermos em alguma medida ignorantes a respeito dessa coisa. Ora, contra a ignorância a melhor coisa é a informação que traz conhecimento. Se temos medo de alguma falta de habilidade a solução não é se render a esse medo e permanecer inábil. A solução é buscar conhecimento em como se faz a coisa bem feito e praticar para melhorar. Se temos medo de pilotar a moto em alguma circunstância temos que nos informar sobre como pilotar melhor e praticar e praticar e praticar até que o medo seja reduzido da forma paralisante para a forma da cautela saudável que nos mostra nossos limites.

Lembro certa vez que Ayrton Senna declarou que ao participar de uma prova de kart levou um couro danado quando a pista ficou encharcada devido a chuva. Imagino se Ayrton Senna chegou a ter medo de pilotar kart na chuva, nem que por um segundo. Isso é pura especulação minha mas o fato é que depois desse dia de derrota (medo?) Ayrton procurava pilotar sempre que chovia, mesmo sem ter competição alguma. Ele aproveitava todas as chances que tinha para pilotar na pista molhada e acabou transformando sua imperícia (medo?) de andar na chuva numa das suas maiores habilidades e diferenciais competitivos.

Nos fóruns sobre motociclismo encontro frequentemente as postagens de iniciantes expressando seus medos diante de exames de habilitação de moto nos DETRANs da vida. Pessoas que afirmam que “sabem fazer tudo direitinho” mas que ficam “nervosas” diante da perspectiva de falharem no teste. O medo de ser reprovado acaba se transformando numa profecia auto-cumprida. A pessoa tem  a habilidade mas o medo a faz por tudo a perder. Qual a solução para o medo diante do fracasso no teste ? A resposta mais fácil é ligar o “Fuck it!” e desencanar. De fato funciona mas acaba dando margem para a preparação inadequada. Não se importar com as coisas as vezes é útil mas se usado sem moderação pode levar a um estado de letargia tão paralisante quando o medo excessivo. Isso equivale a não ter o medo. O melhor ainda é usar o medo como impulsionador para praticar mais a pilotagem, exercitar as manobras em que tem mais dificuldade e tornar-se craque nelas. Praticar, praticar, praticar e quando estiver exausto de tanto praticar…. Ir lá e praticar mais um pouquinho. Praticar até o ponto em que faria as manobras de olhos fechados, ou com um pé nas costas, ou com as mãos amarradas .. .ou tudo isso junto (aí é cabra bom mesmo!).

Com frequência, quando vou fazer passeios off-road com amigos coxinhas, vejo alguns jovens ficarem absolutamente exaustos no meio do mato. Considerando que eu já não sou um menino (do alto dos meus 49 anos mas num corpinho de apenas 48), ficava sempre intrigado ao ver amigos em plena forma física, capazes de correr meias maratonas, as vezes maratonas inteiras, andar de bike, fazer academia 3 vezes por semana mas que no meio da trilha ficavam mortos. E eu inteiro. Como explicar isso se eu não pratico atividade aeróbica ou musculação alguma de forma frequente ? Porque eles estavam tão cansados e eu não ? Resposta: Tensão. A tensão sobre o guidão causada pelo medo paralisante exaure as energias de qualquer um. A maior prova de quão intensa intelectualmente é a atividade de pilotagem de motocicletas é a desenvoltura com que pilotos mais experientes, mesmo mais velhos, se saem de situações extenuantes mesmo sem terem o preparo físico mais top da turma. Não que preparo físico seja dispensável. Pelo contrário. Forma física é fundamental. Mas de nada adianta ser o rato de academia de ginástica se não tiver uma atitude mental superior diante do medo e a tensão impostas pela pilotagem.

Os amigos que pilotam comigo já conhecem o passeio até a Ilha do Coqueirinho Solitário ao sul de Tamandaré, Pernambuco. Durante muito tempo propus que esse passeio fosse considerado um ritual de iniciação ao grupo de bigtrail off-roaders. Lembro da primeira vez que eu fui a essa praia com a F800 GS. Ainda muito grosso e sem tanta habilidade e com a moto novinha, sozinho, fiz a loucura de ir até a Ilhota passando pelo areial divisor entre homens e pratos de papa. Depois de muitos sustos cheguei a parte de areia dura da praia completamente exausto. Esgotado mesmo. Parei a moto numa rocha, descansei, tirei fotos e imediatamente passei a pensar em como fazer para encarar de volta. O medo era paralisante. E se eu cair ? Quem vai me ajudar ? Sozinho numa praia deserta a coisa tinha um potencial enorme de virar uma grande merda. Não tive muita alternativa além de encarar o medo e fazer o percurso de volta. Quando cheguei de volta a Tamandaré eu estava ainda mais exausto, como não sabia possível.

