Tatus no Jalapão – Dia 6

Jalapão or Bust!

Bust.

Simples assim.

Nosso grito de guerra para o dia 6 poderia ser esse. Só que não. Minha ideia era partirmos de Corrente bem cedo e dormimos no Jalapão … ou morrer tentando! Desistir jamais! Mas que papo é esse de “desistir”? O dia mal começou!

Saímos cedo de Corrente e pegamos o asfalto por apenas 20km até entrarmos a direita na estrada de terra que serviria de atalho que nos economizaria uns 50km de estrada de terra até Mateiros em Tocantins, nossa planejada base no Jalapão. A estrada de terra rapidamente se transforma em trilha e a paisagem é deslumbrante.

A vegetação já se parece mais com uma mistura de caatinga e cerrado com manchas grandes de mata atlântica. Está úmido pois choveu na noite anterior.  Nada demais, algumas poças d’água e um pouco menos de poeira. Mas ainda tinha poeira. Algumas bifurcações nos forçaram a verificar direitinho no GPS qual caminho tomar. Paramos para esvaziar os pneus e aparece um senhor numa Fan 125. Perguntamos a ele como era o caminho para Coaceral, na Bahia. Ele afirma que temos que cruzar a serra e que o caminho é difícil mas dá para passar. Outro encontro com uma jovem senhora numa 125 e ela se assombra ao saber que vamos tentar passar a serra. A trilha vai ficando mais travada e mais legal, mais técnica. Numa outra bifurcação Saulo tem a feliz ideia de perguntar a um menino de 8 ou 9 anos qual é o caminho. Ele só sabe ir até a casa da avó. Brilhante!

Mais um trechinho de estrada, por enquanto.

Achamos o caminho definitivo e de repente a estrada some e vira um single track seguindo em paralelo a um grotão enorme que parece que não acaba mais. Estamos fora da track marcada pelo GPS. Tem algo errado. A single track fica super sinuosa e de repente encontramos um grupo de rapazes e um deles de moto. Perguntamos novamente sobre o caminho para Coaceral e o Francisco, o rapaz com a moto,  afirma categoricamente que nossas motos não passam. Eu duvido, como sempre, e peço ao Francisco para nos levar até o ponto que ele considera intransponível. Eis o caminho que ele guiou a gente

A trilha vai ficando mais travada ainda, uma delícia, e até agora as F800GS conseguem acompanhar a Bros 150 de Francisco. Subimos uma erosão e ele pede para deixarmos as motos ali e irmos dar uma olhada na subida da serra, a pé. Eu vou na frente e Saulo fica descansando. A subida é um caminho de pedestres, quase uma escadaria esculpida na erosão da terra. A trilha vai subindo e estreitando até um ponto que vira uma fenda na terra, seguindo a serra no fundo de um V estreito. De fato nossas motos não passariam facilmente por aqui. A de Tio Saulo com os baús laterais definitivamente não passaria. Ainda tem jeito, tiraríamos os baús, levamos lá para cima e remontamos. Vou subindo a ravina até chegarmos ao topo onde o ponto de vista me dá uma real noção do tamanho da bronca.

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Ravina criada pela erosão. Profundidade 10 metros

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Alto da Serra

A estrada não existe mais. A erosão levou. De lá de cima dava para ver perfeitamente o traçado original da estrada e como a erosão transformou todo esse trecho numa vala de erosão. O grotão que tínhamos visto lá embaixo na verdade era a “estrada”. Para sepultar de vez essa alternativa de atalho, no alto da serra a trilha segue ao lado de uma ravina de uns 10 metros de profundidade. No meio da trilha, lá no alto, uma estreita passagem é bloqueada por uma rocha encravada no barro. Teríamos que passar as motos por cima num risco enorme e sem margem de erro. Errou, despenca 10 metros. Foi o que aconteceu com o irmão de Francisco. Isso sem falar no trabalho hercúleo de arrastar duas f800gs completamente carregadas morro acima na fenda da erosão. Por aqui não vai dar.

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Francisco e eu com a Azul

Tirei umas fotos, filmei o depoimento do Francisco e pelo rádio avisei a Saulo que por sua vez já estava resignado e procurando uma alternativa no GPS. Francisco nos informa que tem um caminho mais ao sul, partindo da estrada asfaltada que liga Corrente a Barreiras. Decidimos ir por lá. A viagem que teria um atalho de 50km agora tem mais 46 de ida e volta a esse ponto intransponível e mais 70km de estrada de terra até Coaceral.

