Filtro de óleo – comparação

Filtros de óleo são componentes de motor daqueles que nunca ouvimos falar exceto quando o mecânico diz que tem que ser trocado. O filtro bom é aquele que funciona sem que o notemos. Mas como funcionam? Quais as diferenças entre um filtro de óleo e outro? Qual o filtro mais adequado para a moto?

oil-filter-flow-01Nessa figura dá para ver como um filtro de óleo funciona. A bomba de óleo do motor força o óleo para dentro do filtro através dos furos mais externos da parte de baixo do óleo. O óleo então entra no filtro e atravessa o elemento filtrante, normalmente feito de celulose e/ou fibras sintéticas, e segue para o centro do filtro onde é coletado e sai pelo furo no centro, voltando ao motor. No fundo do filtro, no lado oposto da rosca que o fixa ao bloco do motor, tem uma válvula de bypass. Essa válvula é resistente até uma certa pressão que se ultrapassada proporciona a abertura dessa válvula. O óleo então passa direto sem ser filtrado, bypassando (?) o elemento filtrante. Quando o óleo está frio se torna mais viscoso e de fluidez menor. Para evitar que o óleo viscoso “entupa” o filtro e deixe de circular no motor (com consequências catastróficas) essa válvula abre e deixa o óleo passar direto. Quando o óleo aquece, a pressão diminui e o óleo passa a ter que circular pelo elemento filtrante normalmente. Além do óleo frio, outra coisa que pode causar a abertura dessa válvula é a idade do filtro. A medida que o tempo vai passando o filtro vai entupindo com as impurezas e sujeiras do motor até um ponto em que filtra mais nada. A pressão acumula e a válvula abre, deixando o óleo passar. Está na hora de trocar o filtro quando isso acontece.  Na figura pode-se ver também um anel laranja que fica logo após os furos de entrada de óleo. Esse anel é feito de borracha nitrílica ou de silicone e funciona como uma válvula antidrenagem. A ideia é evitar que o óleo que está dentro do filtro escorra para fora quando o motor é desligado. Essa válvula antidreno serve para manter o circuito de dutos que leva óleo ao motor sempre cheio de óleo.

A explicação introdutória acima foi simplificada com fins didáticos. Outros detalhes podem ser obtidos no site da FRAM, renomado fabricante de filtros de óleo.

Depois dessa breve introdução de como o filtro de óleo funciona vamos mostrar como são os filtros de óleo na vida real e fazer um comparativo entre dois tipos de filtro aplicados em motos BMW F800 GS.

Meu amigo João Guerra há muito sugeriu que fizéssemos uma comparação entre o filtro de óleo original da BMW e a alternativa recomendada em vários sites e fóruns, o filtro de óleo do Ford KA, que sai muito mais barato. Eu havia montado um filtro de KA na minha moto e JG só esperava a hora de eu trocar de filtro para comparar com o filtro dele.

Aqui estão os filtros que vamos examinar. O branco é o filtro do Ford KA  e o preto é o filtro original da BMW, fabricado na Áustria. Apesar de funcionalmente equivalentes, existem algumas diferenças notáveis. A primeira é o tamanho. O filtro do KA é bem maior, tem um volume maior. Observem que os furos pequenos na boca do filtro são por onde o óleo é bombeado para dentro do filtro. O buraco maior central, que tem uma rosca, é por onde o óleo filtrado sai. Na parte mais externa tem o o-ring de borracha que veda/sela o filtro junto a sede dele no bloco do motor. Diferenças externas anotadas, agora vamos dissecar esses filtros.

Eis o filtro BMW. Ao redor do elemento filtrante tem uma fita de celulose/plástico. Imagino que sirva como um direcionador do fluxo para a parte mais central do elemento filtrante. No fundo tem uma mola bem forte que mantém o elemento filtrante firme junto a boca do filtro. No centro da mola tem uma peneira de metal cobrindo a válvula de bypass. Não há válvula antidreno.

Aqui dá para ver em detalhes a mola que fixa o elemento filtrante na carcaça, a peneira de metal que cobre a válvula de bypass, esse círculo preto no meio do núcleo do filtro. A válvula tem uma mola muito dura no interior e a tampa da válvula é de borracha/plástico bem deformável. A vedação é bem forte e segura e a pressão para acionar a válvula é bem grande.

Agora vejamos o filtro do Forda KA.

Aqui aparecem mais diferenças entre os filtros. Além da óbvia diferença do tamanho do elemento filtrante, este filtro possui uma válvula antidreno que fica ao redor dos furos da boca do filtro. No fundo do filtro, não tem uma mola como no filtro BMW e sim um suporte que fica sob tensão quando o filtro é montado, forçando o núcleo do filtro contra a boca.

Retiramos o elemento filtrante e agora dá para ver as carcaças dos filtros. Os furos do filtro Ford são menores e mais numerosos e dispostos de forma helicoidal por todo o eixo da carcaça. Os furos do filtro BMW são maiores e em menor número e estão numa faixa a cerca de 2/3 do comprimento. Isso pode explicar porque a fita cobre uma parte do elemento filtrante. O metal utilizado no BMW é lata bem flexível.  Já o Ford é bem rígido e mais robusto. Curiosamente, a capa externa que envolve o filtro (primeira coisa que abrimos) é mais fina no Ford e mais dura no BMW.

Aqui as duas válvulas de bypass em comparação. A válvula do BMW tem uma mola de espessura bem grossa, tem um curso longo e é bem tensa. A tampa é de borracha/plástico e o acabamento é superior. A válvula do Ford tem uma mola com um fio bem fino, parece um arame, o curso é curto e tensão é baixa. O acabamento é inferior.

Eis a válvula do filtro BMW em ação

Conclusões.

Os filtros são funcionalmente equivalentes e um tem vantagens sobre o outro e vice-versa. O filtro BMW é mais bem acabado, ocupa menos espaço e é mais robusto. Isso é particularmente importante pois nas F800 GS o filtro está bem exposto a pedras e objetos que podem atingi-lo. A válvula de bypass é mais robusta e bem acabada.

O filtro Ford tem maior volume e é equipado com uma válvula antidreno que é particularmente útil numa motocicleta. Isso evita que o motor rode aqueles poucos segundos sem óleo assim que ligamos a moto. O óleo é retido no circuito e rapidamente volta a lubrificar o motor. Considerando a aplicação de para/anda no tránsito da cidade e os tombos que levamos no off-road, essa válvula antidreno se torna uma vantagem.

O filtro BMW por ser mais curto se dá melhor com os protetores de carter que equipam as motos. Principalmente os protetores de carter que envolvem o próprio filtro e que por isso são altamente recomendáveis. Já o filtro Ford, por ser maior, não cabe em todos os protetores. O protetor padrão BMW que equipava as F800GS Trophy fica exatamente na medida com um filtro Ford. Ambos os filtros requerem que os protetores de metal sejam removidos para efetuar a troca. Apenas o protetor simbólico de plástico (o standard que equipa as F800gs) não requer a remoção.

Além dessas características técnicas, vale lembrar que o filtro BWM pode ser encontrado fora das concessionárias por algo em torno de R$ 60,00 a R$ 90,00. Nas concessionárias custa mais de R$ 150,00. Já o filtro Ford custa algo perto de R$ 20,00.

Considerando todas as características, diria que não vale a pena a economia do filtro do Ford KA. Economizar 50 ou 70 reais a cada 10 mil km é muito pouco e se levarmos em conta o inconveniente do comprimento maior e eventual incompatibilidade com os protetores de carter, o filtro Ford não é uma boa ideia. Porém, é importante saber que existe essa alternativa, principalmente em situações de viagem por lugares muito remotos em que não é fácil achar uma revenda BMW. Ou até mesmo na civilização onde até tem a revenda mas faltam peças.

Meus sinceros agradecimentos a João Guerra pela iniciativa e pelo apoio logístico (filtros, ferramentas de corte, ideias, etc).

Aguardem mais artigos como esse do JG & BM Labs !

 

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Tatus em Manguetown – Conclusão

Depois de 4000 km de aventura em cima de uma moto, o relato precisa de uma conclusão onde vou ponderar algumas coisas que não estão relacionadas com cronologia ou mesmo estão diretamente conectadas aos acontecimentos. São conclusões e ideias que surgem depois de uma jornada, como um balanço.

As motos

Black Mamba

A Famigerada, mítica, admirada Black Mamba, temida pelos coxinhas, minha F800 GS Triple Black ano 2012 que terminou a jornada com 29263km.

