Tatus no Jalapão – dia 4

O limite.

Qual o limite da resistência? Até que ponto uma pessoa pode ser levada sem quebrar, sem desistir? A partir de que ponto o “cerumano” chuta o balde? Em breve eu teria respostas para algumas dessas perguntas. Todas as respostas providas por Tio Saulo e não de forma verbal ou escrita. As respostas viriam ao vivo e a cores. Através de um vivência extrema.

Amanhecemos em São Raimundo Nonato bem dispostos e com uma sensação de satisfação.  A aventura tinha atingido um dos pontos mais altos e mesmo com todos o problemas que enfrentamos, os ânimos estavam altos, a disposição elevada e o espírito de aventura estava atiçado. A impressão que tínhamos é que não havia dificuldade que não fôssemos capaz de superar. Isso tudo por causa de 2 pneus furados em dois dias.

Nosso objetivo original, planejado do alto do conforto de nossas casas em Manguetown, era sair bem cedo de São Raimundo Nonato e esticar até Corrente, no sul do Piauí. A distância nem parecia tão grande se a estrada fosse toda asfaltada. Mas tem trecho de estrada de terra. Aliás, um atalho e tanto que encurtaria bastante a nossa jornada. Só que tem um porém. Sempre tem. Esse atalho cruza a Serra das Confusões e é uma estrada de terra pouco utilizada justamente por ser muito difícil.

Para encarar essa aventura as motos precisavam estar em ordem. Por motos, entendam a minha moto. A de Tio Saulo já estava perfeita. A minha estava numa fase devoradora de câmaras de ar dianteiras e as cupilhas que prendem o pino de deslizamento das pastilhas haviam sido perdidas no episódio do dia 2. Decidimos comprar as espátulas de borracheiro para estarmos 100% equipados em caso de um novo furo. Obviamente, precisávamos também comprar novas câmaras de ar. Uma para repor a que foi remendada e outra para backup. Aproveitaria para resolver o problema da garantia do meu Nike legítimo de 50 reais que comprei na feira. Nesse item  sapatístico não teve jeito. Recebi a grana de volta e fiquei novamente sem tênis.

Só conseguimos pegar a estrada as 11 da manhã. Realmente muito tarde. Para complicar, os reportes obtidos em São Raimundo Nonato sobre a estrada de terra que iriamos pegar eram divergentes. Alguns diziam que não dava para passar. Outros diziam que era bem mais curto e que dava sim para passar. Outros recomendavam um caminho diferente. Tio Saulo mentalmente planejava uma rota nova a cada input que recebia. Vamos perguntar mais perto do início da rota cogitada para obter informação de primeira mão.

Saímos pela PI-144 em direção oeste. No meio do caminho, o primeiro encontro com bovinos cruzando a estrada. Saulo pede para eu tirar uma foto e em vez de usar a gopro do capacete eu paro e tiro uma foto com a Nikon. Ficou legal.

DSC_0002

As 13hs parávamos no restaurante da Ednéia em Caracol. No posto que nos deu a dica do restaurante, os relatos sobre a rota ainda eram conflitantes. Num certo momento eu disse para Saulo não perguntar mais, tomar uma decisão e seguirmos. Decidimos seguir pela estrada de terra que liga Caracol a Guaribas e de lá para Santa Luz. A estrada definitiva em termos de cruzamento do Parque Nacional da Serra das Confusões.

Almoçamos uma comida caseira gostosa e pegamos a estrada de terra para Guaribas. Logo logo me senti como se estivesse no outback australiano. Estrada de terra empoeirada cercada de pequenas propriedades rurais. A estrada é sinuosa, cheia de manchas de areia que dão um susto na gente. De repente a estrada fica reta e dá para ver ela se estendendo até depois do horizonte por quilômetros. Absolutamente nada de um lado e do outro e o chão de barro duro com cobertura de areia e de cascalho. Poucos buracos, mas alguns buracos que mantem o piloto alerta. Ao longe lá na frente uma nuvem de poeira.