Voltamos para o entroncamento com a BR-135. Como já conhecíamos a estrada, aceleramos.

O tempo úmido, nublado já anuncia o que está por vir. Saímos do asfalto e pegamos o que viria a ser a pior estrada de toda a aventura.

Pior que uma estrada de terra é uma estrada de asfalto totalmente abandonada. Estávamos já na Bahia e a estrada que liga a BR-135 a Coaceral aparece no Tracksource como asfaltada e tem 78km de extensão, é a BA-225. Só que não há asfalto, apenas vestígios de um passado remoto. Não há marcações, praticamente não tem sinalização ou placas. O asfalto aparece e desaparece e quando aparece é cheio de buracos em forma de panelas. Não dá para desenvolver boa velocidade e o risco de acidente é alto. Temos que ir devagar e afastados um do outro para permitir que o colega faça desvios de rota em toda a largura da estrada. Muito tenso.

Tive que me concentrar na pilotagem para evitar os buracos. Parecia um jogo de videogame em que você vai perdendo pontos ao cair nos buracos. Devido a essa concentração não observei a paisagem ao lado da estrada. De repente me vi num lugar estranho. A estrada era plana assim como os campos ao lado da estrada. Havia algum tráfego de veículos 4×4 e caminhões pesados, os prováveis causadores do avançado estado de deterioração da estrada. De repente uma placa com uma chamada “Coaceral foi esquecido”. Uma reclamação dos que fazem uso da BA-225.

Não havia mata ou catinga ao lado da estrada. Só campos desmatados. A medida que nos aproximávamos de Coaceral os campos nus se transformavam em plantações extensas. Estávamos entrando na região dos grandes empreendimentos agrícolas. Campos de 5 a 10km de soja e/ou milho em diversos estágios. Aqui e acolá um grande silo ao lado de uma pequena estrutura administrativa. Uma instalação da Cargil se destacava. Passamos por um aglomerado com um posto de gasolina, uma borracharia e um pequeno prédio que não identifiquei o que seria. O vestígio de asfalto acaba definitivamente e temos que pegar uma bifurcação. Não eram mais estradas e sim caminhos de acesso aos campos de plantação. Perguntamos a um caminhoneiro qual o caminho para Mateiros e ele não sabia informar. Ele só conhece as fazendas ao redor. Decidimos voltar ao posto e perguntar qual é o caminho para Coaceral e de lá para Mateiros. O frentista informa: isso aqui que vocês estão vendo é Coaceral. Não é uma cidade, é um … entreposto… um ponto de apoio logístico para as dezenas de enormes fazendas da região. Ninguem é do local. A paisagem é desértica como nos filmes de faroeste americano. Um monte de coisa nenhuma no meio de lugar nenhum. Decidimos abastecer as motos e descansar um pouco, afinal já são 13hs e estamos rodando desde as 7 da manhã a partir de Corrente. Enquanto fazemos as coisas uma ventania enorme levanta uma tempestade de areia. Atrás da tempestade de areia nuvens carregadas despejam a chuva num campo de uma fazenda ao norte da nossa posição.

Eis um vídeo do temporal. Observem o raio

No bar/venda/restaurante do posto ninguém sabe informar o caminho para Mateiros. Um cara de moto escuta nossa conversa e afirma que veio de lá, nos descreve o caminho. Ele diz que estrada está boa e que não teremos problemas. Checamos as informações que ele dá e bate com a marcação do Tracksource no GPS. Decidimos então encarar o caminho. Algumas gotas de chuva esparsa dão uma molhadinha, voltamos para o fim do asfalto e pegamos a terra. Marquei então alguns pontos meta intermediários ao longo do caminho para seguirmos a rota. Não há qualquer marcação de cidade, vilarejo, posto de combustível ou qualquer outra coisa entre o Coaceral e e Mateiros.

A essa altura a chuva já havia transformado a terra em lama. As motos patinavam e estava difícil de pilotar. Para complicar, a tempestade de raios era forte. Nossas motos eram as únicas coisas mais altas em dezenas de quilômetros ao nosso redor. O risco de levarmos um raio era muito grande. Encaramos assim mesmo.

Começou a chover sobre nossas cabeças.