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Equipada com um bauleto Touratech de alumínio onde levei as ferramentas e peças de reposição, corda, além da capa de chuva. Minhas roupas seguiram numa mala amarrada no banco, capacidade de bagagem que se provou insuficiente e tive que aproveitar a mochilinha ordinária para trazer mais coisas. O engate do baú soltou durante algum momento entre Corrente e Lençois e eu só percebi no dia seguinte a nossa chegada em Lençois. Protetor de carenagem. Filtro de ar lavável K&N. Pneus Karoo 3, sendo que o dianteiro estava em meia vida e agora acabou de vez. Um carregador de 12v/5v usb no guidão, antena corta pipa e bolsinha de tanque da Givi com suporte para o tablet, que virou navegador GPS. A transmissão já estava em meia vida após 25kkm e agora está na lona, será substituida. Exceto pelos sustos com a injeção em Petrolina e próximo a Barreiras, a moto apresentou nenhum problema, inclusive esse último nunca mais apareceu. Sistematicamente a Black Mamba consumiu menos do que a Branca Filé de Tio Saulo. Depois dessa saga, a Black Manba vai passar por uma revisão completa quando instalarei as molas Hyperpro e o novo par de pneus Mitas E07. De longe, a melhor moto que tive em minha vida e nem tão cedo pretendo trocá-la, simplesmente porque não há no mercado moto mais adequada ao tipo de uso que faço (uso urbano e off-road nos fins de semana). O conforto poderia ser melhorado com uma bolha mais alta … com prejuízo para o uso off-road. Levou 5 tombos durante essa viagem, todos sem maior gravidade além de arranhar o protetor de carenagem.

Branca Filé

Branca filéA F800GS Branca, modelo 2014 de Tio Saulo. A mais bela e que chavama atenção por onde passava. Moto de coxinha. Bem cuidada, recém revitalizada. Equipada com Karoo 3 novinhos, banco confort (emprestado de Alan), protetor de carenagem modificado pelo próprio Saulo. Com 3 baús Givi monokey E360 tem mais capacidade de bagagem do que um carro popular 1.0. Para navegar, dois GPS, um Zumi e um Etrex. Levou apenas 3 tombos durante a viagem, sendo que um deles quebrou o engate do baú direito e no outro empenou a ferragem para a esquerda. Nenhum vestígio sequer de defeito ou problema. Uma das carenagens foi arranhada pelo parafuso da joelheira direita de Tio Saulo, problema prontamente resolvido com um adesivo protetor. O paralama havia sido partido por uma pancada do protetor de carenagem mal projetado. Tio Saulo modificou o protetor  e resolveu o desenho mal feito. O paralama foi recondicionado mas durante a viagem a vibração provocou uma rachadura que resolvemos com silver tape. Certamente será substituido em breve pois moto de coxinha não pode ter remendo de silver tape. Consumiu mais que a Black Mamba provavelmente devido ao “estilo” do piloto.

Equipamentos

Bokomoko – Levei apenas uma jaqueta Exustar verão, calça off-road ASW, joelheiras, uma capa de chuva impermeável, botas Forma Terra Adventure, capacete Mormai com pala (que removi), luvas Exustar de nylon e Alpine Star de couro. As Exustar são inadequadas para longas viagens e me causaram muitos calos. A Alpine star estava com um rasguinho que aumentou e inviabilizou seu uso. Pilotei sempre com camisas dryfit de manga longa, sendo que duas delas do MTA muito confortáveis. Levei também um par de sandálias havaianas apenas. Uma câmera Nikon D3200, uma objetiva de 200mm além da de 50mm, um roteador wifi 3g portátil com chip da Claro (que não consegui usar), um notebook, uma câmera Gopro 3 White montada ao lado direito do meu capacete. Vou mudá-la para o lado esquerdo para facilitar o liga/desliga. Uma câmera de ação xing ling que nunca usamos. Um par de walkie talkies baratinhos e seu carregador de baterias. Um tablet de 7 polegadas que serviu de GPS na medida em cima da bolsinha de tanque da Givi. Uma bateria externa para celular/tablet/câmera. Meu celular Samsung S4 também serviu de câmera fotográfica. Dois chips de 32gb que nunca encheram pois os limpava todo dia no notebook. Vários carregadores de celular, um adaptador de tomada universal (que pensei ter perdido e comprei outro, ficando com 2). Deveria ter levado um tênis ou bota de aventura. Tentei comprar um em São Raimundo Nonato mas não deu certo. Acabei comprando uma mochila para levar água nas caminhadas e que me serviu para trazer mais bagagem (presentes e a roupa suja).

Tio Saulo – Levou duas calças off-road, duas jaquetas sendo uma delas Bogotá multiwheather, dois pares de botas, um par de tênis. Um GPS Zumi e outro E-trex, ambos da Garmim. Levou também uma câmera Canon compacta mas muito boa e responsável por várias das melhores fotos de toda a jornada. Um fantástico compressor Michelin com motor 12v que nos salvou em várias ocasiões. Isso tudo coube e sobrou espaço nos imensos baús Givi. O celular Iphone com chip da Vivo foi o que funcionou melhor em termos de cobertura.

Ferramentas

Levei o meu kit tradicional de ferramentas que levo sempre em trilhas. Jogo de ferramentas Torx da Gedore de primeira, um kit de torx xingling com cabos mais longos e de plástico. Um jogo de torx fêmeas soquete porém o adaptador da catraca não veio. Compramos duas espátulas para montar desmontar pneus e descobrimos depois que são mágicas e protegem os pneus contra furos num raio de 200 metros. Seguiram no baú imenso de Tio Saulo. Levamos um par de câmaras de ar michelin sendo que a dianteira foi montada depois do primeiro furo e logo em seguida também furou. Compramos mais duas câmaras de reserva em São Raimundo Nonato da Pirelli mesmo. Tyre Repair da Motul que não usamos de bobeira (ainda bem). Minhas câmeras de ar estavam com vacina de pneu. A câmara que furou na estrada de Remanso/São Lourenço do Piauí tinha 4 furos, 3 deles tapados pela vacina. Foi remendada e acho que ainda funciona numa emergência. O pneu traseiro foi e voltou sem baixar uma vez e está com vacina.

Acesso a internet

Durante toda a viagem o acesso a internet foi precário. No momentos menos ruins, o 3g/4g da Tim e da Vivo funcionavam melhor do que as internet de hotéis e bares/restaurantes. O problema é que em vários locais nada funcionava. A melhor cobertura era Vivo, mesmo lá no sertão. Quando comprei um chip pré pago da Vivo para usar no roteador wifi o sinal da Vivo sumiu. Dei azar. O celular de Saulo era Vivo e funcionou a maior parte do tempo, com 3g/4g inclusive. Por causa do acesso precário a internet, os primeiros relatos não saíram com muitas fotos na primeira edição. Pretendo corrigir depois.

O roteiro

O roteiro preliminar era para irmos para a Chapada Diamantina. Por causa dos avisos de incêndio, mudamos para o Jalapão. Um erro induzido por mim. Tio Saulo sempre achou que devíamos ir para a Chapada. Mesmo assim valeu a pena pois a aventura ficou bem apimentada. O erro de roteirização no acesso ao Jalapão é muito comum. A dica que fica é que é preciso obter relatos de primeira mão e com confiabilidade. Não adianta desconfiar de um caminho e ficar na dúvida no meio de canto nenhum pois não há a quem perguntar e que dê informação confiável. Lá é deserto mesmo.

Como bônus passamos pela aventura de cruzar a Serra das Confusões. Ainda assim, pegamos um caminho errado e um pouco mais longo. Dá para explorar mais e usar um caminho alternativo, talvez mais radical, mais curto. Não pode ir sozinho para a Serra das Confusões. A minha queda quase parado demonstra isso.

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Já na Chapada, é tranquilo. Muito perto da civilização, região densamente povoada com acessos via asfalto. É coxinha, mas tá valendo

Sobre os pilotos

Bokomoko – 50 anos, num corpinho de 49. Nada mais a dizer a respeito de mim mesmo.

Tio Saulo – 36 anos de praia, surfe, off-road 4×4, piloto de CRF 230 e agora de bigtrail. Cara agradável de lidar, sempre divertido e com opinião sobre tudo. Chamei-o de Tio pois ele tinha orientação para tudo que fazíamos. Até a posição/orientação da moto no estacionamento. Liderou o passeio em 90% do tempo, definiu o roteiro de visitações, escolheu a comida, ligou/desligou a chuva. Alternou entre momentos em que era uma seda e um papel para embrulhar prego. Foi companheiro quando eu precisei no surto do Jalapão e me deu a chance de ajudá-lo quando ele ficou esgotado psicologicamente. Com Saulo e a experiência que ele tem eu vou até para a guerra.

