Tatus em Manguetown – Conclusão

Depois de 4000 km de aventura em cima de uma moto, o relato precisa de uma conclusão onde vou ponderar algumas coisas que não estão relacionadas com cronologia ou mesmo estão diretamente conectadas aos acontecimentos. São conclusões e ideias que surgem depois de uma jornada, como um balanço.

As motos

Black Mamba

A Famigerada, mítica, admirada Black Mamba, temida pelos coxinhas, minha F800 GS Triple Black ano 2012 que terminou a jornada com 29263km.

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Equipada com um bauleto Touratech de alumínio onde levei as ferramentas e peças de reposição, corda, além da capa de chuva. Minhas roupas seguiram numa mala amarrada no banco, capacidade de bagagem que se provou insuficiente e tive que aproveitar a mochilinha ordinária para trazer mais coisas. O engate do baú soltou durante algum momento entre Corrente e Lençois e eu só percebi no dia seguinte a nossa chegada em Lençois. Protetor de carenagem. Filtro de ar lavável K&N. Pneus Karoo 3, sendo que o dianteiro estava em meia vida e agora acabou de vez. Um carregador de 12v/5v usb no guidão, antena corta pipa e bolsinha de tanque da Givi com suporte para o tablet, que virou navegador GPS. A transmissão já estava em meia vida após 25kkm e agora está na lona, será substituida. Exceto pelos sustos com a injeção em Petrolina e próximo a Barreiras, a moto apresentou nenhum problema, inclusive esse último nunca mais apareceu. Sistematicamente a Black Mamba consumiu menos do que a Branca Filé de Tio Saulo. Depois dessa saga, a Black Manba vai passar por uma revisão completa quando instalarei as molas Hyperpro e o novo par de pneus Mitas E07. De longe, a melhor moto que tive em minha vida e nem tão cedo pretendo trocá-la, simplesmente porque não há no mercado moto mais adequada ao tipo de uso que faço (uso urbano e off-road nos fins de semana). O conforto poderia ser melhorado com uma bolha mais alta … com prejuízo para o uso off-road. Levou 5 tombos durante essa viagem, todos sem maior gravidade além de arranhar o protetor de carenagem.

Branca Filé

Branca filéA F800GS Branca, modelo 2014 de Tio Saulo. A mais bela e que chavama atenção por onde passava. Moto de coxinha. Bem cuidada, recém revitalizada. Equipada com Karoo 3 novinhos, banco confort (emprestado de Alan), protetor de carenagem modificado pelo próprio Saulo. Com 3 baús Givi monokey E360 tem mais capacidade de bagagem do que um carro popular 1.0. Para navegar, dois GPS, um Zumi e um Etrex. Levou apenas 3 tombos durante a viagem, sendo que um deles quebrou o engate do baú direito e no outro empenou a ferragem para a esquerda. Nenhum vestígio sequer de defeito ou problema. Uma das carenagens foi arranhada pelo parafuso da joelheira direita de Tio Saulo, problema prontamente resolvido com um adesivo protetor. O paralama havia sido partido por uma pancada do protetor de carenagem mal projetado. Tio Saulo modificou o protetor  e resolveu o desenho mal feito. O paralama foi recondicionado mas durante a viagem a vibração provocou uma rachadura que resolvemos com silver tape. Certamente será substituido em breve pois moto de coxinha não pode ter remendo de silver tape. Consumiu mais que a Black Mamba provavelmente devido ao “estilo” do piloto.

