Quando a maré encher

Avenida Agamemon Magalhães.
Onde os vários Recife’s se encontram. Zona norte, zona sul, centro, subúrbio, litoral interior, rico, pobre, miserável. É aqui que os Recifes se prestam contas. O contato não é fácil porque a desigualdade é muito grande e essa tensão em alguns momentos precisa ser aliviada.
Acidentes de carro que caem no canal, assaltos, pedintes, pobreza, ostenção, abuso social, tudo que as faunas são capazes de produzir se manifesta aqui na Avenida mais importante do Recife. Não existe nada mais cara do Recife do que a Agamenon. A riqueza dos grandes prédios comerciais, a pobreza dos meninos tomando banho no canal quando a maré enche. Quando chove alaga, quando faz sol é um inferno, quando a cidade vai embora durante o feriadão é um deserto. Quando há manifestação, só importa, só faz diferença se a Agamenon parar.
E ela para, todos os dias de semana, por causa do engarrafamento.
Quando eu era criança sempre me admirava com a Agamenon Magalhães e suas faixas de rodagem largas, seus canteiros, seus viadutos, o canal Derby/Tacaruna.
Lembro perfeitamente da primeira vez que vi meninos saltando das pontezinhas do Parque Amorim para divertidamente mergulharem no canal. No canal!! Tudo que tem de mais pútrido e fétido, tudo que tem de doente e contagioso, tudo está lá nesse canal. Meus pais, médicos, classe média, alertavam para os perigos do canal e sua água podre. Tão insalubre que até caminhar nas calçadas (inviáveis) da Agamenon é um risco. E dá para sentir esse risco no fedor que emana e sufoca.
Não conseguia conceber que crianças da minha idade se divertissem e aparentassem serem tão felizes enquanto brincavam, pulavam, nadavam despreocupadamente no canal.
Em outra situação, nos cruzamentos em que vendedores ambulantes oferecem de tudo, crianças miseráveis pedem. Pedem reconhecimento, pedem serem tratadas como humanos. Mas não sabem como pedir isso. Então pedem dinheiro, comida. Para eles ser humano é ter o que comer.
Um menino de rua se aproxima do carro a minha frente, com a janela do motorista aberta, uma senhora ansiosa ao volante espera o sinal abrir. O menino pede um dinheiro. A mulher o ignora, “Sai pra lá menino! Me deixa em paz”. Ele a olha com uma expressão de curiosidade e desprezo. Meio que dizendo “Como é que ela pode ignorar tão solenemente a minha necessidade?”. O menino não liga mais. Depois de milhares de “nãos”, de “sai pra lá”, de ser absolutamente ignorado, o menino já tem uma pele áspera imune a essa demonstração de total falta de empatia. Ele não liga mais. Ele observa como um animal num zoológico curioso mas melancólico observa os humanos “livres”.
De repente o bote.
O menino toma da boca da mulher o cigarro acesso. Por isso a janela aberta. Agora entendi.
O espanto na cara da mulher é genuíno, é assustador. Ela entre num surto “Que absurdo, que é isso?” e continua o escândalo gritando aos brados que está sendo assaltada, que façam alguma coisa, que isso não pode acontecer, que é o fim do mundo.
O menino não liga mais. Entre uma baforada de cigarro e outra, o menino só observa a mulher histérica como um Humphrey Bogart em miniatura de uns 8(?), talvez 9 anos ? Sempre difícil estimar a idade de crianças visivelmente subnutridas.
A mulher engata marcha, buzina. O carro da frente nem se mexe. Ela quer sair dali o mais rápido possível. O choque entre os Recifes é inconveniente, desagrada, é feio, incomoda, envelhece, machuca. Para evitar combater a desigualdade, qualquer desculpa serve.

Os artistas, os poetas, os pintores, os músicos, conseguem usar esse material. Eles traduzem isso. A prova de débil mental. Não tem quem não entenda.
Não tem quem não sinta isso.
A maioria ignora

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