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Sobre o Sertão

Como cheguei a mencionar, estive em Sobradinho há 36 anos. De lá para cá o desenvolvimento do sertão avançou bastante mas ainda há muito o que ser feito. Comparando a Arcoverde que visitei em novembro de 2005 com a mesma cidade de dezembro de 2015, dá para ver que as políticas de distribuição de renda deram certo e promoveram muito desenvolvimento econômico da região.

A vocação para o turismo é enorme e em alguns casos o potencial ainda não foi explorado sequer 1%. É o caso do Parque da Serra da Capivara que recebe apenas 20 mil turistas por ano. Parques semelhantes porém muito menores e com menos atrações na França recebem mais de 2 milhões de visitantes por ano. Comparando os números assim cruamente fica dificil de entender. No entanto, ao irmos para lá dá para ver o porque dessa discrepância enorme. A infraestrutura.

Se durante algum tempo a falta de acesso a água foi o motivo do atraso do sertão brasileiro em geral e do nordestino em específico, hoje já se sabe que não basta ter água (que por sinal existe em abundância, acreditem). O que falta é infraestrutura: estradas, aeroportos, telecomunicações, rede hoteleira, rede de serviços em geral.

Para um turista ir a Serra da Capivara no Piauí ele tem que estar disposto a muita aventura. O turista médio não quer isso. Ele quer relax, quer moleza. Encarar horas de estrada esburacada, num calor enorme e ter que se hospedar numa pousada que não tem acesso decente a internet para ele postar as fotos magníficas que fez no Facebook … nada feito. Esse turista ainda vai preferir ir para Porto de Galinhas ou coisa parecida.

Uma pena pois a beleza rústica do sertão, mesmo na seca, é encantadora. O sertão ainda tem coisas a serem descobertas e as que já foram descobertas precisam ser exploradas com consciência de preservação. O ambiente apesar de rústico é frágil. A fauna é surpreendentemente rica, considerando a escassez. Um dia ainda teremos resorts bacanas no meio do deserto como vemos em outros países.

 

Tatus na Chapada – Dia 9

Este seria o segundo e último dia de turismo na Chapada Diamantina. Uma pena porque passamos pouco tempo e vimos apenas uma fração do que poderia ser visto. A Chapada pede mais do turista. Pede mais tempo. Pede mais voltas. Eu voltarei.

Hoje a ideia de Tio Saulo é fazer nada radical, coisa light, para que acumulemos forças para encarar a volta de mais de 1000km amanhã. Portanto, o planejamento caprichado de Tio Saulo propõe uma visita a Lapa Doce (caverna), a Pratinha (rio com flutuação e relax na água) e a Subida do Pai Inácio (visão panorâmica e belas fotos).

Antes de pegarmos a estrada eu faço um tour novamente pelos locais onde perdi a Bandeira Azul. Tudo em vão. Nada da Bandeira. Espalho a notícia de que há uma recompensa para quem deixar a bandeira no posto de gasolina.

Pegamos a estrada em direção a Lapa Doce, seguindo oeste pela BR-242 e depois ao norte pela BA-122. Tio Saulo como sempre vai guiando. Dia de sol, poucas nuvens, ritmo rápido.

Na beira da estrada a esquerda um painel informa sobre as cavernas de Torrinha e Tio Saulo pergunta se num vale darmos uma olhada, afinal, estamos por aqui e nossos outros destinos (Lapa Doce, Pratinha e Pai Inácio) são próximos. Para mim é jogo e fazemos o desvio que iria mudar completamente os planos.

Chegamos a entrada da atração que se trata de nada mais nada menos que uma das maiores cavernas visitáveis do Brasil e da américa latina. O Eduardo, administrador do lugar, nos oferece um tour especial só para nós dois que incluiria um trecho da caverna que não é visitado normalmente. Ainda dá um desconto no ingresso e nós topamos. Vai começar uma das maiores aventuras da viagem. Tatus espeleólogos em ação. Tio Saulo tira a fantasia de motociclista, veste uma camiseta, bermuda e calça tênis. Como eu não trouxe tênis decido encarar a trilha com a bota Forma Terra Adventure. Ficaria ridículo eu de botas e sunga com dryfit, portanto vou com a calça de off-road mesmo. Decisão acertadíssima. A bota FTA é excelente como bota de aventura, confortável e resistente oferece a segurança e o grip de uma bota de cano baixo dessas de hikers. Com a vantagem de proteger bem a canela, coisa que seria muito útil lá dentro da caverna.

A caverna tem um clima surpreendentemente ameno, com temperatura de 24 graus constantes enquanto lá fora o calor já aparece e ultrapassa os 33 graus. Faríamos uma caminhada de cerca de 10km (contando ida e volta) em cerca de 2 horas. Mesmo com o ar condicionado, o exercício me faria suar bastante. Levamos meio litro de água cada um. Levar mais seria bom mas tem o risco de dar vontade de fazer xixi e lá dentro não pode de jeito nenhum.

Entramos por um salão enorme que já impressionava os pesquisadores até que em 1992 uma espeleóloga francesa achou uma passagem para outra parte da caverna que se descobriu então ser muito maior. Essa passagem original seria utilizada por nós na saída. Entramos por outra passagem artificial escavada para facilitar o acesso. Quer dizer, em termos.

O guia experiente, Toninho, nos explicava os vários espeleotemas. Essa caverna é considerada uma das mais interessantes não pelo tamanho em si mas sim pela variedade e quantidade de espeleotemas. As rosas de Aragonita são muito frequentes e algumas das maiores estão aqui. Formações como estalactites, estalagmites, vulcões de pedra, painéis nos tetos, cristais de gipsita, em tudo quanto é cor, tamanho e sabor.

A caminhada não é fácil. Entre tetos baixos que nos forçam a andar agachados até escaladas de pedras dentro dos salões, descidas e subidas íngremes. As lanternas fornecidas para nós são pequenas e fracas. Senti falta de um farolzão para iluminar tudo e ter uma visão mais panorâmica. As imagens com flash revelam mais coisas do que pudemos ver com as lanterninhas, que de tão fraquinhas coitadinhas, a gente tem que ligar outra lanterna ao lado para ver se estão acesas.

Algumas formações são muito interessantes e são translúcidas.

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Uma delas parece o castelo de Minas Tirth, da saga do Senhor dos Anéis.

Um trecho da exploração é particularmente difícil pois temos que nos arrastar sob um teto muito baixo, de uns 70cm de altura por uns 10 metros. Isso me deixa exausto.

Alcançamos os dois salões principais e o extra e tiramos dezenas de fotos impressionantes. No ponto mais remoto, o guia propõe que desliguemos as lanternas e façamos silêncio para ter uma experiência de privação sensorial. Sempre quis fazer uma dessas e foi legal. Mas a privação não era total. Ainda estava sentindo o peso do corpo sentado no chão. Mais tarde faria uma privação sensorial mais completa.

Hora de voltar, agora a caminhada volta pelo mesmo caminho que viemos, sem pausas para fotografia e com passo acelerado. Toninho e Tio Saulo vão abrindo vantagem e eu estou genuinamente cansado. Ainda tenho que encarar a passagem baixa lá na frente. Fico calado e falo nada durante o percurso. Próximo a saída decidimos usar a passagem que a pesquisadora francesa descobriu e a escalada para fora da caverna fica deveras interessante.

Ao sair da caverna o choque térmico é enorme. Dos amenos 24 graus partimos para 34 graus numa lufada de vento só. Tomamos água, usamos o banheiro. Tio Saulo quer ir para a Lapa Doce e eu veto. Pode ir. Eu não vou. Mais do mesmo não é uma boa ideia. Melhor fazermos algo diferente como a Pratinha e até mesmo o Pai Inácio e se sobrar tempo vamos a Lapa Doce. Tio Saulo então decide ir para a Pratinha e lá vamos nós.

Chegamos a Pratinha para visitar o rio, fazer a flutuação dentro da caverna e conhecer a Gruta Azul. Nesta última não poderemos mergulhar, só observar. A Gruta Azul se conecta ao Rio Pratinha através de uma caverna subterrânea com cerca de 80 metros de comprimento a 13 metros de profundidade. Essa caverna alagada não pode ser mergulhada por visitantes, apenas exploradores experientes.

A má notícia é que a entrada para a Gruta Azul fica a 200 metros da recepção e tem que subir e descer um morro bem íngreme. A foto dá uma noção do esforço. Eu estava esgotado e vou bem devagar. A gruta é interessante e tem que ser visitada logo pois daqui a pouco o sol estará tão baixo que os raios de sol não incidirão sobre a água da gruta causando o efeito “azul” que dá nome a atração. Tudo é muito bonito mas um tanto boring. Volto para a Pratinha. O que eu quero é a flutuação.

