Tatus na Chapada – Dia 10

Do que o amor pode tornar as pessoas capazes? O amor por uma estrada é capaz de uma pessoa cometer loucuras. Tio Saulo é apaixonado pela BR-101 e por causa da oportunidade de conjunção carnal que se aproxima ele tapa os ouvidos a razão. Gente apaixonada é assim. Ahhh… o amor ….

Hoje é o dia 9 de dezembro de 2015 e será um dia de deslocamento de Lençóis na Bahia para Manguetown (também conhecida como Recife) em Pernambuco. Não vai ter aventura, não vai ter trilha. Tudo 100% asfalto que nem o dia de deslocamento de Barreiras para Lençóis.

Na noite anterior demos uma pré-arrumada na bagagem, empacotamos o máximo de coisas possível e eu dei uma revisada na minha moto. Os parafusos que comprei para usar na bolsinha de tanque ficaram melhores que os originais. Reacomodei a bagagem, agora acrescida dos presentes e lembrancinhas para parentes e amigos. Não é fácil acomodar tudo na minha moto mas depois de muita engenharia a base de tentativa e erro, coube tudo.

Tio Saulo e sua capacidade de carga maior do que de um Jac J2 estava tranquilo. Os baús e360 givi são realmente uma beleza. Além de espaçosos, são resistentes, fáceis de montar/desmontar na moto e servem como malas. Na hora de montar, eu perco uma das pecinhas de acabamento que haviam caído do baú de Tio Saulo na travessia da Serra das Confusões. Ele fica furioso e com razão. Ainda procuro no canteiro do jardim mal cuidado mas não acho. A prioridade é arrumar as coisas e depois eu vejo isso.

Nosso plano é chegar o mais perto possível de Recife hoje, quarta feira. Pernoitaremos em algum lugar de Alagoas, provavelmente e na manhã da quinta partimos cedinho com a meta de chegar a Recife antes das 10 da manhã. Totalmente factível e com uma boa margem de segurança caso algum problema com as motos ou com a estrada apareça.

Durante o café da manhã na Pousada Raio de Sol conhecemos uma equipe do IBAMA que está lá incógnita para investigar e coibir os incêndios muito suspeitos que assolaram a Chapada nas últimas semanas. Um deles nos dá uma dica de desviarmos da BR-242 na altura de Itaberaba e seguir nordeste em direção a Ipirá pela BA-223 e depois pegar a BA-052 em direção a Feira de Santana, onde pegaríamos a famigerada BR-101. Fazendo assim, evitaríamos o trecho mais movimentado de caminhões da BR-242 que inclusive está com mais defeitos na pista a medida que nos aproximamos do litoral.

Dou uma última passadinha no posto para checar se a bandeira azul apareceu  … nada feito. Bom, paciência. Vamos seguir viagem. Acabamos saindo mesmo as 8hs da manhã.

O tráfego na BR-242 é intenso sem prejudicar muito o ritmo. Em Itaberaba, o portal da Chapada para quem vem do leste, desviamos para Ipirá e a estrada perfeita, reta e sem buracos está completamente vazia. Aceleramos e mantemos médias altas, o consumo vai lá para cima e fazemos a primeira parada para abastecer em Ipirá. Maravilha. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

Cruzamos a cidade pequena e pegamos a BA-052 em direção a Feira de Santana e a estrada fica uma porcaria. Um movimento enorme de carros de passeio e caminhões e o asfalto cheio de ondulações, buracos, imprudência e barbeiragem. Veículos lentos, poucas chances de ultrapassagem e veículos em velocidade acima do limite de segurança. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Chegamos em Feira de Santana e o TomTom me faz pegar o anel viário em direção ao leste. Num entroncamento fico na dúvida, Saulo afirma que entrei no caminho errado pois uma placa para Fortaleza mandava fazer a curva a esquerda e o Tomtom a direita.

Depois de seguir para Fortaleza percebo que estamos no caminho errado. Tio Saulo se esqueceu que a BR-101 não segue para Fortaleza. A placa estava indicando o caminho pela BR-116 que passa por Cabrobó, muito a oeste e fora de nossa rota.

Para complicar as coisas, o anel viário que já não é bem sinalizado está em obras. O trânsito intenso do final de uma manhã de quarta feira numa das cidades mais importantes da logística terrestre de todo o Nordeste tornam tudo devagar e complicado. Perdemos uns 30 minutos até acharmos o caminho da BR-101 que passa a sudeste de Feira de Santana.