Fiquei um tempo super bolado com o resultado desse episódio. Ora ? Se para percorrer um pequeno trecho de uns 1000 metros de areião eu fazia um esforço semelhante a parir trigêmeos … de que valia eu ter uma bigtrail ? Qual o sentido ? Alguma coisa tinha que ser feita. Passei a usar os medos de cair, de ficar sozinho, de ter gasto uma grana numa moto que não iria usar plenamente, de dar vexame, de ter um prejuízo numa queda, como drivers para me fazerem melhorar. Emagreci, melhorei meu condicionamento físico, me informei sobre como pilotar na areia, assisti vídeos, pedi dicas a pilotos experientes, pratiquei areia em pequenos trechos, juntei tudo isso e adicionei uma pitada de “foda-se” e um mês depois encarei EXATAMENTE o mesmo trecho, ainda sozinho. Tirei de letra ! Foi um passeio ! Cheguei lá dando risada e muito feliz com a conquista. Foi uma experiência libertadora que há muito eu não sentia. Uma coisa assim meio que de infância quando tinha feito uma trela na oficina do meu avô e ele não tinha me pego 🙂

A sensação foi muito boa e como sempre acontece eu queria dividir isso com o mundo. Queria proporcionar isso para todas as pessoas com as quais eu encontrasse. Queria fazer as pessoas enfrentarem os seus medos porém sem aboli-los. Queria ensinar as pessoas a usarem seu medo para as fazerem mais felizes ! Por paradoxal que seja.

Comecei a levar alguns amigos ao passeio do Coqueirinho Solitário, como ficou mundialmente conhecido(?), e obtive resultados muito gratificantes. Vi homens crescidos sentirem medo e enfrentá-lo com coragem (as vezes uma pitada de irresponsabilidade) e conseguirem chegar a praia do coqueirinho com uma expressão de realização misturada com alívio. Vi lágrimas de alegria. Vi também alguns jurarem que jamais voltariam a fazer um passeio comigo 🙂 Well .. não se pode acertar todas.

Desde então o tema me fascina e de vez em quando encontro novos amigos pilotos que dão a chance de ajudá-los a superar seus próprios limites, quando pelo menos não os conhecerem mais nitidamente. A todos eu deixo 10 mil dos meus melhores obrigados pois é muito gratificante. Espero continuar fazendo isso por muito tempo.

Enquanto isso, lembro aqui a Litania Contra o Medo do Frank Herbert

“I must not fear.

Fear is the mind-killer.

Fear is the little-death that brings total obliteration.

I will face my fear.

I will permit it to pass over me and through me.

And when it has gone past I will turn the inner eye to see its path.

Where the fear has gone there will be nothing….

only I will remain”

E para quem achar essa litania muito complicada, deixo o link para o brilhante poema do Chico Buarque de Holanda, que é mais didático e não menos forte.

O calcanhar de aquiles dos sistemas democráticos

press[1]Democracia se aprende com a prática, já dizia o grande Sobral Pinto. Praticar a democracia não é fácil pois requer uma maturidade raramente observada na turba. E como democracia só vale se for com a participação de todo mundo … a coisa complica.

Uma das premissas fundamentais para funcionamento dos sistemas democráticos é o livre acesso a informação isenta. Combinar o “livre” com “isenta” é que são elas. Como saber se a informação que forma opinião e voto é de fato isenta ? Na verdade, ter acesso a informação isenta é virtualmente impossível portanto a forma para evitar a manipulação da opinião é ter acesso a informação de várias fontes divergentes, pontos de vistas distintos e através de uma análise detalhada dessas informações o indivíduo forma a sua opinião. Só que isso dá muito trabalho e está sujeito a diversos fatores que podem deturpar a fonte ou mesmo a opinião formada.