Descemos para a beira do rio e entrada da caverna, tiro a fantasia de motociclista e visto o equipamento de mergulho em apneia. Um guia nos leva para dentro da caverna e é como se tivéssemos voltado a um dos salões da Gruta da Torrinha, só que agora flutuando sobre o piso da caverna. Experiência muito legal.

Na parte iluminada da caverna a fauna e a flora é bem exuberante. Plantas aquáticas, algas, peixes de vários formatos e tamanhos. Até uma pequena tartaruga. A água é límpida e cristalina como nas piscinas naturais mais claras do litoral de Pernambuco, onde mergulhei milhares de vezes. A medida que nos afastamos da entrada da caverna a paisagem fica árida e estéril e só o chão e formações geológicas grandes. Nada de estalactite ou estalagmite ou coisa parecida. A água não permite tais formações.

A temperatura fria da água e o movimento lento são muito relaxantes e eu vou-me recuperando rapidamente. Quando chegamos a parte mais funda da caverna a água chega a 13 metros de profundidade, segundo o guia. Pergunto se posso dar uma mergulhadinha sem o colete e ele diz que não é permitido. Em compensação ele diz que dá para fazer a experiência de privação sensorial, pede para nós 3 apagarmos as luzes das lanternas e passarmos um tempo imóveis na piscina dentro da caverna. Escuridão total, silêncio total, ausência de peso. Agora sim. A sensação é muuuito legal. Pena que nós éramos o último grupo e o guia estava com pressa para ir embora. Ficamos pouco tempo e não deu para ter os efeitos alucinógenos que a privação sensorial completa proporciona. Mas a ideia é boa e vou tentar em algum outro lugar depois.

Voltamos para saída da caverna, damos mais uma relaxadinha e tiramos umas fotos.

Já é quase 17hs e o próximo programa é tomar banho na prainha do Rio Pratinha. Basta escalar o morro até a recepção, contornar o restaurante (que já estava fechado) e descer o morro pelo outro lado da caverna. Tudo isso levando na mão as botas, a câmera fotográfica, a calça off-road. Felizmente deixei o casaco e o capacete na moto. Uma mocinha no quiosque que vende os ingressos para a flutuação ofece-se para guardar a tralha e eu aceito.

Na prainha, pedimos o nosso “almoço” e Tio Saulo toma umas duas cervejas enquanto eu encaro um delicioso suco de mangaba. O por do sol se anuncia e a paisagem fica ainda mais bonita. A água claríssima é uma beleza.

Voltamos para Lençóis sem incidentes e o turismo acabou. Não tem mais passeio, não tem mais aventura, não tem mais nada. Agora é voltar para Recife pois Saulo tem um compromisso na quinta-feira. Depois do “dia relaxante” de hoje, amanhã vai ser só deslocamento por estrada de asfalto, sem brincadeira.

Só falta definirmos o roteiro.

 

Tatus na Chapada Diamantina – Dia 7

Sim, o relato mudou de título. Não tem mais Jalapão. Agora é Chapada Diamantina. E assim, de aventura de tatu essa jornada vira um passeio de coxinha. Not for long!

Depois de uma noite no mais confortável hotel de nossa aventura, arrumamos as coisas de decidimos encarar os 470 quilômetros que separam Barreiras de Lençóis.

No jardim do Hote, Rocky, o cachorro do Peter Frampton, faz uma festa. Ele cansou-se da vida agitada ao lado do rock star, migrou para Barreiras e vive incógnito por aqui.

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Eis o vídeo que o alçou a fama

Vamos encarar a BR-235, a principal via de escoamento da produção agrícola da nova fronteira no oeste da Bahia. Caminhões carregados devem ser uma constante mas felizmente, nas manhãs de domingos os caminhoneiros pegam mais leve. O tráfego deve ser um tiquinho menor do que o normal. Ainda bem pois a BR-235 não é duplicada e os relatos sobre o estado de conservação são conflitantes.

Passei por essa estrada no inverno de 1986 numa viagem de ônibus que fiz com meu irmão Homero para passar umas férias em Brasília na casa de meus tios. Lembro que passavam horas entre avistarmos um carro ou uma pessoa. Como mudou. O desenvolvimento do oeste da Bahia é notável. Barreiras era uma cidade pequena e mal servia como ponto intermediário para os ônibus da Viação Itapemirim. Hoje é uma cidade grande e sofisticada e não está só. Ainda mais ao oeste, Luiz Eduardo dizem está crescendo mais rápido e já está do tamanho de Barreiras.

Pegamos a estrada e cruzamos a cidade de oeste para leste e encontramos a pista em excelentes condições. O tráfego era normal, nada demais. A paisagem do sertão da Bahia alternava momentos de aridez e de verde. As formações de vales e montanhas eram um espetáculo para os olhos. Em tudo parecia a Rota 66 cruzando os desertos do meio oeste. As fazendas parecem mais ricas e agora gado bovino é muito presente. Ainda encontramos muito bode/cabra.

Com a mudança de planos, a ideia é tentar recuperar  tempo e a viagem para Lençóis deixa de ser aventura e nem sequer turismo. É puro deslocamento. Só paramos para abastecer e comer. Quanto mais cedo chegarmos a Lençóis melhor.

Logo no início um campo com uma infestação de cupins. Os ninhos de cupins são enormes e só tinha visto assim tão altos no interior de Goiás. Aqui na Bahia eles tem cor diferente, justamente porque a “matéria prima” para construção dos ninhos é diferente. A terra da Bahia tem composição diferente da terra de Goiás.

Rapidamente chegamos a Ibotirama e novamente vamos cruzar o Rio São Francisco. A imagem é forte pois o rio da integração nacional tem sofrido um bocado esses últimos anos. As notícias mais recentes são boas. Voltou a chover na região da nascente do Véio Chico e tem água por lá. Já não era sem tempo. Aqui o rio é de cor barrenta, como era antes da construção do lago de Sobradinho mais abaixo.

Decidimos parar para abastecer e almoçar e rapidamente pegar a estrada. Perguntamos pelo limpa viseira spray e não tem. Nunca mais iríamos encontrar o tubinho spray que compramos no interior do Piauí.

A estrada que até então estava perfeita e com algum tráfego passa a ficar apenas regular e com tráfego maior ainda. O ritmo é forte e dá para manter uma média bem alta.

A previsão agora é de chegarmos por volta das 16hs em Lençóis. O ritmo continua bom apesar do aumento do tráfego e das irregularidades na pista. Um ou outro buraco sendo que o defeito mais comum são as “valas” no asfalto causadas pelo excesso de peso dos inúmeros caminhões carregados de produtos agrícolas ou whatever.

Como toda viagem sobre asfalto a chatice só é atenuada pelas belas paisagens do interior da Bahia. Pastos, plantações, serras, montanhas, vales, caatinga seca, áreas verdes, belas fazendas. A pista é reta e com curvas suaves, uma moleza mas um tanto entediante.

Em Seabra paramos para abastecer pela última vez antes de Lençóis. Tio Saulo suspeita que os preços de gasolina em nosso destino serão mais altos pois só tem um posto de combustível lá. Logo após a saída do posto começa a chover.

Para Impermeável Saulo é só um inconveniente. Para mim é exigido que pare e vista a capa de chuva, que por acaso eu coloquei no fundo do baú pois não imaginei que iria chover tanto no sertão da Bahia. Deu trabalho mas rapidamente eu estava protegido. Não coloquei a calça de plástico. Só a jaqueta. Foi uma medida correta pois a chuva fina que se anunciou engrossou e virou chuva de verdade.

Na subida da serra uma imagem impressionante de uma carreta tombada e sua carga espalhada pela pista. Desembaraçamos rapidamente e exceto por isso, a viagem seguiu sem incidentes.

Entramos em Lençóis debaixo de chuva e fomos procurar uma pousada para o pernoite. Me interessei por uma chamada “pousada do Cajueiro” que fica na subida de um morro. Não consigo encontrar a entrada da pousada e subo o morro até o alto onde tem uma capela muito simples e rústica a frente de um cemitério. Decido parar lá para tirar uma foto com a Azul.

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Seria a última vez que veria a Bandeira Azul. Na pressa para encontrar uma pousada não acomodei direito a bandeira nos amarradores de bagagem e ela caiu da moto no que eu presumo seja a descida desse morro, toda esburacada. Deve ter balançado e a bandeira caiu sem que eu visse.

