Tatus no Jalapão – Dia 3

O maior conjunto de sítios arqueológicos que puseram por terra a hipótese de povoamento das américas a partir do Estreito de Behring. Hoje a maioria dos cientistas não considera essa hipótese tão válida. Quem diria hein ? O que eu estudei na escola quando criança não vale mais nada. Já aconteceu com você ?

Terceiro dia da aventura foi reservado por Tio Saulo para relax. Um dia inteiro de turista no magnífico Parque Nacional da Serra da Capivara próximo a São Raimundo Nonato. Depois de um dia em que pneu furado e 40km de estrada de terra foram o ponto alto, hoje vai ser só turistada. Relax, aproveitar a paisagem, tirar fotos bacanas e absorver conhecimento.

Graças as valiosas dicas do novo amiguinho feito no hall da Pousada Zabelê na noite anterior, decidimos contratar um guia para nos levar para o Parque. O passeio recomendado pelo Fernando Maia nos levaria a conhecer um grande pedaço do parque num dia só. Além disso, como o parque é grande e requer deslocamentos de carro, teríamos uma vantagem pois vamos de moto e dá para chegar mais perto das atrações. O nosso guia era o Wilke e ele é muito bom e experiente, conhece tudo do parque e tem um astral de aventura, igual ao nosso.

Tomamos café bem cedo, e eu saí para o comércio de São Raimundo Nonato antes de aberto com a missão de comprar um par de tênis. Esqueci de trazer e ainda por cima meu espaço de bagagem é limitado. O kit turista teria que incluir uma mochila para levar água e barras de cereais e um chapéu, além do par de tênis. Chapéu para mim sempre é um problema pois o tamanho é 62/63 e difícil de achar. Como se não bastasse isso Tio Saulo tava agoniado (pra variar) pois não conseguia conceber que uma pessoa vá fazer uma viagem dessas e não traga tudo que precisa de casa. Fácil para ele dizer isso do alto dos 152 litros de bagagem disponíveis nos seus três baús Givi novinhos em folha. Eu não tinha muito tempo a perder e Tio Saulo é pressão para eu ir logo “Foco  Boko !! Foco Boko !!”, ele dize sempre.

A primeira loja que entrei resolvi a parada. Um boné laranja-boia-da-marinha, um tênis preto (deve ser uma beleza quando o sol bate) da Nike, dois pares de meia e uma mochila de dois compartimentos. Tudo bem baratinho e com tendência a descartável. Total da fatura ficou em 101 reais. Os preços por aqui são realmente baixos, ainda que consideremos a “qualidade” e “autenticidade” do tênis Nike. Voltei para a pousada e as gréias de praxe de Tio Saulo a respeito da minha preferência e gosto para combinar cores.

Pegamos a estrada em direção nordeste por cerca de 20 quilômetros até uma das entradas do Parque (são quase 92 mil hectares após a última expansão). Ingresso pago, termo de responsabilidade assinado (não pode depredar, não pode fazer barulho, não pode poluir, não pode fumar, não pode um monte de coisas). Tio Saulo providenciou a burocracia e num dos cartazes algumas imagens de nossos primos tatus de 4 patas. Os de 2 patas estão em Recife no nosso moto grupo.

 

Entramos de moto e seguimos para a base de um morro onde fizemos uma escalada para o alto de onde se pode ter uma panorâmica sensacional da beira do parque, com direito a vista da famosa Pedra Furada lá embaixo.

Logo nos primeiros metros de caminhada nas trilhas da caatinga, a sola do meu Nike novinho soltou do calcanhar esquerdo. O som de lept-lept-lept iria me acompanhar pelo resto da manhã. Ao longo do caminho, centenas de pinturas rupestres nas paredes de arenito. O acervo é enorme e tem de tudo desenhado. A idade média é de 10 mil anos mas tem pinturas ainda mais antigas e outras mais recentes. As imagens relatam atividades de dança, caça, sexo de tudo quanto é forma e variedade. Animais aquáticos, terrestres, aves, fogueiras. Um dos desenhos mais curiosos e mais frequentes, espalhados por vários lugares parece mais um convite para uma festa, com indicação de localização e tudo. Segundo o Wilke, as interpretações dos desenhos são as mais variadas. De religião a antropologia, cada um que dê sua opinião.