Entre os fatores que afetam a opinião podemos citar:

  • Grau de isenção da fonte
  • Grau de qualidade da informação (quão precisa a informação é)
  • Velocidade e acessibilidade da informação (quão fácil é encontrar a fonte e sua informação)
  • Formato e clareza da informação (quão clara a informação é exibida)
  • Fator de sociabilidade da informação (como essa informação afeta a sociabilidade do indivíduo que a absorve)

Todos esses fatores podem ser manipulados para que o indivíduo forme uma opinião que seja de interesse do agente manipulador. Os fatores também podem ser afetados por interesses não diretamente relacionados a uma opinião em particular. Um factóide, um meme, pode surgir sem uma intenção deliberada e ser aproveitado por outro agente manipulador. Na era das redes sociais conjugadas a geração de conteúdo por qualquer  e acesso instantâneo, o manipulador não precisa sequer criar o conteúdo de informação dúbia. Basta manipular a sua propagação de forma sutil  e obterá efeitos mais fortes do que se ele mesmo a publicasse. Uma isenção velada pode ser muito útil a certos interesses.

Em tese, para combater essa manipulação o remédio é a população mais bem informada. Mas como informar melhor a população ? Quem julga e/ou define o que é “melhor” para a população ? Essa pergunta nunca foi adequadamente respondia porém os efeitos nefastos da desinformação são sentidos em todos as sociedades, independente do suposto nível de desenvolvimento.

Vejam só essa brilhante palestra do Hans Hosling, um paladino virtualmente desconhecido da luta pelo acesso amplo e irrestrito a informação de qualidade.

Com essa simples mas brilhante palestra, Hosling demonstra que a alienação não é privilégio exclusivo de quem pertence a uma classe social e/ou profissional mais capacitada (seja lá isso o que for). De forma elegante e sutil, Hosling destrói o mito de que a imprensa livre é uma fonte confiável de informação relevante. O driver que impulsiona a suposta imprensa livre não é abastecido pelo desejo de informar melhor a população e sim de obter uma audiência maior. O que motiva a imprensa livre é o mesmo que motiva o autor de novela: a audiência. Vale tudo para obtê-la, inclusive as apelações a parte emocional das pessoas, que frequentemente é incapaz de enxergar a verdade.

Nesses tempos de redes sociais e postagens orientadas a quantidade de “curtidas”, como fica a verdade ? O desejo de fazer sucesso é maior do que o apreço pela verdade. Além do “sucesso” da publicação, do número de curtidas, o bom e velho etnocentrismo continua influenciando o conteúdo do que se posta. As vezes o desejo de fazer parte de um certo grupo motiva a pessoa a postar algo que ela nem concorda ou é indiferente mas que a fará ser mais aceita pelo grupo a qual ela almeja participar. Isso é particularmente forte quando a sociabilidade é colocada acima do bom senso. Mais sucesso fará com a “turma” se postar algo semelhante ao que eles postam. Se é verdadeiro ou não, pouco importa.

Os fatores internos, que dependem do indivíduo, já são suficientes para causar uma distorção enorme na obtenção de informação e portanto de opinião densa e isenta. Os fatores externos são observados de alguma forma na própria imprensa, fonte maior de informação para as pessoas. Vejam o mapa abaixo

Web

Imprensa realmente isenta e sem problemas é exceção, como se pode ver. O reflexo dessa situação é imediatamente sentido na opinião pública e em seguida na representação política. Mesmo em estados supostamente democráticos, a representatividade é uma farsa. O que dizer dos estados onde não há vestígio de liberdade de imprensa ?

O cenário é particularmente sombrio porque a alternativa a obtenção de informação, excluindo a imprensa “gun for hire”, é rara, de difícil acesso e com linguagem pouco acessível. Os centros de pesquisa seriam uma fonte mais isenta mas como atestar a isenção ? Como verificá-la ? Como se não bastasse esse problema fundamental, outro problema é o custo desse acesso. Pesquisas científicas custam caro e com frequência precisam de financiamento externo. Não é razoável supor que algum interesse político/econômico irá custear uma pesquisa cara para demonstrar algo que venha de encontro a tais interesses. Será que a pluralidade de tendências é uma solução ? Novamente o poder econômico poderia fazer pender o resultado da pesquisa para algum lado.

CR_676774_esta_es_la_verdad[2]Finalmente, o fator complicação e trabalho mantém o cenário sombrio. Numa forma orwelliana, a dificuldade que o trabalho de pesquisar múltiplas referências causa ao indivíduo típico age com um filtro onde apenas os mais determinados terão acesso a informação de valor para formar opinião. Essa será uma minoria, as supostas elites do pensamento, a “intelligentsia”, tradicionalmente vistas com muito preconceito pela turba.