Eu e Tio Saulo havíamos nos separado, cada um procurando uma pousada legal. Decido arriscar e ver se tem vagas no chic Canto das Águas. Quando volto para a moto percebo a ausência da bandeira. Encontro com Tio Saulo e ele já havia selecionado uma pousada para nós. Combino com ele de encontrar com ele lá enquanto refaço o percurso procurando a bandeira azul.

Subo de novo o morro em direção a capelinha pelo caminho que desci  e nada de encontrar a bandeira. Alguém a pegou.

Lá em cima eu converso com alguns moradores e deixo avisado que há uma recompensa para quem encontrar e devolver a bandeira no posto de gasolina. Decido voltar a pousada e resolver a questão da estadia. Procuro a bandeira mais tarde.

Ao descer o morro pela ladeira de pedras, encontro umas pessoas e vou falar com elas. Dou bobeira e com a moto parada levo um tombo forte em que sou arremessado ao chão pelo peso da moto. Caio de lado, batendo a bunda de lado no chão. Pancada forte daquelas que tira o ar dos pulmões. Fico parado uns segundos na esperança de não ter quebrado nenhum osso e por sorte nenhum quebrou. Mas doeu. Levanto-me com o lado do corpo todo doído e sabendo que assim que eu relaxar a dor vai vir com força.

Nenhum dano na moto exceto a bolsinha de tanque que desprendeu da base. Examino o kit e percebo que dos 4 parafusos que fixam a bolsa a base circular que engata na base fixa sobre o tanque, apenas dois estão presentes e ainda assim meio frouxos. Presumo que o excesso de peso que acomodei na bolsa e a vibração durante os quase 3000km que levamos para chegar a Lençóis devem ter afrouxado os parafusos. A queda foi a gota dágua. Parece que tem conserto.

Deixo de conversa, levanto a moto e sigo para pousada. Nem dói tanto enquanto eu estou montado na moto. Ao desmontar a dor chega. Parece dor de velho envergado. Ando com dificuldade e encontro com Tio Saulo que pede para eu dar uma olhada no quarto antes de fecharmos negócio com a pousada.

Rapidamente vistorio o quarto que tem uma cama de casal e uma de solteiro. Tio Saulo diz que por eu ser mais velho ficarei com a cama de casal. Negócio fechado. Estou exausto e chateadíssimo com a perda da bandeira azul e da queda. Nenhum dano além do moral e da dor.

Desmontamos a bagagem, tomamos um banho refrescante e saímos para jantar a pé na noite do domingo. Chegamos ao El Jamiro e comemos um prato de petiscos variados regados a cerveja deliciosa. Jogamos conversa fora enquanto Tio Saulo faz os planos para o dia seguinte, que promete. Na verdade, o dia seguinte seria o melhor dia de toda a viagem.

 

Tatus no Jalapão – Dia 6

Jalapão or Bust!

Bust.

Simples assim.

Nosso grito de guerra para o dia 6 poderia ser esse. Só que não. Minha ideia era partirmos de Corrente bem cedo e dormimos no Jalapão … ou morrer tentando! Desistir jamais! Mas que papo é esse de “desistir”? O dia mal começou!

Saímos cedo de Corrente e pegamos o asfalto por apenas 20km até entrarmos a direita na estrada de terra que serviria de atalho que nos economizaria uns 50km de estrada de terra até Mateiros em Tocantins, nossa planejada base no Jalapão. A estrada de terra rapidamente se transforma em trilha e a paisagem é deslumbrante.

A vegetação já se parece mais com uma mistura de caatinga e cerrado com manchas grandes de mata atlântica. Está úmido pois choveu na noite anterior.  Nada demais, algumas poças d’água e um pouco menos de poeira. Mas ainda tinha poeira. Algumas bifurcações nos forçaram a verificar direitinho no GPS qual caminho tomar. Paramos para esvaziar os pneus e aparece um senhor numa Fan 125. Perguntamos a ele como era o caminho para Coaceral, na Bahia. Ele afirma que temos que cruzar a serra e que o caminho é difícil mas dá para passar. Outro encontro com uma jovem senhora numa 125 e ela se assombra ao saber que vamos tentar passar a serra. A trilha vai ficando mais travada e mais legal, mais técnica. Numa outra bifurcação Saulo tem a feliz ideia de perguntar a um menino de 8 ou 9 anos qual é o caminho. Ele só sabe ir até a casa da avó. Brilhante!

Mais um trechinho de estrada, por enquanto.

Achamos o caminho definitivo e de repente a estrada some e vira um single track seguindo em paralelo a um grotão enorme que parece que não acaba mais. Estamos fora da track marcada pelo GPS. Tem algo errado. A single track fica super sinuosa e de repente encontramos um grupo de rapazes e um deles de moto. Perguntamos novamente sobre o caminho para Coaceral e o Francisco, o rapaz com a moto,  afirma categoricamente que nossas motos não passam. Eu duvido, como sempre, e peço ao Francisco para nos levar até o ponto que ele considera intransponível. Eis o caminho que ele guiou a gente

A trilha vai ficando mais travada ainda, uma delícia, e até agora as F800GS conseguem acompanhar a Bros 150 de Francisco. Subimos uma erosão e ele pede para deixarmos as motos ali e irmos dar uma olhada na subida da serra, a pé. Eu vou na frente e Saulo fica descansando. A subida é um caminho de pedestres, quase uma escadaria esculpida na erosão da terra. A trilha vai subindo e estreitando até um ponto que vira uma fenda na terra, seguindo a serra no fundo de um V estreito. De fato nossas motos não passariam facilmente por aqui. A de Tio Saulo com os baús laterais definitivamente não passaria. Ainda tem jeito, tiraríamos os baús, levamos lá para cima e remontamos. Vou subindo a ravina até chegarmos ao topo onde o ponto de vista me dá uma real noção do tamanho da bronca.

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Ravina criada pela erosão. Profundidade 10 metros

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Alto da Serra

A estrada não existe mais. A erosão levou. De lá de cima dava para ver perfeitamente o traçado original da estrada e como a erosão transformou todo esse trecho numa vala de erosão. O grotão que tínhamos visto lá embaixo na verdade era a “estrada”. Para sepultar de vez essa alternativa de atalho, no alto da serra a trilha segue ao lado de uma ravina de uns 10 metros de profundidade. No meio da trilha, lá no alto, uma estreita passagem é bloqueada por uma rocha encravada no barro. Teríamos que passar as motos por cima num risco enorme e sem margem de erro. Errou, despenca 10 metros. Foi o que aconteceu com o irmão de Francisco. Isso sem falar no trabalho hercúleo de arrastar duas f800gs completamente carregadas morro acima na fenda da erosão. Por aqui não vai dar.

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Francisco e eu com a Azul

Tirei umas fotos, filmei o depoimento do Francisco e pelo rádio avisei a Saulo que por sua vez já estava resignado e procurando uma alternativa no GPS. Francisco nos informa que tem um caminho mais ao sul, partindo da estrada asfaltada que liga Corrente a Barreiras. Decidimos ir por lá. A viagem que teria um atalho de 50km agora tem mais 46 de ida e volta a esse ponto intransponível e mais 70km de estrada de terra até Coaceral.

Voltamos para o entroncamento com a BR-135. Como já conhecíamos a estrada, aceleramos.

O tempo úmido, nublado já anuncia o que está por vir. Saímos do asfalto e pegamos o que viria a ser a pior estrada de toda a aventura.

Pior que uma estrada de terra é uma estrada de asfalto totalmente abandonada. Estávamos já na Bahia e a estrada que liga a BR-135 a Coaceral aparece no Tracksource como asfaltada e tem 78km de extensão, é a BA-225. Só que não há asfalto, apenas vestígios de um passado remoto. Não há marcações, praticamente não tem sinalização ou placas. O asfalto aparece e desaparece e quando aparece é cheio de buracos em forma de panelas. Não dá para desenvolver boa velocidade e o risco de acidente é alto. Temos que ir devagar e afastados um do outro para permitir que o colega faça desvios de rota em toda a largura da estrada. Muito tenso.

Tive que me concentrar na pilotagem para evitar os buracos. Parecia um jogo de videogame em que você vai perdendo pontos ao cair nos buracos. Devido a essa concentração não observei a paisagem ao lado da estrada. De repente me vi num lugar estranho. A estrada era plana assim como os campos ao lado da estrada. Havia algum tráfego de veículos 4×4 e caminhões pesados, os prováveis causadores do avançado estado de deterioração da estrada. De repente uma placa com uma chamada “Coaceral foi esquecido”. Uma reclamação dos que fazem uso da BA-225.