Numa das subidas para um dos sítios mais interessantes a sola do calcanhar esquerdo descolou de vez e eu só percebi quando estava lá em cima. Perguntei ao guia se iríamos voltar pelo mesmo caminho e felizmente ele disse que sim. Não queria deixar uma poluição plástica na forma de um solado de tênis ordinário. Já pensou ? Escavações arqueológicas no futuro poderiam ser induzidas a pensarem ter descoberto o “homo tabacudos”, um ser humanoide parente e muito parecido com o “homo sapiens” porém com uma inexplicável tendência a comprar calçados de qualidade discutível e em cima da hora.

Descemos o morro que havíamos escalado anteriormente e fomos para a lanchonete dar uma merecida refrescada. Impressionante como a gente desidrata rapidamente. O calor enorme e o vento quente e seco são tão eficazes que quase dá para sentir você mesmo murchando e ressecando. Na lanchonete tem artigos e lembrancinhas, com camisas UV de toda cor chegante que você imaginar, cerâmica da indústria instalada próxima ao parque e decorada com reproduções das pinturas rupestres. Ok, tudo muito legal mas o que queríamos era picolé de limão e água. Muita água. Descansamos um pouco, reabastecemos nossas mochilas com água e seguimos de moto até a base da Pedra Furada. Nessa hora senti falta da Bandeira XT660.Net que deixei na pousada. Que pena, dessa vez nada de foto com a Bandeira.

Mais algumas caminhadas, fotos e fotos e fotos e fotos. Vale dizer que o guia ajusta o trajeto e a intensidade da caminhada/escalada à capacidade física do grupo de visitantes. A diária do guia custa R$ 120,00 e dá direito a formar um grupo com até 8 pessoas.  Existem percursos até para cadeirantes com rampas de acesso bem conservadas, tudo sinalizado e cheio de cartazes explicativos. No centro de apoio onde fica a lanchonete tem um mini museu com fósseis impressionantes de preguiça gigante, tigres de dentre de sabre, cavalos pré-históricos. No centro também tem um auditório onde palestras e vídeos são exibidos aos visitantes. Ah sim, no auditório tem ar condicionado. Deus existe.

Chega a hora do almoço e o roteiro nos leva a Fábrica de Cerâmica onde tem um restaurante, uma loja de camisetas e chapéus e, obviamente,  a própria fábrica. A cerâmica fica fora do parque, saímos pela porteira que entramos e regressaremos ao parque por outra entrada. O ingresso deve ser portado pelo visitante nessas entradas/saídas para agilizar. Se perder o ingresso ainda pode entrar sem ter que pagar novamente mas demora mais pois a atendente tem que checar no sistema.

A cerâmica fica a beira de uma estrada que está recebendo aquele “asfalto sonrisal” e o cheiro de piche recém aplicado me dá um enjoo danado. O restaurante faz parte de um pequeno complexo de prédios que tem também um albergue, não muito popular pois fica no meio do nada, perto mas fora do parque. Não há muita vantagem em se hospedar aqui a não ser que você seja um arqueólogo ou geólogo ou antropólogo ou historiador de arte ou pesquisador de qualquer um dos inúmeros ramos do conhecimento humano que podem ter uma overdose de informação ao visitar o parque.

A caminhada abriu o nosso apetite e nos fartamos com a deliciosa e simples comida caseira que o restaurante self-service proporciona. Como se não bastasse a comida boa, sucos de caju, cajá e goiaba fizeram o deleite de Tio Saulo. Bebíamos tudo que passasse a nossa frente. O calor é fenomenal e o vento muito seco. A programação previa um descanso de uma hora após o almoço e eu tive a brilhante ideia de molhar minha camisa dryfit UV para dar uma refrescada. E deu certo! Que sensação maravilhosa. O vento de quente ficou fresco e a sensação refrescante era uma delícia. Durou exatos 6 minutos. Minha roupa estava novamente completamente seca! Sequinha, impressionante.

