Oracle (dona do Java), avisa: O uso gratuito do Java subiu no telhado.

Como a maioria deve saber, a linguagem de programação Java surgiu dentro da Sun em meados da década de 90 e prometia ser a linguagem universal para programar desde console de video-game até aspirador de pó. A vida real tinha outros planos para essa linguagem fabulosa que virou a principal linguagem para desenvolvimento de sistemas aplicativos nas corporações. Estima-se que 30% de tudo que é de software aplicativo novo no mundo dos negócios é escrito em Java, deixando o resto para ser escrito em todas as outras linguagens sendo que nenhuma outra chega a 10%. Ou seja, Java é um sucesso.

Mesmo sendo propriedade da Sun, Java parecia ao mundo como se fora de domínio público, uma linguagem “sem dono”, ao contrário do Visual Basic, por exemplo, que é da Microsoft uuuuuu, vade retro satanás! Ter que pagar por uma linguagem ?? Nem pensar. A Microsoft era demonizada e o Java era louvado.

O tempo passa, o tempo voa e a … Oracle .. quem diria … engoliu (comprou) a Sun, com casca e tudo. Detalhe, bancos de dados Oracle já podiam ser programados nativamente em Java antes da aquisição. Foi o maior auê na época. A Oracle comprando um fabricante de hardware ? Well, faz sentido. Agora a Oracle pode fornecer um pacote de superservidores de banco de dados envolvendo software e hardware de primeira. Mas será que era por isso exatamente que a Oracle estava disposta a pagar 7 bilhões de dólares pela Sun? Por um fabricante de hardware ?? Será que foi isso gente? Eu acho que não. Oracle estava de olho era no Java, que há 10 anos em 2008 já despontava como a linguagem corporativa por excelência. O auê só aumentava. Qual vai ser o futuro de Java ? Vamos poder continuar a fazer programas em Java e vender nossos programas ? E o software livre feito em Java ? Vai deixar de ser livre ?

A Oracle apressou-se em acalmar a indústria de software e jurou de pés juntos que tudo ia continuar como antes e que a Oracle iria dar ainda mais apoio e investir ainda mais dinheiro no desenvolvimento da linguagem Java. Os gritos de “linguagem com dono não serve para o domínio público” voltaram-se contra a linguagem Java. A Oracle pratica políticas de licenciamento tão ou mais leoninas do que a Microsoft. E agora ?? Os debates nos fóruns pareciam embates religiosos. Alguns defendendo Java, outros avisando para pularem fora pois era só uma questão de tempo para a Oracle começar a querer organizar essa suruba que faziam (fazem) com a linguagem DELA. Apesar do bafafá, tudo continuou como dantes no Quartel de Abrantes. Apesar da invasão napoleônica (alguém duvida que a Oracle, assim como Pinky e Cérebro, quer dominar o mundo?) feita pela Oracle a terra do Java, de fato, pouca coisa mudou. Tecnicamente, mudou bastante e para melhor. Java hoje é ainda mais rápida e poderosa, as ferramentas de desenvolvimento estão maduras, os frameworks estão maduros e existe um fw adequado para cada coisa possível de se imaginar de ser feito com Java. A galera javiana se acalmou, a vida seguiu …. o tempo passou. O tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus … não existe mais. Só os mais velhos vão entender. O tempo passou e eis que …

A Oracle manda um aviso. Vejam aqui

O gato subiu no telhado. Os termos do aviso são ..”estranhos”, digamos assim. Explicitamente o que se lê é que “se você é um CONSUMIDOR que usa Java para uso individual ou pessoal, você continuará a ter o mesmo acesso aos updates como você tem hoje em dia pelo menos até o fim de 2020“. Como é que é ??? Que papo é esse de “pelo menos até 2020” ? Pois é pessoal! O suporte “gratuito” pelo jeito subiu no telhado….

E tem mais!

Se você é um DESENVOLVEDOR … a Oracle recomenda que você reveja a sua estratégia de como vai continuar distribuindo o seu software ….

E tem ainda MAIS !!!

Se você é uma empresa/corporação, reveja ainda mais detalhadamente pois vai precisar adquirir uma licença comercial do Java!!!!! Ou seja, além de pagar para o desenvolvedor do software, a empresa vai ter que pagar para a Oracle uma licença para rodar/desenvolver qualquer coisa em Java.

Então, meu caro, …. aquela  brilhante ideia de desenvolver um aplicativo em Java que iria trazer toneladas de dinheiro para você … precisa ser revista pois a Oracle já avisou que vai querer a parte que lhe cabe nessa farra.

 

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Uma breve história da Internet

Em meados dos anos 60 pesquisadores conseguiram fazer com que um computador num site conseguisse mandar dados para outro computador em outro site. Observer, era uma ligaçao ponto-a-ponto. Isso por si só já foi um sucesso.

Logo em seguida, os pesquisadores cogitaram interligar outro ponto ! E como manter os 3 ligados ao mesmo tempo  ? O ponto A se liga ao ponto B. O ponto B se liga ao ponto C. Tem como A mandar/receber dados para C ? Essas perguntas ao serem respondidas criou a ideia de rede de computadores.

Naquela época, computador era muito caro e só grandes corporações ou o governo tinham a grana suficiente para ter computadores e operá-los. Não só era caro de comprar como era caro de manter funcionando.

Com o advento da comunicaçao entre computadores, as corporações logo logo partiram para interligar suas sedes remotas. Obviamente, como eram corporaçoes, estabeleceram as suas redes para uso próprio. Eram as redes proprietárias. Cada grande corporação montava a sua. Os fabricantes de computadores viram a grana que tinha aí nesse negócio e criavam protocolos proprietários que “fisgava” as corporaçoes clientes. Uma rede de computadores da IBM dificilmente falava com uma rede de computadores da Burroughs (antigo forte concorrente, hoje Unisys). As redes proprietárias se propagavam nas corporaçoes. A ênfase dessas redes era a velocidade, mesmo que a custo alto, e os fabricantes de equipamentos pensavam que se criassem redes proprietárias, impediriam as corporações clientes de trocarem de fabricante, uma vez a rede estabelecida seria muito dificil trocar de um fabricante para outro.

Já o governo era diferente. As pesquisas patrocinadas pelo governo abrangem várias áreas distintas e várias faculdades, centros de pesquisa, até corporações. Cada uma dessas entidades tinha um computador de um fabricante/modelo diferente. Isso fez com que as redes estabelecidas e/ou patrocinadas pelo governo fossem mais plurais, diversas e por isso tinham que ser capazes de interligar equipamentos de fabricantes diferentes. Os protocolos então eram abertos, ou seja, qualquer um poderia aderir a rede desde que utilizasse o protocolo já conhecido e divulgado. Essa foi a primeira onda da internet. A adesão massiva dos centros de pesquisa, associados a uma universidade, independentes ou associados a corporaçoes. Além das agencias governamentais. Essa internet era “grátis”, digamos assim. Era bancada pelas verbas de pesquisa.

AO mesmo tempo, uma boa parte das pesquisas patrocinadas pelo governo dizia respeito a defesa (pesquisa de armamentos). Em caso de guerra, o governo queria que a rede fosse resiliente. Se um pedaço da rede fosse destruído num ataque nuclear, o resto da rede deveria permanecer funcionando.

Essa rede com essas características se chamava ARPANET e é a “mãe” da internet que conhecemos hoje em dia.

No início a ARPANET só interligava centros de pesquisa e orgãos do governo. Acontece que em várias pesquisas, havia participaçao do setor privado. Grandes corporações tinham que se ligar a essa rede de pesquisa para facilitar os contratos de construçao/desenvolvimento das armas pesquisadas. De repente, as corporações perceberam que estavam ligadas a outras corporações  através da rede e começaram a usá-la para outros propósitos que não o de comunicação direta com os centros de pesquisa.

