O que acontece com a política nos tempos de internet

Acompanho de forma consciente a política desde 1982 quando houve a primeira eleição direta para governadores depois do golpe e  ainda durante a ditadura. Desde aquela época me espanto com a quantidade de mentiras e meias verdades que são colocadas de forma descaradas pelos políticos. Lembro que era estudante, havia acabado de entrar na universidade, tinha 16 anos, e o movimento estudantil era mais denso. O guia eleitoral era ainda mais pobre do que é hoje em dia e praticamente não se faziam debates entre os políticos. Eram anos de ocaso de ditadura mas ainda era ditadura.  A dicotomia, o maniqueísmo eram agudos e eu achava que isso se devia a classe dos políticos, privados da democracia tinham que apelar para o que há de mais podre em termos de comportamento político. A culpa era dos políticos. Os cidadãos ainda não tinham a liberdade para discutir política de forma madura.

Os anos passaram, redemocratização (?), novas eleições e o nível do debate político continuava baixo. As mentiras eram atiradas de lado a lado, os temas realmente importantes não eram encarados ou discutidos. O maniqueísmo agora era mais agudo pois a ditadura havia acabado e a facilidade do discurso de quem combateu a ditadura era adotado por pessoas autênticas, por adesistas, por vira-casacas. A culpa ainda era dos políticos e do povo que ainda não tinha muita prática democrática, afinal, a ditadura acabara há pouco tempo.

Mais tempo passa e acontece a eleição de 89 com o catapultamento de Collor (uma fraude eleitoral) a Presidência. Era o fim da picada em termos de alienação política. O povo fora enganado e a esperança de amadurecimento democrático do povo atingiu o nível mais baixo. Mas de repente, o movimento do impeachment, os cara pintadas, a mobilização popular e a defenestração de Collor deram um sinal de que nem tudo estava perdido. Havia sinais de inteligência no planeta Brasilis. O funcionamento das instituições, a passagem do poder de forma democrática para FHC, o surgimento de novas lideranças políticas passavam a imagem de que agora a coisa ia para a frente.

Pura ilusão. A política brasileira continuava a viver de salvadores da pátria, a quem tudo se perdoava ou admitia, e as oposições radicais que detonavam qualquer iniciativa válida para estabilizar a economia que fosse oriunda do outro partido. O bem maior da nação não interessava a situação ou a oposição. Tudo era argumento eleitoreiro. Ora para se promover, ora para detonar o opositor. Nenhum partido oferecia (nem oferece) um programa que ele mesmo cumpra. O debate continua vazio, as questões relegadas a segundo plano, o personalismo impera, o “quem é contra” versus o “quem é a favor”. Os políticos não aprendem, não evoluem e o povo continua sem se envolver de forma madura na política. As eleições viram um festival bizarro, uma competição de esquisitice em que vale votar em candidatos absolutamente vazios de propostas mas com boa presença de marketing eleitoral. Seja porque é uma celebridade, seja porque tem acesso a recursos (escusos ou não) para sustentarem as suas campanhas caríssimas. Minha leitura era que os políticos continuavam péssimos e que a culpa da alienação política do povo era fundamentalmente do baixo nível dos políticos. O povo estava aprendendo devagar e até que tentava mas os políticos continuavam a política velha dos ataques pessoais, das trocas de favores, da orientação pelos seus interesses pessoais/carreirísticos, e o povo continuava massa de manobra e manipulada.

Aí vem a Internet. A esperança era de que o acesso a informação viraria o jogo. O eleitor agora vai poder se lembrar. As promessas dos políticos ficarão registradas e poderão ser conferidas com as suas atuações depois de eleitos.  A interatividade da internet promoveria o debate maduro e equilibrado, as pessoas fariam seus pleitos de forma desintermediada. Mobilizações poderiam ser efetuadas mais rapidamente. Alguns cientistas políticos cogitavam até que a democracia representativa estaria com os dias contados dando lugar a democracia diretíssima, sem intermediários, sem políticos. Eram ideias causadas pelo efeito inebriante da Internet em praticamente todos os ramos do conhecimento e comportamento humano. A Internet era a panaceia que aceleraria o amadurecimento político.

Infelizmente não é isso que aconteceu. Com o advento das redes sociais o povo, os eleitores, agora podem sim praticar a política. Podem expor suas ideias e seus apoios, criticar políticos, programas partidários, assumir um papel de protagonista no processo democrático. Mas não é isso que acontece. As práticas políticas mais nefastas e nojentas que os políticos fazem há décadas são as mesmas que o povo pratica nas redes sociais. Acusar sem verificar a veracidade das coisas. Denunciar sem provas. Formar opinião obtusa e fechada sem se informar. Exclamar de forma histérica uma opinião sem o menor fundamento em fato ou conhecimento de causa. Antagonizar e impedir o debate com o que pensa diferença. Assumir posições sectárias visando interesses pessoais ou pior, interesse de terceiros dos quais sequer tem consciência.

