Definição motociclística de tatu

armadillo_black_white_line_art_coloring_book_colouring-4444pxHá anos eu escrevi um artigo aqui no blog mostrando o significado do termo “coxinha” para os motociclistas. O artigo era muito necessário numa época de polarização política. Coxinha em termos políticos tem um quê de pejorativo. Já em termos motociclísticos, tal termo é na verdade algo até carinhoso.

Para todo ponto existe um contraponto. Para toda tendência existe uma antitendência e para opor-se aos coxinhas existem os tatus. Mas o que é tatu em termos motociclísticos?

Uma imagem vale mais do que mil palavras e um vídeo vale mais do que um post com mil palavras. Esse vídeo abaixo, de uma rede de concessionárias BMW nos Estados Unidos, dá uma ideia bem próxima do que é ser tatu.

O tatu é um estado de espírito motociclístico. O tatu não quer o fácil, não quer o que todo mundo faz. O tatu quer ir onde poucos (ou nenhum) foram. Tanto melhor. O tatu pede orientações na estrada só que de um jeito diferente. Onde “não passa” é por onde o tatu vai. Onde “a estrada está ruim” é por onde o tatu quer ir. Onde tem areia, lama, água, rio, pirambeira, barranco, buraco, rieira, erosão, batente, porteira fechada, mar, riacho, escuridão, frio, calor, vento, neve, poeira, duna, atoleiro, mata, deserto, tronco caído, é por aí que o tatu quer ir. Dá para ver que tatu é especial. E não só por isso.

O tatu não se interessa muito pelo destino. Assim como todo bom motociclista, ele se preocupa mais com a jornada. O tatu se prepara e também improvisa. O tatu vai chegar lá de algum jeito. Vai levar a moto até onde não é mais possível seguir sobre duas rodas. E ainda assim, o tatu fica imaginando como poderia transpor o rio intransponível, subir o barranco íngreme, atravessar o lamaçal, superar o areial. Ao contrário dos coxinhas, o tatu tenta tudo. Tenta tu aí. Tem tatu aí. Se tem tatu, tem aventura.

O tatu é o aventureiro sobre rodas e a sua moto é a sua companheira. A moto do tatu é diferente da moto do coxinha. Moto de tatu é equipada porém sem supérfluo. O tatu não se preocupa tanto com a forma e mais com a função. A prioridade é a capacidade da moto de superar obstáculos. Pneus off-road, protetores de motor, protetores de mão, ferramentas, cordas, materiais para reparos diverso entre outros acessórios e ferramentas fazem parte do arsenal do tatu. Entre todos esses equipamentos o principal: o espírito destemido e abnegado, a técnica e a determinação que vem com o piloto tatu.

Identificar um tatu é fácil. Nos postos de gasolina as motos dos tatus são as mais sujas. Eles não se importam. Nos estacionamentos dos pontos de encontro é fácil saber quem é o tatu. São os que descem das motos com arranhões, são cicatrizes das aventuras, cada uma delas com uma história de superação. Nas lojas de acessórios e boutiques de motos também é fácil identificar um tatu. Ele não se importa muito com a tendência da moda dos calçados ou das roupas. Ele quer saber se é resistente, se faz frio ou se faz calor, se aguenta o rojão de passar dias sem ser lavada. Se aguenta o rojão de passar dias sendo lavada pela chuva, ou pela poeira ou pelos dois juntos. Acredite. É possível. Para um tatu é possível. Chama-se “trilha das 4 estações” e acontece quando um tatu leva a sua moto e num mesmo dia enfrenta todos os tipos de condições climáticas.

O tatu preserva a sua moto mas não a idolatra. O tatu curte a moto pelo que ela proporciona de emoção, do que ela exige de técnica e domínio do piloto. O tatu curte a moto pelo que ela é capaz de fazer com ele montado nela. O tatu não é exibicionista, não faz questão de ir de moto para tomar cerveja com outros tatus. Ele faz questão de se aventurar, de se permitir. E de encontrar com outros tatus. Se for na terra, melhor ainda.

O tatu não se incomoda se está perdido no meio do mato. O tatu não se incomoda se o design do pneu não é bonito. O tatu não se incomoda se o adesivo da moto caiu. Não se importa se o seu “colete” tem brasão de moto clube. O tatu só se importa com uma coisa: você tem coragem de ir onde outros não vão? Se você tem essa coragem, você é um tatu.

