O piloto, o painel de instrumentos e o padre

Semana passada a minha enteada concluiu o segundo grau e me convidou para o culto ecumênico (supostamente ecumênico) da Igreja Anglicana estreitamente ligada ao colégio onde ela estudou o 2º e o 3º ano.

Eu gosto muito dessa minha enteada e por causa desse amor decidi fazer o social, ou seja, ir ao culto, marcar presença e tolerar as técnicas de doutrinação e lavagem cerebral. Se por um lado eu não alimentava muitas ilusões sobre o que eu iria ouvir, por outro sempre me disseram que a denominação anglicana tem uma postura mais moderna, mais versátil. Vários conhecidos meus, pessoas bastante razoáveis, disseram-me que os sermões dos párocos de tal igreja frequentemente podiam ser aplicados a qualquer pessoa independente de sua religião pois tais sermões tratavam de questões relevantes da vida das pessoas. Decidi dar uma chance ao padre, que ouvira dizer, era gente boa.

Que decepção.

O conjunto de argumentos religiosos estavam todos lá disfarçados numa linguagem mais moderna, devo reconhecer. Os argumentos que de fato faziam algum sentido chegavam a ser triviais e óbvios. O resto dos argumentos não eram argumentos, a rigor. O carisma do pároco era muito bom e ele demonstrava completo domínio da audiência, das ovelhas, digamos assim. Sua substância, no entanto, era fraquinha fraquinha …

O estilo desse pároco apelava mais para as “fábulas atuais”, ou seja, situações contemporâneas que expõem as pessoas a questões difíceis do ponto de vista ético e/ou moral. Pena que a trivialização das questões e o manequeísmo estavam bem presentes. A primariedade das fábulas era tanta que me fez pensar sobre o grau de discernimento da audiência. Será que o pároco foi primário porque a audiência não assimilaria nada mais sofisticado ? Assim como um político que ajusta seu discurso de acordo com o eleitorado abordado em cada comício ? Bom, o nível chegava ao de Teletubies. As fábulas eram daquelas que você já sabia o final … antes mesmo de terminar a segunda frase.

Uma dessas fábulas era aquela típica fábula da ameaça velada, ou … da inveja velada. Pessoas que aparentemente tinham vida boa, de sucesso financeiro ou profissional .. no fundo tinham problemas emocionais seríssimos. Espaço até para um pouco de chauvinismo por parte do padre, do tipo em que menciona a mulher bonita e rica que faz sucesso na sociedade mas que ao se confessar para o pároco revela que é adúltera ! VADE RETRO !!! Rotulada e defenestrada, o pé de pavão da madame é o que é ressaltado na história. Mas e o contexto  ? E o que essa mulher da história passou ? O que ela sentiu ? Não importa, o rótulo está lá. E obviamente, para um problema sério como esse de adultério … a solução é … JESUS ! Não sei exatamente que tipo de recomendação alienante e falso moralista o pároco passou para a pecadora mas a idéia básica é a seguinte, pode fazer o que quiser, minha ovelha, mas ser feliz só se Jesus estiver na sua vida, embora, do ponto de vista prático, tem nada a acrescentar/ajudar. Essa manobra cínica revela como um profissional treinado (o pároco) se aproveita da inveja das pessoas para manipular suas opiniões e sentimentos. A pessoa rica e de sucesso tem o pé de barro. Você pode até sentir inveja mas como consolação saiba que se você tem Jesus, ela não tem !!! Tanto que é adúltera !!?? Entenderam a lógica obtusa ? Ao mesmo tempo em que apela para inveja da maioria da audiência, manipula a culpa da mulher adúltera.

Mas essa ainda não foi a pior da noite.

Em certo momento o pároco mencionou que um dos fiéis era um piloto de aviões e que esse piloto as vezes achava que o avião estava subindo/descendo embora quando checava nos instrumentos percebia que o voo estava normal. O pároco então perguntou “Meu filho, você confia nos seus sentimentos quando está pilotando ou no que o painel de instrumentos lhe diz? “ e o piloto respondeu “Padre, se eu confiasse nos meus sentimentos eu já teria derrubado meu avião várias vezes”. Bom … essa parte do sermão foi a que eu achei a cereja em cima do bolo no que diz respeito a besteira. Ora, se religião é fé e sentimento, essa parábola é um verdadeiro tiro no pé no que diz respeito a estimular a parte sensitiva dos fiéis. Se for para acreditarmos mais no que os painéis de instrumentos da vida proporcionam, a rigor, não precisaríamos de religiões doutrinantes e ilógicas. Quando um padre pede para o fiel usar o painel de instrumentos, ou seja, a observação objetiva dos fenömenos que o cercam, o fiel é induzido a uma reflexão racional, a uma libertação baseada no cognos. Isso é justamente o discruso anti-religioso. Quando o pároco usou o “Tá vendo ?! Você tem que confiar no painel de instrumentos e não se deixar levar por sentimentos”. Oxente ? ! Mas essa n idéia é diametralmente oposta a das crendices em geral e da religião cristã em particular ? Por incrível que pareça, para o pároco, a Bíblia é o “instrumento” que deve guiar a vida das pessoas. Bom, não preciso dizer que depois de um argumento desses minhas expectativas quanto a relevância do sermão do padra ficaram abaixo de zero. Um sofisma desses não se sustenta nem diante do crente mais obstinado. Um livro cheio de preconceito e dizeres absurdos não serve de guia moral ou espiritual para quem quer que seja.

Mas o sermão foi um sucesso. As pessoas saíram da cerimônica verdadeiramente bem. Sentindo-se bem, digo. O que atesta o “poder da palavra”. Lamentavelmente, é uma falácia e no final o que importa é o bem que o sermão proporcionou a essas pessoas.

Será que os fins justificam os meios ? Será que devemos respeitar as religiões pelo fato delas proporcionarem esse conforto espiritual baseado numa mentira ?

Em algum momento a pergunta difícil aparece: você quer ser feliz ou quer ter razão ? Em uma parcela significativa da sociedade a opção pela felicidade prevalecerá, mesmo que seja baseada num sofisma. E com esse fim, o que mais importa ? Desde que se seja feliz, importa o meio que se utilizou para alcançar tal objetivo  ? Talvez seja possível, de fato, ser feliz acreditando numa lenda ao mesmo tempo em que não se faz mal a ninguem. Talvez seja válido para uma ou outra pessoa.

Tomara que não seja válido para todas as pessoas ao mesmo tempo.

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