Quando entramos na BR-101 recebemos uma amostra leve do que vai ser o sufoco de trafegar numa das piores estradas do Brasil. Trânsito intenso, asfalto irregular, muitas cidades com lombadas e redutores de velocidade.

Paramos para abastecer pela segunda vez em Alagoinhas e eu proponho a Tio Saulo que peguemos a BR-110 em direção a Paulo Afonso, sigamos de lá para Garanhuns e pegamos a nossa boa, superfaturada e velha BR-232 que tanto conhecemos. O caminho adicionaria apenas 60 km num trajeto de mais de 1000km, ou seja 6% sendo que esses 60km equivalem ao deslocamento de Gravatá para Recife. Evitaríamos a BR-101 no seu pior trecho e teríamos várias alternativas de pernoite em cidades agradáveis do nosso Pernambuco. Não teve jeito. Tio Saulo prefere a BR-101 e é por ela que vamos. Não estava tão ruim assim … talvez dê para chegar em Recife hoje.

Maldita BR-101! Que estrada ruim da gota serena. Vestígios de duplicação só em Sergipe. O governo Federal fez nada de duplicação nessa estrada na Bahia apesar de 3 governos estaduais sucessivos do PT. Vá entender. Ondulações no asfalto, cavas de peso excessivo de caminhões, lombadas e lombadas e lombadas, pista simples um tráfego tão intenso de caminhões que faria duvidar que estamos numa economia em recessão.

A média cai bastante e de vez em quando pegamos um engarrafamento. Sim, engarrafamento desses que se vê em trânsito urbano. Eu vou logo perdendo a paciência e pergunto a Tio Saulo se ele está “gostando” dessa “estrada maravilhosa”. Ele jamais vai admitir que fizemos besteira e diz que está curtindo muito, que até prefere a estrada travada pois não dá sono. Como se não bastasse, nas curvas Tio Saulo tira a mão e faz as curvas as vezes a 60km/h. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Tio Saulo me consola e afirma que dentro de mais 30km, quando entrarmos em Sergipe, já vai ter duplicação. Os 30km viram 90km e nada de duplicação da rodovia. Quando ela chega é uma desgraça. A pista da direita está tão gasta que acaba tendo uma pista só. De qualquer forma o ritmo melhora bastante. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

A alegria dura pouco. A duplicação termina subitamente em meio a obras tocadas pelo Exército. Caramba! Ainda não terminaram? Lembro que em Pernambuco a duplicação do trecho norte da BR-101 que liga Recife a João Pessoa teve a licitação cancelada. O Presidente Lula arretou-se e mandou o Exército construir o trecho. A obra começou e estava andando. Demorou tanto que o trecho sul foi licitado depois, iniciou a obra depois e terminou tudo antes. E ainda era mais longo! Aqui em Sergipe, se depender do Exército essa BR-101 só estará duplicada em 2020 e olhe lá. E eu irritado com tudo por causa disso.

Decido acompanhar Tio Saulo como fizemos em 90% da jornada até agora. Só que o ritmo é lento e eu furioso decido ir na frente para estimular Tio Saulo a tocar mais rápido. Só que tem um detalhe. Os baús laterais da moto de Tio Saulo o impedem de manobrar entre os carros com a mesma agilidade que a Esguia e Mítica Black Mamba é capaz. Sem perceber abri uma vantagem enorme e quando me aproximei do cruzamento do Rio São Francisco (pela terceira vez nessa nossa jornada) estou tão a frente que dá tempo de eu parar no posto Ipiranga e perguntar pelo limpa viseira, dar uma mijadinha e apreciar a paisagem antes que Tio Saulo me alcance. Nessa tocada nem em sonho dá para chegar em Recife hoje!

Mais trechos duplicados e novamente o ritmo sobe. Tio Saulo finalmente reage ao estímulo e a estrada alterna trechos perfeitos com trechos pré-históricos. Pista simples, pista duplicada e felizmente nenhum pare/siga. Ainda bem. Nessa tocada talvez dê para chegar em Recife hoje!

Paramos em São Miguel dos Campos para fazer um lanche e reabastecer. Faltam apenas 287km pela BR-101 até Recife. O pior trecho da BR-101 nos aguarda entre Messias e Palmares. A duplicação não está pronta e vamos pegar tudo isso a noite. Chegou a hora de decidir. São 17:30hs. Tocamos para Recife ou pernoitamos em Maceió? Eu voto por encararmos direto e Tio Saulo concorda. Caprichamos na lavagem das viseiras. Viseira suja com luz alta de carro em sentido contrário é ofuscante. Você pilota pelo olfato.

