A necessidade da religião

Porque as religiões fazem tanto sucesso ? Porque tanta gente faz coisas tão admiráveis e tão deploráveis em nome da religião ?
Durante muito tempo eu tenho sido ateu. Estudei em colégios religiosos católicos desde a 3a série e nunca me identifiquei com as coisas religiosas. Nunca entendia, nunca via lógica nos ritos. As missas eram cansativas, metade do que se falava eu não entendia e de um modo geral sentia um forte ar de hipocrisia entre as pessoas que rezavam o amor dentro da igreja e tinham uma prática bem diferente assim que passavam pela porta do templo.
Tomei consciência de que era ateu por volta dos 13 anos e desde então tenho pesquisado sobre o fenômeno da regiliosidade dos humanos. Coisas ainda me intrigam, como por exemplo o processo de construção da religião. Já pensei seriamente em fazer um curso de teologoia para ver como é que é por dentro mas temo que numa entrevista preliminar os religiosos descubram meu real intento.
Assim, o jeito é estudar de fora e tentar entender a caixa preta, como o frei franciscano que decifra o labirinto da biblioteca do mosteiro no livro “O nome da rosa”. Mas não é fácil.
A popularidade das religiões é incontestável. Em que pese o fato de que fundar uma religião ser um negócio extremamente lucrativo em qualquer lugar do mundo mas especialmente no Brasil, coisas lucrativas existem aos montes e não alcançam a difusão que as religiões tem. Bancos por exemplo, são extremamente lucrativos porém não tem a mesma capilaridade que as religiões alcançam. Por mais miserável que seja uma comunidade no interior do Brasil, lá terá uma Assembléia de Deus, uma Igreja Católica ou, se for rentável, um tempo da Igreja Universal do Reino de Deus. Com frequéncia, encontramos todas essas aí e até outras. Todo dia surge uma designação diferente de igreja evangélica.Também pudera, igreja não paga imposto.
Mas porque as pessoas precisam de religião em primeiro lugar ?
Segundo Richard Dawkins o ser humano foi progamado pela evolução para acreditar. Um bebê humano pré-histórico aprende mais rápido ao acreditar nas coisas que seus pais dizem do que se ele aprendesse por tentativa e erro. Os humanos evoluiram para essa facilidade de crer através do meio natural da evolução. O que aconteceu depois é que essa característica inata do homem moderno foi sendo abusada pelos líderes sociais, sejam líderes políticos, sejam religiosos. Diante dessa facilidade institiva para crer se opõe o pensamento racional para evitar que acreditemos em besteiras. Mas a verdade é que todos humanos um dia acreditaram em papai noel, fadinhas, desenhos animados, super heróis, duendes, políticos e religiosos. A questão é quão fantasiosa a fábula é e quão racional é o indivíduo. Se colocarmos esses dois fatores, veremos que a fábula mais crível pode convencer o indivíduo mais racional. Vide os casos dos esquemas de enriquecimento rápido que explodiram recentemente.
Colocada essa facilidade para crer e uma fábula razoavelmente crível, temos os ingredientes para se fundar uma religião. Mas é preciso que algo impulsione o futuro crente. Algo que o tire de seu estado passivo em relação a crença e o dirija para a crença específica nas coisas que as religiões professam.
Aí entra o Maslow e sua pirâmide de necessidades.
Os humanos, ao satisfazerem suas necessidades mais básicas de sobrevivência, rapidamente criam novas necessidades a ponto de nunca ficarem completamente satisfeitos. Uma das necessidades mais fortes que os humanos tem é a da segurança. Segurança física mesmo, ou seja, ter certeza que estará vivo dentro mais alguns instantes. Essa necessidade de segurança física, a medida em que é satisfeita, dá espaço a outras necessidades mas não desaparece completamente. A necessidade de estar vivo praticamente se expande até o infinito. O ser humano quer viver para sempre. A idéia da morte não lhe cai bem. Ele quer a vida eterna. E aí entram as religiões oferecendo exatamente isso. Uma eternidade de segurança.
Essa visão reconfortante de uma vida eterna e segura é uma imagem muito poderosa e difícil de ser neutralizada com os argumentos racionais pois apela para um instinto fundamental a todo ser vivo: o de sobrevivência. Alie o instinto de acreditar e a receita está pronta.