Imagine que a IBM se liga a um centro de pesquisa para um projeto aí. Agora imagine que Microsoft se ligou a outro centro de pesquisa para um outro projeto. Através da rede a qual estão ligadas, a IBM pode se comunicar com Microsoft, dispensando uma ligação direta IBM-Microsoft. Esse é um exemplo fictício (plausível) com fins didáticos.

A medida que as corporaçoes perceberam isso, começaram rapidamente a se ligar a internet. Sim agora ela já se chama internet. Em pouco tempo, o número de corporações que se ligavam a rede sem que tivesssem algum envolvimento direto com pesquisa se tornou maior e velocidade de crescimento da internet começou a acelerar vertiginosamente.  A segunda onda da internet, a internet  corporativa, estava a plena velocidade. Para acessar essa internet sem estar envolvido em pesquisa … tem que pagar. Surgiu a internet paga. Na época foi a maior polemica.

Na década de 90 inventou-se o acesso discado a internet. Utilizando a tecnologia dos modens analógicos já disseminada entre os entusiastas dos microcomputadores que os usavam nos BBS (assunto interessantíssimo, recomendo) o microcomputadores começaram  a invadir a internet. O usuário comum, o cidadao, o profissional, o estudante, a pessoa física agora pode acessar a internet a partir do seu computador de casa. Esse boom durou até a segunda metade dos anos 2000.

Em 2008 começou a terceira onda da internet. O Mago Steve Jobs lançou o Iphone, o primeiro smartphone realmente viável e capaz de um uso bom de internet. A partir daí, a internet móvel, que até já existia mas era ruim demais, foi impulsionada e essa onda foi a que proporcionou a maior adesao de pessoas a internet. Dificilmente será superada em termos de quantidade absoluta de gente passando a acessar a internet. Se antes precisava de um computador e estar em casa/trabalho/escola, agora basta um celular metido a besta e o usuário pode acessar em qualquer lugar. Na rua, em casa, na casa da namorada/namorado (se bem que pra que né ?).

A quarta onda é a que estamos vivendo agora e é a onda da IoT, Internet of Things. Não basta o cidadão estar ligado a internet o tempo todo. As coisas dele também estarao ligadas. A casa, o carro, os aparelhos eletrodomésticos, os equipamentos do trabalho. A IoT será a onda que vai proporcionar o maior crescimento de hosts na internet embora a maioria absoluta de tais hosts não serão operados diretamente por humanos.

Definição motociclística de tatu

armadillo_black_white_line_art_coloring_book_colouring-4444pxHá anos eu escrevi um artigo aqui no blog mostrando o significado do termo “coxinha” para os motociclistas. O artigo era muito necessário numa época de polarização política. Coxinha em termos políticos tem um quê de pejorativo. Já em termos motociclísticos, tal termo é na verdade algo até carinhoso.

Para todo ponto existe um contraponto. Para toda tendência existe uma antitendência e para opor-se aos coxinhas existem os tatus. Mas o que é tatu em termos motociclísticos?

Uma imagem vale mais do que mil palavras e um vídeo vale mais do que um post com mil palavras. Esse vídeo abaixo, de uma rede de concessionárias BMW nos Estados Unidos, dá uma ideia bem próxima do que é ser tatu.

O tatu é um estado de espírito motociclístico. O tatu não quer o fácil, não quer o que todo mundo faz. O tatu quer ir onde poucos (ou nenhum) foram. Tanto melhor. O tatu pede orientações na estrada só que de um jeito diferente. Onde “não passa” é por onde o tatu vai. Onde “a estrada está ruim” é por onde o tatu quer ir. Onde tem areia, lama, água, rio, pirambeira, barranco, buraco, rieira, erosão, batente, porteira fechada, mar, riacho, escuridão, frio, calor, vento, neve, poeira, duna, atoleiro, mata, deserto, tronco caído, é por aí que o tatu quer ir. Dá para ver que tatu é especial. E não só por isso.

O tatu não se interessa muito pelo destino. Assim como todo bom motociclista, ele se preocupa mais com a jornada. O tatu se prepara e também improvisa. O tatu vai chegar lá de algum jeito. Vai levar a moto até onde não é mais possível seguir sobre duas rodas. E ainda assim, o tatu fica imaginando como poderia transpor o rio intransponível, subir o barranco íngreme, atravessar o lamaçal, superar o areial. Ao contrário dos coxinhas, o tatu tenta tudo. Tenta tu aí. Tem tatu aí. Se tem tatu, tem aventura.

O tatu é o aventureiro sobre rodas e a sua moto é a sua companheira. A moto do tatu é diferente da moto do coxinha. Moto de tatu é equipada porém sem supérfluo. O tatu não se preocupa tanto com a forma e mais com a função. A prioridade é a capacidade da moto de superar obstáculos. Pneus off-road, protetores de motor, protetores de mão, ferramentas, cordas, materiais para reparos diverso entre outros acessórios e ferramentas fazem parte do arsenal do tatu. Entre todos esses equipamentos o principal: o espírito destemido e abnegado, a técnica e a determinação que vem com o piloto tatu.

Identificar um tatu é fácil. Nos postos de gasolina as motos dos tatus são as mais sujas. Eles não se importam. Nos estacionamentos dos pontos de encontro é fácil saber quem é o tatu. São os que descem das motos com arranhões, são cicatrizes das aventuras, cada uma delas com uma história de superação. Nas lojas de acessórios e boutiques de motos também é fácil identificar um tatu. Ele não se importa muito com a tendência da moda dos calçados ou das roupas. Ele quer saber se é resistente, se faz frio ou se faz calor, se aguenta o rojão de passar dias sem ser lavada. Se aguenta o rojão de passar dias sendo lavada pela chuva, ou pela poeira ou pelos dois juntos. Acredite. É possível. Para um tatu é possível. Chama-se “trilha das 4 estações” e acontece quando um tatu leva a sua moto e num mesmo dia enfrenta todos os tipos de condições climáticas.

O tatu preserva a sua moto mas não a idolatra. O tatu curte a moto pelo que ela proporciona de emoção, do que ela exige de técnica e domínio do piloto. O tatu curte a moto pelo que ela é capaz de fazer com ele montado nela. O tatu não é exibicionista, não faz questão de ir de moto para tomar cerveja com outros tatus. Ele faz questão de se aventurar, de se permitir. E de encontrar com outros tatus. Se for na terra, melhor ainda.

O tatu não se incomoda se está perdido no meio do mato. O tatu não se incomoda se o design do pneu não é bonito. O tatu não se incomoda se o adesivo da moto caiu. Não se importa se o seu “colete” tem brasão de moto clube. O tatu só se importa com uma coisa: você tem coragem de ir onde outros não vão? Se você tem essa coragem, você é um tatu.

O que o tatu gosta? Ele gosta da terra, gosta da aventura, gosta da sua moto para levá-lo para esses lugares. O tatu vai ajudar outro tatu diante de uma dificuldade mas antes ele vai dar umas risadas do tombo, da atolada, da saída pela tangente na curva, da peça de bagagem que caiu da moto, do caminho errado que o guia pegou, da trilha marcada no gps, das fotos da moto atravessando o rio, ou o lamaçal, ou a duna, ou a enchente, ou a poeira, ou a fumaça de uma queimada, ou o deserto, ou o rebanho de cabras no meio do sertão brasileiro.

O tatu é o companheiro das aventuras que você sempre quis fazer e a pasteurização da vida urbanóide impediu. Para os tatus os fabricantes de moto criaram as bigtrails. Assim como o vídeo acima demonstrou, o tatu não precisa de muito. Não faz reservas (de hotel). Nem tem reservas (a quem quer que seja). O tatu está lá para curtir o motociclismo de fato, o motociclismo rústico, o motociclismo em que o mais importante é o piloto e não a moto endeusada.

