O calcanhar de aquiles dos sistemas democráticos

press[1]Democracia se aprende com a prática, já dizia o grande Sobral Pinto. Praticar a democracia não é fácil pois requer uma maturidade raramente observada na turba. E como democracia só vale se for com a participação de todo mundo … a coisa complica.

Uma das premissas fundamentais para funcionamento dos sistemas democráticos é o livre acesso a informação isenta. Combinar o “livre” com “isenta” é que são elas. Como saber se a informação que forma opinião e voto é de fato isenta ? Na verdade, ter acesso a informação isenta é virtualmente impossível portanto a forma para evitar a manipulação da opinião é ter acesso a informação de várias fontes divergentes, pontos de vistas distintos e através de uma análise detalhada dessas informações o indivíduo forma a sua opinião. Só que isso dá muito trabalho e está sujeito a diversos fatores que podem deturpar a fonte ou mesmo a opinião formada.

Entre os fatores que afetam a opinião podemos citar:

  • Grau de isenção da fonte
  • Grau de qualidade da informação (quão precisa a informação é)
  • Velocidade e acessibilidade da informação (quão fácil é encontrar a fonte e sua informação)
  • Formato e clareza da informação (quão clara a informação é exibida)
  • Fator de sociabilidade da informação (como essa informação afeta a sociabilidade do indivíduo que a absorve)

Todos esses fatores podem ser manipulados para que o indivíduo forme uma opinião que seja de interesse do agente manipulador. Os fatores também podem ser afetados por interesses não diretamente relacionados a uma opinião em particular. Um factóide, um meme, pode surgir sem uma intenção deliberada e ser aproveitado por outro agente manipulador. Na era das redes sociais conjugadas a geração de conteúdo por qualquer  e acesso instantâneo, o manipulador não precisa sequer criar o conteúdo de informação dúbia. Basta manipular a sua propagação de forma sutil  e obterá efeitos mais fortes do que se ele mesmo a publicasse. Uma isenção velada pode ser muito útil a certos interesses.

Em tese, para combater essa manipulação o remédio é a população mais bem informada. Mas como informar melhor a população ? Quem julga e/ou define o que é “melhor” para a população ? Essa pergunta nunca foi adequadamente respondia porém os efeitos nefastos da desinformação são sentidos em todos as sociedades, independente do suposto nível de desenvolvimento.

Vejam só essa brilhante palestra do Hans Hosling, um paladino virtualmente desconhecido da luta pelo acesso amplo e irrestrito a informação de qualidade.

Com essa simples mas brilhante palestra, Hosling demonstra que a alienação não é privilégio exclusivo de quem pertence a uma classe social e/ou profissional mais capacitada (seja lá isso o que for). De forma elegante e sutil, Hosling destrói o mito de que a imprensa livre é uma fonte confiável de informação relevante. O driver que impulsiona a suposta imprensa livre não é abastecido pelo desejo de informar melhor a população e sim de obter uma audiência maior. O que motiva a imprensa livre é o mesmo que motiva o autor de novela: a audiência. Vale tudo para obtê-la, inclusive as apelações a parte emocional das pessoas, que frequentemente é incapaz de enxergar a verdade.

Nesses tempos de redes sociais e postagens orientadas a quantidade de “curtidas”, como fica a verdade ? O desejo de fazer sucesso é maior do que o apreço pela verdade. Além do “sucesso” da publicação, do número de curtidas, o bom e velho etnocentrismo continua influenciando o conteúdo do que se posta. As vezes o desejo de fazer parte de um certo grupo motiva a pessoa a postar algo que ela nem concorda ou é indiferente mas que a fará ser mais aceita pelo grupo a qual ela almeja participar. Isso é particularmente forte quando a sociabilidade é colocada acima do bom senso. Mais sucesso fará com a “turma” se postar algo semelhante ao que eles postam. Se é verdadeiro ou não, pouco importa.