Numa bifurcação no meio do nada, no meio de um campo de plantação, o GPS me indicava que tinha que ir para a direita. Só que não havia estrada ou caminho a direita. Apenas um rio raso com uma forte correnteza apesar do terreno tão plano. Decido pegar a esquerda e contornar e para meu desespero vejo que estamos indo para uma direção completamente diferente e sem nenhuma marcação de alternativa de voltarmos a rota. Decidimos dar meia volta no meio do campo e enquanto Saulo se desembaraça rapidamente, eu dou uma bobeira e a minha moto atola. O terreno está tão escorregadio que não dá tração nem para minhas botas. Tento mas não consigo, vou precisar de ajudar de Saulo para desatolar. E da corda. Ele dá meia volta e depois de muito esforço consigo virar a minha moto de volta a trilha. Voltamos ao ponto da bifurcação e confirmo que o caminho realmente está intransitável. A chuva aparentemente leve derrubou um dilúvio sobre o imenso campo e alagou tudo que não é  curva de nível e proteções contra erosão.

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Não vai dar.

A conclusão é essa. O caminho que escolhemos está bloqueado pela chuva/inundação/lama. Mesmo que forçássemos a barra e cruzássemos a inundação (cuja profundidade nós só podíamos imaginar mas cuja extensão sabíamos e víamos era imensa), ainda teríamos que encarar o massapê por dezenas de quilômetros numa região absolutamente deserta, sem sinal de celular. Para complicar num sábado, ou seja, folga de caminhoneiros que são as únicas criaturas bípedes que se aventuram por essas bandas. E para complicar ainda mais … estava ficando escuro.

Bust.

O caminho alternativo adicionaria mais de 1000km a viagem o que resultaria num atraso ainda maior. Tio Saulo tem compromisso em Manguetown no dia 10 e não daria para aproveitarmos as belezas do Jalapão. Não vai dar, não vai ser dessa vez, não vamos ao Jalapão.

Quando essa conclusão racional finalmente se sedimentou em minha mente eu tive um colapso nervoso. Estava cansado, molhado de chuva, com frio, com fome, esgotado pelo esforço de desatolar a moto, com medo de ser fulminado por um raio a qualquer momento e para coroar decepcionado porque não ia ao Jalapão. Surtei. Queria ir para casa ficar abraçado com a minha mulher, me teletransportar. Sair dessa roubada. E aí pensei que ia ter que encarar os 71km de asfalto sonrisal de volta a BR-135 .. era demais. Desabei.

Nessa hora Tio Saulo pode retribuir as inúmeras vezes em que ele se sentiu do mesmo jeito nas trilhas light que fazemos em Pernambuco. Vários amigos já passaram por isso, pelo esgotamento físico e psicológico de enfrentar uma trilha pesada com uma moto mais pesada ainda como a F800GS. As palavras de motivação são fundamentais para fazer passar esse surto.

Usei a força da mente racional para superar essa crise de frescura. Já tinha tido isso há anos quando sofri o acidente com a moto de Ricardo Carvalho. Na queda eu machuquei o ombro e fiquei algum tempo sem pilotar moto. Por força da mudança do flat para a minha casa, alguém tinha que levar a minha moto para o novo endereço e eu fui pilotá-la depois de semanas sem nem olhar para ela. Quando saí da garagem e encarei a avenida me deu um pânico e pensei que nunca mais ia andar de moto. Não pode! Mentalizei, encarei, acelerei a moto e mandei ver. A crise de frescura passou.

Pois bem. Era hora de usar a mesma técnica. Foco na pilotagem. Acelerei e a adrenalina me curou. Entre as panelas e poças e costelas de vaca e crateras da pior estrada, abri uma vantagem sobre Tio Saulo no caminho de volta a BR-135. Passou a frescura. Fiquei bom.

Abri uma vantagem muito grande em relação a Tio Saulo e decidi reduzir para ele me alcançar e pilotar a minha frente. Seguimos assim durante boa parte dos 71km com velocidade média baixíssima e aí .. começou a chover. Muito.

Eis o percurso

roteiro do dia 6

Dá para ver no mapa acima que boa parte do percurso foi ida-e-volta sem sucesso. O caminho para Barreiras ainda levaria 167km a partir desse ponto mais ao sul no mapa.

Chegamos a BR-135 e a chuva não dava trégua. A ideia era seguirmos para Barreiras, pernoitar lá e no dia seguinte seguirmos para a Chapada Diamantina. Aliás, a Chapada era o nosso destino original e mudamos para o Jalapão por causa das notícias dos incêndios. Como uma força invisível que decidia os nossos destinos, nos vimos forçados a encarar a Chapada. Mas antes precisávamos chegar a Barreiras. São 170km apenas, numa estrada com muitos caminhões e debaixo de chuva. A noite.