O que fazer então ? Seguir as dicas que o Ola Hosling (filho do Hans) fala no vídeo. Desconfie das manchetes e assuma uma postura crítica. Tente identificar qual o interesse por traz da divulgação daquela mensagem. Lembre-se que manchetes sangrentas e sensacionalistas sempre vendem mais jornais, hits em clicks de site, retweets  e “curtidas” em postagens de Facebook. Busque sempre que possível a opinião contrária e analise a veracidade das colocações. Não se contente com o que um site de esquerda/direita fala sobre o assunto. Se um esquerdista faz um pronunciamento, veja o que o direitista diz a respeito. Tente separar opinião de fato. Não jugue baseado apenas no que a imprensa escreve. Embora o sistema judiciário mundial seja fraco e o do Brasil mais fraco ainda (e lento, e corrupto, e incompetente, e lento e outros 328 adjetivos pejorativos), ainda é o menos ruim que dispomos. Lembre-se de que todos são inocentes até que se prove o contrário e que manchete de jornal/site/blog não é prova de inocência ou de culpa.

Leve em consideração que análises de circunstâncias em outras geografias tendem a esquecer algumas peculiaridades locais. Por outro lado, o ponto de vista externo é bom para mudar o referencial. Alguém que nunca pisou numa cidade, nunca experimentou a realidade local, dificilmente terá um relato consistente. Porém, alguém de fora que esteve lá pode ter um ponto de vista que quem está lá no dia-a-dia não é capaz de vivenciar por estar intoxicado com a cultura e/ou paradigmas locais.

Como fonte de referência, consulte sites de pesquisa com reputação tais como:

  • The Gapminder – O site do Hans Rosling mencionado no vídeo acima
  • Pew Research – Conceituado site americano
  • TED – Para quem prefere palestras. Lembre-se de assistir debates com pontos de vistas divergentes. Um exemplo é esse debate sobre energia eólica versus nuclear
  • IBGE – Surpreendentemente um dos melhores sites para obter dados reais sobre a realidade do Brasil.
  • Portal Transparência – Com uma pitada de sal
  • Observatório da Imprensa – Excelente para conferir se algo de fato foi corrigido pela imprensa
  • Boatos.Org – Excelente para ver se algo postado na internet (fotos, vídeos, etc), são verdadeiros ou não.

E você ??? Se considera alienado ?

Teste aqui se você é alienado

Porque fazemos as coisas que fazemos ?

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O que nos leva a fazer coisas ? O que nos impele a sair da inação para a ação ?

Parece bastante óbvio que o maior motivador, impulsionador da ação humana é a sobrevivência. Muita coisa foi e é feita sob essa justificativa. Fazemos coisas, realizamos atos para sobreviver, para nos mantermos vivos. Mas a medida que a sociedade humanda evolui, o esforço para sobrevivência fica menor. Nossos ancestrais pré-históricos tinham que dedicar uma boa parte do tempo de sua vida a procura de alimento e a luta contra outros predadores. Hoje em dia a vida está mais fácil, do ponto de vista de sobrevivência, apesar de toda a impressão que se tem que está cada vez mais difícil.

Os fatos contrariam a percepção generalizada. Da longevidade da população, índice de mortalidade infantil, altura média da população, índice de bem estar médio, diminuição do número de mortes violentas, todos os indicadores apontam para uma vida mais fácil.

Isso acaba proporcionando as pessoas mais tempo para elas fazerem o que querem, não só o que precisam fazer. E aí que começam a aparecer as coisas mais bizarras que a humanidade é capaz de fazer.

Quando alguém faz alguma coisa por sobrevivência, fica fácil de entender o que a levou a fazer isso. Mas e quando a sobrevivência não é a justificativa ? Deixando de lado os atos medonhos e moral/eticamente reprováveis, resta muita coisa que as pessoas fazem e que não encontra explicação tão facilmente.

Essa tirinha do Calvin & Hobbes me despertou esse questionamento. As tirinhas de C&H frequentemente tem esse efeito em mim. Além de serem superdivertidas, elas tem um quê de poético ao provocarem sensações que ultrapassam o que está desenhado, assim como a poesia é mais que métrica e rima. Outra coisa curiosa sobre as tirinhas é que não há garantia de que vá provocar em uma certa pessoa algo sequer parecido do que provocou em outra. Frequentemente mando essas tirinhas para parentes e amigos e na maioria das vezes recebo como resposta algo que é melhor traduzido num “E daí ?”.

