Porque fazemos as coisas que fazemos ?

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O que nos leva a fazer coisas ? O que nos impele a sair da inação para a ação ?

Parece bastante óbvio que o maior motivador, impulsionador da ação humana é a sobrevivência. Muita coisa foi e é feita sob essa justificativa. Fazemos coisas, realizamos atos para sobreviver, para nos mantermos vivos. Mas a medida que a sociedade humanda evolui, o esforço para sobrevivência fica menor. Nossos ancestrais pré-históricos tinham que dedicar uma boa parte do tempo de sua vida a procura de alimento e a luta contra outros predadores. Hoje em dia a vida está mais fácil, do ponto de vista de sobrevivência, apesar de toda a impressão que se tem que está cada vez mais difícil.

Os fatos contrariam a percepção generalizada. Da longevidade da população, índice de mortalidade infantil, altura média da população, índice de bem estar médio, diminuição do número de mortes violentas, todos os indicadores apontam para uma vida mais fácil.

Isso acaba proporcionando as pessoas mais tempo para elas fazerem o que querem, não só o que precisam fazer. E aí que começam a aparecer as coisas mais bizarras que a humanidade é capaz de fazer.

Quando alguém faz alguma coisa por sobrevivência, fica fácil de entender o que a levou a fazer isso. Mas e quando a sobrevivência não é a justificativa ? Deixando de lado os atos medonhos e moral/eticamente reprováveis, resta muita coisa que as pessoas fazem e que não encontra explicação tão facilmente.

Essa tirinha do Calvin & Hobbes me despertou esse questionamento. As tirinhas de C&H frequentemente tem esse efeito em mim. Além de serem superdivertidas, elas tem um quê de poético ao provocarem sensações que ultrapassam o que está desenhado, assim como a poesia é mais que métrica e rima. Outra coisa curiosa sobre as tirinhas é que não há garantia de que vá provocar em uma certa pessoa algo sequer parecido do que provocou em outra. Frequentemente mando essas tirinhas para parentes e amigos e na maioria das vezes recebo como resposta algo que é melhor traduzido num “E daí ?”.

No caso dessa tirinha em particular, vejo a questão do sentido da vida. Parece uma viagem e tanto para um assunto supostamente tão importante como o “Sentido da Vida” (filmes inteiros foram feitos sobre esse assunto) partir de uma simplória tirinha de história em quadrinhos. Mas será ? Será que algo tão supostamente importante como o sentido da vida pode prescindir de uma simples piadinha ? Será que é menos importante o que o autor da tirinha, talvez até não propositalmente, traz a tona quando diz “Because it’s there !” (porque está lá) como justificativa para um ato supostamente sem importância como descer um morro de neve num trenó ? Quem é que classifica isso como relevante/não relevante, importante/não importante ? Assim como a tirinha pode tocar ou não tocar alguém, assim como o efeito de diversão pode ser sentido ou não, essa variação de relevância nos motivadores da ação pode variar muito de uma pessoa para outra. E assim, o simples fato de simplesmente estar lá é mais do que suficiente para uns e um motivo absurdamente banal para outros.

A linha que separa a ação da inação varia muito de uma pessoa para outra, parece claro. Mas existe algo ainda mais interessante. Ela varia para cada indivíduo ao longo do tempo de das circunstâncias. Algo que seria suficiente motivador em um determinado momento, pode não ser em outros. Essa medida de disposição para ação não é precisa, é inconstante, flutua com o tempo, varia de indivíduo para indivíduo e não existe um aparelho ou método para medí-la. Pode ser considerada a coisa mais etérea e volúvel da civílização humana. A manifestação do fenômeno da ação causa assombro e é explorado pela mídia. O que levou essa pessoa a fazer tal coisa ? Todos os dias vemos relatos de pessoas que fizeram coisas impressionantes com motivações as mais diversas possíveis e tentamos nos colocar no lugar delas: Será que eu teria feito a mesma coisa ? Será que eu teria feito nessa intensidade ? Ou, esse cara é maluco de ter feito isso só por causa daquilo.

Esse assombramento só tende a aumentar. A medida que a tecnologia proporciona mais tempo para lazer, as pessoas serão impelidas a fazer mais coisas diferentes, nunca tentadas e ainda por cima “só porque está lá”. A medida que essa frequência aumenta, a probabilidade de que abusos sejam cometidos também aumenta. A linha da motivação cruza a linha do respeito pelo direito dos outros. Fazer o que quiser, o que lhe der na veneta, é totalmente permitido desde que não fira qualquer outro direito de qualquer outra pessoa. A liberdade existe mas ela não pode ser confundida com permissividade. Mas isso é outra história.

Enquanto isso, segue a busca pelas motivações. Uma delas é a busca pela felicidade.

Fazer coisas no intuito de alcançar a felicidade, de chegar ao nirvana, de merecer o paraíso. Esse parece ser o motivador mais eficaz e mais universal. Todo mundo quer ser feliz, até mesmo as pessoas em profunda depressão. A diferença desses últimos é que acreditam mesmo que não são capazes de coisa alguma para serem felizes, ou que nada adianta ser feito. Mas querer, eles querem, portanto, todo mundo quer ser feliz.

Mas será que a felicidade é algo alcancável a partir de nossos atos ?

Eu acho que não.

Mas ainda assim, paradoxalmente, acho que qualquer um pode ser feliz.

Basta fazer coisas ! Basta buscar a felicidade. A felicidade está na busca, no processo. É algo dinãmico e permanente, móvel, agitado, inconstante, não mensurável, volúvel, frágil, efêmero e que precisa ser renovado a cada novo instante, assim como um movimento browniano. Pensando assim, teorizo se a linha de motivação mais baixa está ligada a capacidade de alguém de ser feliz. Suponhamos que fosse possível medir a linha de motivação, ou seja, o ponto a partir do qual um indivíduo se sente suficientemente motivado para fazer coisas, qualquer coisa, da mais simples e banal até a mais complexa ou estapafúrdia. O limiar para disparar a ação, se fosse possível medí-lo, seria então inversamente proporcional a capacidade de ser feliz daquele indivíduo. Quanto mais facilmente ele faz coisas, mais feliz será. Nessa hora, muita gente irá perguntar : Mas por qual motivo ? Mas com que finalidade ? E no exemplo extremo para fins de ilustração, eu responderia : por motivo nenhum … apenas porque está lá.

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