Agora não tem mais “será que dá?”. Vai ter que dar. Ligo para a minha Amada Lara e aviso que essa noite dormirei em casa. Ela fica super feliz e se prepara para me receber. Mais um estímulo para eu encarar o suplício da BR-101 … a noite … depois de 800km e 10 horas em cima de uma moto.

Pegamos a estrada determinados a abastecer em Palmares, o início do trecho realmente duplicado da BR-101 em Pernambuco, um trecho conhecido por nós, seguro, sinalizado e com tráfego ameno. Se chegarmos a Palmares  … chegamos em Recife hoje. Palmares or bust!

Não foi fácil. Muito caminhão na pista. Além dos caminhões normais, lembro que é época de safra nas usinas de cana de açucar da região. Isso baixa muito o nível médio de habilidade dos motoristas. O campônes que colhe cana na ponta de um facão sonha um dia ser motorista de caminhão que coleta a cana colhida. Instrução mínima e o cara vira motorista de caminhão. Acredito até que muitos dos que cruzamos nas estradas da região canavieira do nordeste sequer tem habilitação.

Treminhões carregados, tratores, motoniveladoras, shineray XYQ50, D20 modelo 1991, Infinity FX35. A fauna rodoviária é exuberante. Só não vi moto grande, de estilo algum. Agora caiu a ficha. Exceto pela F800gs coxinha lá em Igatu, nenhuma bigtrail em todo o percurso. Será que foram todas para o Atacama? Bom, isso é irrelevante agora. O ritmo baixou, o farol na cara virou constante, as curvas são feitas bem devagar pois a sinalização da BR-101 em Alagoas é nula.

Tio Saulo é uma constante no meu retrovisor. Só vejo o farol vesgo da moto dele de vez em quando para não me ofuscar. Começa o pior trecho entre Novo Lino, Alagoas e Xexéu, Pernambuco. Posto fiscal em ambos lados da fronteira estadual. Tio Saulo fica para traz  por causa dos baús. Eu esqueci novamente.

De repente, no meio da escuridão, reconheço a curva que desce para Palmares. A duplicaçao está logo ali. Como combinei com o Tio Saulo, parei no primeiro posto para reabastecer, dar uma relaxada, tomar uma água, limpar as viseiras novamente. Faço isso tudo e só então Tio Saulo chega ao posto. Ligo para minha Amada Lara e aviso que estou em Palmares. Mais uma hora e estarei em casa. Agora não tem o que dar errado.

A BR-101 se transforma num tapete e o ritmo sobe, mesmo no escuro. Olho para o retrovisor e para meu deleite Tio Saulo está me acompanhando. Aperto o ritmo e Tio Saulo lá … Acelero mais e Tio .. epa .. peraí … não pode! Nesse ritmo fazendo curvas no escuro a 140km/h? Nem nos delírios mais megalomaníacos Tio Saulo conseguiria. É outra moto! Mas quem é esse cara? E qual é a intençao dele? Bate a neura. Pode ser um assalto. Mantenho o ritmo acelerado e o cara aproxima nas retas e afasta-se nas curvas. Certamente não é uma moto pequena. Tento observar melhor e parece ser um Hornet nova, com o farol em forma de escudo. Já estou em Escada quando chego a essa conclusão. Melhor manter assim e chegar a Recife. Antes de chegar em Charneca a moto misteriosa sumiu. E nem sinal de Tio Saulo.

Havíamos nos despedido no posto de Palmares e com essa tocada acabamos nos separando. Segui direto para casa e fui muito bem recebido pela minha Amada Lara, por Tais e alguns minutos depois por Rayssa e Nani. Estava super feliz. Havia antecipado em um dia a chegada e iria dormir na minha cama depois de 9 noites.

Fiquei animado com a chegada e nem me submeti ao cansaço. Abracei a minha mulher e a cobri de beijos, tomei um banho refrescante e parti para a distribuição de lembrancinhas entre as 4 mulheres da minha vida. Contei histórias, fiz um lanchinho, demos risadas e eu fui dormir. Minutos depois, Tio Saulo manda uma mensagem para o whatsapp do grupo avisando que estava são e salvo em casa. A viagem real acabou. Começa agora a viagem na memória para registrar e contar para os amigos e parentes.

 

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Um comentário sobre “Tatus na Chapada – Dia 10

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