Não havia mata ou catinga ao lado da estrada. Só campos desmatados. A medida que nos aproximávamos de Coaceral os campos nus se transformavam em plantações extensas. Estávamos entrando na região dos grandes empreendimentos agrícolas. Campos de 5 a 10km de soja e/ou milho em diversos estágios. Aqui e acolá um grande silo ao lado de uma pequena estrutura administrativa. Uma instalação da Cargil se destacava. Passamos por um aglomerado com um posto de gasolina, uma borracharia e um pequeno prédio que não identifiquei o que seria. O vestígio de asfalto acaba definitivamente e temos que pegar uma bifurcação. Não eram mais estradas e sim caminhos de acesso aos campos de plantação. Perguntamos a um caminhoneiro qual o caminho para Mateiros e ele não sabia informar. Ele só conhece as fazendas ao redor. Decidimos voltar ao posto e perguntar qual é o caminho para Coaceral e de lá para Mateiros. O frentista informa: isso aqui que vocês estão vendo é Coaceral. Não é uma cidade, é um … entreposto… um ponto de apoio logístico para as dezenas de enormes fazendas da região. Ninguem é do local. A paisagem é desértica como nos filmes de faroeste americano. Um monte de coisa nenhuma no meio de lugar nenhum. Decidimos abastecer as motos e descansar um pouco, afinal já são 13hs e estamos rodando desde as 7 da manhã a partir de Corrente. Enquanto fazemos as coisas uma ventania enorme levanta uma tempestade de areia. Atrás da tempestade de areia nuvens carregadas despejam a chuva num campo de uma fazenda ao norte da nossa posição.

Eis um vídeo do temporal. Observem o raio

No bar/venda/restaurante do posto ninguém sabe informar o caminho para Mateiros. Um cara de moto escuta nossa conversa e afirma que veio de lá, nos descreve o caminho. Ele diz que estrada está boa e que não teremos problemas. Checamos as informações que ele dá e bate com a marcação do Tracksource no GPS. Decidimos então encarar o caminho. Algumas gotas de chuva esparsa dão uma molhadinha, voltamos para o fim do asfalto e pegamos a terra. Marquei então alguns pontos meta intermediários ao longo do caminho para seguirmos a rota. Não há qualquer marcação de cidade, vilarejo, posto de combustível ou qualquer outra coisa entre o Coaceral e e Mateiros.

A essa altura a chuva já havia transformado a terra em lama. As motos patinavam e estava difícil de pilotar. Para complicar, a tempestade de raios era forte. Nossas motos eram as únicas coisas mais altas em dezenas de quilômetros ao nosso redor. O risco de levarmos um raio era muito grande. Encaramos assim mesmo.

Começou a chover sobre nossas cabeças.

Numa bifurcação no meio do nada, no meio de um campo de plantação, o GPS me indicava que tinha que ir para a direita. Só que não havia estrada ou caminho a direita. Apenas um rio raso com uma forte correnteza apesar do terreno tão plano. Decido pegar a esquerda e contornar e para meu desespero vejo que estamos indo para uma direção completamente diferente e sem nenhuma marcação de alternativa de voltarmos a rota. Decidimos dar meia volta no meio do campo e enquanto Saulo se desembaraça rapidamente, eu dou uma bobeira e a minha moto atola. O terreno está tão escorregadio que não dá tração nem para minhas botas. Tento mas não consigo, vou precisar de ajudar de Saulo para desatolar. E da corda. Ele dá meia volta e depois de muito esforço consigo virar a minha moto de volta a trilha. Voltamos ao ponto da bifurcação e confirmo que o caminho realmente está intransitável. A chuva aparentemente leve derrubou um dilúvio sobre o imenso campo e alagou tudo que não é  curva de nível e proteções contra erosão.

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Não vai dar.

A conclusão é essa. O caminho que escolhemos está bloqueado pela chuva/inundação/lama. Mesmo que forçássemos a barra e cruzássemos a inundação (cuja profundidade nós só podíamos imaginar mas cuja extensão sabíamos e víamos era imensa), ainda teríamos que encarar o massapê por dezenas de quilômetros numa região absolutamente deserta, sem sinal de celular. Para complicar num sábado, ou seja, folga de caminhoneiros que são as únicas criaturas bípedes que se aventuram por essas bandas. E para complicar ainda mais … estava ficando escuro.

Bust.

O caminho alternativo adicionaria mais de 1000km a viagem o que resultaria num atraso ainda maior. Tio Saulo tem compromisso em Manguetown no dia 10 e não daria para aproveitarmos as belezas do Jalapão. Não vai dar, não vai ser dessa vez, não vamos ao Jalapão.

Quando essa conclusão racional finalmente se sedimentou em minha mente eu tive um colapso nervoso. Estava cansado, molhado de chuva, com frio, com fome, esgotado pelo esforço de desatolar a moto, com medo de ser fulminado por um raio a qualquer momento e para coroar decepcionado porque não ia ao Jalapão. Surtei. Queria ir para casa ficar abraçado com a minha mulher, me teletransportar. Sair dessa roubada. E aí pensei que ia ter que encarar os 71km de asfalto sonrisal de volta a BR-135 .. era demais. Desabei.

Nessa hora Tio Saulo pode retribuir as inúmeras vezes em que ele se sentiu do mesmo jeito nas trilhas light que fazemos em Pernambuco. Vários amigos já passaram por isso, pelo esgotamento físico e psicológico de enfrentar uma trilha pesada com uma moto mais pesada ainda como a F800GS. As palavras de motivação são fundamentais para fazer passar esse surto.

Usei a força da mente racional para superar essa crise de frescura. Já tinha tido isso há anos quando sofri o acidente com a moto de Ricardo Carvalho. Na queda eu machuquei o ombro e fiquei algum tempo sem pilotar moto. Por força da mudança do flat para a minha casa, alguém tinha que levar a minha moto para o novo endereço e eu fui pilotá-la depois de semanas sem nem olhar para ela. Quando saí da garagem e encarei a avenida me deu um pânico e pensei que nunca mais ia andar de moto. Não pode! Mentalizei, encarei, acelerei a moto e mandei ver. A crise de frescura passou.

Pois bem. Era hora de usar a mesma técnica. Foco na pilotagem. Acelerei e a adrenalina me curou. Entre as panelas e poças e costelas de vaca e crateras da pior estrada, abri uma vantagem sobre Tio Saulo no caminho de volta a BR-135. Passou a frescura. Fiquei bom.

Abri uma vantagem muito grande em relação a Tio Saulo e decidi reduzir para ele me alcançar e pilotar a minha frente. Seguimos assim durante boa parte dos 71km com velocidade média baixíssima e aí .. começou a chover. Muito.

Eis o percurso

roteiro do dia 6

Dá para ver no mapa acima que boa parte do percurso foi ida-e-volta sem sucesso. O caminho para Barreiras ainda levaria 167km a partir desse ponto mais ao sul no mapa.

Chegamos a BR-135 e a chuva não dava trégua. A ideia era seguirmos para Barreiras, pernoitar lá e no dia seguinte seguirmos para a Chapada Diamantina. Aliás, a Chapada era o nosso destino original e mudamos para o Jalapão por causa das notícias dos incêndios. Como uma força invisível que decidia os nossos destinos, nos vimos forçados a encarar a Chapada. Mas antes precisávamos chegar a Barreiras. São 170km apenas, numa estrada com muitos caminhões e debaixo de chuva. A noite.

Paramos num posto para colocar a capa de chuva e no caso do Tio Saulo trocar de jaqueta pela Bogotá da Alpine Star, supostamente impermeável. Eu preferi as confiáveis capaz plásticas e usei a técnica do Charlie Boorman para manter os pés secos. A bota Forma Terra Adventure é impermeável mas não se você submerge num rio, como aconteceu comigo lá perto de Coaceral. Minhas meias estavam encharcadas e a bota não ia secar levando chuva o tempo todo. Um saco plástico de lixo em cada pé, meias secas e conforto da capa. Encaro até o dilúvio de 40 dias e 40 noites. Voltamos a estrada e escurece rapidamente. Noite fechada, chuva constante, trânsito intenso na noite do sábado.

Outra parada no meio do caminho e eu desisto de usar os óculos. O frio e o vento mantém ele permanentemente embaçado e com as contra luzes dos faróis dos carros em sentido contrário eu fico completamente cego. Para complicar, a moto começa a dar as farrapadas. Abaixo de 4000 rpm só falha na aceleração. O fantasma da bomba de combustível fajuta da BMDafra volta a assombrar e no pior momento e lugar: no meio da BR-135, a noite, debaixo de chuva. Saulo vai a frente guiando e eu tento acompanhá-lo mas a moto começa a perder força. Percebo que acima de 4000 rpm a moto funciona bem e decido ir reduzindo as marchas e acelerando mais. Qualquer quilômetro a mais percorrido é um quilômetro em direção a civilização. A moto vai falhando e eu controlando para ela não dar acelerada súbita e perder aderência na pista molhada. Misteriosamente, após uns 30 quilômetros as falhas somem e a moto volta a ser aquela seda, suave, aceleração limpa sem engasgadas.