Voltamos ao parque e entramos por outra portaria rumo aos “boqueirões” que são os caminhos ao lado das bases das falésias. Esses boqueirões são como vales sombreados e na estação das águas tem pequenos riachos nos sopés das montanhas. A vegetação é bem mais exuberante e a sombra deixa a temperatura mais fresca, na casa dos muito bem-vindos 30 graus. Uma delícia. Eita “cerumano” se contentando com coisas simples como uma temperatura apenas 9 graus menor. Pinturas e pinturas e pinturas e uma fauna surpreendentemente exuberante. Mocós, macacos, aves, repteis, insetos. A trilha é uma delícia, coberta pela copa de árvores frondosas. Segundo o Wilke, mata atlântica igualzinha a que encontramos no litoral do nordeste. Surpreendente. Vamos alternando entre trechos na moto (o Wilke na minha garupa) e caminhadas entre grutas, cavernas, abrigos naturais criados pela inclinação negativa das paredes de rochas. Encontramos com um dos mantenedores do parque montado em sua POP 100. Ele troca algumas dicas com o nosso guia. Segundo entendi, os mantenedores tem contratos específicos para manter trilhas/áreas do parque. Eles são encarregados de manter os cartazes, sinais, passarelas, corrimãos, iluminação.  O mantenedor nos alerta para ficarmos espertos quanto a cobras pois os  boqueirões são o local preferido. Embora raros existem episódios de picadas de cobras.

Visitamos a impressionante Caverna do Inferno onde tiramos umas fotos dramáticas.  O caminho por entre duas montanhas de rocha segue o desfiladeiro até um ponto sem saída onde há uma abertura para o céu. Em época de chuvas essa abertura se transforma numa cachoeira que deve ser belíssima. Dá para ver a marca da água nas pedras. No meio do caminho, enquanto eu me concentrava para me equilibrar por entre as rochas e rochedos com o meu par de tênis Nike-pero-no-mucho modelo Meio-fundo-Meio-Raso, sinto um toque delicado e suave no meu tornozelo. Coração parou esperando a picada da cobra….. Era Tio Saulo com um graveto tirando onda. Ela inda me paga ….

Voltamos caminhando para as motos e já eram umas 4 da tarde. Destino o último conjunto de cavernas e sítios pré-históricos para terminar nosso tour. Montamos nas motos, andamos 100 metros e …. o pneu dianteiro da minha moto está furado. De novo! Mas como se no dia anterior havíamos montado uma câmara de ar novinha da Michelin? Não tem conversa. Embora Tio Saulo ainda tenha cogitado a “brilhante” ideia de eu seguir com o pneu furado mesmo até a borda do parque, totalmente descartada, mãos a obra para desmontar a roda. Eu já estava craque. Segundo as regras do parque, nenhum visitante pode ficar sozinho. Tio Saulo levou o guia e o pneu até a portaria por onde sairíamos e veio me pegar. Em seguida, eu e o Wilke levamos o pneu até a cidade Coronel José Dias onde um borracheiro detectou que areia que havia entrado no pneu (não sei como essa areia entrou lá, alguém faz ideia?) e grudou num vestígio de vacina que havia vazado para tapar algum dos 3 furos anteriores. A areia  limou a câmera e a condenou. Ele faria o remendo mas teríamos que trocar a câmara. Custou 7 reais. Voltei a portaria e pilotando a moto de Tio Saulo, levei-o na garupa até o local onde estava a minha moto. Rapidamente montei a roda dianteira e pudemos fazer um off-road legal sem a patrulha do guia. Já estava escurecendo.

Pegamos a estrada de volta a São Raimundo Nonato e chegamos novamente a Pousada Zabelê, agradavelmente exaustos. Depois de nos refrescarmos descemos para a entrada da pousada onde reencontramos o simpático casal Fernando e Liana Maia, os mesmos que haviam dado as valiosas dicas. Fernando é palmeirense e estava ansioso acompanhando a decisão da Copa do Brasil. Derrubamos algumas cervejas, compartilhamos as histórias e o Fernando foi dormir campeão da Copa do Brasil e com um monte de vídeos registrando as manifestações da enorme torcida palmeirense de São Raimundo Nonato.

O dia seguinte prometia muita aventura. Iríamos pegar o primeiro trecho de estrada de terra para valer e eu cheio de coisas para resolver. Vai ser punk. E foi … muuuito.

 

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5 comentários sobre “Tatus no Jalapão – Dia 3

  1. Pingback: Grande Raid dos Sertões | O canto do João Eurico (plus)

  2. Excelente sua narrativa amigo. Parabéns. A narrativa deixa a gente colado lendo. Muito boa.

  3. Por R$ 100 queria um tênis original? Kkkkk

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