Saulo dá a sugestão de trilharmos lado a lado assim um não vai comer poeira do outro. A princípio eu acho uma boa ideia pois a estrada é larga. Acontece que a largura não é constante, os obstáculos e irregularidades da pista e os poucos veículos em sentindo contrário a estreitam subitamente. Decido ir em fila atrás de Saulo para acompanhar o ritmo dele. Mantenho uma grande distância porque tem muita poeira e pedras soltas sendo arremessadas contra a minha moto que por sinal não tem protetor de farol.

A velocidade é boa, dá para manter 80 a 100 km/h na pressão. Saulo dá show e logo chegamos a nuvem de poeira imensa levantada por um caminhão a nossa frente. Decido me aproximar e ultrapassar o caminhão. Aí vira uma cena de Mad Max. O caminhão não facilita, não dá para enxergar nada, a estrada no meio do deserto e o poeirão.  Não consigo me aproximar o suficiente para fazer uma ultrapassagem segura. O caminhão é apenas um vulto na nuvem de poeira. De repente, uma rajada de vento tira a poeira por alguns segundos e eu me aproximo mas dá azar e a estrada fica estreita demais. Buzino, grito mas não tem jeito do motorista ouvir. Nem ver. Desisto de ultrapassar e reduzo a velocidade para sair da nuvem de poeira e reencontro com Saulo que vinha lá atrás, furioso por eu ter deixado ele sozinho. De repente, numa bifurcação o caminhão some e voltamos a ter a estrada só para nós. Chegamos a Guaribas e tiramos a foto com bandeira azul. Buscamos informações sobre o caminho para Santa Luz e todos dizem que são mais 90 km de chão. Nossa informação original estava errada.

IMG_0004Saulo ficou super chateado com essa info de mais 90km de terra e pergunta sobre o estado da estrada. Nenhuma informação consistente e nós não temos muita alternativa. Vamos encarar.

A estrada fica mais estreita, dual track, deserto total, no meio da Serra das Confusões e muita areia. Logo na saída de Guaribas o tombo de Saulo acontece. Saiu de traseira, a moto girou e ele foi ao chão danificando o suporte do baú direito. Nada machucado, ainda bem. Registrei a queda em vídeo mas a imagem ficou ruim porque a lente estava totalmente empoeirada. Dá para ver a ação assim mesmo.

Amarramos o baú com um esticador e seguimos a trilha. A trilha vai ficando mais difícil, embora plana, é areião puro. Areia, poeira, calor e de vez em quando uma poça dágua com lama. Prato cheio para quem gosta de off-road. Mais alguns quilômetros e Saulo leva outro tombo. Nenhum machucado mas o limite psicológico de Saulo é alcançado. Ele começa a praguejar, a lamentar ter vindo por aqui, a ficar desesperado. Está com sede e já bebeu toda  a sua água do back-pack. Eu ofereço água e conforto emocional. Seguimos agora num ritmo perigosamente lento.

Saulo leva o terceiro e último tombo que o esgota. Dessa vez a moto caiu sobre o baú esquerdo empenando o suporte e fazendo-o tocar no escape.

Pilotar na areia é descobrir qual é a velocidade ideal para estabilizar a moto ao mesmo tempo que mantém o controle da mesma para o limite de sua habilidade e rigor do terreno. Rápido demais e você pode não reagir a tempo para encarar um obstáculo. Devagar demais e a moto fica instável no areião. Saulo pilota na segunda alternativa. Eu vou seguindo-o pois as chances dele cair são maiores do que as minhas. Dito e feito, outro tombo de Saulo. Pragueja, lamenta e levanta, sacode a poeira e continua. Não há alternativa. Estamos mais perto do fim do que para o começo. A velocidade reduz ainda mais e agora é a minha vez de levar um tombo.