O tatu adora a terra e daí que vem o seu nome. Entre o caminho 100% asfalto e a estradinha ruim cheia de buracos e que todos dizem que “não passa”, advinha qual é a que o tatu prefere ?

Essas já seriam diferenças suficientes para separar o tatu dos outros animais moticiclísticos. Só falta a diferença básica. A atitude e o comportamento diante dos tombos.

O tatu cai. Sim, embora não pareça, os tatus também são suscetíveis a lei da gravidade. Tatu leva tombo. E mais do que isso, tatu sobrevive ao tombo, encara como uma oportunidade de aprender. O tatu reflete sobre o erro que cometeu e melhora a técnica, aprende com o erro. Tatu não se vangloria de “nunca ter caído”. Se nunca caiu é sinal de que não explorou o limite da pilotagem.

Ninguem pilota uma moto para levar um tombo. A ideia é de fato não cair. Só que cair faz parte da vida. É preciso conhecer o seu limite e o tombo/queda é o marco. Quanto um tatu cai a primeira coisa que ele faz é pensar “Poxa, que foi que eu fiz errado?”. O tatu não põe a culpa nos outros. O tatu encara a merda que fez e a limpa. O tatu aprende com o erro. As vezes … precisa de dois erros para ele entender. Nem todo tatu é inteligente. Esse não é o ponto forte, inteligência. O ponto forte é a determinação.

Quando encontrar um tatu montado na sua moto, fique certo que ele estará disposto a compartilhar o caminho que fez ou pretende fazer, trocará uma dica, perguntará sem vergonha, buscará ajudar sem pensar em obter alguma vantagem. O tatu é antes de tudo um motociclista e como tal tem um senso de comunidade e participação mais aguçado. Assim como o amigo coxinha, o tatu não se nega a ajudar, não deixa o companheiro para traz. O tatu cuida do seu grupo.

Então quais são as diferenças entre os tatus e os coxinhas ?

Se a moto cai: O coxinha entra em desespero e perde o gosto pela moto. O tatu levanda, sacode a poeira e segue em frente.

Se a moto suja: o coxinha imediatamente lava, poli, esfrega e se for o caso troca de moto. O tatu não liga. Se alguém perguntar como foi que sujou ele vai contar a saga da trilha/passeio que fez.

 

 

 

Grande Raid dos Sertões

Alguns amigos pediram para eu simplificar o acesso ao relato da aventura de 4000km
Aqui vai

Dia 1 – De Recife a Petrolina – O personagem Calor aparece

Dia 2 – Petrolina a São Raimundo Nonato – Primeiros off-roads

Dia 3 – Turismo na Serra da Capivara

Dia 4 – Mad Max no Sertão do Piauí

Dia 5 – Um dia de coxinha

Dia 6 – Jalapão or Bust!

Dia 7 – Boring Asfalt in Bahia

Dia 8 – Trilhas e Cachoeiras na Chapada

Dia 9 – Tudo sobre rios e cavernas

Dia 10 – O Retorno do JEdAL

Conclusão

 

Tatus em Manguetown – Conclusão

Depois de 4000 km de aventura em cima de uma moto, o relato precisa de uma conclusão onde vou ponderar algumas coisas que não estão relacionadas com cronologia ou mesmo estão diretamente conectadas aos acontecimentos. São conclusões e ideias que surgem depois de uma jornada, como um balanço.

As motos

Black Mamba

A Famigerada, mítica, admirada Black Mamba, temida pelos coxinhas, minha F800 GS Triple Black ano 2012 que terminou a jornada com 29263km.

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Equipada com um bauleto Touratech de alumínio onde levei as ferramentas e peças de reposição, corda, além da capa de chuva. Minhas roupas seguiram numa mala amarrada no banco, capacidade de bagagem que se provou insuficiente e tive que aproveitar a mochilinha ordinária para trazer mais coisas. O engate do baú soltou durante algum momento entre Corrente e Lençois e eu só percebi no dia seguinte a nossa chegada em Lençois. Protetor de carenagem. Filtro de ar lavável K&N. Pneus Karoo 3, sendo que o dianteiro estava em meia vida e agora acabou de vez. Um carregador de 12v/5v usb no guidão, antena corta pipa e bolsinha de tanque da Givi com suporte para o tablet, que virou navegador GPS. A transmissão já estava em meia vida após 25kkm e agora está na lona, será substituida. Exceto pelos sustos com a injeção em Petrolina e próximo a Barreiras, a moto apresentou nenhum problema, inclusive esse último nunca mais apareceu. Sistematicamente a Black Mamba consumiu menos do que a Branca Filé de Tio Saulo. Depois dessa saga, a Black Manba vai passar por uma revisão completa quando instalarei as molas Hyperpro e o novo par de pneus Mitas E07. De longe, a melhor moto que tive em minha vida e nem tão cedo pretendo trocá-la, simplesmente porque não há no mercado moto mais adequada ao tipo de uso que faço (uso urbano e off-road nos fins de semana). O conforto poderia ser melhorado com uma bolha mais alta … com prejuízo para o uso off-road. Levou 5 tombos durante essa viagem, todos sem maior gravidade além de arranhar o protetor de carenagem.

Branca Filé

Branca filéA F800GS Branca, modelo 2014 de Tio Saulo. A mais bela e que chavama atenção por onde passava. Moto de coxinha. Bem cuidada, recém revitalizada. Equipada com Karoo 3 novinhos, banco confort (emprestado de Alan), protetor de carenagem modificado pelo próprio Saulo. Com 3 baús Givi monokey E360 tem mais capacidade de bagagem do que um carro popular 1.0. Para navegar, dois GPS, um Zumi e um Etrex. Levou apenas 3 tombos durante a viagem, sendo que um deles quebrou o engate do baú direito e no outro empenou a ferragem para a esquerda. Nenhum vestígio sequer de defeito ou problema. Uma das carenagens foi arranhada pelo parafuso da joelheira direita de Tio Saulo, problema prontamente resolvido com um adesivo protetor. O paralama havia sido partido por uma pancada do protetor de carenagem mal projetado. Tio Saulo modificou o protetor  e resolveu o desenho mal feito. O paralama foi recondicionado mas durante a viagem a vibração provocou uma rachadura que resolvemos com silver tape. Certamente será substituido em breve pois moto de coxinha não pode ter remendo de silver tape. Consumiu mais que a Black Mamba provavelmente devido ao “estilo” do piloto.

Equipamentos

Bokomoko – Levei apenas uma jaqueta Exustar verão, calça off-road ASW, joelheiras, uma capa de chuva impermeável, botas Forma Terra Adventure, capacete Mormai com pala (que removi), luvas Exustar de nylon e Alpine Star de couro. As Exustar são inadequadas para longas viagens e me causaram muitos calos. A Alpine star estava com um rasguinho que aumentou e inviabilizou seu uso. Pilotei sempre com camisas dryfit de manga longa, sendo que duas delas do MTA muito confortáveis. Levei também um par de sandálias havaianas apenas. Uma câmera Nikon D3200, uma objetiva de 200mm além da de 50mm, um roteador wifi 3g portátil com chip da Claro (que não consegui usar), um notebook, uma câmera Gopro 3 White montada ao lado direito do meu capacete. Vou mudá-la para o lado esquerdo para facilitar o liga/desliga. Uma câmera de ação xing ling que nunca usamos. Um par de walkie talkies baratinhos e seu carregador de baterias. Um tablet de 7 polegadas que serviu de GPS na medida em cima da bolsinha de tanque da Givi. Uma bateria externa para celular/tablet/câmera. Meu celular Samsung S4 também serviu de câmera fotográfica. Dois chips de 32gb que nunca encheram pois os limpava todo dia no notebook. Vários carregadores de celular, um adaptador de tomada universal (que pensei ter perdido e comprei outro, ficando com 2). Deveria ter levado um tênis ou bota de aventura. Tentei comprar um em São Raimundo Nonato mas não deu certo. Acabei comprando uma mochila para levar água nas caminhadas e que me serviu para trazer mais bagagem (presentes e a roupa suja).