As vezes a morte física nem precisa estar rondando para fazer o indivíduo buscar algo reconfortante. Pode ser apenas a perspectiva de um tempo mais turbulento, ou o afastamento de um ente querido, ou um desejo não realizado. Pequenas mortes dessas que enfrentamos todos os dias. Morte de um sonho, morte de uma perspectiva, morte de outra pessoa. Para enfrentar uma situaçào adversa é preciso de uma força interna, uma firmeza de princípios, um conjunto de valores, uma fortaleza emocional que nem todos tem. Diante das vicissitudes da vida pode-se adotar uma entre as várias posturas. Pode-se enfrentar os problemas com seus próprios meios, pode-se resignar-se e deixar para lá, ou pode-se apelar para uma “instância superior”.
Novamente a evolução programa os seres humanos para isso. Crianças humanas instintivamente procuram seus pais diante de uma situação e suposto perigo. Ao longo da infância, da adolescência e as vezes até durante a fase adulta, é comum os filhos recorrerem aos pais para resolverem seus problemas. Em algumas sociedades essa figura paterna é incorporada pelo governo mas o mais comum é o pai celestial ser invocado quando a situação é de fato muito difícil. Esse apelo ao “pai” é manipulado pelas religiões que criam a figura paterna até para quem não tem pai. O pai amoroso, capaz de perdoar, capaz de prover, mas não aqui na Terra. Só no céu.
É possível conceber que alguns indivíduos encontrarão dentro de si mesmo as forças necessárias para superar as adversidades da vida. Das mais simples (um pneu furado) até as mais duras (a morte de um ente querido), pessoas encararão sozinhas outras pedirão ajuda. Para as que mais frequentemente pedem ajuda, as religiões oferecem as saídas fáceis que variam desde a resignação e aceitar seu destino (catolicismo e espiritismo) até ter fé que o ser supremo vai resolver, desde que você creia de fato. Poucas religiões ocidentais recomendam encarar o problema de frente e resolvê-lo. Estou considerando os livros e cursos de auto-ajuda como não-religião.
O que faz então uma pessoa decidir entre encarar o problema ou apelar para deuses ? Porque alguns indivíduos tentam por si só e outros apelam quase que instantaneamente a uma força superior ? Um pai, um líder, um político, um deus ?
A educação que o indivíduo recebeu durante sua formação será o fator mais determinante para a atitude que ele tomará diante das adversidades. Indivíduos que são educados para resolverem seus próprios problemas tenderão a não precisar de deuses para resolvê-los. Pessoas que conhecem mais alternativas, que tem mais instrução sobre os fenômenos que as cercam, conseguem entender melhor o que está acontecendo e bolam soluções. Cogitam possibilidades que houviram falar, leram a respeito, gostariam de experimentar. Quem tem a mente aberta é mais versátil e se adapta melhor portanto pode enfrentar novos problemas de forma propositiva, criando soluções. Quem é doutrinado para crer sem saber, sem entender, sem questionar, fica de fato mal equipado para criar soluções pois sua mente está formatada para a resignação e o conformismo. Para esses indivíduos, o estresse da situação dificil só tem uma cura: acreditar mais, torcer para o provedor atuar, o deus fazer seu milagre.
Por isso que as religiões andam as turras com os sistemas educacionais laicos. Cada indivíduo esclarecido, instruido e que teve a sua mente aberta é um indivíduo a menos suscetível ao bitolamento instrumental das religiões.

3 comentários sobre “A necessidade da religião

  1. realmente uma ótima reflexão, me traz a mente os preceitos universais e metafísicos, mais precisamente a questão do equilíbrio, principalmente quando se referiu às necessidades, as quais, de fato, podemos atribuir todas nossas ações, e de certa forma justifica-las, afinal a necessidade é a carência que precisa ser suprida a qualquer custo, e da forma que se mostrar mais eficaz (ou mais fácil).

    • Nem tudo que as pessoas fazem é guiado por necessidades. Não podemos reduzir as pessoas a máquinas que funcionam única e exclusivamente para suprir tais necessidades. No entanto, algumas necessidades mais básicas podem sim ser manipuladas para guiar as massas.

      • é que nao vejo a necessidade tao do ponto de vista “fisiológico”, voce citou Maslow, acredito que exitam alguns “sub-niveis” dentro de sua piramide além dos cinco mais abrangentes, mas ainda creio que estes ja sejam suficientes para entendermos o porquê das pessoas fazerem o que fazem. Acho que so vamos atras de algo, quando sentimos falta deste, daí se faz necessário. Lembro de ter lido algo que voce escreveu a respeito da falta de sentido da vida eterna, acho quem a ver um pouco com isso tambem.

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