No caso dessa tirinha em particular, vejo a questão do sentido da vida. Parece uma viagem e tanto para um assunto supostamente tão importante como o “Sentido da Vida” (filmes inteiros foram feitos sobre esse assunto) partir de uma simplória tirinha de história em quadrinhos. Mas será ? Será que algo tão supostamente importante como o sentido da vida pode prescindir de uma simples piadinha ? Será que é menos importante o que o autor da tirinha, talvez até não propositalmente, traz a tona quando diz “Because it’s there !” (porque está lá) como justificativa para um ato supostamente sem importância como descer um morro de neve num trenó ? Quem é que classifica isso como relevante/não relevante, importante/não importante ? Assim como a tirinha pode tocar ou não tocar alguém, assim como o efeito de diversão pode ser sentido ou não, essa variação de relevância nos motivadores da ação pode variar muito de uma pessoa para outra. E assim, o simples fato de simplesmente estar lá é mais do que suficiente para uns e um motivo absurdamente banal para outros.

A linha que separa a ação da inação varia muito de uma pessoa para outra, parece claro. Mas existe algo ainda mais interessante. Ela varia para cada indivíduo ao longo do tempo de das circunstâncias. Algo que seria suficiente motivador em um determinado momento, pode não ser em outros. Essa medida de disposição para ação não é precisa, é inconstante, flutua com o tempo, varia de indivíduo para indivíduo e não existe um aparelho ou método para medí-la. Pode ser considerada a coisa mais etérea e volúvel da civílização humana. A manifestação do fenômeno da ação causa assombro e é explorado pela mídia. O que levou essa pessoa a fazer tal coisa ? Todos os dias vemos relatos de pessoas que fizeram coisas impressionantes com motivações as mais diversas possíveis e tentamos nos colocar no lugar delas: Será que eu teria feito a mesma coisa ? Será que eu teria feito nessa intensidade ? Ou, esse cara é maluco de ter feito isso só por causa daquilo.

Esse assombramento só tende a aumentar. A medida que a tecnologia proporciona mais tempo para lazer, as pessoas serão impelidas a fazer mais coisas diferentes, nunca tentadas e ainda por cima “só porque está lá”. A medida que essa frequência aumenta, a probabilidade de que abusos sejam cometidos também aumenta. A linha da motivação cruza a linha do respeito pelo direito dos outros. Fazer o que quiser, o que lhe der na veneta, é totalmente permitido desde que não fira qualquer outro direito de qualquer outra pessoa. A liberdade existe mas ela não pode ser confundida com permissividade. Mas isso é outra história.

Enquanto isso, segue a busca pelas motivações. Uma delas é a busca pela felicidade.

Fazer coisas no intuito de alcançar a felicidade, de chegar ao nirvana, de merecer o paraíso. Esse parece ser o motivador mais eficaz e mais universal. Todo mundo quer ser feliz, até mesmo as pessoas em profunda depressão. A diferença desses últimos é que acreditam mesmo que não são capazes de coisa alguma para serem felizes, ou que nada adianta ser feito. Mas querer, eles querem, portanto, todo mundo quer ser feliz.

Mas será que a felicidade é algo alcancável a partir de nossos atos ?

Eu acho que não.

Mas ainda assim, paradoxalmente, acho que qualquer um pode ser feliz.

Basta fazer coisas ! Basta buscar a felicidade. A felicidade está na busca, no processo. É algo dinãmico e permanente, móvel, agitado, inconstante, não mensurável, volúvel, frágil, efêmero e que precisa ser renovado a cada novo instante, assim como um movimento browniano. Pensando assim, teorizo se a linha de motivação mais baixa está ligada a capacidade de alguém de ser feliz. Suponhamos que fosse possível medir a linha de motivação, ou seja, o ponto a partir do qual um indivíduo se sente suficientemente motivado para fazer coisas, qualquer coisa, da mais simples e banal até a mais complexa ou estapafúrdia. O limiar para disparar a ação, se fosse possível medí-lo, seria então inversamente proporcional a capacidade de ser feliz daquele indivíduo. Quanto mais facilmente ele faz coisas, mais feliz será. Nessa hora, muita gente irá perguntar : Mas por qual motivo ? Mas com que finalidade ? E no exemplo extremo para fins de ilustração, eu responderia : por motivo nenhum … apenas porque está lá.