Tio Saulo – Levou duas calças off-road, duas jaquetas sendo uma delas Bogotá multiwheather, dois pares de botas, um par de tênis. Um GPS Zumi e outro E-trex, ambos da Garmim. Levou também uma câmera Canon compacta mas muito boa e responsável por várias das melhores fotos de toda a jornada. Um fantástico compressor Michelin com motor 12v que nos salvou em várias ocasiões. Isso tudo coube e sobrou espaço nos imensos baús Givi. O celular Iphone com chip da Vivo foi o que funcionou melhor em termos de cobertura.

Ferramentas

Levei o meu kit tradicional de ferramentas que levo sempre em trilhas. Jogo de ferramentas Torx da Gedore de primeira, um kit de torx xingling com cabos mais longos e de plástico. Um jogo de torx fêmeas soquete porém o adaptador da catraca não veio. Compramos duas espátulas para montar desmontar pneus e descobrimos depois que são mágicas e protegem os pneus contra furos num raio de 200 metros. Seguiram no baú imenso de Tio Saulo. Levamos um par de câmaras de ar michelin sendo que a dianteira foi montada depois do primeiro furo e logo em seguida também furou. Compramos mais duas câmaras de reserva em São Raimundo Nonato da Pirelli mesmo. Tyre Repair da Motul que não usamos de bobeira (ainda bem). Minhas câmeras de ar estavam com vacina de pneu. A câmara que furou na estrada de Remanso/São Lourenço do Piauí tinha 4 furos, 3 deles tapados pela vacina. Foi remendada e acho que ainda funciona numa emergência. O pneu traseiro foi e voltou sem baixar uma vez e está com vacina.

Acesso a internet

Durante toda a viagem o acesso a internet foi precário. No momentos menos ruins, o 3g/4g da Tim e da Vivo funcionavam melhor do que as internet de hotéis e bares/restaurantes. O problema é que em vários locais nada funcionava. A melhor cobertura era Vivo, mesmo lá no sertão. Quando comprei um chip pré pago da Vivo para usar no roteador wifi o sinal da Vivo sumiu. Dei azar. O celular de Saulo era Vivo e funcionou a maior parte do tempo, com 3g/4g inclusive. Por causa do acesso precário a internet, os primeiros relatos não saíram com muitas fotos na primeira edição. Pretendo corrigir depois.

O roteiro

O roteiro preliminar era para irmos para a Chapada Diamantina. Por causa dos avisos de incêndio, mudamos para o Jalapão. Um erro induzido por mim. Tio Saulo sempre achou que devíamos ir para a Chapada. Mesmo assim valeu a pena pois a aventura ficou bem apimentada. O erro de roteirização no acesso ao Jalapão é muito comum. A dica que fica é que é preciso obter relatos de primeira mão e com confiabilidade. Não adianta desconfiar de um caminho e ficar na dúvida no meio de canto nenhum pois não há a quem perguntar e que dê informação confiável. Lá é deserto mesmo.

Como bônus passamos pela aventura de cruzar a Serra das Confusões. Ainda assim, pegamos um caminho errado e um pouco mais longo. Dá para explorar mais e usar um caminho alternativo, talvez mais radical, mais curto. Não pode ir sozinho para a Serra das Confusões. A minha queda quase parado demonstra isso.

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Já na Chapada, é tranquilo. Muito perto da civilização, região densamente povoada com acessos via asfalto. É coxinha, mas tá valendo

Sobre os pilotos

Bokomoko – 50 anos, num corpinho de 49. Nada mais a dizer a respeito de mim mesmo.

Tio Saulo – 36 anos de praia, surfe, off-road 4×4, piloto de CRF 230 e agora de bigtrail. Cara agradável de lidar, sempre divertido e com opinião sobre tudo. Chamei-o de Tio pois ele tinha orientação para tudo que fazíamos. Até a posição/orientação da moto no estacionamento. Liderou o passeio em 90% do tempo, definiu o roteiro de visitações, escolheu a comida, ligou/desligou a chuva. Alternou entre momentos em que era uma seda e um papel para embrulhar prego. Foi companheiro quando eu precisei no surto do Jalapão e me deu a chance de ajudá-lo quando ele ficou esgotado psicologicamente. Com Saulo e a experiência que ele tem eu vou até para a guerra.

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Sobre o Sertão

Como cheguei a mencionar, estive em Sobradinho há 36 anos. De lá para cá o desenvolvimento do sertão avançou bastante mas ainda há muito o que ser feito. Comparando a Arcoverde que visitei em novembro de 2005 com a mesma cidade de dezembro de 2015, dá para ver que as políticas de distribuição de renda deram certo e promoveram muito desenvolvimento econômico da região.

A vocação para o turismo é enorme e em alguns casos o potencial ainda não foi explorado sequer 1%. É o caso do Parque da Serra da Capivara que recebe apenas 20 mil turistas por ano. Parques semelhantes porém muito menores e com menos atrações na França recebem mais de 2 milhões de visitantes por ano. Comparando os números assim cruamente fica dificil de entender. No entanto, ao irmos para lá dá para ver o porque dessa discrepância enorme. A infraestrutura.

Se durante algum tempo a falta de acesso a água foi o motivo do atraso do sertão brasileiro em geral e do nordestino em específico, hoje já se sabe que não basta ter água (que por sinal existe em abundância, acreditem). O que falta é infraestrutura: estradas, aeroportos, telecomunicações, rede hoteleira, rede de serviços em geral.

Para um turista ir a Serra da Capivara no Piauí ele tem que estar disposto a muita aventura. O turista médio não quer isso. Ele quer relax, quer moleza. Encarar horas de estrada esburacada, num calor enorme e ter que se hospedar numa pousada que não tem acesso decente a internet para ele postar as fotos magníficas que fez no Facebook … nada feito. Esse turista ainda vai preferir ir para Porto de Galinhas ou coisa parecida.

Uma pena pois a beleza rústica do sertão, mesmo na seca, é encantadora. O sertão ainda tem coisas a serem descobertas e as que já foram descobertas precisam ser exploradas com consciência de preservação. O ambiente apesar de rústico é frágil. A fauna é surpreendentemente rica, considerando a escassez. Um dia ainda teremos resorts bacanas no meio do deserto como vemos em outros países.

 

Tatus na Chapada – Dia 10

Do que o amor pode tornar as pessoas capazes? O amor por uma estrada é capaz de uma pessoa cometer loucuras. Tio Saulo é apaixonado pela BR-101 e por causa da oportunidade de conjunção carnal que se aproxima ele tapa os ouvidos a razão. Gente apaixonada é assim. Ahhh… o amor ….

Hoje é o dia 9 de dezembro de 2015 e será um dia de deslocamento de Lençóis na Bahia para Manguetown (também conhecida como Recife) em Pernambuco. Não vai ter aventura, não vai ter trilha. Tudo 100% asfalto que nem o dia de deslocamento de Barreiras para Lençóis.

Na noite anterior demos uma pré-arrumada na bagagem, empacotamos o máximo de coisas possível e eu dei uma revisada na minha moto. Os parafusos que comprei para usar na bolsinha de tanque ficaram melhores que os originais. Reacomodei a bagagem, agora acrescida dos presentes e lembrancinhas para parentes e amigos. Não é fácil acomodar tudo na minha moto mas depois de muita engenharia a base de tentativa e erro, coube tudo.

Tio Saulo e sua capacidade de carga maior do que de um Jac J2 estava tranquilo. Os baús e360 givi são realmente uma beleza. Além de espaçosos, são resistentes, fáceis de montar/desmontar na moto e servem como malas. Na hora de montar, eu perco uma das pecinhas de acabamento que haviam caído do baú de Tio Saulo na travessia da Serra das Confusões. Ele fica furioso e com razão. Ainda procuro no canteiro do jardim mal cuidado mas não acho. A prioridade é arrumar as coisas e depois eu vejo isso.