Paramos num posto para colocar a capa de chuva e no caso do Tio Saulo trocar de jaqueta pela Bogotá da Alpine Star, supostamente impermeável. Eu preferi as confiáveis capaz plásticas e usei a técnica do Charlie Boorman para manter os pés secos. A bota Forma Terra Adventure é impermeável mas não se você submerge num rio, como aconteceu comigo lá perto de Coaceral. Minhas meias estavam encharcadas e a bota não ia secar levando chuva o tempo todo. Um saco plástico de lixo em cada pé, meias secas e conforto da capa. Encaro até o dilúvio de 40 dias e 40 noites. Voltamos a estrada e escurece rapidamente. Noite fechada, chuva constante, trânsito intenso na noite do sábado.

Outra parada no meio do caminho e eu desisto de usar os óculos. O frio e o vento mantém ele permanentemente embaçado e com as contra luzes dos faróis dos carros em sentido contrário eu fico completamente cego. Para complicar, a moto começa a dar as farrapadas. Abaixo de 4000 rpm só falha na aceleração. O fantasma da bomba de combustível fajuta da BMDafra volta a assombrar e no pior momento e lugar: no meio da BR-135, a noite, debaixo de chuva. Saulo vai a frente guiando e eu tento acompanhá-lo mas a moto começa a perder força. Percebo que acima de 4000 rpm a moto funciona bem e decido ir reduzindo as marchas e acelerando mais. Qualquer quilômetro a mais percorrido é um quilômetro em direção a civilização. A moto vai falhando e eu controlando para ela não dar acelerada súbita e perder aderência na pista molhada. Misteriosamente, após uns 30 quilômetros as falhas somem e a moto volta a ser aquela seda, suave, aceleração limpa sem engasgadas.

Chegamos em Barreiras as 19:20, depois de termos saído as 7:03 de Corrente no Piauí. Foram 12 horas de estrada sendo que 7h23m de deslocamento, uma boa parte delas debaixo de chuva. Rodamos no total 485km para um deslocamento efetivo de apenas 231km de Corrente Piauí e Barreiras Bahia.

Abastecemos as motos e procuramos um hotel por perto. Achamos um belo hotel que tinha piscina e eu mal podia esperar para experimentá-la. Tio Saulo achava que a água deveria estar fria depois de toda essa chuva. Eu não me importava. Queria flutuar na água, mesmo que gelada. Enfrentamos frio, frustração, chuva, escuridão, cansaço, exaustão, calor, poeira, falha na injeção de combustível, lama, poupança confiscada no Plano Collor, tudo isso nos fez merecedores de um luxo.

Chego na piscina e a água está surpreendentemente morna. Ao lado tem um bar e a garçonete me serve uma cerveja bem gelada, deliciosa. Deus existe. Relaxo por vários minutos. Pergunto a garçonete como é que a piscina está tão deliciosamente morna e ela me conta que em Barreiras o dia foi de sol forte e só choveu, pouco, no início da noite. Ou seja, a chuva chegou conosco.

Mando a garçonete servir uma Heineken para meu amigo Saulo lá no quarto. Termino o mergulho e levo outra para ele. Mas ele nem bebe. Vamos jantar e peço uma salada deliciosa com presunto e atum.

De longe, o hotel em Barreiras foi o melhor que ficamos durante toda a viagem. Além de barato, as instalações são bem modernas, bem cuidadas, tudo organizadinho nos conformes.

Amanhã começa a versão Tatus Na Chapada do que era antes Tatus no Jalapão. São 470km de estrada asfaltada até Lençóis na Bahia e a viagem deixa de ser aventura e passa a ser moto turismo. Ao alcance de qualquer coxinha.

Mas eu sempre vou por uma pimenta …

 

 

 

6 comentários sobre “Tatus no Jalapão – Dia 6

  1. Pingback: Grande Raid dos Sertões | O canto do João Eurico (plus)

  2. muito bom a matéria. dia 21 agora vou pro jalapão, porém eu moro na cidade vizinha quase…. e tomara que eu não pegue essa aguaceira kkk, mas acho que vou pegar pois aqui é tempo de chuva…

    o que vc me diz o terreno é bom pra andar lá? pois vou de garupa numa lander 250 ‘-‘..

  3. Relato impressionante!
    A descrição do momento em que decidem fazer meia-volta são dignas de um verdadeiro thriller!

  4. Caro Amigo.
    Excelente narrativa. A gente que gosta de aventuras fica totalmente grudado na leitura.
    Um fraterno abraço.

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