Tatus no Jalapão – Dia 2

O “cerumano” e a sua incrível capacidade de se adaptar as mais adversas situações. Sim, se adaptar pode ser se acostumar a um calor de 38/39 graus e achar 33 graus um “friozinho gostoso”. Pois foi isso que aconteceu conosco na noite do dia 2, quando chegamos as 18:30 a cidade de São Lourenço do Piauí. Mas como isso pode acontecer ? Comecei a história pelo fim.

Amanhecemos em Petrolina depois de uma noite onde jantamos um bode assado no Ângelo, regado a muita cerveja Heineken, a preferida do Tio Saulo. Também explico já já porque decidi chamar meu companheiro de aventura de “Tio”. Sob o belíssimo céu limpo e cristalino de Petrolina, em plena seca do El Nino, havia uma sombra que pairava sobre nós. A minha moto tinha morrido em pleno funcionamento duas vezes no fim do dia anterior. Sem motivo aparente a moto desligou. Duas vezes. Quais seriam as possíveis causas ?

  1. Gasolina adulterada quando abastecemos em Belém de São Francisco,
  2. Imperícia do condutor (nunca pode ser descartada)
  3. Síndrome da bomba de gasolina com defeito (mal que assola as BMDafras)

Acordamos por volta de 7 horas para o que planejávamos ser um trecho “fácil” de apenas 304 km até São Raimundo Nonato no Piauí. Fomos abastecer a moto num posto Shell para isolar a variável da gasolina adulterada. Adicionalmente e por via das dúvidas, enchi o tanque da moto com gasolina Shell Dupliplusboa Extra Good Aditivida Juramentada Abençoada. Se o problema era gasolina, agora o tanque cheio da supergasolina deveria resolver.  Logo depois do posto, um susto enorme. Minha moto jorrava gasolina e deixava um rastro por onde passava. O perigo era cair gasolina no escape quente e a coisa toda pegar fogo. Saulo que notou que estava vazando gasolina e me avisou. Meu primeiro pensamento foi “trincou o tanque de gasolina e a aventura acabou”. Nada disso. O incompetente do bombeiro (e do piloto) não fechou a tampa do tanque após abastecer. Fechei tudo, deixei a gasolina que escapou do tanque evaporar e seguimos caminho.

 

Antes de pegar a estrada a paranoia sobre a causa do problema na minha moto nos fez passar numa loja de peças da Bosch e comprar uma bomba de combustível de reserva. Relatos de vários proprietários de BMDafra F800GS contam histórias terríveis de bombas de gasolina que deixaram os pilotos na mão em pleno meio de lugar nenhum. De fato, a posse desse artigo místico, a bomba para carros 1.0 que segundo o Papa Piu (também conhecido como “O Durigan”) pode ser usada na F800GS me dava uma tranquilidade enorme. Resultado é que saímos de Petrolina perto das 10 horas da manhã. Mas sem problemas, o trecho é moleza e temos muito tempo para percorrer apenas 300km. Decidimos então fazer um desvio que adicionou 40km ao percurso e pagar uma visita a Barragem de Sobradinho na Bahia. Queríamos ver o maior lago artificial da América Latina. Para mim isso tinha um sabor especial pois eu havia visitado a barragem há 35 anos numa viagem migratória que fiz com meu pai de carro de Belém de volta para Recife.

Saímos de Petrolina em direção oeste, orientados pelo Tomtom, dobramos a esquerda e abordamos a barragem pelo lado norte. Antes de chegarmos a barragem subimos um morro com torres de telefonia celular e de lá tiramos belas fotos. O sertão virou mar, embora o nível da barragem esteja apenas a 1% da sua capacidade, a imagem ainda impressiona.

DSC_0002Figura 1 – O Sertão Virou Mar – Bandeira XT660 na Bahia

Descemos o morro e seguimos até a eclusa, passando sobre a ponte levadiça.

Eclusa light

Mais fotos da obra que permite que os “vapores” subam o Salto de Sobradinho, como diz a música de Sá e Guarabira.

Voltamos pela estrada em direção norte e o nosso próximo destino é Remanso, na Bahia, onde pretendemos almoçar e reabastecer as motos. Passaremos então por Casa Nova. Na música de Sá e Guarabira eram Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho. Todas elas relocadas pelo lago formado no fim da década de 70. Dessas nós visitaríamos 3. Pilão Arcado e Sento Sé ficam muito fora do roteiro.

Mais uma dose de estradas absolutamente retas e monótonas. Só que agora, em pleno sertão e as 10:30 da manhã a temperatura atingiu os 38 graus que no dia anterior só havíamos alcançado no meio/fim da tarde. Agora era constante. Quente. Ligaram o secador de cabelos e apontaram para nossa cara. A viseira do capacete fechada significa uma temperatura mais “amena”.

Sem incidentes chegamos a Remanso por volta de 12:30 e fomos almoçar no restaurante “Velho Chico” que ficava a margem do lago de Sobradinho. Com a seca, a margem recuou mais de 3km. Almoçamos um delicioso surubim frito acompanhado de suco de tamarindo feito artesanalmente. Descansamos um pouco e decidimos visitar as ruínas antes inundadas de Remanso Velho e agora descobertas pela seca. Segundo os locais, há 4 anos que a margem recuou e esse ano vai ser difícil ela voltar ao nível normal.