Nosso plano é chegar o mais perto possível de Recife hoje, quarta feira. Pernoitaremos em algum lugar de Alagoas, provavelmente e na manhã da quinta partimos cedinho com a meta de chegar a Recife antes das 10 da manhã. Totalmente factível e com uma boa margem de segurança caso algum problema com as motos ou com a estrada apareça.

Durante o café da manhã na Pousada Raio de Sol conhecemos uma equipe do IBAMA que está lá incógnita para investigar e coibir os incêndios muito suspeitos que assolaram a Chapada nas últimas semanas. Um deles nos dá uma dica de desviarmos da BR-242 na altura de Itaberaba e seguir nordeste em direção a Ipirá pela BA-223 e depois pegar a BA-052 em direção a Feira de Santana, onde pegaríamos a famigerada BR-101. Fazendo assim, evitaríamos o trecho mais movimentado de caminhões da BR-242 que inclusive está com mais defeitos na pista a medida que nos aproximamos do litoral.

Dou uma última passadinha no posto para checar se a bandeira azul apareceu  … nada feito. Bom, paciência. Vamos seguir viagem. Acabamos saindo mesmo as 8hs da manhã.

O tráfego na BR-242 é intenso sem prejudicar muito o ritmo. Em Itaberaba, o portal da Chapada para quem vem do leste, desviamos para Ipirá e a estrada perfeita, reta e sem buracos está completamente vazia. Aceleramos e mantemos médias altas, o consumo vai lá para cima e fazemos a primeira parada para abastecer em Ipirá. Maravilha. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

Cruzamos a cidade pequena e pegamos a BA-052 em direção a Feira de Santana e a estrada fica uma porcaria. Um movimento enorme de carros de passeio e caminhões e o asfalto cheio de ondulações, buracos, imprudência e barbeiragem. Veículos lentos, poucas chances de ultrapassagem e veículos em velocidade acima do limite de segurança. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Chegamos em Feira de Santana e o TomTom me faz pegar o anel viário em direção ao leste. Num entroncamento fico na dúvida, Saulo afirma que entrei no caminho errado pois uma placa para Fortaleza mandava fazer a curva a esquerda e o Tomtom a direita.

Depois de seguir para Fortaleza percebo que estamos no caminho errado. Tio Saulo se esqueceu que a BR-101 não segue para Fortaleza. A placa estava indicando o caminho pela BR-116 que passa por Cabrobó, muito a oeste e fora de nossa rota.

Para complicar as coisas, o anel viário que já não é bem sinalizado está em obras. O trânsito intenso do final de uma manhã de quarta feira numa das cidades mais importantes da logística terrestre de todo o Nordeste tornam tudo devagar e complicado. Perdemos uns 30 minutos até acharmos o caminho da BR-101 que passa a sudeste de Feira de Santana.

Quando entramos na BR-101 recebemos uma amostra leve do que vai ser o sufoco de trafegar numa das piores estradas do Brasil. Trânsito intenso, asfalto irregular, muitas cidades com lombadas e redutores de velocidade.

Paramos para abastecer pela segunda vez em Alagoinhas e eu proponho a Tio Saulo que peguemos a BR-110 em direção a Paulo Afonso, sigamos de lá para Garanhuns e pegamos a nossa boa, superfaturada e velha BR-232 que tanto conhecemos. O caminho adicionaria apenas 60 km num trajeto de mais de 1000km, ou seja 6% sendo que esses 60km equivalem ao deslocamento de Gravatá para Recife. Evitaríamos a BR-101 no seu pior trecho e teríamos várias alternativas de pernoite em cidades agradáveis do nosso Pernambuco. Não teve jeito. Tio Saulo prefere a BR-101 e é por ela que vamos. Não estava tão ruim assim … talvez dê para chegar em Recife hoje.

Maldita BR-101! Que estrada ruim da gota serena. Vestígios de duplicação só em Sergipe. O governo Federal fez nada de duplicação nessa estrada na Bahia apesar de 3 governos estaduais sucessivos do PT. Vá entender. Ondulações no asfalto, cavas de peso excessivo de caminhões, lombadas e lombadas e lombadas, pista simples um tráfego tão intenso de caminhões que faria duvidar que estamos numa economia em recessão.

A média cai bastante e de vez em quando pegamos um engarrafamento. Sim, engarrafamento desses que se vê em trânsito urbano. Eu vou logo perdendo a paciência e pergunto a Tio Saulo se ele está “gostando” dessa “estrada maravilhosa”. Ele jamais vai admitir que fizemos besteira e diz que está curtindo muito, que até prefere a estrada travada pois não dá sono. Como se não bastasse, nas curvas Tio Saulo tira a mão e faz as curvas as vezes a 60km/h. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Tio Saulo me consola e afirma que dentro de mais 30km, quando entrarmos em Sergipe, já vai ter duplicação. Os 30km viram 90km e nada de duplicação da rodovia. Quando ela chega é uma desgraça. A pista da direita está tão gasta que acaba tendo uma pista só. De qualquer forma o ritmo melhora bastante. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

A alegria dura pouco. A duplicação termina subitamente em meio a obras tocadas pelo Exército. Caramba! Ainda não terminaram? Lembro que em Pernambuco a duplicação do trecho norte da BR-101 que liga Recife a João Pessoa teve a licitação cancelada. O Presidente Lula arretou-se e mandou o Exército construir o trecho. A obra começou e estava andando. Demorou tanto que o trecho sul foi licitado depois, iniciou a obra depois e terminou tudo antes. E ainda era mais longo! Aqui em Sergipe, se depender do Exército essa BR-101 só estará duplicada em 2020 e olhe lá. E eu irritado com tudo por causa disso.

Decido acompanhar Tio Saulo como fizemos em 90% da jornada até agora. Só que o ritmo é lento e eu furioso decido ir na frente para estimular Tio Saulo a tocar mais rápido. Só que tem um detalhe. Os baús laterais da moto de Tio Saulo o impedem de manobrar entre os carros com a mesma agilidade que a Esguia e Mítica Black Mamba é capaz. Sem perceber abri uma vantagem enorme e quando me aproximei do cruzamento do Rio São Francisco (pela terceira vez nessa nossa jornada) estou tão a frente que dá tempo de eu parar no posto Ipiranga e perguntar pelo limpa viseira, dar uma mijadinha e apreciar a paisagem antes que Tio Saulo me alcance. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Mais trechos duplicados e novamente o ritmo sobe. Tio Saulo finalmente reage ao estímulo e a estrada alterna trechos perfeitos com trechos pré-históricos. Pista simples, pista duplicada e felizmente nenhum pare/siga. Ainda bem. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

Paramos em São Miguel dos Campos para fazer um lanche e reabastecer. Faltam apenas 287km pela BR-101 até Recife. O pior trecho da BR-101 nos aguarda entre Messias e Palmares. A duplicação não está pronta e vamos pegar tudo isso a noite. Chegou a hora de decidir. São 17:30hs. Tocamos para Recife ou pernoitamos em Maceió? Eu voto por encararmos direto e Tio Saulo concorda. Caprichamos na lavagem das viseiras. Viseira suja com luz alta de carro em sentido contrário é ofuscante. Você pilota pelo olfato.

Agora não tem mais “será que dá?”. Vai ter que dar. Ligo para a minha Amada Lara e aviso que essa noite dormirei em casa. Ela fica super feliz e se prepara para me receber. Mais um estímulo para eu encarar o suplício da BR-101 … a noite … depois de 800km e 10 horas em cima de uma moto.