Chegamos em Barreiras as 19:20, depois de termos saído as 7:03 de Corrente no Piauí. Foram 12 horas de estrada sendo que 7h23m de deslocamento, uma boa parte delas debaixo de chuva. Rodamos no total 485km para um deslocamento efetivo de apenas 231km de Corrente Piauí e Barreiras Bahia.

Abastecemos as motos e procuramos um hotel por perto. Achamos um belo hotel que tinha piscina e eu mal podia esperar para experimentá-la. Tio Saulo achava que a água deveria estar fria depois de toda essa chuva. Eu não me importava. Queria flutuar na água, mesmo que gelada. Enfrentamos frio, frustração, chuva, escuridão, cansaço, exaustão, calor, poeira, falha na injeção de combustível, lama, poupança confiscada no Plano Collor, tudo isso nos fez merecedores de um luxo.

Chego na piscina e a água está surpreendentemente morna. Ao lado tem um bar e a garçonete me serve uma cerveja bem gelada, deliciosa. Deus existe. Relaxo por vários minutos. Pergunto a garçonete como é que a piscina está tão deliciosamente morna e ela me conta que em Barreiras o dia foi de sol forte e só choveu, pouco, no início da noite. Ou seja, a chuva chegou conosco.

Mando a garçonete servir uma Heineken para meu amigo Saulo lá no quarto. Termino o mergulho e levo outra para ele. Mas ele nem bebe. Vamos jantar e peço uma salada deliciosa com presunto e atum.

De longe, o hotel em Barreiras foi o melhor que ficamos durante toda a viagem. Além de barato, as instalações são bem modernas, bem cuidadas, tudo organizadinho nos conformes.

Amanhã começa a versão Tatus Na Chapada do que era antes Tatus no Jalapão. São 470km de estrada asfaltada até Lençóis na Bahia e a viagem deixa de ser aventura e passa a ser moto turismo. Ao alcance de qualquer coxinha.

Mas eu sempre vou por uma pimenta …

 

 

 

Tatus no Jalapão – Dia 5

O dia de reparos.

Amanhecemos em Bom Jesus do Piauí e eu com a ideia de seguirmos direto para Mateiros em Tocantins. Afinal, eram apenas 425 quilômetros, sendo que uns 250 sobre asfalto. Tio Saulo me convenceu a pararmos em Corrente ainda no Piauí. Estaríamos mais perto de Mateiros e poderíamos tirar a tarde para descansar melhor, revisar as motos e principalmente, consertar os empenos e armengues na moto dele.

Tomamos um café da manhã surpreendentemente honesto no pior hotel de toda a viagem. Demos uma revisada básica na moto de Saulo que havia levado dois tombos fortes no dia anterior na Serra Das Confusões. O baú lateral direito tinha quebrado o engate e agora só permanecia preso por estar amarrado ao suporte. O suporte esquerdo estava envergado e em contato com o escape. Para Tio Saulo isso era o fim. Tentamos desenvergar na força bruta e o máximo que conseguimos foi livrar alguns milímetros para evitar que o suporte mantivesse contato físico com o escape. Para consertar definitivamente seria necessário desmontar tudo e desenvergar. Enquanto fazíamos isso, Tio Saulo percebeu que a lanterna traseira não estava encaixada corretamente na carenagem. Em comparação com a minha moto dava para ver que tinha algo errado.

A paisagem de Bom Jesus era bizarra. Acordamos sob uma forte névoa de queimadas. Especulei que era fumaça oriunda das queimadas na Amazônia. O dia estava meio nublado e úmido e ainda muito quente. Dá para ver no vídeo abaixo a névoa. Não é sujeira na lente ok ?

Abastecemos as motos num posto Ipiranga e comprei um limpa viseira/desembaçante que se mostraria muito útil no dia seguinte. Comprei também dois pares de protetores auriculares e removi a pala do meu capacete para melhorar a aerodinâmica. Essa modificação foi muito conveniente e tornou a pilotagem mais confortável.

Pegamos a estrada BR-135 em direção sudoeste. Asfalto bom, algum tráfego de caminhões e pouco depois das 12hs estávamos em Corrente. A vegetação era mais verde, as árvores mais altas. Estávamos em outro bioma, diferente do sertão nordestino típico. Fomos direto ao hotel Rino e deixamos a tralha lá. Decidimos pôr as motos para lavar enquanto almoçávamos.

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Motos sendo lavadas

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Almoço em Corrente, Piauí

O lavajato não usava querosene mas estavam dispostos a aplica-lo se trouxéssemos. Procuramos no comércio e compramos um litro de querosene. Deixamos as motos lá e fomos almoçar, as 16hs as motos estariam prontas. Comemos um bom pedaço de coxão mole acompanhado de arroz feijão e salada. Muito frugal e rústico e delicioso. Ainda tivemos direito a uma porção de sarapatel de tripa de suíno que estava uma delícia. Voltamos ao lavajato antes do horário combinado e as motos estavam quase prontas. Dá gosto de ver. Nessas horas o espírito coxinha prevalece. Tio Saulo aproveitou para ver o que estava errado e precisava ser consertado em sua moto. Voltamos para o hotel no finzinho da tarde e começou o Boko’s Garage On The Go. Desmontamos o bagageiro da moto, suporte de lanterna e descobrimos que a mesma estava apenas mal encaixada. Primeiro problema resolvido. Agora os suportes dos baús. Terminamos quando já estava escuro e tudo ficou razoavelmente bom. O empeno no suporte não deixava as coisas perfeitamente simétricas como o Saulo exige mas ficou muito bom. Revisamos os apertos, tudo em ordem, fomos dormir.

Num dia em que percorremos cerca de 250km em meio dia, não houve muita novidade. O hotel era muito agradável, cercado por uma mata bonita. Os quartos eram amplos, com 3 camas e um banheiro grande. Dava para ver que era projeto da década de 80. Só que o hotel estava realmente muito derrubado. Tudo funcionando, diga-se de passagem, mas tudo muito gasto e precisando de ajustes. O banheiro tinha vários vazamentos, o piso algumas pedras quebradas, as fechaduras eram antigas e gastas. O clima ameno só era perturbado por um ensaio de meninas modelo de um projeto social com sede em Brasília e que atuava lá em Corrente. Eu desconfiei  que era aliciamento de menores mas na verdade não havia nada de errado. Só bizarro. Era meio estranho ver um monte de meninas dançando “Danúbio Azul” com um “príncípe” improvisado num rapazinho lá de Corrente. Muito bem intencionado, mas nem assim as meninas candidatas a modelo se entusiasmaram pelo charme do Príncipe.

A noite saímos para jantar na festa religiosa em frente a Igreja Católica no centro da cidade. Procuramos algum lugar para comer e no fim nos contentamos com uma sanduicheria na entrada da cidade. Fomos dormir cedinho com a sensação de que as motos estão limpas e preparadas para o que der e vier.

Amanhã chegaremos ao Jalapão !!! Pelo menos era essa nossa ilusão.

Tatus no Jalapão – Dia 2

O “cerumano” e a sua incrível capacidade de se adaptar as mais adversas situações. Sim, se adaptar pode ser se acostumar a um calor de 38/39 graus e achar 33 graus um “friozinho gostoso”. Pois foi isso que aconteceu conosco na noite do dia 2, quando chegamos as 18:30 a cidade de São Lourenço do Piauí. Mas como isso pode acontecer ? Comecei a história pelo fim.

Amanhecemos em Petrolina depois de uma noite onde jantamos um bode assado no Ângelo, regado a muita cerveja Heineken, a preferida do Tio Saulo. Também explico já já porque decidi chamar meu companheiro de aventura de “Tio”. Sob o belíssimo céu limpo e cristalino de Petrolina, em plena seca do El Nino, havia uma sombra que pairava sobre nós. A minha moto tinha morrido em pleno funcionamento duas vezes no fim do dia anterior. Sem motivo aparente a moto desligou. Duas vezes. Quais seriam as possíveis causas ?