Esse foi o primeiro teste off-road que faríamos na viagem. Testar as amarrações e fixações de bagagem. A estradinha no leito do lago tinha de tudo: buracos, cascalho, areia fofa, muita poeira. Na saída um pequeno susto provocado pela perda de tração na traseira ao acelerar. Dá para ver no vídeo do youtube. Chegamos rapidamente a nova margem do rio e dá para ver a desolação que a seca provoca.

remanso velho light

Aqui a cor do rio é bem barrenta. A deposição que o lago de Sobradinho proporciona tornou o Véio Chico mais límpido abaixo da barragem. Como aqui é a nova “orla”, o comércio informal já se estabeleceu. Vimos alguns caminhões pipa reabastecendo com água e algumas barracas de bebidas e comidinhas.

DSC_0060

Voltamos pela mesma estradinha para Remanso e vamos pegar a estrada para São Raimundo Nonato em direção ao norte. Para nossa surpresa a estrada marcada como asfaltada na verdade é de terra.

G0010194

Nós pedimos, nós recebemos. Agora é encarar. A estrada, fácil, larga. Muito cascalho e pedras e muita poeira. Decidimos baixar a pressão dos pneus antes em estratosféricas 36/42. Com 22/25 as motos ficaram mais macias, menos ariscas, não quicavam tanto. Menos de 10km depois o pneu dianteiro da minha moto baixou. Acho que esvaziei demais. Saulo usou o o fantástico compressor Michelin portátil e pedi para ele por 30 libras e desejando sinceramente que tenha sido só um mal entendido de esvaziamento incompetente. Não era. Poucos quilômetros depois o veredito. O pneu tinha furado mesmo.

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No problemo! Tínhamos uma câmera Michelin 0km para essa contingência. Só que não levamos as espátulas para tirar o pneu. Tentei improvisar com as ferramentas e elas simplesmente envergavam e nada de desmontar a virola do pneu. O jeito é levar a roda a um borracheiro. Saulo encontrou um borracheiro escondido numa ruazinha ao lado da estrada num vilarejo uns 3 km antes do local onde havíamos parado. Enquanto o borracheiro remendava a câmara velha, Saulo trouxe o pneu com a câmara nova, murcho mesmo para eu montar. Me enrolei na hora de montar dei bobeira e as pastilhas de freio saíram da sede. Tem que tirar o pino e a cupilha, montar a roda, montar as pastilhas e colocar as cupilhas. Tudo certo até a hora de fixar as cupilhas, por pura incompetência minha uma delas envergou, “estilingou” e voou em direção ao esquecimento na poeira no meio da estrada. Nunca mais eu a vi. Paciência, essa vai sem cupilha mesmo. Estava ficando escuro e ainda tínhamos muita estrada de terra para encarar, não sabíamos quanto. Roda montada, câmara nova, estrada escura. Chegamos em São Lourenço do Piauí as 18:30, tudo escuro, paramos para tomar uns refrigerantes. Que delícia quando comparado ao forno de 38 frequentes com picos de 39/40 no meio da estrada. Recalibramos os pneus para asfalto usando o fantástico compressor Michelin de Saulo.

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Descansamos um pouco e tocamos para São Raimundo Nonato. Localizamos a pousada que nos recomendaram, Zabelê e finalmente consideramos que havíamos chegado.

O percurso de 300km que deveria ser concluído lá pelas 3 ou 4 da tarde se estendeu até as 7 da noite por causa do pneu furado. E aí cabe um relato interessante.

Sempre aplico a vacina de pneu da Motovisor na minha moto. Há 15 dias, fiz uma trilha com uns amigos e cheguei em casa com o pneu dianteiro furado. Lá em casa tem compressor e enchi o pneu novamente. A vacina tapou o furo perfeitamente tanto que percorri os 700+km até a estrada Remanso/São Lourenço do Piauí sem problemas. Tudo tem limite e a capacidade de cura da vacina estava há muito esgotada. O borracheiro encontrou nada mais do que 4 furos na câmara de ar. Portanto, a vacina tapou 3 de forma eficaz. O quarto furo era grande, um rasgo e aí não tem jeito, foi a lona.

Terminamos o dia bebendo umas cervejas na área comum do hotel, jantar frugal para mim. Conhecemos o Fernando Maia, um paulista (nascido em Pernambuco) que estava fazendo turismo de aventura com sua esposa na Serra da Capivara. Fernando deu dicas valiosas que seriam muito úteis no dia seguinte. O papo foi divertido e rapidamente criamos uma empatia com o Fernando.

Fomos dormir agradavelmente exaustos. O dia seguinte seria cheio de surpresas.

 

3 comentários sobre “Tatus no Jalapão – Dia 2

  1. Pingback: Grande Raid dos Sertões | O canto do João Eurico (plus)

  2. Boko meu amigo, que viagem nota 10! Não falou nada, nem sabia que tinha ido e achei por acaso, já que eu e redes sociais somos incompatíveis…

    Te desejo ótima viagem e estou aqui acompanhando de garupa!

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