O que o tatu gosta? Ele gosta da terra, gosta da aventura, gosta da sua moto para levá-lo para esses lugares. O tatu vai ajudar outro tatu diante de uma dificuldade mas antes ele vai dar umas risadas do tombo, da atolada, da saída pela tangente na curva, da peça de bagagem que caiu da moto, do caminho errado que o guia pegou, da trilha marcada no gps, das fotos da moto atravessando o rio, ou o lamaçal, ou a duna, ou a enchente, ou a poeira, ou a fumaça de uma queimada, ou o deserto, ou o rebanho de cabras no meio do sertão brasileiro.

O tatu é o companheiro das aventuras que você sempre quis fazer e a pasteurização da vida urbanóide impediu. Para os tatus os fabricantes de moto criaram as bigtrails. Assim como o vídeo acima demonstrou, o tatu não precisa de muito. Não faz reservas (de hotel). Nem tem reservas (a quem quer que seja). O tatu está lá para curtir o motociclismo de fato, o motociclismo rústico, o motociclismo em que o mais importante é o piloto e não a moto endeusada.

O tatu adora a terra e daí que vem o seu nome. Entre o caminho 100% asfalto e a estradinha ruim cheia de buracos e que todos dizem que “não passa”, advinha qual é a que o tatu prefere ?

Essas já seriam diferenças suficientes para separar o tatu dos outros animais moticiclísticos. Só falta a diferença básica. A atitude e o comportamento diante dos tombos.

O tatu cai. Sim, embora não pareça, os tatus também são suscetíveis a lei da gravidade. Tatu leva tombo. E mais do que isso, tatu sobrevive ao tombo, encara como uma oportunidade de aprender. O tatu reflete sobre o erro que cometeu e melhora a técnica, aprende com o erro. Tatu não se vangloria de “nunca ter caído”. Se nunca caiu é sinal de que não explorou o limite da pilotagem.

Ninguem pilota uma moto para levar um tombo. A ideia é de fato não cair. Só que cair faz parte da vida. É preciso conhecer o seu limite e o tombo/queda é o marco. Quanto um tatu cai a primeira coisa que ele faz é pensar “Poxa, que foi que eu fiz errado?”. O tatu não põe a culpa nos outros. O tatu encara a merda que fez e a limpa. O tatu aprende com o erro. As vezes … precisa de dois erros para ele entender. Nem todo tatu é inteligente. Esse não é o ponto forte, inteligência. O ponto forte é a determinação.

Quando encontrar um tatu montado na sua moto, fique certo que ele estará disposto a compartilhar o caminho que fez ou pretende fazer, trocará uma dica, perguntará sem vergonha, buscará ajudar sem pensar em obter alguma vantagem. O tatu é antes de tudo um motociclista e como tal tem um senso de comunidade e participação mais aguçado. Assim como o amigo coxinha, o tatu não se nega a ajudar, não deixa o companheiro para traz. O tatu cuida do seu grupo.

Então quais são as diferenças entre os tatus e os coxinhas ?

Se a moto cai: O coxinha entra em desespero e perde o gosto pela moto. O tatu levanda, sacode a poeira e segue em frente.

Se a moto suja: o coxinha imediatamente lava, poli, esfrega e se for o caso troca de moto. O tatu não liga. Se alguém perguntar como foi que sujou ele vai contar a saga da trilha/passeio que fez.

 

 

 

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3 comentários sobre “Definição motociclística de tatu

  1. Simplesmente perfeito! Esqueceu apenas de um item o rigatório na bagagem… A máquina fotográfica! Ou tem alguma dúvida que as mais belas fotos são tiradas sem o asfalto ao fundo?

    Embora goste de boas estradas e de motos limpas, é inegável o prazer de rodar de um jeito “fora do normal” e não abro mão desse prazer recente descoberto!

    No fim, o que importa é se divertir, rir, fazer amigos e principalmente rodar em duas rodas, seja coxinha ou tatú!

  2. Me encaixo perfeitamente na sua definição, Mestre Boko!

  3. Só tenho uma coisa a dizer MARAVILHOOOOOOOOSO !!!!!!!

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