A massa de manobra continua massa de manobra nas redes sociais. Continua propagando opiniões de celebridades reais ou virtuais sem a menor verificação do conteúdo. O adesismo, o oportunismo e o imediatismo são praticados pelos eleitores, não apenas pelos políticos.

De repente a ficha caiu para mim: O político vazio, oportunista, adesista, corrupto, demagogo, falastrão que sempre populou os horários eleitorais não era causa e sim efeito do comportamento deliberado do povo. Acontece que há 30 anos não se via isso porque faltavam os meios para interação massiva com a população política (ou apolítica para todos os efeitos). Com as redes sociais dá para ver que o padrão da alienação é predominante. Alienação deliberada e por “opção”, alienação por manipulação de terceiros. O fato é que se a ditadura um dia foi responsável pelo afastamento da população da Política (essa com p maiúsculo) agora o povo pode sim voltar a fazê-la mas no fim opta por fazer a mesma baixaria que os políticos fazem.  Tem a chance, tem a ferramenta e, mais que tudo, tem a urgente necessidade de tomar o processo político em suas mãos. Mas prefere a saída fácil de votar num palhaço, num médico histriônico, num defensor da ditadura, num fundamentalista religioso, num ativista xiita de uma causa de preservação, num falso profeta de apocalipse econômico, numa celebridade do futebol. Prefere isso a ter que conversar com os amigos de forma madura sobre as divergências e encontrar um consenso mínimo. Isso é impossível. A eleição continua uma competição absurda em que o eleitor é o competidor ! Como se fora um jogo.

Por muito tempo achava que a pior coisa do processo democrático era o horário político. O espetáculo de horrores de absoluta falta de propostas e de discussão densa. Agora o horário eleitoral gratuito não é o pior. O pior é utilização das redes sociais para a propaganda política, a desinformação, a histeria política e patrulhamento ideológico (na verdade proto-ideológico) das pessoas. Amizades são desfeitas, postagem são bloqueadas, insultos de baixo calão são trocados. Os temas não são discutidos, os embates são absolutamente estéreis. O maniqueísmo da época da ditadura volta, agora praticado pelo “povo”. Rótulos são colocados nas pessoas e as posições obtusas se acirram.  O povo faz tanto ou pior que os políticos em seus guias eleitorais.

Coisas que encontramos durante o período eleitoral de forma mais aguda

  • Maniqueísmo. Tudo que a oposição fala contra o governo é golpismo. Tudo que alguém fala a favor do governo é adesismo. Soluções boas para problemas são detonadas ou promovidas como dignas de prêmio Nobel a depender da sua origem partidária e não pelo mérito da solução propriamente dito. Tudo que os nossos fazem é do bem, tudo que os outros fazem é do mal.
  • Valetudismo. Vale tudo para detonar a oposição (se você é alinhado com a situação) ou vice-versa. Vale falar mal do próprio país, vale acoitar uma posição evidentemente absurda, desde que seja contra/favor de quem você é contra/favor.
  • A absoluta falta de compromisso com a mínima verificação da veracidade da notícia. Posta-se  reposta-se qualquer coisa, não importa se é verdadeira.
  • A absoluta incapacidade de se discutir, abrir mão de uma opinião, mudar de ideia. O que importa é estar certo e não ceder. Como se fora uma torcida de time de futebol que jamais admite que o time perdeu mesmo diante do placar explícito. Admitir que estava enganado ? Jamais !
  • A opção pela não informação num processo de negação. Quando a evidência é apresentada, nega-se a vê-la. Sequer cogitá-la.
  • A pura e simples falta de civilidade e urbanidade. Insultos, piadas de mau gosto, desrespeito puro e simples.
  • Postura sectária diante de algumas ideias.
  • Incapacidade para debate.

Será que a internet tem algum efeito (bom ou mau) no amadurecimento político do povo ? Não sei. Só a história poderá responder no futuro. Enquanto isso o que assisto me assusta. Assim como o filme “Idiocracy”, que era para ser uma comédia mas que a cada vez que o assisto se parece mais com um filme de horror. No filme algumas cenas parecem proféticas e ao ver o comportamento das pessoas supostamente esclarecidas nas redes sociais vejo que as profecias estão sendo cumpridas. O revisionismo histórico, a criação de “memes” com informação errada que passa a ser assumida como verdade. Numa cena do filme, a paródia que Charlie Chaplin faz de Hitler no filme “O Grande Ditador” é tomada como verdadeira pela população alienada do futuro e o artista que era um defensor da liberdade agora é conhecido como algo diametralmente oposto. Parece absurdo alguém chegar a essa conclusão mas se perguntarmos ao usuário típico das redes sociais o que é um Big Brother ele provavelmente vai achar que é algo legal e que é uma celebridade a ser admirada, numa inversão completa da ideia orwelliana original.  No terreno da ignorância e alienação o absurdo é o normal.

Será que algum dia teremos um povo com postura crítica para questionar sem vilipendiar ? Será que teremos uma classe política que seja capaz de pensar de forma maior, num interesse comum e de mais longo prazo ? As vezes penso que não.

 

 

 

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