Os fatores internos, que dependem do indivíduo, já são suficientes para causar uma distorção enorme na obtenção de informação e portanto de opinião densa e isenta. Os fatores externos são observados de alguma forma na própria imprensa, fonte maior de informação para as pessoas. Vejam o mapa abaixo

Web

Imprensa realmente isenta e sem problemas é exceção, como se pode ver. O reflexo dessa situação é imediatamente sentido na opinião pública e em seguida na representação política. Mesmo em estados supostamente democráticos, a representatividade é uma farsa. O que dizer dos estados onde não há vestígio de liberdade de imprensa ?

O cenário é particularmente sombrio porque a alternativa a obtenção de informação, excluindo a imprensa “gun for hire”, é rara, de difícil acesso e com linguagem pouco acessível. Os centros de pesquisa seriam uma fonte mais isenta mas como atestar a isenção ? Como verificá-la ? Como se não bastasse esse problema fundamental, outro problema é o custo desse acesso. Pesquisas científicas custam caro e com frequência precisam de financiamento externo. Não é razoável supor que algum interesse político/econômico irá custear uma pesquisa cara para demonstrar algo que venha de encontro a tais interesses. Será que a pluralidade de tendências é uma solução ? Novamente o poder econômico poderia fazer pender o resultado da pesquisa para algum lado.

CR_676774_esta_es_la_verdad[2]Finalmente, o fator complicação e trabalho mantém o cenário sombrio. Numa forma orwelliana, a dificuldade que o trabalho de pesquisar múltiplas referências causa ao indivíduo típico age com um filtro onde apenas os mais determinados terão acesso a informação de valor para formar opinião. Essa será uma minoria, as supostas elites do pensamento, a “intelligentsia”, tradicionalmente vistas com muito preconceito pela turba.

O que fazer então ? Seguir as dicas que o Ola Hosling (filho do Hans) fala no vídeo. Desconfie das manchetes e assuma uma postura crítica. Tente identificar qual o interesse por traz da divulgação daquela mensagem. Lembre-se que manchetes sangrentas e sensacionalistas sempre vendem mais jornais, hits em clicks de site, retweets  e “curtidas” em postagens de Facebook. Busque sempre que possível a opinião contrária e analise a veracidade das colocações. Não se contente com o que um site de esquerda/direita fala sobre o assunto. Se um esquerdista faz um pronunciamento, veja o que o direitista diz a respeito. Tente separar opinião de fato. Não jugue baseado apenas no que a imprensa escreve. Embora o sistema judiciário mundial seja fraco e o do Brasil mais fraco ainda (e lento, e corrupto, e incompetente, e lento e outros 328 adjetivos pejorativos), ainda é o menos ruim que dispomos. Lembre-se de que todos são inocentes até que se prove o contrário e que manchete de jornal/site/blog não é prova de inocência ou de culpa.

Leve em consideração que análises de circunstâncias em outras geografias tendem a esquecer algumas peculiaridades locais. Por outro lado, o ponto de vista externo é bom para mudar o referencial. Alguém que nunca pisou numa cidade, nunca experimentou a realidade local, dificilmente terá um relato consistente. Porém, alguém de fora que esteve lá pode ter um ponto de vista que quem está lá no dia-a-dia não é capaz de vivenciar por estar intoxicado com a cultura e/ou paradigmas locais.

Como fonte de referência, consulte sites de pesquisa com reputação tais como:

  • The Gapminder – O site do Hans Rosling mencionado no vídeo acima
  • Pew Research – Conceituado site americano
  • TED – Para quem prefere palestras. Lembre-se de assistir debates com pontos de vistas divergentes. Um exemplo é esse debate sobre energia eólica versus nuclear
  • IBGE – Surpreendentemente um dos melhores sites para obter dados reais sobre a realidade do Brasil.
  • Portal Transparência – Com uma pitada de sal
  • Observatório da Imprensa – Excelente para conferir se algo de fato foi corrigido pela imprensa
  • Boatos.Org – Excelente para ver se algo postado na internet (fotos, vídeos, etc), são verdadeiros ou não.

E você ??? Se considera alienado ?

Teste aqui se você é alienado

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