Nada sério, nenhum dano material na moto só que saí da estrada e caí no mato ao lado. Minha perna direita fica presa entre a moto e uma pequena árvore. Meu rádio está sem bateria e eu não consigo chamar Saulo. Por ter saído da estrada, estou fora da linha de visão de Saulo. Ao passar por um lameiro, Saulo reduz a velocidade, olha para traz e não me vê. Ainda bem que aconteceu o lameiro senão ele só perceberia minha queda mais a frente. Ele me chama pelo rádio, não obtem resposta e fica pensando o pior, que eu havia desmaiado ou coisa parecida. Nada tão dramático. A bota Forma Terra Adventure protege a minha canela  e com um pouco de força com a outra perna empurro a moto para o lado e minha perna solta. Levanto-me para ver Saulo caminhando em minha direção, dando carão em mim porque não o respondi. Nenhum dano em mim ou na moto, ele me ajuda a levantá-la e seguimos viagem.

A estrada que cruza o parque da Serra das Confusões começa a apresentar mais poças de água com lama e portanto mais risco de atolamento. Numa dessas poças, Saulo dá azar e escolhe uma passagem com muita lama, o controle de tração da F800GS dá aquela vacilada característica e a moto atola. Eu consigo passar um pouco mais a direita e paro a minha moto fora do atoleiro. Usamos a corda e eu puxo a moto de Saulo para fora. Nem precisou da moto. Mais trilha em seguida e agora a paisagem começa a mudar.

Cerca de 70 km da trilha foram feitos em absoluta linha reta sendo que uns 50km eram de areia fofa. Quando as poças começaram a aparecer com mais frequência a trilha tem um entroncamento, uma curva mais acentuada para a esquerda e caímos numa estradinha diferente. Havíamos chegado ao extremo e as coisas começam a voltar ao normal. Um povoado, um casa de camponês. Começamos a descer a serra de de repente uma visão magnífica dos paredões de rocha e as várias camadas geológicas expostas. Paro para tirar uma foto dessa paisagem e me vem a sensação de desafio superado.

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Havíamos cruzado a Serra no trecho que até o momento tinha sido o mais difícil da nossa jornada. Faltam apenas 12km para Santa Luz.

Eis o percurso

Percurso SRN - Bom Jesus

Chegamos a Santa Luz por volta das 17hs, bem na hora do por do sol. Paramos numa vendinha e Saulo toma um litro e meio de água e uma coca-cola praticamente num gole só. Damos uma esticada nas pernas, descansamos um pouco e em seguida usamos o compressor Michelin para voltar a pressão de asfalto. Saulo está exausto e pede para eu guiar até Bom Jesus do Piauí, onde iríamos pernoitar. Tento usar o Tomtom como navegador e mais uma vez ele manda ir para a direção errada. Corrigido o percurso, pegamos a BR 235 em direção ao sul e entroncamos com a BR 135 em direção a oeste. O hotel em Bom Jesus foi definitivamente o pior hotel de toda a aventura. Além de caro, as instalações são muito precárias. A internet, para variar, não funciona bem. O quarto tem 3 camas e nenhum armário ou local para guardar roupas e objetos pessoais. O banheiro não tem box no chuveiro. Nem tem cortina. Resultado é que o banheiro vira um dilúvio. A água é tão quente naturalmente que não precisa de chuveiro elétrico, que nem em São Raimundo Nonato.

Tomamos um merecido banho long play e vamos a noite de Bom Jesus para jantar. Encontramos um lugar que serve uma costela ao molho barbicue . Esse é o legítimo outback brasileiro, a começar da localização. Em tudo se parece com o sertão australiano: fronteira agrícola, serviços precários, baixa densidade populacional e grandes distâncias de estradas de terra.

Proponho a Saulo que façamos a próxima perna direto até Mateiros, em Tocantins, afinal, não estamos tão longe assim e uma boa parte do percurso será sobre asfalto. Seriam 421 km no total sendo que uns 250 de asfalto. Saulo discorda e sua posição iria salvar as nossas vidas no dia seguinte.

 

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2 comentários sobre “Tatus no Jalapão – dia 4

  1. Pingback: Grande Raid dos Sertões | O canto do João Eurico (plus)

  2. Show de vigem Boko! Lamento pelos
    tombos, mas isso faz parte! Felizmente nada de grave!

    Só uma coisa não ficou clara no texto… Vcs tomaram banho juntinhos? Kkkkkkkkkk

    Aguardando o próximo capítulo!

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