O piloto, o painel de instrumentos e o padre

Semana passada a minha enteada concluiu o segundo grau e me convidou para o culto ecumênico (supostamente ecumênico) da Igreja Anglicana estreitamente ligada ao colégio onde ela estudou o 2º e o 3º ano.

Eu gosto muito dessa minha enteada e por causa desse amor decidi fazer o social, ou seja, ir ao culto, marcar presença e tolerar as técnicas de doutrinação e lavagem cerebral. Se por um lado eu não alimentava muitas ilusões sobre o que eu iria ouvir, por outro sempre me disseram que a denominação anglicana tem uma postura mais moderna, mais versátil. Vários conhecidos meus, pessoas bastante razoáveis, disseram-me que os sermões dos párocos de tal igreja frequentemente podiam ser aplicados a qualquer pessoa independente de sua religião pois tais sermões tratavam de questões relevantes da vida das pessoas. Decidi dar uma chance ao padre, que ouvira dizer, era gente boa.

Que decepção.

O conjunto de argumentos religiosos estavam todos lá disfarçados numa linguagem mais moderna, devo reconhecer. Os argumentos que de fato faziam algum sentido chegavam a ser triviais e óbvios. O resto dos argumentos não eram argumentos, a rigor. O carisma do pároco era muito bom e ele demonstrava completo domínio da audiência, das ovelhas, digamos assim. Sua substância, no entanto, era fraquinha fraquinha …

O estilo desse pároco apelava mais para as “fábulas atuais”, ou seja, situações contemporâneas que expõem as pessoas a questões difíceis do ponto de vista ético e/ou moral. Pena que a trivialização das questões e o manequeísmo estavam bem presentes. A primariedade das fábulas era tanta que me fez pensar sobre o grau de discernimento da audiência. Será que o pároco foi primário porque a audiência não assimilaria nada mais sofisticado ? Assim como um político que ajusta seu discurso de acordo com o eleitorado abordado em cada comício ? Bom, o nível chegava ao de Teletubies. As fábulas eram daquelas que você já sabia o final … antes mesmo de terminar a segunda frase.

Uma dessas fábulas era aquela típica fábula da ameaça velada, ou … da inveja velada. Pessoas que aparentemente tinham vida boa, de sucesso financeiro ou profissional .. no fundo tinham problemas emocionais seríssimos. Espaço até para um pouco de chauvinismo por parte do padre, do tipo em que menciona a mulher bonita e rica que faz sucesso na sociedade mas que ao se confessar para o pároco revela que é adúltera ! VADE RETRO !!! Rotulada e defenestrada, o pé de pavão da madame é o que é ressaltado na história. Mas e o contexto  ? E o que essa mulher da história passou ? O que ela sentiu ? Não importa, o rótulo está lá. E obviamente, para um problema sério como esse de adultério … a solução é … JESUS ! Não sei exatamente que tipo de recomendação alienante e falso moralista o pároco passou para a pecadora mas a idéia básica é a seguinte, pode fazer o que quiser, minha ovelha, mas ser feliz só se Jesus estiver na sua vida, embora, do ponto de vista prático, tem nada a acrescentar/ajudar. Essa manobra cínica revela como um profissional treinado (o pároco) se aproveita da inveja das pessoas para manipular suas opiniões e sentimentos. A pessoa rica e de sucesso tem o pé de barro. Você pode até sentir inveja mas como consolação saiba que se você tem Jesus, ela não tem !!! Tanto que é adúltera !!?? Entenderam a lógica obtusa ? Ao mesmo tempo em que apela para inveja da maioria da audiência, manipula a culpa da mulher adúltera.

Mas essa ainda não foi a pior da noite.