Pegamos a estrada determinados a abastecer em Palmares, o início do trecho realmente duplicado da BR-101 em Pernambuco, um trecho conhecido por nós, seguro, sinalizado e com tráfego ameno. Se chegarmos a Palmares  … chegamos em Recife hoje. Palmares or bust!

Não foi fácil. Muito caminhão na pista. Além dos caminhões normais, lembro que é época de safra nas usinas de cana de açucar da região. Isso baixa muito o nível médio de habilidade dos motoristas. O campônes que colhe cana na ponta de um facão sonha um dia ser motorista de caminhão que coleta a cana colhida. Instrução mínima e o cara vira motorista de caminhão. Acredito até que muitos dos que cruzamos nas estradas da região canavieira do nordeste sequer tem habilitação.

Treminhões carregados, tratores, motoniveladoras, shineray XYQ50, D20 modelo 1991, Infinity FX35. A fauna rodoviária é exuberante. Só não vi moto grande, de estilo algum. Agora caiu a ficha. Exceto pela F800gs coxinha lá em Igatu, nenhuma bigtrail em todo o percurso. Será que foram todas para o Atacama? Bom, isso é irrelevante agora. O ritmo baixou, o farol na cara virou constante, as curvas são feitas bem devagar pois a sinalização da BR-101 em Alagoas é nula.

Tio Saulo é uma constante no meu retrovisor. Só vejo o farol vesgo da moto dele de vez em quando para não me ofuscar. Começa o pior trecho entre Novo Lino, Alagoas e Xexéu, Pernambuco. Posto fiscal em ambos lados da fronteira estadual. Tio Saulo fica para traz  por causa dos baús. Eu esqueci novamente.

De repente, no meio da escuridão, reconheço a curva que desce para Palmares. A duplicaçao está logo ali. Como combinei com o Tio Saulo, parei no primeiro posto para reabastecer, dar uma relaxada, tomar uma água, limpar as viseiras novamente. Faço isso tudo e só então Tio Saulo chega ao posto. Ligo para minha Amada Lara e aviso que estou em Palmares. Mais uma hora e estarei em casa. Agora não tem o que dar errado.

A BR-101 se transforma num tapete e o ritmo sobe, mesmo no escuro. Olho para o retrovisor e para meu deleite Tio Saulo está me acompanhando. Aperto o ritmo e Tio Saulo lá … Acelero mais e Tio .. epa .. peraí … não pode! Nesse ritmo fazendo curvas no escuro a 140km/h? Nem nos delírios mais megalomaníacos Tio Saulo conseguiria. É outra moto! Mas quem é esse cara? E qual é a intençao dele? Bate a neura. Pode ser um assalto. Mantenho o ritmo acelerado e o cara aproxima nas retas e afasta-se nas curvas. Certamente não é uma moto pequena. Tento observar melhor e parece ser um Hornet nova, com o farol em forma de escudo. Já estou em Escada quando chego a essa conclusão. Melhor manter assim e chegar a Recife. Antes de chegar em Charneca a moto misteriosa sumiu. E nem sinal de Tio Saulo.

Havíamos nos despedido no posto de Palmares e com essa tocada acabamos nos separando. Segui direto para casa e fui muito bem recebido pela minha Amada Lara, por Tais e alguns minutos depois por Rayssa e Nani. Estava super feliz. Havia antecipado em um dia a chegada e iria dormir na minha cama depois de 9 noites.

Fiquei animado com a chegada e nem me submeti ao cansaço. Abracei a minha mulher e a cobri de beijos, tomei um banho refrescante e parti para a distribuição de lembrancinhas entre as 4 mulheres da minha vida. Contei histórias, fiz um lanchinho, demos risadas e eu fui dormir. Minutos depois, Tio Saulo manda uma mensagem para o whatsapp do grupo avisando que estava são e salvo em casa. A viagem real acabou. Começa agora a viagem na memória para registrar e contar para os amigos e parentes.

 

Tatus na Chapada – dia 8

Do que tatu gosta? De terra, de trilha, de poeira, de lama, de areia. Opa, talvez não muito de areia, né Saulo? Né Alan?

De onde vem esse papo de “Tatus no Jalapão”, “Tatus na Chapada”, “Tatus num-sei-onde”? Porque tatus e não outro bicho?

Diz a lenda que os motociclistas de Manguetown compravam motos bacanas, capazes das maiores aventuras, de encarar as estradas de terra mais radicais. Só que esses motociclistas não saiam do asfalto. Formavam motogrupos e motoclubes sempre fazendo menção a um bicho qualquer e com o sufixo “do asfalto” para deixar bem claro suas intenções. Esses motociclistas são carinhosamente chamados de “coxinhas“.

E o que dizer dos motociclistas que respeitam a concepção original da moto e a usam para fazer aventuras fora da estrada? Esses motociclistas são chamados de tatus pelo célebre Odilon Dias, um baluarte do motociclismo do nordeste e do Brasil. O veterano e experiente Odilon certa vez perguntado se usava a sua poderosa F800GS Adventure off-road disse “Eu não sou tatu para gostar de terra”. E o apelido pegou.

Agora um par de tatus havia firmado sua base de operações off-roadianas em Lençóis no coração da Chapada Diamantina, região notória pela exuberância da natureza e riqueza de trilhas. Pera? Você falou trilha? Oxente! É disso que tatu gosta. Pois o prato a ser servido vai ser muuuuuito cheio.

Tio Saulo já havia planejado o nosso dia para fazermos a trilha que liga Lençóis a Andaraí passando pelas cachoeiras do Cachorrim e do Roncador. Almoçaríamos em Igatu ou Mucugê e retornaríamos pelo asfalto. Os 32km de trilha cortando pelo meio da chapada resultariam num percurso de uns 150km de retorno pelo asfalto contornando a reserva. OK para mim. Se a trilha for boa mesmo, 150km de boring asfalt é um preço justo a se pagar… ou não. Veremos.

Tomamos um café da manhã honesto. A pousada Raio do Sol é bem rústica, sem luxo algum. O atendimento é super atencioso, o pessoal é simpático e bom de negócio. O quarto é simples, o banheiro é bem equipado e tem até uma varandinha para relaxar. Estacionamento fechado, mas descoberto, num jardim bonito porém mal cuidado.

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Motos no estacionamento da pousada em Lençois

Primeira parada foi uma loja de material de construção onde eu pretendia comprar 4 parafusos de rosca soberba para substituírem os que caíram da bolsinha de tanque. Comprei dois jogos de calibres levemente diferentes. Difícil foi explicar para o balconista da loja o que era um parafuso de rosca soberba. Acho que aqui no interior da Bahia tem outro nome essa peça.

Abastecemos nossos cantis com bastante água e caímos na trilha que parte do centro de Lençóis. A trilha é espetacular, belíssima, uma das melhores que fiz em toda a minha vida. A paisagem é exuberante de natureza, com mata, morros, pedras, leitos de rios secos e perenes, árvores frutíferas, copas altas, baixas, mato, campo, fazenda, comunidade alternativa, pousada no meio do mato. O chão da trilha oferece TUDO que se encontra em off-road: pedra solta, rochas grandes, lama, areia fofa, areia molhada, seixos, subidas e descidas técnicas, single track, double track. O menu completo. Vejam esse vídeo longo de um belo trecho.

Paramos na cachoeira do Cachorrim e estava absolutamente seca. Algumas fotos e um zumbido de um enxame de abelhas por perto … Vamos nessa continuar a trilha.DSC_0006

Mais subidas, descidas e vários cruzamentos de leitos de rios secos e outros nem tanto. O chão de pedras e seixos denuncia que aqui passa um riacho em época de chuva. Agora alguns estão secos.

