A usabilidade de computadores

Durante a década de 80 o Brasil começou a assistir a adoção de microcomputadores nos ambientes profissionais. Os microcomputadores entraram meio que pela janela no mercado brasileiro pois graças a “Lei de Informática” imposta pela ditadura militar, era proibido importar computadores em geral e microcomputadores em específico. A ideia era estimular a produção local de computadores. Apesar da boa intenção, isso acabou foi criando um cartel que apoiava politicamente a ditadura em troca das benesses. Mas isso é outra história. O fato é que os microcomputadores “fabricados” aqui no Brasil eram defasados tecnologicamente, eram caros, mas eram uma alternativa mais viável do que os caríssimos mainframes dos fabricantes estabelecidos: IBM, Digital, Burroughs (futura Unisys), ABC Bull, Honeywell .. etc.

Assim como o hardware era limitado, a oferta de software aplicativo era muito pobre. Sem software o computador faz coisa nenhuma. Então o que fazer ? Treinar os profissionais a utilizarem os computadores para aproveitar o potencial desses equipamentos. Muitos profissionais de mainframe acreditavam que computadores precisam ser programados para se tornarem úteis e danaram-se a treinar usuários leigos em programação. Grande erro. Embora programação não seja uma ciência inacessível, a produtividade de um funcionário regular pode ser enormemente aumentada sem que ele precise saber programar. A ideia é ensinar os funcionários, agora chamados de “usuários” a usar o computador, não a programá-los.

No orgão público em que eu trabalhava nos meados da década de 80, os microcomputadores invadiram a repartição. Entre motivos escusos e justos, o serviço público foi as compras de microcomputadores e agora só precisava achar um problema para essa solução. O que fazer com os micros? A abordagem anacrônica de ensinar pessoas “normais” a programar foi adotada. Eu era estudante de ciência da computação e vários chefes diretos/indiretos meus eram meus professores da faculdade. Um deles insistia em ensinar BASIC para os usuários. Apesar da farra de compras, microcomputadores eram caros e raros e as turmas de 40 alunos funcionários da repartição tinham que compartilhar 2 míseros computadores PC clone de 16 bits, 640Kbytes de RAM e HD de uns 10 megabytes (UAU!) nas aulas práticas. Como eu era um aluno do chefe, ele me elegeu monitor das suas aulas práticas que consistia em fazer um programa que convertia temperaturas em graus Fahrenheit para graus Celsius. Imagina, uma coisa útil dessas, que nenhum ser humano hoje em dia consegue viver sem, né? Todo dia precisamos converter temperatura de F para C, né mesmo ? Ou não? Ah bom…

A atividade era um tédio enorme. Enquanto dois alunos digitavam o programa BASIC, erravam a digitação, se frustravam quando o programa não funcionava por qualquer erro de lógica ou sintaxe e quando se frustravam mais ainda quando viam o produto do programa que na hora H era absolutamente inútil, sejamos francos. Depois de algumas aulas soporíferas decidi trocar o programa em BASIC por uma planilha em Lotus 1-2-3 (um precursor do Excel) que fazia um gráfico bacana com o biorritmo da pessoa baseado na data de nascimento. Pura cascata com credibilidade igual ou inferior a astrologia ou qualquer outra pseudociência dessas. Mas fazia um sucesso! A impressorinha matricial passava a aula toda gemendo imprimindo os gráficos de biorritmo dos alunos. Como tínhamos 2 computadores, eu tomava conta de metade da turma, meu professor/chefe ficava com a outra metade. O resultado era que dos 40 alunos, uns 3 ou 4 (sempre tem uns caxias) ficavam lá batalhando com o professor para fazer o programa em BASIC. O resto ficava no grupo do biorritmo, tirando gráfico para si mesmo, para marido, esposa, filho. Um sucesso.