Em certo momento o pároco mencionou que um dos fiéis era um piloto de aviões e que esse piloto as vezes achava que o avião estava subindo/descendo embora quando checava nos instrumentos percebia que o voo estava normal. O pároco então perguntou “Meu filho, você confia nos seus sentimentos quando está pilotando ou no que o painel de instrumentos lhe diz? “ e o piloto respondeu “Padre, se eu confiasse nos meus sentimentos eu já teria derrubado meu avião várias vezes”. Bom … essa parte do sermão foi a que eu achei a cereja em cima do bolo no que diz respeito a besteira. Ora, se religião é fé e sentimento, essa parábola é um verdadeiro tiro no pé no que diz respeito a estimular a parte sensitiva dos fiéis. Se for para acreditarmos mais no que os painéis de instrumentos da vida proporcionam, a rigor, não precisaríamos de religiões doutrinantes e ilógicas. Quando um padre pede para o fiel usar o painel de instrumentos, ou seja, a observação objetiva dos fenömenos que o cercam, o fiel é induzido a uma reflexão racional, a uma libertação baseada no cognos. Isso é justamente o discruso anti-religioso. Quando o pároco usou o “Tá vendo ?! Você tem que confiar no painel de instrumentos e não se deixar levar por sentimentos”. Oxente ? ! Mas essa n idéia é diametralmente oposta a das crendices em geral e da religião cristã em particular ? Por incrível que pareça, para o pároco, a Bíblia é o “instrumento” que deve guiar a vida das pessoas. Bom, não preciso dizer que depois de um argumento desses minhas expectativas quanto a relevância do sermão do padra ficaram abaixo de zero. Um sofisma desses não se sustenta nem diante do crente mais obstinado. Um livro cheio de preconceito e dizeres absurdos não serve de guia moral ou espiritual para quem quer que seja.

Mas o sermão foi um sucesso. As pessoas saíram da cerimônica verdadeiramente bem. Sentindo-se bem, digo. O que atesta o “poder da palavra”. Lamentavelmente, é uma falácia e no final o que importa é o bem que o sermão proporcionou a essas pessoas.

Será que os fins justificam os meios ? Será que devemos respeitar as religiões pelo fato delas proporcionarem esse conforto espiritual baseado numa mentira ?

Em algum momento a pergunta difícil aparece: você quer ser feliz ou quer ter razão ? Em uma parcela significativa da sociedade a opção pela felicidade prevalecerá, mesmo que seja baseada num sofisma. E com esse fim, o que mais importa ? Desde que se seja feliz, importa o meio que se utilizou para alcançar tal objetivo  ? Talvez seja possível, de fato, ser feliz acreditando numa lenda ao mesmo tempo em que não se faz mal a ninguem. Talvez seja válido para uma ou outra pessoa.

Tomara que não seja válido para todas as pessoas ao mesmo tempo.

Religiosidade e doutrinação

Quando eu tinha 8 anos ingressei em colégio religioso católico. Estudei neles até os 14 anos.Quando eu tinha uns 10 anos decidi ler a bíblia de cabo a rabo (ops). Lembro perfeitamente de ter conseguido e lembro perfeitamente que não entendi nem 10 por cento do que lia. As histórias eram confusas, cheias de contradições, algumas sem pé nem cabeça isso sem falar na linguagem rebuscada e arcaica. O que me marcou era como as histórias eram fantásticas. Homens que viviam 900 anos, tinham 300 filhos. Deus vingativo e mudava de opinião o tempo todo. Deus submetendo as pessoas a matarem os próprios filhos. A passagem de Abraão foi a que me marcou mais.Nunca me identifiquei com a religiosidade da escola que frequentava. Me sentia um outsider, um ET. Lembro de colegas que ansiavam por ir a missa e eu achava aquilo um saco. A tentativa de ler a bíblia, recomendaçào dos padres da minha escola, era uma chance que eu dei a esse negócio todo de ter uma explicação, de fazer sentido, de ser interessante. Como todo colégio religioso, tinha aula de religião compulsória. Era o fim de picada. Os padres, com frequencia eram estrangeiros, e como se não bastasse a dificuldade do idioma/sotaque bizarro eles tratavam os alunos como débil mental. Ao menor questionamento que eu fazia, sacavam algum dogma. Eu frequentemente ia para recuperaçào e uma vez lembro que meus pais foram chamados lá e ameaçaram expulsar-me se eu não tomasse tenência. Só gostei das aulas de religião quando um padre novo, brasileiro, adepto da Teologia da Libertação, mandava a gente fazer trabalhos sobre a biografia dos ganhadores do prêmio nobel da paz (lembro que o meu foi um judeu chamado Albert Schwitzer) e sobre quanto deveria ser o salário mínimo. Quando eu tinha uns 12 anos, minha última tentativa foi fazer um cursinho para primeira comunhão. Todos os meus colegas iam fazer entào eu fui fazer também. Tinha que pagar uma taxinha para comprar a apostila e eu paguei e fiquei ansioso para recebê-la porque devia ser um livro mais legal do que a chatice da bíblia. Que decepção. A apostila era concebida para quem tinha algum problema mental, só pode ser. A técnica fundamental era da repetição a exaustão dos dogmas para doutrinação. Abandonei o cursinho e nunca fiz primeira comunhão. Quando tinha uns 13 anos cheguei a conclusão que eu era ateu e deixei de ler coisas relacionadas a religião em geral e a cristianismo em particular.
O tempo passa e quando eu já era adulto, dezenas de anos depois, trabalhava numa empresa, era gerente lá, e um funcionário de origem muito humilde se esforçava muito para melhorar de vida. Eu ajudei esse cara e ensinei algumas coisas a ponto dele mudar de carreira, fazer cursos e hoje é um profissional de alto nível. Esse cara ficou tão grato a mim que me deu um livro de Mórmon, a bíblia dos mórmons. Que livro interessante ! Por ter sido escrito no século XIX, ou seja, mais moderno. Bem mais fácil de ler e com histórias mais fantástica, de apelo mais atual. Eu recomendo dar uma lida nele.
De qualquer forma, o apelo da religião é completamente inefetivo para mim. Nunca me senti tocado espiritualmente, emocionalmente, pelas histórias das religiões. Assumi então a postura de análise fenomenológica da religião. Como manifestação cultural é muuuuito interessante.