A trilha tem variantes que oferecem muitas alternativas de aventura. Nos mantemos na principal para chegarmos ao Roncador. Fico só imaginando quanta trilha maravilhosa não fizemos por absoluta falta de tempo. Aqui merece uma estada mais longa, como Tio Saulo havia proposto inicialmente. Ficaremos apenas 3 dias e o jeito é aproveitar. De qualquer forma, o aperitivo despertou o apetite. Vou voltar aqui com a minha amada e passar pelo menos uns 10 dias.

Na trilha tem areia. E Tio Saulo não gosta, convive mal com a hipótese de pilotar a grandona no areial. Essa convivência é baseada numa premissa fundamental: andar devagar e com o trem de pouso baixado. Isso dificulta as coisas para mim pois a técnica adequada para pilotagem na areia envolve a velocidade mágica, que é superior a que Tio Saulo anda. Mais lento a moto atola e fica instável, mais rápido e não há controle. A velocidade mágica fica no meio.

Logo depois da Cachoeira do Cachorrim, eu pago a minha boca grande com o primeiro de uma série de 3 tombos na areia.

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Como levantar uma moto de 240 quilos na areia

Não é comum encontrar areia em subidas ou descidas, afinal a chuva arrasta a areia para as partes mais baixas. Mesmo assim existem alguns bancos de areia com rampas inclinadas. Se no plano é importante acelerar, nas subidas é mais importante ainda. E mais! Nas descidas também. A areia funciona como um freio, dissipando a energia cinética da moto. Portanto, na areia nem sequer há dúvida: acelere! Independente de estar no plano, subindo ou descendo.

Ao longo da trilha encontramos a placa da Comunidade da Capivara. Aqui tem muita gente alternativa com visão de mundo diferente do padrão ocidental, cristão e urbano. O clima e o astral causam/são causados por essa atitude diferente em relação a vida. De vez em quando é bom apreciar esse jeito alternativo de viver, nem que seja para saber que existe ou quem sabe cogitar no futuro numa aposentadoria ou  … ser prontamente descartado como coisa de bicho-grilo. Cada um com sua opinião. O fato é que a região é bonita e tolerante e tem de tudo por aqui.

Tio Saulo continua com o ritmo geriátrico de pilotagem. Não é trilha. É passeio. A ideia é essa mesmo, relax, aproveitar, curtir a trilha como turista. Tio Saulo dá umas paradas em pleno sol ignorando as sombras. Eu que não sou bobo aproveito cada uma delas.

No meio da trilha, antes do Roncador, encontramos várias árvores caídas sobre a trilha. Intransponível. Os troncos são grandes mas surpreendentemente leves e estão totalmente emaranhados em trepadeiras. Parece coisa recente. Saulo consegue achar um caminho alternativo pela esquerda da trilha. Só que, para desespero dele, é areia. Eu encaro o caminho e encontro um cajueiro com um caju gritando DEVORE-ME e bem a altura da mão. Eu num quero saber, arranco o caju do pé e atendo a seu pedido e na primeira mordida, a surpresa. Mel. O caju mais doce que eu comi em toda a minha vida. Eu com a fixação no caju e só ouvia Tio Saulo “Me ajuda Boko, minha moto está atolada”. De novo. Mas vai ter que esperar até eu deglutir o caju maravilha.

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A mesma receita para tirar a moto da areia: controle de tração desligado, piloto fora da moto, acelera pouco e a moto sai do buraco de areia. Os pneus murchos ajudam. Tio Saulo desenrola e vai na frente e nem me espera. Saímos do desvio e voltamos a trilha.

Chegamos a Cachoeira do Roncador, a margem de um rio com um areião enorme. Saulo atola a moto e ela fica em pé sem precisar de descanso. Desligamos o controle de tração e a moto sai, cruzamos o rio e paramos as motos na praia de areia branca. Ao fundo, a cachoeira do Roncador nos aguarda. O calor é enorme e a perspectiva de tomar banho numa água gelada é muito reconfortante.

Caminho pela areia e dispo-me da fantasia de motociclista na beira da água. O primeiro mergulho é um choque térmico daqueles de tirar o fôlego. Rapidamente me acostumo com a água fresquinha e aí é só delícia. Tio Saulo, mais experiente, tira a fantasia de tatu e deixa-a em cima de uma pedra. Boa ideia. Assim na hora de vestir tudo de novo não entra areia.

Tiramos cerca de umas 300 fotos só nesse trecho. Do lago ao pé da cachoeira

Na cachoeira um casal apaixonado formado por um homem e uma mulher (importante explicitar isso que antes era óbvio e agora não mais). A moça está bem a vontade fazendo um topless. O que é belo é para ser apreciado, sempre digo, e a cachoeira com suas quedas dágua é mesmo uma beleza. Outras coisas caídas nem tanto. O que vale é a intenção, se é que me entendem.

Tio Saulo e eu tentamos não perturbar o casal que não dá o menor sinal de se sentir incomodado. Curtem um ao outro e a cachoeira e não dão a mínima para nós. O amor está no ar e eles mandam ver. Bonito ver tanto carinho e nessa hora em fiquei com ainda maior saudade da minha Amada Lara.

A cachoeira é mesmo uma delícia e eu cogito por alguns minutos largar tudo, vender a moto e ficar por ali o resto da vida. Em seguida eu deixo de frescura, visto o equipamento e vou desatolar a moto de Tio Saulo para atravessar o areião da base da cachoeira e seguir a trilha. Se depender de Tio Saulo e sua pilotagem na areia com o trem de pouso baixado, sairíamos apenas a noite.

O areião tem duas saídas. Uma bem coxinha, pela trilha seca, e outra bem mais radical cruzando o rio novamente. Tio Saulo prefere a saída mais suave. Eu monto na Branca Filé e me encaminho para a saída mais radical e mesmo com o barulho do motor acelerando na areia dá para ouvir os gritos de Tio Saulo “Por aqui porra!” Eu me sensibilizo, faço a volta com um raio longo e passo por onde Tio Saulo mandou.

Ponto de vista do Piloto

Agora chega de coxinhice … a Mítica Black Mamba entra em campo

Ainda tem outra travessia

Radical demais.

Saímos do Roncador e o ritmo aumentou um pouco. Ao mesmo tempo, fomos para altitudes mais baixas e a trilha segue ao lado de um alagado que viria depois a saber que era o Rio São José.

Mais uma travessia seguida de areião. Tio Saulo filma tudo e aprende.

Tio Saulo está mais solto e revigorado e acelera bem. Andamos mais rápidos pela parte de terra batida e chão duro. Dá para ver no vídeo abaixo que ele está bem mais rápido.

Alcançamos o Asfalto e seguimos para Andaraí. Passada rápida pela cidade, bebemos uma água, e tiramos uma foto que nos lembra nosso amigo CH, o Chapolin de Manguetown, Clóvis Henrique.

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Aqui a cachaça abunda

Tocamos direto para Igatu onde tem umas cachoeiras que o Saulo quer checar. A cidade é toda de calçamento de pedras e está encravada na montanha. A estrada que dá a acesso a ela é também de pedras e as motos quicam. Ainda bem que murcharmos os pneus. Antes da cidade, um mirante onde tiramos belas fotos do vale. Dá até para ver a trilha que cruzamos na parte da manhã.

 

Chegamos a Igatu e logo de cara encontramos com uma F800GS 2015 novinha cujo dono, viríamos a saber depois, era o Alessandro, de Brasília e que possui uma pousada lá em Igatu mesmo.

A cidade é muito charmosa, encravada na montanha. A cidade servia de sede para a extração de diamantes, desde o século XIX até meados da década de 40 do século XX quando a produção de diamantes diminuiu a um ponto que não compensava mais nem financeiramente, nem ambientalmente. Restou um museu em Igatu, a Cidade de Pedra, com casas construídas a partir de pedras montadas umas sobre as outras sem argamassa. A cidade chegou a ter 9000 habitantes e agora parece não ter nem 600. Virou atração turística e está sendo redescoberta.