Confesso que foi um pouco ousado da minha parte mudar o programa do curso sem pedir a benção ao “professor”. O fato é que o conceito de utilização de planilhas eletrônicas era avançado demais para os já dinossauros àquela época (estamos falando dos anos 80) que insistiam que para usar bem um computador tem que saber programá-lo.

Revendo na marra esse conceito, as próximas turmas de “Introdução a Microcomputação” deixaram de ser teóricas e com ênfase em programação e passaram a ser muito pragmáticas e utilizando planilha eletrônica (Lotus 1-2-3), processador de texto (Wordstar) e banco de dados (dBASE III plus). Hoje em dia seria algo semelhante a um curso de Excel, Word e Access. Não havia um produto bom para o papel que hoje é do Powerpoint.

No órgão governamental em que eu trabalhava, as planilhas eletrônicas eram uma benção para os profissionais de planejamento urbano, planejamento global, planejamento setorial. As demandas que estavam enfileiradas há anos no CPD (centro de processamento de dados) podiam ser atendidas rapidamente com um punhado de planilhas. Mais do que isso, o próprio usuário poderia bolar a sua solução aproveitando de sua própria intimidade com o assunto, muito maior do que a de qualquer analista de sistemas que fosse designado a fazer um sistema “convencional” para cuidar do assunto no mainframe.

Como toda novidade, a organização partiu para adoção ainda mais intensiva de microcomputadores. Sem o devido planejamento, obviamente, isso trouxe sérios problemas. O mais comum naquela época era superestimar a capacidade de processamento e/ou armazenamento de dados dos microcomputadores (de 640k de RAM, 10 mega de disco, processador de 16 bits e … 4mhz de velocidade, sentiu o drama?). Para complicar, redes locais não eram viáveis tampouco disponíveis no Brasil. O máximo que se podia fazer era uma emulação muito porca de um terminal IBM 3278 utilizando um aplicativo desenvolvido em CICS, ou CSP no mainframe e um emulador de terminal no microcomputador. Ah… esqueci … para fazer isso o bendito do micro tinha que ter a famigerada “Placa Irma” que era um gizmo que conectava fisicamente o microcomputador ao mainframe via cabo coaxial se passando por um terminal. Detalhe, essa placa  era proibida de ser importada então eram “clonadas” descaradamente pelos fabricantes locais. Não precisa dizer que quando tinha um problema de compatibilidade ou necessidade de suporte técnico, a IBM lavava  completamente as mãos. A IBM não tinha interesse algum em fomentar um mercado de microcomputadores do qual ela estava proibida por lei de participar.

Mais do que a questão tecnológica que popularizou e disseminou o uso de computadores (micros) nas organizações, a demanda de informação e de consumo da informação era o driver latente para tal disseminação. A queda do preço dos equipamentos e o surgimento de softwares aplicativos melhores apenas atendeu a demanda que já existia.

Hoje esse fenômeno acontece num ciclo de velocidade mais rápida. Se de um lado os microcomputadores ocuparam o espaço profissional, os aplicativos móveis nos smartphones permeiam a vida das pessoas tanto no profissional como no pessoal. A usabilidade aí é o que propicia o atendimento das demandas de informação. O que impulsiona é essa necessidade. A usabilidade é o catalisador.

 

 

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Oracle (dona do Java), avisa: O uso gratuito do Java subiu no telhado.

Como a maioria deve saber, a linguagem de programação Java surgiu dentro da Sun em meados da década de 90 e prometia ser a linguagem universal para programar desde console de video-game até aspirador de pó. A vida real tinha outros planos para essa linguagem fabulosa que virou a principal linguagem para desenvolvimento de sistemas aplicativos nas corporações. Estima-se que 30% de tudo que é de software aplicativo novo no mundo dos negócios é escrito em Java, deixando o resto para ser escrito em todas as outras linguagens sendo que nenhuma outra chega a 10%. Ou seja, Java é um sucesso.