  1. Gasolina adulterada quando abastecemos em Belém de São Francisco,
  2. Imperícia do condutor (nunca pode ser descartada)
  3. Síndrome da bomba de gasolina com defeito (mal que assola as BMDafras)

Acordamos por volta de 7 horas para o que planejávamos ser um trecho “fácil” de apenas 304 km até São Raimundo Nonato no Piauí. Fomos abastecer a moto num posto Shell para isolar a variável da gasolina adulterada. Adicionalmente e por via das dúvidas, enchi o tanque da moto com gasolina Shell Dupliplusboa Extra Good Aditivida Juramentada Abençoada. Se o problema era gasolina, agora o tanque cheio da supergasolina deveria resolver.  Logo depois do posto, um susto enorme. Minha moto jorrava gasolina e deixava um rastro por onde passava. O perigo era cair gasolina no escape quente e a coisa toda pegar fogo. Saulo que notou que estava vazando gasolina e me avisou. Meu primeiro pensamento foi “trincou o tanque de gasolina e a aventura acabou”. Nada disso. O incompetente do bombeiro (e do piloto) não fechou a tampa do tanque após abastecer. Fechei tudo, deixei a gasolina que escapou do tanque evaporar e seguimos caminho.

 

Antes de pegar a estrada a paranoia sobre a causa do problema na minha moto nos fez passar numa loja de peças da Bosch e comprar uma bomba de combustível de reserva. Relatos de vários proprietários de BMDafra F800GS contam histórias terríveis de bombas de gasolina que deixaram os pilotos na mão em pleno meio de lugar nenhum. De fato, a posse desse artigo místico, a bomba para carros 1.0 que segundo o Papa Piu (também conhecido como “O Durigan”) pode ser usada na F800GS me dava uma tranquilidade enorme. Resultado é que saímos de Petrolina perto das 10 horas da manhã. Mas sem problemas, o trecho é moleza e temos muito tempo para percorrer apenas 300km. Decidimos então fazer um desvio que adicionou 40km ao percurso e pagar uma visita a Barragem de Sobradinho na Bahia. Queríamos ver o maior lago artificial da América Latina. Para mim isso tinha um sabor especial pois eu havia visitado a barragem há 35 anos numa viagem migratória que fiz com meu pai de carro de Belém de volta para Recife.

Saímos de Petrolina em direção oeste, orientados pelo Tomtom, dobramos a esquerda e abordamos a barragem pelo lado norte. Antes de chegarmos a barragem subimos um morro com torres de telefonia celular e de lá tiramos belas fotos. O sertão virou mar, embora o nível da barragem esteja apenas a 1% da sua capacidade, a imagem ainda impressiona.

DSC_0002Figura 1 – O Sertão Virou Mar – Bandeira XT660 na Bahia

Descemos o morro e seguimos até a eclusa, passando sobre a ponte levadiça.

Eclusa light

Mais fotos da obra que permite que os “vapores” subam o Salto de Sobradinho, como diz a música de Sá e Guarabira.

Voltamos pela estrada em direção norte e o nosso próximo destino é Remanso, na Bahia, onde pretendemos almoçar e reabastecer as motos. Passaremos então por Casa Nova. Na música de Sá e Guarabira eram Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho. Todas elas relocadas pelo lago formado no fim da década de 70. Dessas nós visitaríamos 3. Pilão Arcado e Sento Sé ficam muito fora do roteiro.

Mais uma dose de estradas absolutamente retas e monótonas. Só que agora, em pleno sertão e as 10:30 da manhã a temperatura atingiu os 38 graus que no dia anterior só havíamos alcançado no meio/fim da tarde. Agora era constante. Quente. Ligaram o secador de cabelos e apontaram para nossa cara. A viseira do capacete fechada significa uma temperatura mais “amena”.

Sem incidentes chegamos a Remanso por volta de 12:30 e fomos almoçar no restaurante “Velho Chico” que ficava a margem do lago de Sobradinho. Com a seca, a margem recuou mais de 3km. Almoçamos um delicioso surubim frito acompanhado de suco de tamarindo feito artesanalmente. Descansamos um pouco e decidimos visitar as ruínas antes inundadas de Remanso Velho e agora descobertas pela seca. Segundo os locais, há 4 anos que a margem recuou e esse ano vai ser difícil ela voltar ao nível normal.

Esse foi o primeiro teste off-road que faríamos na viagem. Testar as amarrações e fixações de bagagem. A estradinha no leito do lago tinha de tudo: buracos, cascalho, areia fofa, muita poeira. Na saída um pequeno susto provocado pela perda de tração na traseira ao acelerar. Dá para ver no vídeo do youtube. Chegamos rapidamente a nova margem do rio e dá para ver a desolação que a seca provoca.

remanso velho light

Aqui a cor do rio é bem barrenta. A deposição que o lago de Sobradinho proporciona tornou o Véio Chico mais límpido abaixo da barragem. Como aqui é a nova “orla”, o comércio informal já se estabeleceu. Vimos alguns caminhões pipa reabastecendo com água e algumas barracas de bebidas e comidinhas.

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Voltamos pela mesma estradinha para Remanso e vamos pegar a estrada para São Raimundo Nonato em direção ao norte. Para nossa surpresa a estrada marcada como asfaltada na verdade é de terra.

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Nós pedimos, nós recebemos. Agora é encarar. A estrada, fácil, larga. Muito cascalho e pedras e muita poeira. Decidimos baixar a pressão dos pneus antes em estratosféricas 36/42. Com 22/25 as motos ficaram mais macias, menos ariscas, não quicavam tanto. Menos de 10km depois o pneu dianteiro da minha moto baixou. Acho que esvaziei demais. Saulo usou o o fantástico compressor Michelin portátil e pedi para ele por 30 libras e desejando sinceramente que tenha sido só um mal entendido de esvaziamento incompetente. Não era. Poucos quilômetros depois o veredito. O pneu tinha furado mesmo.

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No problemo! Tínhamos uma câmera Michelin 0km para essa contingência. Só que não levamos as espátulas para tirar o pneu. Tentei improvisar com as ferramentas e elas simplesmente envergavam e nada de desmontar a virola do pneu. O jeito é levar a roda a um borracheiro. Saulo encontrou um borracheiro escondido numa ruazinha ao lado da estrada num vilarejo uns 3 km antes do local onde havíamos parado. Enquanto o borracheiro remendava a câmara velha, Saulo trouxe o pneu com a câmara nova, murcho mesmo para eu montar. Me enrolei na hora de montar dei bobeira e as pastilhas de freio saíram da sede. Tem que tirar o pino e a cupilha, montar a roda, montar as pastilhas e colocar as cupilhas. Tudo certo até a hora de fixar as cupilhas, por pura incompetência minha uma delas envergou, “estilingou” e voou em direção ao esquecimento na poeira no meio da estrada. Nunca mais eu a vi. Paciência, essa vai sem cupilha mesmo. Estava ficando escuro e ainda tínhamos muita estrada de terra para encarar, não sabíamos quanto. Roda montada, câmara nova, estrada escura. Chegamos em São Lourenço do Piauí as 18:30, tudo escuro, paramos para tomar uns refrigerantes. Que delícia quando comparado ao forno de 38 frequentes com picos de 39/40 no meio da estrada. Recalibramos os pneus para asfalto usando o fantástico compressor Michelin de Saulo.

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Descansamos um pouco e tocamos para São Raimundo Nonato. Localizamos a pousada que nos recomendaram, Zabelê e finalmente consideramos que havíamos chegado.

O percurso de 300km que deveria ser concluído lá pelas 3 ou 4 da tarde se estendeu até as 7 da noite por causa do pneu furado. E aí cabe um relato interessante.

Sempre aplico a vacina de pneu da Motovisor na minha moto. Há 15 dias, fiz uma trilha com uns amigos e cheguei em casa com o pneu dianteiro furado. Lá em casa tem compressor e enchi o pneu novamente. A vacina tapou o furo perfeitamente tanto que percorri os 700+km até a estrada Remanso/São Lourenço do Piauí sem problemas. Tudo tem limite e a capacidade de cura da vacina estava há muito esgotada. O borracheiro encontrou nada mais do que 4 furos na câmara de ar. Portanto, a vacina tapou 3 de forma eficaz. O quarto furo era grande, um rasgo e aí não tem jeito, foi a lona.

Terminamos o dia bebendo umas cervejas na área comum do hotel, jantar frugal para mim. Conhecemos o Fernando Maia, um paulista (nascido em Pernambuco) que estava fazendo turismo de aventura com sua esposa na Serra da Capivara. Fernando deu dicas valiosas que seriam muito úteis no dia seguinte. O papo foi divertido e rapidamente criamos uma empatia com o Fernando.

Fomos dormir agradavelmente exaustos. O dia seguinte seria cheio de surpresas.