 
 

Os dinossauros e a regulamentação do seu feudo

Os dinossauros tinham o poder absoluto sobre a face da terra. Eram podersosos, a espécie mais dominante sobre a face da terra em todos os tempos. O mundo funcionou durante milhões de anos em função dos dinossauros. Reinaram por mais tempo do que qualquer outra espécie na história do planeta.

Até que um dia um tipo de criatura mais moderna, de sangue quente, menor, ínfimo quando comparado as dimensões titânicas dos bichões, mas mais ágil, mais adaptável, mais versátil, surgiu. Hoje não existem mais dinossauros e embora os mamíferos tenham apenas uma fração do tempo da existência dos dinossauros, o mundo hoje é tão ou mais magnífico do que a época do grandes sauros.
Dinossauros não pensavam mas se pudessem, teriam regulamentado a profissão de animais reinantes na face da terra. Não fariam isso para o bem do planeta ou no interesse comum. Fariam isso para preservar a sua espécie, nada mais natural. Mas mesmo que pensassem, mesmo que regulassem, mesmo que tentassem, seria uma açào inócua. Os mamíferos prevaleceriam. Os dinossauros pereceram porque não se adaptaram aos novos tempos.
Quando eu era garoto (faz tanto tempo que foi logo depois da época dos dinossauros) meu avô me contou que a profissão de motorista era extremamente elitista. Um bom motorista, no início do século XX, era um profissional muito requisitado. Tinha até ajudante pois se o pneu furasse, o motorista era “bom demais” para se submeter a trocar um pneu. A medida que os carros se popularizavam, um movimento para regulamentar a profissão de motorista surgiu e a idéia era exigir uma formação adequada a quem quisesse dirigir um carro. Só os membros da corporação de ofício poderiam guiar os carros. Essa regulamentação chegou a ser elaborada !! A prática imposta pela evolução tecnológica simplesmente ignorou tal regulamentação e hoje em dia qualquer um, até mulheres, podem dirigir carros. Digo até mulheres porque a regulamentação original proibia explicitamente esse gênero.
Vejam só mais uma palestra magnífica do TED
http://www.ted.com/talks/clay_shirky_how_cellphones_twitter_facebook_can_make_history.html

Ela trata do ocaso dos jornalistas dinossauros. A tecnologia permite que qualquer um de nós seja repórter, que qualquer um de nós analise e opine sobre fatos. Mais do que isso, o meio de propagação da informação jornalística tende a fugir do controle dos grandes grupos econômicos. Com a democratizaçào radical da geração e divulgação das notícias, ficaremos livres dos interesses escusos de Globo’s e Record’s da vida. Estamos no começo da revolução midiática e de conteúdo.
Os dinossauros, obviamente, farejam desde já os tempos duros que vem por aí. Principalmente os medíocres que preferem que outros resolvam o seu problema. Um orgão operado por outros para garantir seus privilégios laborais, que mantenha a “corporação de ofício”. Esses dinossauros serão exintos.
A nova espécie enxerga a oportunidade pois é capaz de se adaptar ao novo ambiente e sabe que vai florescer e prosperar.