Equipamentos

Bokomoko – Levei apenas uma jaqueta Exustar verão, calça off-road ASW, joelheiras, uma capa de chuva impermeável, botas Forma Terra Adventure, capacete Mormai com pala (que removi), luvas Exustar de nylon e Alpine Star de couro. As Exustar são inadequadas para longas viagens e me causaram muitos calos. A Alpine star estava com um rasguinho que aumentou e inviabilizou seu uso. Pilotei sempre com camisas dryfit de manga longa, sendo que duas delas do MTA muito confortáveis. Levei também um par de sandálias havaianas apenas. Uma câmera Nikon D3200, uma objetiva de 200mm além da de 50mm, um roteador wifi 3g portátil com chip da Claro (que não consegui usar), um notebook, uma câmera Gopro 3 White montada ao lado direito do meu capacete. Vou mudá-la para o lado esquerdo para facilitar o liga/desliga. Uma câmera de ação xing ling que nunca usamos. Um par de walkie talkies baratinhos e seu carregador de baterias. Um tablet de 7 polegadas que serviu de GPS na medida em cima da bolsinha de tanque da Givi. Uma bateria externa para celular/tablet/câmera. Meu celular Samsung S4 também serviu de câmera fotográfica. Dois chips de 32gb que nunca encheram pois os limpava todo dia no notebook. Vários carregadores de celular, um adaptador de tomada universal (que pensei ter perdido e comprei outro, ficando com 2). Deveria ter levado um tênis ou bota de aventura. Tentei comprar um em São Raimundo Nonato mas não deu certo. Acabei comprando uma mochila para levar água nas caminhadas e que me serviu para trazer mais bagagem (presentes e a roupa suja).

Tio Saulo – Levou duas calças off-road, duas jaquetas sendo uma delas Bogotá multiwheather, dois pares de botas, um par de tênis. Um GPS Zumi e outro E-trex, ambos da Garmim. Levou também uma câmera Canon compacta mas muito boa e responsável por várias das melhores fotos de toda a jornada. Um fantástico compressor Michelin com motor 12v que nos salvou em várias ocasiões. Isso tudo coube e sobrou espaço nos imensos baús Givi. O celular Iphone com chip da Vivo foi o que funcionou melhor em termos de cobertura.

Ferramentas

Levei o meu kit tradicional de ferramentas que levo sempre em trilhas. Jogo de ferramentas Torx da Gedore de primeira, um kit de torx xingling com cabos mais longos e de plástico. Um jogo de torx fêmeas soquete porém o adaptador da catraca não veio. Compramos duas espátulas para montar desmontar pneus e descobrimos depois que são mágicas e protegem os pneus contra furos num raio de 200 metros. Seguiram no baú imenso de Tio Saulo. Levamos um par de câmaras de ar michelin sendo que a dianteira foi montada depois do primeiro furo e logo em seguida também furou. Compramos mais duas câmaras de reserva em São Raimundo Nonato da Pirelli mesmo. Tyre Repair da Motul que não usamos de bobeira (ainda bem). Minhas câmeras de ar estavam com vacina de pneu. A câmara que furou na estrada de Remanso/São Lourenço do Piauí tinha 4 furos, 3 deles tapados pela vacina. Foi remendada e acho que ainda funciona numa emergência. O pneu traseiro foi e voltou sem baixar uma vez e está com vacina.

Acesso a internet

Durante toda a viagem o acesso a internet foi precário. No momentos menos ruins, o 3g/4g da Tim e da Vivo funcionavam melhor do que as internet de hotéis e bares/restaurantes. O problema é que em vários locais nada funcionava. A melhor cobertura era Vivo, mesmo lá no sertão. Quando comprei um chip pré pago da Vivo para usar no roteador wifi o sinal da Vivo sumiu. Dei azar. O celular de Saulo era Vivo e funcionou a maior parte do tempo, com 3g/4g inclusive. Por causa do acesso precário a internet, os primeiros relatos não saíram com muitas fotos na primeira edição. Pretendo corrigir depois.

O roteiro

O roteiro preliminar era para irmos para a Chapada Diamantina. Por causa dos avisos de incêndio, mudamos para o Jalapão. Um erro induzido por mim. Tio Saulo sempre achou que devíamos ir para a Chapada. Mesmo assim valeu a pena pois a aventura ficou bem apimentada. O erro de roteirização no acesso ao Jalapão é muito comum. A dica que fica é que é preciso obter relatos de primeira mão e com confiabilidade. Não adianta desconfiar de um caminho e ficar na dúvida no meio de canto nenhum pois não há a quem perguntar e que dê informação confiável. Lá é deserto mesmo.