Decidimos procurar  a Cachoeira dos Pombos, uma entre as mais de 30 que tem nas cercanias. Seguimos uma trilha que foi apertando, apertando, ficando mais íngreme na descida. Paramos as motos e acompanhamos uns turistas a pé. Como estava muito seco, uma das cachoeiras do caminho estava muito seca, só um fio de água. Foi então que percebi que tinha deixado a chave da moto na ignição juntamente com a minha carteira e meu celular. Tio Saulo argumenta que quem iria roubar-nos em plena Chapada Diamantina. Decido desencanar e curtir a expedição.

Seguimos juntos com um jovem casal (homem e mulher) de turistas de Salvador que também estavam procurando a cachoeira juntamente com amigo americano. No caminho encontramos uma minicachoeira numa mini caverna, com o nível de água um pouco baixo por causa da seca mas ainda assim tirei umas fotos legais.

Apesar do visual legal, ainda não dá para tomar um bom banho de cachoeira aqui. Procuramos um pouco mais e achamos a cachoeira dos Pombos e seus dois “andares”.

Depois do relax está na hora comermos alguma coisa. A fome bateu e com força. Voltamos as motos e para meu alívio toda a minha tralha estava lá intocada. Uma pequena dificuldade para manobrar a moto de Tio Saulo devido a problemas de queimada. Faço o pivô no descanso e aprumo a moto para ele. Resolvido, pegamos a estrada de pedra e voltamos para Igatu.

Existe uma trilha que desce de Igatu para Andaraí e voltaria por um caminho diferente da estrada de pedra pela qual viemos. Decidimos não fazê-la pois seria uma volta para traz e perderíamos tempo. Mesmo assim, algumas atrações no comecinho da trilha mereciam ser vistas. Entre elas uma igreja muito bonita e o museu histórico combinado com um ateliê de artista. Paramos para as tradicionais fotos.

Além dos artefatos, fotos históricas contam a decadência de Igatu já no século XX, década de 30 a 40. Entre os artefatos uma máquina de escrever Triumph, da mesma marca das motos. Não vimos máquinas de escrever BMW e decidimos ir embora.

Tudo muito interessante e legal só que a fome já está fazendo o estômago rugir. Voltamos para Igatu e descobrimos que o único restaurante funciona dentro da pousada e pelo adiantado da hora não serviria mais almoços. Já eram umas 16hs. Decidimos tocar para Mucugê pois Tio Saulo recebeu a dica de um bom restaurante lá.

Pegamos a estrada de pedra, que viraria estrada de terra, em direção ao por do sol. Nessa hora senti falta da pala. O sol na cara prejudica a segurança e o ritmo é lento. Não dá para ver direito a estrada.

Chegamos em Mucugê e o restaurante está fechado. Funciona apenas de terça a domingo e hoje é segunda. Mais algumas perguntas e recebemos a dica de self-service no peso que ainda tinha almoço fresquinho. Antes de irmos para o restaurante, Tio Saulo e sua fixação por cemitérios nos leva a uma parada no “Cemitério Bizantino” que fica ao pé de uma falésia muito bonita. Mais fotos.

Tio Saulo quase se emociona ao rever o cemitério que ele conheceu há 14 anos.

 

Eu com a fome da moléstia dos cachorros e Tio Saulo querendo visitar cemitério.

Seguimos para o centro da cidade próximo a farmácia e rapidamente achamos o restaurante. A comida deliciosa e farta e o relax ao fim de um dia bem animado. Agora era só encher a pança e  voltar rapidinho para Lençóis.

Mucugê é uma cidade bem maior que Igatu e com um aspecto mais “moderno”. Também é mais plana e mais ampla. Tem muitas pousadas e me pareceu a mais bem servida. Não é tão alternativa quanto Lençóis nem tão rústica quanto Andaraí ou Igatu.

Enquanto comíamos e discutíamos como voltar para Lençóis, ao cair da noitinha, Tio Saulo me informa que teremos que encarar 132km de asfalto pelo lado leste da Chapada. Oxente? Como pode? Se andamos uns 60km de trilha?? Ora, trilhas atalham e deixam o percurso mais curto. Sugiro irmos pela trilha a noite mesmo e a sugestão é prontamente descartada por Tio Saulo.

Na mesa ao lado, o Marcelo, um morador da região e quiropraticista, ouve a nossa conversa e dá uma sugestão de um caminho por uma estrada de terra muito boa que passa por Guiné e Palmeiras, pelo lado oeste. Ele afirma que é moleza, fica mais rápido e mais perto. Além da dica, ele dá uma amostra grátis da massagem restauradora nas minha mãos e é uma benção. Em Tio Saulo a amostra grátis é maior e o Marcelo dá umas envergadas no pescoço da criatura que eu fiquei genuinamente com medo que nunca mais a espinhela de Tio Saulo voltaria ao lugar.

Eu topo na hora a sugestão do Marcelo e depois de um açaí, um sorvete, um num-sei-que-mais que Marcelo e a esposa tomaram antes da partida, seguimos pela estrada de asfalto atras da valente Falcon 400 de Marcelo, com a esposa na garupa. Rapidamente alcançamos a saída para estrada de barro já com a noite fechada e Marcelo arrepiando lá na frente, eu em seguida e Tio Saulo comendo toda a poeira para variar.

O ritmo que Marcelo impõe é rápido, ele conhece a estrada pois mora numa fazenda no meio do caminho. O carioca é desenrolado, manja bem e manda ver. Vamos seguindo a medida do possível e quanto a poeira deixa. De vez em quando um carro cruza nosso caminho e tome poeira a noite. Alguma tensão mas nada demais. De repente um Punto que vem por traz e cola na traseira aguarda apenas a chance de nos ultrapassar. Numa reta o Punto acelera e dana-se lá na frente levantando uma nuvem de poeira enorme que eu mal conseguia enxergar o painel da moto, quanto mais a estrada.

Paramos na entrada da fazenda de 260 hectares de Marcelo que nos convida para entrar, conhecer a casa dele e tomar um café. Gentilmente nos recusamos e decidimos tocar sozinhos o resto da estrada até Lençóis. Marcelo dá as ultimas dicas e eu vou na frente.

A estrada de terra é muito boa e o ritmo é rápido. Tio Saulo mantém uma distância grande por causa da poeira e eu fico meio preocupado quando ele some por traz de alguma sequência de curvas labirínticas. Paramos ainda umas duas vezes para perguntar por onde ir, cruzamos Guiné e a entrada do Vale do Capão e depois de subir e descer serras onde as temperaturas variaram de acordo, chegamos a Palmeiras e abastecemos. Agora eram apenas 58km de asfalto até Lençóis.

No fim, esse “atalho” pela estrada de terra não fez tanta diferença. Foi mais pela aventura mesmo. Os 10 a 20km que ganhamos foram neutralizados pela velocidade mais baixa na estrada de terra a noite. Para Tio Saulo esse foi o argumento para ficar nagging o tempo todo dizendo que deveríamos ir pelo outro lado. Valeu assim mesmo.

Chegamos em Lençóis na noite de segunda feira perto das 21hs agradavelmente exaustos. Fizemos muita trilha boa, de primeira, tiramos centenas de fotos, conhecemos 3 cidades (Andaraí, Igatu e Mucugê), passamos por mais duas (Guiné e Palmeiras), fizemos estrada de terra a noite, conhecemos duas cachoeiras e nos divertimos a beça (como diz o narrador da Sessão da Tarde). Fomos jantar e planejar o dia seguinte.

Tio Saulo planeja a terça feira com uma série de atividades light, bem relaxantes para que possamos acumular energia para o retorno a Recife, com seus mais de 1000 km, que faríamos na quarta-feira. Portanto, descansa e aproveita na terça e bota pra laskar na quarta e chegamos em Recife na quinta de manhã.

Planejamento ótimo, só que faríamos nada disso nos próximos dois dias.