Mesmo sendo propriedade da Sun, Java parecia ao mundo como se fora de domínio público, uma linguagem “sem dono”, ao contrário do Visual Basic, por exemplo, que é da Microsoft uuuuuu, vade retro satanás! Ter que pagar por uma linguagem ?? Nem pensar. A Microsoft era demonizada e o Java era louvado.

O tempo passa, o tempo voa e a … Oracle .. quem diria … engoliu (comprou) a Sun, com casca e tudo. Detalhe, bancos de dados Oracle já podiam ser programados nativamente em Java antes da aquisição. Foi o maior auê na época. A Oracle comprando um fabricante de hardware ? Well, faz sentido. Agora a Oracle pode fornecer um pacote de superservidores de banco de dados envolvendo software e hardware de primeira. Mas será que era por isso exatamente que a Oracle estava disposta a pagar 7 bilhões de dólares pela Sun? Por um fabricante de hardware ?? Será que foi isso gente? Eu acho que não. Oracle estava de olho era no Java, que há 10 anos em 2008 já despontava como a linguagem corporativa por excelência. O auê só aumentava. Qual vai ser o futuro de Java ? Vamos poder continuar a fazer programas em Java e vender nossos programas ? E o software livre feito em Java ? Vai deixar de ser livre ?

A Oracle apressou-se em acalmar a indústria de software e jurou de pés juntos que tudo ia continuar como antes e que a Oracle iria dar ainda mais apoio e investir ainda mais dinheiro no desenvolvimento da linguagem Java. Os gritos de “linguagem com dono não serve para o domínio público” voltaram-se contra a linguagem Java. A Oracle pratica políticas de licenciamento tão ou mais leoninas do que a Microsoft. E agora ?? Os debates nos fóruns pareciam embates religiosos. Alguns defendendo Java, outros avisando para pularem fora pois era só uma questão de tempo para a Oracle começar a querer organizar essa suruba que faziam (fazem) com a linguagem DELA. Apesar do bafafá, tudo continuou como dantes no Quartel de Abrantes. Apesar da invasão napoleônica (alguém duvida que a Oracle, assim como Pinky e Cérebro, quer dominar o mundo?) feita pela Oracle a terra do Java, de fato, pouca coisa mudou. Tecnicamente, mudou bastante e para melhor. Java hoje é ainda mais rápida e poderosa, as ferramentas de desenvolvimento estão maduras, os frameworks estão maduros e existe um fw adequado para cada coisa possível de se imaginar de ser feito com Java. A galera javiana se acalmou, a vida seguiu …. o tempo passou. O tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus … não existe mais. Só os mais velhos vão entender. O tempo passou e eis que …

A Oracle manda um aviso. Vejam aqui

O gato subiu no telhado. Os termos do aviso são ..”estranhos”, digamos assim. Explicitamente o que se lê é que “se você é um CONSUMIDOR que usa Java para uso individual ou pessoal, você continuará a ter o mesmo acesso aos updates como você tem hoje em dia pelo menos até o fim de 2020“. Como é que é ??? Que papo é esse de “pelo menos até 2020” ? Pois é pessoal! O suporte “gratuito” pelo jeito subiu no telhado….

E tem mais!

Se você é um DESENVOLVEDOR … a Oracle recomenda que você reveja a sua estratégia de como vai continuar distribuindo o seu software ….

E tem ainda MAIS !!!

Se você é uma empresa/corporação, reveja ainda mais detalhadamente pois vai precisar adquirir uma licença comercial do Java!!!!! Ou seja, além de pagar para o desenvolvedor do software, a empresa vai ter que pagar para a Oracle uma licença para rodar/desenvolver qualquer coisa em Java.

Então, meu caro, …. aquela  brilhante ideia de desenvolver um aplicativo em Java que iria trazer toneladas de dinheiro para você … precisa ser revista pois a Oracle já avisou que vai querer a parte que lhe cabe nessa farra.