Como bônus passamos pela aventura de cruzar a Serra das Confusões. Ainda assim, pegamos um caminho errado e um pouco mais longo. Dá para explorar mais e usar um caminho alternativo, talvez mais radical, mais curto. Não pode ir sozinho para a Serra das Confusões. A minha queda quase parado demonstra isso.

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Já na Chapada, é tranquilo. Muito perto da civilização, região densamente povoada com acessos via asfalto. É coxinha, mas tá valendo

Sobre os pilotos

Bokomoko – 50 anos, num corpinho de 49. Nada mais a dizer a respeito de mim mesmo.

Tio Saulo – 36 anos de praia, surfe, off-road 4×4, piloto de CRF 230 e agora de bigtrail. Cara agradável de lidar, sempre divertido e com opinião sobre tudo. Chamei-o de Tio pois ele tinha orientação para tudo que fazíamos. Até a posição/orientação da moto no estacionamento. Liderou o passeio em 90% do tempo, definiu o roteiro de visitações, escolheu a comida, ligou/desligou a chuva. Alternou entre momentos em que era uma seda e um papel para embrulhar prego. Foi companheiro quando eu precisei no surto do Jalapão e me deu a chance de ajudá-lo quando ele ficou esgotado psicologicamente. Com Saulo e a experiência que ele tem eu vou até para a guerra.

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Sobre o Sertão

Como cheguei a mencionar, estive em Sobradinho há 36 anos. De lá para cá o desenvolvimento do sertão avançou bastante mas ainda há muito o que ser feito. Comparando a Arcoverde que visitei em novembro de 2005 com a mesma cidade de dezembro de 2015, dá para ver que as políticas de distribuição de renda deram certo e promoveram muito desenvolvimento econômico da região.

A vocação para o turismo é enorme e em alguns casos o potencial ainda não foi explorado sequer 1%. É o caso do Parque da Serra da Capivara que recebe apenas 20 mil turistas por ano. Parques semelhantes porém muito menores e com menos atrações na França recebem mais de 2 milhões de visitantes por ano. Comparando os números assim cruamente fica dificil de entender. No entanto, ao irmos para lá dá para ver o porque dessa discrepância enorme. A infraestrutura.

Se durante algum tempo a falta de acesso a água foi o motivo do atraso do sertão brasileiro em geral e do nordestino em específico, hoje já se sabe que não basta ter água (que por sinal existe em abundância, acreditem). O que falta é infraestrutura: estradas, aeroportos, telecomunicações, rede hoteleira, rede de serviços em geral.

Para um turista ir a Serra da Capivara no Piauí ele tem que estar disposto a muita aventura. O turista médio não quer isso. Ele quer relax, quer moleza. Encarar horas de estrada esburacada, num calor enorme e ter que se hospedar numa pousada que não tem acesso decente a internet para ele postar as fotos magníficas que fez no Facebook … nada feito. Esse turista ainda vai preferir ir para Porto de Galinhas ou coisa parecida.

Uma pena pois a beleza rústica do sertão, mesmo na seca, é encantadora. O sertão ainda tem coisas a serem descobertas e as que já foram descobertas precisam ser exploradas com consciência de preservação. O ambiente apesar de rústico é frágil. A fauna é surpreendentemente rica, considerando a escassez. Um dia ainda teremos resorts bacanas no meio do deserto como vemos em outros países.

 

7 comentários sobre “Tatus em Manguetown – Conclusão

  1. Pingback: Grande Raid dos Sertões | O canto do João Eurico (plus)

  2. Muito legal eu relato.
    Consegui imaginar as aventuras que vocês passaram.
    Tenho muita vontade de fazer uma viajem destas.
    Parabéns!

  3. Boko terminei agora de ler todos os relatos da viagem. Fantástico! Que aventura. E muito bem escrita. Espero um dia fazer uma viagem dessa com vocês. Grande abraço!

  4. Parabéns pela aventura e pelo excelente relato! Acompanhei todos os posts e torci junto! Que venham os próximos!

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